Política e Poder
Poemas neste tema
Carlos Vogt
Sociedade Moderna no Terceiro Mundo
para o Roberto Schwarz
Autovacinamos
a população
contra a febre de consumo
não há antídoto
só
a concreta falta
de
dinheiro
In: VOGT, Carlos. Cantografia: o itinerário do carteiro cartógrafo. Pref. Antonio Candido. São Paulo: Massao Ohno: Hucitec; Brasília: INL, 1982. Poema integrante da série Quadrados.
Autovacinamos
a população
contra a febre de consumo
não há antídoto
só
a concreta falta
de
dinheiro
In: VOGT, Carlos. Cantografia: o itinerário do carteiro cartógrafo. Pref. Antonio Candido. São Paulo: Massao Ohno: Hucitec; Brasília: INL, 1982. Poema integrante da série Quadrados.
1 121
Fernando Pessoa
[1] A Cabeça do Grifo: O INFANTE D. HENRIQUE
Em seu trono entre o brilho das esferas,
Com seu manto de noite e solidão,
Tem aos pés o mar novo e as mortas eras —
O único imperador que tem, deveras,
O globo mundo em sua mão.
Com seu manto de noite e solidão,
Tem aos pés o mar novo e as mortas eras —
O único imperador que tem, deveras,
O globo mundo em sua mão.
6 905
Paulo Leminski
quero a vitória
quero a vitória
do time de várzea
valente
covarde
a derrota
do campeão
5 X 0
em seu próprio chão
circo
dentro
do pão
do time de várzea
valente
covarde
a derrota
do campeão
5 X 0
em seu próprio chão
circo
dentro
do pão
2 272
Leila Mícollis
Engorda
Ilusões para os aflitos
para a mulher, segurança,
para a casa, samambaias;
consolo para os doentes,
conselhos aos desgarrados,
aos leitos de amor, cambraias.
Sorvete para as crianças,
esmolas para os famintos,
para os turistas as praias;
para os homens, futebol,
televisão para todos
e alface para as cobaias.
para a mulher, segurança,
para a casa, samambaias;
consolo para os doentes,
conselhos aos desgarrados,
aos leitos de amor, cambraias.
Sorvete para as crianças,
esmolas para os famintos,
para os turistas as praias;
para os homens, futebol,
televisão para todos
e alface para as cobaias.
946
Regina Souza Vieira
Que País
Que país
Que história
Que presente
Que futuro
Ou que passado construímos?
Este que destrói primeiro
E depois sepulta em honra
Cada um dos seus heróis
No esquecimento?
Que história
Que presente
Que futuro
Ou que passado construímos?
Este que destrói primeiro
E depois sepulta em honra
Cada um dos seus heróis
No esquecimento?
669
Nelson Motta
Apocalipse
(GENEBRA)-do correspondente
Os quatro glandes
quebram pau
na conferência de cópula.
Os quatro glandes
quebram pau
na conferência de cópula.
965
Cândido Rolim
Orfandade da Terra
por falta de justos
minha terra
é áspera de súplica
nem só a morte segrega
a carne da plebe
por falta de fuzis
meu povo
mastiga dor e extravio
nem só a noite arreda
a luz das lavouras
por falta de voz
canto
o prenúncio das foices
minha terra
é áspera de súplica
nem só a morte segrega
a carne da plebe
por falta de fuzis
meu povo
mastiga dor e extravio
nem só a noite arreda
a luz das lavouras
por falta de voz
canto
o prenúncio das foices
701
Wanda Cristina
Aliteração
Eu quero dançar contigo
dentro do poesia,
como dança o povo dentro do Estado.
Eu quero rebolar contigo em cada rima,
como rebola o povo dentro do salário.
Eu escolho uma aliteração
para a nossa vida:
filhos, felicidade, família, feijão, farinha...
como o povo, em fé,
faz folia, forra a fome com futebol e fantasia.
dentro do poesia,
como dança o povo dentro do Estado.
Eu quero rebolar contigo em cada rima,
como rebola o povo dentro do salário.
Eu escolho uma aliteração
para a nossa vida:
filhos, felicidade, família, feijão, farinha...
como o povo, em fé,
faz folia, forra a fome com futebol e fantasia.
1 126
João Augusto Sampaio
De Civitate Dei
Quié que o Povo pode e os arquitetos não sabem?
Fazer cidades:
Brasília, Pilar, Stevenage...
Cidade não se faz,
Planta-se.
O Povo rega e aduba.
Fazer cidades:
Brasília, Pilar, Stevenage...
Cidade não se faz,
Planta-se.
O Povo rega e aduba.
730
Mário Donizete Massari
Poesia louca
A ave voa
e pousa
sobre o ovo
e o povo?
o povo é o ovo.
És poeta,
pois se rimas?
Não. Sou uma rosa ferida
um sonho desfeito
um dia de fadiga,
e olho o povo
e sua vida.
e pousa
sobre o ovo
e o povo?
o povo é o ovo.
És poeta,
pois se rimas?
Não. Sou uma rosa ferida
um sonho desfeito
um dia de fadiga,
e olho o povo
e sua vida.
1 024
Mário Donizete Massari
Genética
"ALERTA"
OS JORNAIS AVISAM
"cientista renomado, doutorado,[mestrado,
concursado, trabalhado para servir à[ciência,
conseguiu extraordinário avanço, abrindo
perspectivas futuras e nos legando uma
cômoda posição de alívio"
sua descoberta —
"A FOME NÃO É HEREDITÁRIA"
OS JORNAIS AVISAM
"cientista renomado, doutorado,[mestrado,
concursado, trabalhado para servir à[ciência,
conseguiu extraordinário avanço, abrindo
perspectivas futuras e nos legando uma
cômoda posição de alívio"
sua descoberta —
"A FOME NÃO É HEREDITÁRIA"
805
Mário Donizete Massari
Muro
No povo
vejo o mundo
Vejo o mundo
como um muro,
que separa o homem
do próprio homem.
O operário faz greve
a vida breve
o sonho pausa leve,
no viver.
Vejo o mundo
como um muro
de oprimidos
vejo o mundo
Vejo o mundo
como um muro,
que separa o homem
do próprio homem.
O operário faz greve
a vida breve
o sonho pausa leve,
no viver.
Vejo o mundo
como um muro
de oprimidos
1 057
Mário Donizete Massari
Tem dias
Tem dias que
a gente
cansa,
da vida
de tudo.
E pensa
em fugir do mundo
e escreve no muro.
Tem dias
que pensamos
em revolução
. . . e no pão
a gente
cansa,
da vida
de tudo.
E pensa
em fugir do mundo
e escreve no muro.
Tem dias
que pensamos
em revolução
. . . e no pão
570
Marcelo Almeida de Oliveira
Desvario descomunal
A brisa vermelha
anuncia tormenta que chega.
Revolução!
outubro voltou,
e não é mais gélido
bigode de ferro;
ainda rubro, mas caliente,
sangue pulsante
que faz ruflar corações.
na boca,
um grito-sorriso:
Liberdade!
nos punhos cerrados,
rosas (vermelhas);
nos corações,
Rosas (Luxemburg).
anuncia tormenta que chega.
Revolução!
outubro voltou,
e não é mais gélido
bigode de ferro;
ainda rubro, mas caliente,
sangue pulsante
que faz ruflar corações.
na boca,
um grito-sorriso:
Liberdade!
nos punhos cerrados,
rosas (vermelhas);
nos corações,
Rosas (Luxemburg).
870
Luiz Ademir Souza
Favilla 1
A guerrilha urbana fervilha
instala o quebranto de mágoa
nobrasil
O Brasil é favilla
O poder a febre
fervilha
nos ministérios
ASSALTO. Droga de poder!
instala o quebranto de mágoa
nobrasil
O Brasil é favilla
O poder a febre
fervilha
nos ministérios
ASSALTO. Droga de poder!
830
Luiz Ademir Souza
Favilla 2
ASSALTO. Droga de poder?
Nos ministérios
fervilha
a febre de poder
Favilla é o Brasil.
Nobrasil
mágoa de quebranto se instala.
Fervilham o homem
a guerrilha urbana
A DOR
Onde está o homem?
-claro,no Brasil.
Nos ministérios
fervilha
a febre de poder
Favilla é o Brasil.
Nobrasil
mágoa de quebranto se instala.
Fervilham o homem
a guerrilha urbana
A DOR
Onde está o homem?
-claro,no Brasil.
955
Fernando Batinga de Mendonça
Tempo
é difícil
definir
o meu tempo:
desenhos
de fome
nas paredes
velhos meninos,
de manhã
poetas
à noite
nos quartéis.
é difícil
definir
o meu tempo:
homens
contidos
nas marmitas,
e esperança
no subúrbio
dos quintais
definir
o meu tempo:
desenhos
de fome
nas paredes
velhos meninos,
de manhã
poetas
à noite
nos quartéis.
é difícil
definir
o meu tempo:
homens
contidos
nas marmitas,
e esperança
no subúrbio
dos quintais
924
Cláudio Murilo
Impunidade
O barão especializou-se em conversas inúteis
e telegramas.
Ganhou muito dinheiro com as guerras púnicas
e a desigualdade social.
Levou uma existência de pasteizinhos de queijo
e taças de hidromel.
Aposentou-se
e viveu dos juros, sem tocar no capital.
Ninguém o castigou, nem Deus nem os homens.
e telegramas.
Ganhou muito dinheiro com as guerras púnicas
e a desigualdade social.
Levou uma existência de pasteizinhos de queijo
e taças de hidromel.
Aposentou-se
e viveu dos juros, sem tocar no capital.
Ninguém o castigou, nem Deus nem os homens.
706
Chico Noronha
Brasil
Interrogo um agimo de vista
se é defeito de fábrica
ou estamos mesmo no Brasil
.................................................
dou gargalhadas
e desligo a luz
se é defeito de fábrica
ou estamos mesmo no Brasil
.................................................
dou gargalhadas
e desligo a luz
920
Birão Santana
Medidas Oficiais
As Medidas Oficiais
para debelar:
fome,
desemprego,
violência,
esbarraram
nas Medidas Oficiais
para gerar:
fome
desemprego
violência.
para debelar:
fome,
desemprego,
violência,
esbarraram
nas Medidas Oficiais
para gerar:
fome
desemprego
violência.
900
António Arnaut
O Comicio
Da tribuna envergonhada
por tanta demagogia
o orador prometia,
duma assentada,
a terra e o céu.
O povoléu,
incr´´dulo, sorvia
a fome de tanta fartura.
Porém, a certa altura
o orador entupiu
e caíu-lhe a dentadura.
Quando a assistência saíu,
pisou-lhe a faladura.
por tanta demagogia
o orador prometia,
duma assentada,
a terra e o céu.
O povoléu,
incr´´dulo, sorvia
a fome de tanta fartura.
Porém, a certa altura
o orador entupiu
e caíu-lhe a dentadura.
Quando a assistência saíu,
pisou-lhe a faladura.
1 330
António Arnaut
Dia de Portugal
Dia de Portugal. Dia de Camões
e das Comunidade.
O Presidente distribui condecorações
na feira das vaidades.
País de heróis e de santos
à beira mar enterrado.
Nunca outra Pátria teve tantos,
assim, por atacado.
e das Comunidade.
O Presidente distribui condecorações
na feira das vaidades.
País de heróis e de santos
à beira mar enterrado.
Nunca outra Pátria teve tantos,
assim, por atacado.
1 190
Antônio Massa
Firma Reconhecida
Eu nasci
Está no papel
Eleitor
Está no papel
Identidade
Duas vias
Ambas no papel
Minha vida
Plastificada
Minha pessoa
Resumida a 3x4
Minha revolta
Autenticada
6.586.598-71
Está no papel
Está tudo no papel
e em todos os papéis
homens carimbados
buscando papel de gente
Está no papel
Eleitor
Está no papel
Identidade
Duas vias
Ambas no papel
Minha vida
Plastificada
Minha pessoa
Resumida a 3x4
Minha revolta
Autenticada
6.586.598-71
Está no papel
Está tudo no papel
e em todos os papéis
homens carimbados
buscando papel de gente
979
José Afonso
Quem diz que é pela rainha
Quem diz que é pela rainha
Nem precisa de mais nada
Embora seja ladrão
Pode roubar à vontade
Todos lhe apertam a mão
É homem de sociedade
Acima da pobre gente
Subiu quem tem bons padrinhos
De colarinhos gomados
Perfumando os ministérios
É dono dos homens sérios
Ninguém lhe vai aos costados
Nem precisa de mais nada
Embora seja ladrão
Pode roubar à vontade
Todos lhe apertam a mão
É homem de sociedade
Acima da pobre gente
Subiu quem tem bons padrinhos
De colarinhos gomados
Perfumando os ministérios
É dono dos homens sérios
Ninguém lhe vai aos costados
1 443
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