Recomeço e Renascimento

Poemas neste tema

Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Ítaca

Quando as luzes da noite se reflectirem imóveis nas águas verdes de Brindisi
Deixarás o cais confuso onde se agitam palavras passos remos e guindastes
A alegria estará em ti acesa como um fruto
Irás à proa entre os negrumes da noite
Sem nenhum vento sem nenhuma brisa só um sussurrar de búzio no silêncio
Mas pelo súbito balanço pressentirás os cabos
Quando o barco rolar na escuridão fechada
Estarás perdida no interior da noite no respirar do mar
Porque esta é a vigília de um segundo nascimento
O sol rente ao mar te acordará no intenso azul
Subirás devagar como os ressuscitados
Terás recuperado o teu selo a tua sabedoria inicial
Emergirás confirmada e reunida
Espantada e jovem como as estátuas arcaicas
Com os gestos enrolados ainda nas dobras do teu manto
3 345
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Glosa de «So, We’Ll Go No More A-Roving» de Byron

Não irei mais meu erro errando errante
Pela noite fora
Embora a lua brilhe tanto como outrora
Embora como outrora
Não cesse do amor a voz uivante
Que me devora

Pois o coração gasta o peito
E a espada gasta a bainha
O tempo rói o coração desfeito
E a alma é sozinha

Embora a noite sempre peça amor
E o dia volte demasiado cedo
E o luar corte como espada nua
Não irei mais em pânico e segredo
Sob a luz da lua
1 878
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Oásis

Penetraremos no palmar
A água será clara o leite doce
O calor será leve o linho branco e fresco
O silêncio estará nu — o canto
Da flauta será nítido no liso
Da penumbra

Lavaremos nossas mãos de desencontro e poeira
2 010
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Devagar No Jardim a Noite Poisa

Devagar no jardim a noite poisa
E o bailado dos seus passos
Liberta a minha alma dos seus laços,
Como se de novo fosse criada cada coisa.
1 867
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Revolução — Descobrimento

Revolução isto é: descobrimento
Mundo recomeçado a partir da praia pura
Como poema a partir da página em branco
— Katharsis emergir verdade exposta
Tempo terrestre a perguntar seu rosto
2 417
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Descobrimento

Saudavam com alvoroço as coisas
Novas
O mundo parecia criado nessa mesma
Manhã
2 266
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Fazer parar o giro sobre si

Fazer parar o giro sobre si
Do vácuo pensamento, pôr a roda
Em movimento sobre a terra escura

Poção que por magia de bebê-la
A dormente vontade em mim disperte
De viver… (...)
1 018
Isabel Câmara

Isabel Câmara

Fim (13° volume)

Você me falou
que me mandasse porta afora
Eu vou
Vou com força total
esta porta não é metal
é o nosso mental
transparente
correndo da corrente
que pega gente exigente.
Vou enxugando a alma.
na palma que segura
a espada.
Vou pedindo calma.


752
Juan Gelman

Juan Gelman

Poema XXXIII

Basta
Não quero mais morte
Não quero mais dor ou sombras basta
Meu coração é esplêndido como a palavra
 
Meu coração tornou-se belo como o sol
Que sai voa canta meu coração
De manhã cedo é um passarinho
E depois é teu nome
 
Teu nome sobe todas as manhãs
Aquece o mundo e se põe
Só em meu coração
Sol em meu coração
 
Amor que serena, termina?
1 358
Max Martins

Max Martins

Revide

A cada fim
seu recomeço: Um broto
no galho morto

Marahu, jun. 1988


In: MARTINS, Max. Para ter onde ir. Fotos de Béla Borsodi. São Paulo: Massao Ohno: A. Massi, 199
1 750
Augusto Massi

Augusto Massi

Nudez

Despido de tudo
pronto a aceitar
a própria nudez
no quarto escuro

O espelho em branco
— mar amniótico —
projeta nos flancos
uma luz uterina

Homem em estado bruto
na metade da vida
homem sem atributos
— nudez como medida


In: MASSI, Augusto. Negativo, 1982/1990. Il. Alberto Alexandre Martins. São Paulo: Companhia das Letras, 1991
1 220
Eunice Arruda

Eunice Arruda

Hai-kais

Árvore cortada
No tronco tão machucado -
O verde brotando.

Malas nas mãos.
Nos olhos tantas lágrimas.
Casa inundada.

Foi tão rica a safra!
Até os arrozais se curvam
Em reverência.

Estrela de inverno
Embora distante e fraca
Procura brilhar.

1 054
Angela Santos

Angela Santos

Metáfora

Ainda
que uma vez e outra
o diga
o fogo que em mim
dorme
não se diz...

o que remoça
a cada dia
brota
do chão primordial,
onde da vida arde
a sagrada chama

e tu, meu amor,
fogo da consumação
de que renasço...
a vida e a própria chama
sendo

629
Angela Santos

Angela Santos

Astro Rei

Lá vem
do fundo do nada
que à vida me trouxe..
ígneo me devolve
a luz e à beira-ser.

Deito-me no seu ocaso
e deixo-o acontecer
como um quente
e doce afago
dentro de mim

1 189
Angela Santos

Angela Santos

Ponte

Suspensos
ainda ontem,
sonhos
fugidias sombras, hoje
perdem-se à míngua de razão

Prenhe outro sonho
se agiganta entre ruínas
ponte lançada
entre o eu
e o futuro de mim.

derradeiro sobre-humano gesto
empurrando o que em nós se gera na rebelião
o que resiste e ensaia
a coragem que esmaga todos os nãos.

934
Angela Santos

Angela Santos

Recomeço

Recomeçar
como a força silenciosa
dos invernos

Recomeçar
leve a alma
vigilantes os sentidos

Recomeçar
e rasgar num voo
o espaço imenso
onde ainda possa
desenhar sem medos
o meu golpe de asa.

950
Angela Santos

Angela Santos

Desta Vez

Cansei
-me de olhar o horizonte
com olhos perdidos
vazios de amanhã

Cansei-me de sentir a vida
como coisa esquecida
tão longe do alcance da mão
Cansei-me de ficar no lugar
onde não estou
perdida dentro do que sou

Cansei de me negar
nas vestes do simulacro
do que em mim é
do que em mim quer

Cansei, cansei…
Vou sair daqui.

1 009
Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Regresso de parte alguma

Regresso de parte alguma
Rico mais do que partira,
Pois trago coisa nenhuma
Sem desespero e sem ira.

Agora vivo contente
No meu exílio sereno;
Tomei tamanho de gente
E não me dói ser pequeno.

Pedra parada na calma
Tranquilidade dos charcos,
Deixem dormir minha alma,
Como apodrecem os barcos

2 391
Renato Castelo Branco

Renato Castelo Branco

Retorno

Um dia voltarei a ser terra
e de meu seio brotarão
flores agrestes.

Um dia voltarei a ser húmus
e nutrirei velhas árvores
de rubros frutos.

Um dia voltarei a ser pó
e água
e seiva.
E viverei em rochas,
raízes vegetais,
vagas do oceano.

Um dia eu serei
o que já fui.

1 639
Roberto Pontes

Roberto Pontes

Louvação

De muitos pores-de-sóis
vou renascendo Fênix.
A noite se polui
no azul de estrelas novas
e as constelações xixizam
pó metálico no espaço.
Um doce frio
gruda em minha pele.
Então se aguarda uma aurora grave.
Então eu sinto o tempo derramado.

847
Paulo Lopes da Silva

Paulo Lopes da Silva

Haicai

Metamorfose

A lagarta preta
Batendo as asas, se erguendo
Vira borboleta.

Apelo à natureza

Que o clima sagrado
Cresça o fruto e o amadureça
Bem adocicado!

1 309
Ona Gaia

Ona Gaia

Diferença

Nada que retorna é o mesmo
tampouco é cópia
do que sempre foi...
se você não é aquele
muito menos o será depois
pois aquele não é o mesmo
que um dia lhe pareceu que foi

tudo que retorna é o próprio
tão diferente
do que um dia foi
que aquele que um dia foi sapo
hoje é poeira
quiçá amanhã?
novamente estrela...

912
Oddone Marsiaj

Oddone Marsiaj

Haicai

Campos queimados
Voltarão o verde e
As borboletas?

Vento nas ilhas
Gaivotas sobre o mar
Imitam veleiros

1 013
Maria de Lourdes Hortas

Maria de Lourdes Hortas

Estações

Poderia afogar-me
na silente cisterna de lágrimas
léguas de um longo tempo extraviado
quando o mar recua
para ermo horizonte
de incompletude e inesperança.
Todavia há marés que me resgatam
réstia de luz por instantes ferindo
a silente espessura da lembrança.

969