Protesto, Resistência e Revolução
Poemas neste tema
Arlindo Barbeitos
Mão Frágil
em mão frágil de amarelo
se quebra o galho de gajajeira
pela tardinha vermelha em flor
sussurrar de vento
não é voz de capim crescendo
é murmúrio impaciente
de gentes
no azul de parte alguma
em mão frágil de amarelo
se quebra o galho da gajajeira
pela tardinha vermelha em flor
se quebra o galho de gajajeira
pela tardinha vermelha em flor
sussurrar de vento
não é voz de capim crescendo
é murmúrio impaciente
de gentes
no azul de parte alguma
em mão frágil de amarelo
se quebra o galho da gajajeira
pela tardinha vermelha em flor
1 613
Renata Pallottini
Corintiano
Não posso sair de casa
há polícias na rua
não posso ir para o trabalho
meu trabalho está cercado
não posso falar em liberdade
é proibido.
Posso apenas dormir
comer um pouco beber
e gritar "gol".
Mesmo assim só quando o meu time ganha.
Poema integrante da série Canas.
In: PALLOTTINI, Renata. Noite afora. São Paulo: Brasiliense, 197
há polícias na rua
não posso ir para o trabalho
meu trabalho está cercado
não posso falar em liberdade
é proibido.
Posso apenas dormir
comer um pouco beber
e gritar "gol".
Mesmo assim só quando o meu time ganha.
Poema integrante da série Canas.
In: PALLOTTINI, Renata. Noite afora. São Paulo: Brasiliense, 197
1 412
Leila Mícollis
Diferença (Ciclo Infantil)
Meu mundo é violento e com razão:
na rua se eu apanho, é covardia,
em casa se eu apanho, é educação.
In: MÍCCOLIS, Leila. O bom filho a casa torra. Seleção de textos Urhacy Faustino. São Paulo: Edicon; Rio de Janeiro: Blocos, 1992. p.2
na rua se eu apanho, é covardia,
em casa se eu apanho, é educação.
In: MÍCCOLIS, Leila. O bom filho a casa torra. Seleção de textos Urhacy Faustino. São Paulo: Edicon; Rio de Janeiro: Blocos, 1992. p.2
918
Ilka Brunhilde Laurito
Publicidade
Proibido colocar cartazes:
em chão
parede
poste.
(Em homem:
pode.)
1963
Poema integrante da série Inéditos, 1971/1977.
In: LAURITO, Ilka Brunhilde. Sal do lírico: antologia poética. São Paulo: Quíron, 1978. p.31. (Sélesis, 13
em chão
parede
poste.
(Em homem:
pode.)
1963
Poema integrante da série Inéditos, 1971/1977.
In: LAURITO, Ilka Brunhilde. Sal do lírico: antologia poética. São Paulo: Quíron, 1978. p.31. (Sélesis, 13
1 574
Paulo Leminski
cansei da frase polida
cansei da frase polida
por anjos da cara pálida
palmeiras batendo palmas
ao passarem paradas
agora eu quero a pedrada
chuva de pedras palavras
distribuindo pauladas
por anjos da cara pálida
palmeiras batendo palmas
ao passarem paradas
agora eu quero a pedrada
chuva de pedras palavras
distribuindo pauladas
3 661
Vladimir Maiakovski
DE V INTERNACIONAL
(tradução: Augusto de Campos)
Eu
à poesia
só permito uma forma:
concisão,
precisão das fórmulas
matemáticas.
Às parlengas poéticas estou acostumado,
eu ainda falo versos e não fatos.
Porém
se eu falo
"A"
este "a"
é uma trombeta-alarma para a Humanidade.
Se eu falo
"B"
é uma nova bomba na batalha do homem.
Eu
à poesia
só permito uma forma:
concisão,
precisão das fórmulas
matemáticas.
Às parlengas poéticas estou acostumado,
eu ainda falo versos e não fatos.
Porém
se eu falo
"A"
este "a"
é uma trombeta-alarma para a Humanidade.
Se eu falo
"B"
é uma nova bomba na batalha do homem.
3 907
Angela Santos
Grito
Solte-se
o grito
que dilacere a surdez
dos vivos-mortos
e outros olhos sejam a luz,
a cura
da cegueira que aflige
Estendam-se os braços
ao jeito do desabrochar
eleve-se o canto
que à boca traga o gosto
da palavra Liberdade.
o grito
que dilacere a surdez
dos vivos-mortos
e outros olhos sejam a luz,
a cura
da cegueira que aflige
Estendam-se os braços
ao jeito do desabrochar
eleve-se o canto
que à boca traga o gosto
da palavra Liberdade.
970
Regina Souza Vieira
Que País
Que país
Que história
Que presente
Que futuro
Ou que passado construímos?
Este que destrói primeiro
E depois sepulta em honra
Cada um dos seus heróis
No esquecimento?
Que história
Que presente
Que futuro
Ou que passado construímos?
Este que destrói primeiro
E depois sepulta em honra
Cada um dos seus heróis
No esquecimento?
669
Lili Gharcia
Boulevard
Compro do mundo uma parte de mim.
A alma é tão comerciável....
Vendo aos homens a vida que me deram.
Multiplicai-me, Senhor!
O social é uma relação de compra e venda
Então vendo meu Milton,
Vendo Chopin,
Meu Bach,
Minha Alegria,
E depois me afogo de culpa por comer no almoço
um pedaço de espírito.
A alma é tão comerciável....
Vendo aos homens a vida que me deram.
Multiplicai-me, Senhor!
O social é uma relação de compra e venda
Então vendo meu Milton,
Vendo Chopin,
Meu Bach,
Minha Alegria,
E depois me afogo de culpa por comer no almoço
um pedaço de espírito.
1 497
Nana Corrêa de Lima
Yanomani
Yanomani
Hoje é dia de índio.
Deixo aqui pequena lágrima,
rolando na agonia
que antecede o final de tudo.
Anoitece o sangue na tribo....
Hoje é dia de índio.
Deixo aqui pequena lágrima,
rolando na agonia
que antecede o final de tudo.
Anoitece o sangue na tribo....
888
Cândido Rolim
Orfandade da Terra
por falta de justos
minha terra
é áspera de súplica
nem só a morte segrega
a carne da plebe
por falta de fuzis
meu povo
mastiga dor e extravio
nem só a noite arreda
a luz das lavouras
por falta de voz
canto
o prenúncio das foices
minha terra
é áspera de súplica
nem só a morte segrega
a carne da plebe
por falta de fuzis
meu povo
mastiga dor e extravio
nem só a noite arreda
a luz das lavouras
por falta de voz
canto
o prenúncio das foices
701
Sérgio Milliet
Fotografia
Esse papel estragado de fotografia
Era branco dentro da caixa.
Bastou expô-lo ao sol para que se queimasse...
Assim os negros quando nascem.
Era branco dentro da caixa.
Bastou expô-lo ao sol para que se queimasse...
Assim os negros quando nascem.
1 621
Mário Donizete Massari
Genética
"ALERTA"
OS JORNAIS AVISAM
"cientista renomado, doutorado,[mestrado,
concursado, trabalhado para servir à[ciência,
conseguiu extraordinário avanço, abrindo
perspectivas futuras e nos legando uma
cômoda posição de alívio"
sua descoberta —
"A FOME NÃO É HEREDITÁRIA"
OS JORNAIS AVISAM
"cientista renomado, doutorado,[mestrado,
concursado, trabalhado para servir à[ciência,
conseguiu extraordinário avanço, abrindo
perspectivas futuras e nos legando uma
cômoda posição de alívio"
sua descoberta —
"A FOME NÃO É HEREDITÁRIA"
805
Mário Donizete Massari
Medicina
O DOUTOR
R eceitou
A spirina, para
C urar
I nácio de
S eus
M ales que
O uso dizer
É A FORMA MAIS MEDÍOCRE
DE DISCRIMINAR O AMOR.
R eceitou
A spirina, para
C urar
I nácio de
S eus
M ales que
O uso dizer
É A FORMA MAIS MEDÍOCRE
DE DISCRIMINAR O AMOR.
779
Mário Donizete Massari
Tem dias
Tem dias que
a gente
cansa,
da vida
de tudo.
E pensa
em fugir do mundo
e escreve no muro.
Tem dias
que pensamos
em revolução
. . . e no pão
a gente
cansa,
da vida
de tudo.
E pensa
em fugir do mundo
e escreve no muro.
Tem dias
que pensamos
em revolução
. . . e no pão
570
Marcelo Almeida de Oliveira
Desvario descomunal
A brisa vermelha
anuncia tormenta que chega.
Revolução!
outubro voltou,
e não é mais gélido
bigode de ferro;
ainda rubro, mas caliente,
sangue pulsante
que faz ruflar corações.
na boca,
um grito-sorriso:
Liberdade!
nos punhos cerrados,
rosas (vermelhas);
nos corações,
Rosas (Luxemburg).
anuncia tormenta que chega.
Revolução!
outubro voltou,
e não é mais gélido
bigode de ferro;
ainda rubro, mas caliente,
sangue pulsante
que faz ruflar corações.
na boca,
um grito-sorriso:
Liberdade!
nos punhos cerrados,
rosas (vermelhas);
nos corações,
Rosas (Luxemburg).
870
Luiz Ademir Souza
Favilla 1
A guerrilha urbana fervilha
instala o quebranto de mágoa
nobrasil
O Brasil é favilla
O poder a febre
fervilha
nos ministérios
ASSALTO. Droga de poder!
instala o quebranto de mágoa
nobrasil
O Brasil é favilla
O poder a febre
fervilha
nos ministérios
ASSALTO. Droga de poder!
830
Luiz Ademir Souza
Favilla 2
ASSALTO. Droga de poder?
Nos ministérios
fervilha
a febre de poder
Favilla é o Brasil.
Nobrasil
mágoa de quebranto se instala.
Fervilham o homem
a guerrilha urbana
A DOR
Onde está o homem?
-claro,no Brasil.
Nos ministérios
fervilha
a febre de poder
Favilla é o Brasil.
Nobrasil
mágoa de quebranto se instala.
Fervilham o homem
a guerrilha urbana
A DOR
Onde está o homem?
-claro,no Brasil.
955
José de Oliveira Falcon
Sonata Urbana
a flauta mesmo em silêncio
fabrica seu mel de fábula;
o míssil mamom e a massa
carvão diurno de praga
modula a flauta no asfalto
onde um bêbado declama
seu lirismo contra a lama
e esse luar contra o salto
ou se achas mais sensato
e tua raiva reclama
cospe o lirismo na lama
atira a flauta no asfalto
fabrica seu mel de fábula;
o míssil mamom e a massa
carvão diurno de praga
modula a flauta no asfalto
onde um bêbado declama
seu lirismo contra a lama
e esse luar contra o salto
ou se achas mais sensato
e tua raiva reclama
cospe o lirismo na lama
atira a flauta no asfalto
1 020
Jorge Lauten
Não Mais Sob a Árvore de Bô
Não mais a pureza de Ramahyana
o incenso e o sândalo
os pés nus nas pedras do templo
enquanto eles comerem na minha mesa
na velha casa de Dili
não mais me sentarei sob a árvore de Bô
o incenso e o sândalo
os pés nus nas pedras do templo
enquanto eles comerem na minha mesa
na velha casa de Dili
não mais me sentarei sob a árvore de Bô
1 108
José Eustáquio da Silva
Belos
cesta nba
violência aparthaid
um grito haiti
liberdade zumbi
tambores jamaicanos
oloduns brasil baiano
stevie wonder reluziu
tropicalizando gilberto gil
viva áfrica americana
viva o toque do pandeiro
cor não tem cor quando se ama
sou neguinho brasileiro
violência aparthaid
um grito haiti
liberdade zumbi
tambores jamaicanos
oloduns brasil baiano
stevie wonder reluziu
tropicalizando gilberto gil
viva áfrica americana
viva o toque do pandeiro
cor não tem cor quando se ama
sou neguinho brasileiro
806
Myriam Fraga
Inquisição
Costuraram sua boca
Com alfinetes
E ele dizia que NÃO
E perguntavam.
E cortaram seus dedos
E o lançaram
Bem no fundo do poço
E ele dizia que não, que não, que não
E seus cabelos cresciam como chamas.
Com alfinetes
E ele dizia que NÃO
E perguntavam.
E cortaram seus dedos
E o lançaram
Bem no fundo do poço
E ele dizia que não, que não, que não
E seus cabelos cresciam como chamas.
1 337
Horácio Dídimo
As Casas
após longa espera
nada aconteceu
as casas continuaram baixas
tão baixas
que muitos de seus habitantes rastejavam
enquanto outros desistiam de antigas reivindicações
nada aconteceu
as casas continuaram baixas
tão baixas
que muitos de seus habitantes rastejavam
enquanto outros desistiam de antigas reivindicações
1 276
Castro Alves
Frades
Mel in ore, verba lactis,
Fel in corde, fraus in factis.
Mas a mão que assim tece o linho aos pés da Glória?
Como Hércules também esmaga a hidra...
E depois de aspergir o tumlo dos heróis
Pega de Juvenal na vergasta feroz
E os monges hodiernos açoita sem piedade
Como o Divino Mestre o fez na antiguidade!...
Fel in corde, fraus in factis.
Mas a mão que assim tece o linho aos pés da Glória?
Como Hércules também esmaga a hidra...
E depois de aspergir o tumlo dos heróis
Pega de Juvenal na vergasta feroz
E os monges hodiernos açoita sem piedade
Como o Divino Mestre o fez na antiguidade!...
1 698
Português
English
Español