Paixão
Poemas neste tema
Eugénio de Andrade
Ignoro o que seja a flor da água
depois das primeiras chuvas
sobe ao terraço,
entra nu pela varanda,
o corpo inda molhado
procura o nosso corpo e começa a tremer:
então é como se na sua boca
um resto de imortalidade
nos fosse dado a beber,
e toda a música da terra,
toda a música do céu fosse nossa,
até ao fim do mundo,
até amanhecer.
de Branco No Branco
Eugénio de Andrade
Desde a aurora
para levar à boca,
eis as mãos:
procuram-te desde o chão,
entre os veios do sono
e da memória procuram-te:
à vertigem do ar
abrem as portas:
vai entrar o vento ou o violento
aroma de uma candeia,
e subitamente a ferida
recomeça a sangrar:
é tempo de colher: a noite
iluminou-se bago a bago:vais surgir
para beber de um trago
como um grito contra o muro.
Sou eu, desde a aurora,
eu-a terra-que te procuro.
de Obscuro Domínio
Carlos Fino
a teia do olhar
descrevo-te o silêncio sob os lábios
juntos
agora celebrando as delicadas sedes
e rindo sobre a haste
onde a saliva tarda
o tacto é uma arma onde o esplendor devora
os sinuosos dedos
e paira sobre o ardor
onde incendeio os pulsos
o amor é uma dança
a demolir-me o peito
Amália Bautista
O incrédulo
Diz-me que não estou enamorada,
às vezes apetece-me jurar-lhe
que esqueceria o sol entre os seus abraços
ou quereria estar a beijar sempre
seus lábios ou que não me importa o tempo
ao olhar-me escuro, fixo, louco.
Porém de quê me serviria tanto?
Não acreditaria uma palavra.
Amália Bautista
Dizes que me amas
Dizes que me amas de uma tal forma,
que não consigo deixar de corar;
que me amas de um modo primitivo,
sem razão aparente e sem desculpas
e que me amas porque me desejas,
porque sabes que eu também te amo
e como o monstro deste amor nos devora
a alma, a paciência e as maneiras.
É uma pena que todas estas coisas
morram em nós afogadas de silêncio.
Amália Bautista
Pede três desejos
Ver contigo a alva
depois ver a noite
e depois de novo a alva
na luz de teus olhos.
José Mário Rodrigues
A IMORTALIDADE
pobre, insegura, desenfreada paixão
fique apenas mais um pouco.
Não há tempo a perder.
um reator atômico
vai desfazer nossas lembranças.
Dessa lagoa,
desses peixes
e do verde nada restará.
E quando tudo não mais estiver,
não existirá o caos
mas uma fumaça no ar.
E isso é o que vão chamar de imortalidade.
Herberto Helder
I G
como neles se forma a seda, como
no corpo se forma o vestido.
Seda e carne fundidas pelo sangue uma na outra.
O nome é: pulsação da luz.
E tu danças a quantas braças de labareda —
a mais fechada, mais aberta
zona
espasmódica: ar revolvido em redor
da pedraria atiçada.
Herberto Helder
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boca com boca,
metido em ti o sôpro até raiar-te a cara,
até que o meu soluço obscuro te cruze toda,
amo-te como se aprendesse desde não sei que morte,
ainda que doa o mundo,
a alegria
Herberto Helder
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oh quero-te em volta de luz batida,
em língua máxima,
a floração devora as varas,
o ar que se empolga devora-te a obra mulheril,
uns palmos de sangue até à boca sôfrega,
e depois desmanchas-te
Herberto Helder
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e o devore,
e o gosto seja tão abundante que lhe magoe a boca
e tudo quanto nela se apoie:
soluço, respiração, idioma,
e abale os modos nada cuidadosos do corpo:
o fruto onde o cacto se concentra,
o cacto que frutifica uma só vez na vida
Herberto Helder
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cima da cabeça,
coluna de fogo,
pela minha morte acima
Herberto Helder
Petite Pute Deitada Toda Nua Sobre a Cama À Espera
petite pute deitada toda nua sobre a cama à espera,
e inexplicavelmente eu entro nela de corpo inteiro e idade inteira
Eduardo Pitta
Temos das coisas a lembrança das viagens
ignotas. E o sentido delas estilhaça
no primeiro espelho da memória.
Como aquelas noites muito brancas
povoadas de crimes inenarráveis.
Também as nossas mãos, vorazes,
tacteiam um percurso de sangue:
o de inquestionáveis desígnios do amor.
Lourenço
Amiga, Des Que Meu Amigo Vi
el por mi morr'e eu ando des i
namorada.
Des que o vi primeir'e lhi falei
el por mi morre e eu del fiquei
namorada.
Des que nos vimos, assi nos avém:
el por mi morr'e eu ando por en
namorada.
Des que nos vimos, vêde'lo que faz:
el por mi morr'e eu and[o] assaz
namorada.
Afonso Mendes de Besteiros
Cativ'! E Sempre Cuidarei?
E cuido, se Deus mi perdom!
Ar cuido no meu coraçom
que já per cuidar morrerei;
e cuido muit'em mia senhor,
ar cuid'em haver seu amor.
[...]
Renato Rezende
Sobre a Terra
perdidos no fundo do céu.
Fechamos os olhos e nos beijamos.
(O sol longe, longe, perdido
na cúpula do azul infinito)
Somos os anjos caídos
e se faz noite sobre a Terra.
Nova Iorque, maio 1994
Renato Rezende
Cupido
deixei cair minhas asas.
Caí como uma pluma
de pedra.
Flecha
presa na carne.
Nova York, maio 1994
Renato Rezende
Cogumelos
incendiado pela paixão
esse fogo não ilumina;
é como o cogumelo venenoso
que brota durante a noite úmida:
não alimenta, queima, apenas queima
o organismo, e alucina.
Nova York, setembro 1993
Renato Rezende
Desejo
Isso não foi inocente. Os primeiros
tons rubros surgiram no horizonte eterno.
Logo tudo foi tomado pelas chamas
e era o poente: a aurora do inferno.
Nova York, agôsto 1993
Ricardo Aleixo
Até perder
olhar os seus 5 sentidos ouvir os seus
5 sentidos tocar os seus 5
sentidos cheirar os seus 5 sentidos até perder
os sentidos
António Carlos Cortez
Skin deep
A cor de quando à noite a pele nos toca
Pudessem as minhas mãos ser o vestido
(estrangular-te a pele que me provoca)
Simone Brantes
Ela me disse
meu coração
quer sair pela boca, eu
segurava minha boca
para que não saísse
pelo coração
Saúl Dias
Amo-te Tanto
nem sei porquê!
Que importa o quê
do meu espanto?
Que importa o riso
que me concedes?
Que me embebedes!
Que paraíso!
Indiferente
quero-te assim.
- Sê bem de mim,
de toda a gente...
Rasgou-se o véu
do temporal.
Nem bem nem mal.
Entras no céu.
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