Solidão

Poemas neste tema

Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Aquelas Que Exaltadas E Secretas

Aquelas que exaltadas e secretas
À janela espreitaram inquietas
O rumor do poente nas estradas,
Julgaram vir de ti essa passagem
Contida na beleza da paisagem.
Solitárias mordendo a sua fome
Percorrem o silêncio dos jardins
E vão gritando às sombras o teu nome.
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Dia

Como um oásis branco era o meu dia
Nele secretamente eu navegava
Unicamente o vento me seguia.
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Inventei a Dança Para Me Disfarçar

Inventei a dança para me disfarçar.
Ébria de solidão eu quis viver.
E cobri de gestos a nudez da minha alma
Porque eu era semelhante às paisagens esperando
E ninguém me podia entender.
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Noite

Sozinha estou entre paredes brancas
Pela janela azul entrou a noite
Com seu rosto altíssimo de estrelas.
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Quem Como Eu Em Silêncio Tece

Quem como eu em silêncio tece
Bailados, jardins e harmonias?
Quem como eu se perde e se dispersa
Nas coisas e nos dias?
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Nos Últimos Terraços Dos Espaços

Nos últimos terraços dos espaços
Sobre os ventos imóveis e calados
Dorme.

Nem a Primavera derramada
Nem o terror e o caos que a terra gera
Nem a sombra vermelha dos corpos mutilados
Atravessam
As barreiras de silêncio que o separam.

Tem o rosto voltado ao infinito
Um rosto perfeito de traços imutáveis.
Nem frio, nem calor, nem ar, nem água
O alimentam.

Respiram unicamente o seu segredo
O seu segredo secreto para sempre

E duas fontes correm dos seus olhos fechados.
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Sei Que Estou Só E Gelo Entre As Folhagens

Sei que estou só e gelo entre as folhagens
Nenhuma gruta me pode proteger
Como um laço deslaça-se o meu ser
E nos meus olhos morrem as paisagens.

Desligo da minha alma a melodia
Que inventei no ar. Tombo das imagens
Como um pássaro morto das folhagens
Tombando se desfaz na terra fria.
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

O Anjo

O Anjo que em meu redor passa e me espia
E cruel me combate, nesse dia
Veio sentar-se ao lado do meu leito
E embalou-me, cantando, no seu peito.

Ele que indiferente olha e me escuta
Sofrer, ou que feroz comigo luta,
Ele que me entregara à solidão,
Poisava a sua mão na minha mão.

E foi como se tudo se extinguisse,
Como se o mundo inteiro se calasse,
E o meu ser liberto enfim florisse,
E um perfeito silêncio me embalasse.
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Manuel António Pina

Manuel António Pina

O intruso

Se me voltar fico
diante do meu rosto,
não suportarei
o meu puro olhar.

Quem me procurará
entre os homens?
Um intruso grita
dentro de mim, oiço-o no coração

como um irmão medonho
sonhando a minha vida
por outro vivida
em mim, também um sonho.


Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 109 | Assirio & Alvim, 2012
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Meio-Dia

Meio-dia. Um canto da praia sem ninguém.
O sol no alto, fundo, enorme, aberto,
Tornou o céu de todo o deus deserto.
A luz cai implacável como um castigo.
Não há fantasmas nem almas,
E o mar imenso solitário e antigo
Parece bater palmas.
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Manuel António Pina

Manuel António Pina

Os lugares


Os lugares são
a geografia da solidão.
São lugares comuns a casa a cama.


Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 43 | Assírio & Alvim, 2012
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

O Jardim E a Noite

Atravessei o jardim solitário e sem lua,
Correndo ao vento pelos caminhos fora,
Para tentar como outrora
Unir a minha alma à tua,
Ó grande noite solitária e sonhadora.

Entre os canteiros cercados de buxo
Sorri à sombra tremendo de medo.
De joelhos na terra abri o repuxo,
E os meus gestos foram gestos de bruxedo.
Foram os gestos dessa encantação,
Que devia acordar do seu inquieto sono
A terra negra dos canteiros
E os meus sonhos sepultados
Vivos e inteiros.

Mas sob o peso dos narcisos floridos
Calou-se a terra,
E sob o peso dos frutos ressequidos
Do presente
Calaram-se os meus sonhos perdidos.

Entre os canteiros cercados de buxo,
Enquanto subia e caía a água do repuxo,
Murmurei as palavras em que outrora
Para mim sempre existia
O gesto dum impulso.
Palavras que eu despi da sua literatura,
Para lhes dar a sua forma primitiva e pura,
De fórmulas de magia.

Docemente a sonhar entre a folhagem
A noite solitária e pura
Continuou distante e inatingível
Sem me deixar penetrar no seu segredo.
E eu senti quebrar-se, cair desfeita,
A minha ânsia carregada de impossível,
Contra a sua harmonia perfeita.

Tomei nas minhas mãos a sombra escura
E embalei o silêncio nos meus ombros.
Tudo em minha volta estava vivo
Mas nada pôde acordar dos seus escombros
O meu grande êxtase perdido.

Só o vento passou pesado e quente
E à sua volta todo o jardim cantou
E a água do tanque tremendo
Se maravilhou
Em círculos, longamente.
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Susana Thénon

Susana Thénon

Caminhos

Cegueira do gesto
quando em vão se agarra
ao muro espesso dos feitos consumados.
Densa guitarra de sangue
acompanhando a canção
noturna e subterrânea.
Vagueia entre gritos
anônimos,
entre multidões de fome,
sob céus estrangeiros.
Entre humildes,
Ecos desesperançados.
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Lutaram Corpo a Corpo Com o Frio

Lutaram corpo a corpo com o frio
Das casas onde nunca ninguém passa,
Sós, em quartos imensos de vazio,
Com um poente em chamas na vidraça.
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

No escuro mesmo destes pensamentos

No escuro mesmo destes pensamentos
Acordo às vezes e então eu sinto
Quão longe do real e do humano
Da superflcie lúcida da vida
Me acho sepulto confrangidamente
Com uma consciência e nitidez
Aguda e transcendente. Dolorido
Mais que alma até ao íntimo do ser.
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Vendo passar amantes

Vendo passar amantes
Nem propriamente inveja ou ódio sinto,
Mas um rancor e uma aversão imensa
Ao universo inteiro, por cobri-los.
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Florbela Espanca

Florbela Espanca

Nas salas da embaixada

Nas salas da embaixada
A arquiduquesa sorria...
Coitada... mesmo se via,
tão branca, tão chateada...

E gente entrava e saía
Nas salas de embaixada.
E a arquiduquesa sorria
Cada vez mais chateada...

De vez em quando ao piano
Valsas tocava, coitada
E até ao fim sorria
Sempre branca e chateada...
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Isabel Câmara

Isabel Câmara

Quem diante do amor

Quem diante do amor
ousa falar do Inferno?

Quem diante do Inferno
ousa falar do Amor?

Ninguém me ama
ninguém me quer
ninguém me chama
de Baudelaire


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Maura Lopes Cançado

Maura Lopes Cançado

Meus sapatos amarelos

Meus sapatos amarelos
um passo adiante na minha solidão.
Eu os vi mil vezes através de lágrimas,
na sua ingenuidade gasta, resignada,
Ó, meus sapatos - amarelo-girassol.
(28/10/1959)
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António Pocinho

António Pocinho

portal das selecções

Não sei em que rubrica me incluo: endereço insuficiente, recusado, desconhecido, residente em parte incerta, falecido ou outros.

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Eunice Arruda

Eunice Arruda

Cimento Armado

O cotidiano basta
calçadas
asfaltos
desafogam o coração

Depois há a noite
A noite é mãe de
afagar cabelos onde
seus dedos são constante ausência

Sim
o cotidiano basta
não tem importância
o que
não tenho


In: ARRUDA, Eunice. Invenções do desespero. São Paulo: Ed. da autora, 1973
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Ulisses Tavares

Ulisses Tavares

Sôfrego

meu medo é ficar sozinho.
abraço o primeiro copo
agarro o primeiro corpo
e amo na mais completa solidão.


In: TAVARES, Ulisses. O eu entre nós. São Paulo: Núcleo Pindaíba Edições e Debates, 1979. (Coleção PF)
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Ana C. Pozza

Ana C. Pozza

Lua alta

Lua alta
E por trás
De tantas nuvens
Brilham estrelas...

Aqui,
Por trás desta neblina,
Brilho também...
Sozinha
E acompanhada
De mim
E de mais ninguém...

Não direi mais nada
É o silêncio que mais convém...

Agradecida,
A Lua
Sussurra:
Amém...

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Angela Melim

Angela Melim

Um navio

"Quanta paz aqui em baixo, na raiz do mundo...”
(V. Woolf)

A solidão é um navio.
Só o que me move é a pá da solidão
o leme.
Se não gozo
suspiro
cristas suspensas
pedras de sal
fiapos de mar –
a maior boca
a mais
voraz.
Mas no seu fundo longínquo
âncora
os leitos de areia e seus lençóis limpíssimos
os peixes cegos
a paz.
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