Nostalgia

Poemas neste tema

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Névoas de todas as recordações juntas

Névoas de todas as recordações juntas
(A institutrice loura dos jardins pacatos)
Recordo tudo a ouro do sol e papel de seda...
E o arco da criança passa veloz por quase rente a mim...
1 320
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Não morreram, Neera, os velhos deuses.

Não morreram, Neera, os velhos deuses.
Sempre que a humana alegria
        Renasce, eles se voltam
        Para a nossa saudade.
1 279
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Quando eu era pequenino

Quando eu era pequenino
Cantavam para eu dormir.
Foram-se o canto e o menino.
Sorri-me para eu sentir!
4 604
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Tenho pena até... nem sei...

Tenho pena até... nem sei...
Do próprio mal que passei
Pois passei quando passou.
1 369
Florbela Espanca

Florbela Espanca

Pus-me a colher

Pus-me a colher ’mas saudades,
Do campo, singelos bens,
Quando as ouvi: «Não nos leves,
Não te bastam as que tens?!»
1 433
Joaquim Cardozo

Joaquim Cardozo

Salinas de Santo Amaro

Salinas de Santo Amaro,
Ondas de terra salgada,
Revoltas, na escuridão,
De silêncio e de naufrágio
Cobrindo a tantos no chão.

Terra crescida, plantada
De muita recordação.
1 370
Akiko Yosano

Akiko Yosano

Tanka III

“Kyoto é um lugar
de dolorosas recordações...”
escrevi até aí
quando olhei para baixo
e notei a brancura do rio Kamo
777
Jaime Gil de Biedma

Jaime Gil de Biedma

Voltar

Minha lembrança eram imagens,
no instante, de ti:
essa expressão e um matiz
dos olhos, um pouco suave

na inflexão de tua voz,
e teus bocejos furtivos
de lebréu que dormiu mal
toda a noite em meu quarto.

Voltar, passados os anos,
rumo à felicidade
— para ver-se e recordar
que estou também mudado.

(de Moralidades)

786
Luis Romano

Luis Romano

Símbolo

O formato daquele berço foi um símbolo
O menino em miragens impossíveis
dormia sonhando com navios de papel
enquanto eu contemplava
a cismar,
o conjunto daquela harmonia
sumindo-se na linha do mar.

Navio-berço de menino crioulo
navio-guia que ficou sem ir
"navio idêntico ao navio da nossa derrota parada".
1 240
da Costa e Silva

da Costa e Silva

Saudade

Saudade! és a ressonância
De uma cantiga sentida,
Que, embalando a nossa infância,
Nos segue por toda a vida!


Publicado no livro Pandora (1919).

In: SILVA, Da Costa e. Poesias completas. Org. Alberto da Costa e Silva. 3.ed. rev. e anot. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; Brasília: INL, 1985. p.22
2 334
Eunice Arruda

Eunice Arruda

Não Mudamos

pena

não mudamos

o tempo

escorreu
água entre
os dedos

pena

pássaros coloridos alcançam as nuvens
todos os dias
ficamos

Raízes.


In: ARRUDA, Eunice. Os momentos. Pref. Álvaro Alves de Faria. São Paulo: Nobel: Secretaria de Estado da Cultura, 1981
858
Manuel Machado

Manuel Machado

A chuva

Eu tive uma vez amores.
Hoje é dia de lembranças.
Eu tive uma vez amores.

Houve sol e houve alegria.
Um dia, já bem passado...,
houve sol e houve alegria.

De tudo, que me há ficado?
Da mulher que me amava,
de tudo, que me há ficado?

...O aroma de seu nome,
a lembrança de seus olhos
e o aroma de seu nome.

1 081
Jose Luis Appleyard

Jose Luis Appleyard

O tempo

Já é ontem porém então era sempre
um trasladar de horários imutáveis.
Desde a noite ao sol.
Cada semana
era distinta e igual a seguinte.
A criança desdenha o calendário
e seu patrão relógio era o cansaço.
Idade sem equinócios, só o tempo
de ser feliz então ignora-lo.

828
Rafael Alberti

Rafael Alberti

O mar, o mar

O mar. O mar.
O mar. Só o mar!

Por que me trouxeste, pai
a cidade?

Em sonhos, a marejada
me tira do coração.
Se o quisesses levar.

Pai, por que me trouxeste
aqui?

1 301
Angela Santos

Angela Santos

A Sós

Vai!
hoje só preciso de mim

Vai!
deixa ficar a tua imagem
o teu riso
teus gestos infantis
para que neles eu beba
a nostalgia
do tempo sem memória

Vai!
hoje só me quero a mim!

1 045
Angela Santos

Angela Santos

Eco

Rasgo
a sulcos o corpo

da memória,
vivos permanecem todos os tempos

em mim…
É um nome antigo aquele que oiço,
antigo o sonho que me leva.

1 196
Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Duma outra infância, inventada

Duma outra infância, inventada,
Guardo memórias que são
Reais reversos do nada
Que as verdadeiras me dão.

Estas, se acaso regressam,
Em tropel e confusão
Ao limiar-me, tropeçam
No corpo das que lá estão.

Assim, mentindo as raízes
Do meu confuso começo,
Segrego imagens felizes
Com que as funestas esqueço.

2 012
Vitor Casimiro

Vitor Casimiro

Se Antes Fosse, Aonde Iria?

Janela aberta
Brisa a dentro
Cortina, dança
feito um lamento

Antes fosse
Um barco a vela.
Aonde vais brisa?
Iria com ela

1 019
Silvestre Péricles de Góis Monteiro

Silvestre Péricles de Góis Monteiro

A que deixa posteridade

Quando contemplo as rugas do teu rosto,
fico-me triste e evoco os tempos ídos:
843
Sérgio Milliet

Sérgio Milliet

Lisboa

A cidade tomou banho
Água suja do Tejo
A Torre de Belém
no poente decadente
sonha com impossíveis caravelas.

1 467
João Augusto Sampaio

João Augusto Sampaio

Índia

Nunca houve,
Não há,
Nem jamais haverá
Fila indiana mais bela e malemolente
Que o coqueiral entre as dunas do Rio Capivara Grande e o Atlântico,
Na Aldeia Hippie de Arembepe,
Quando visto de sudoeste,
Banhado pela luz das 5:15 nas tardes de Verão.

Jamais verão.

Aldeia Hippie, cinco e quinze da tarde de 1/1/1997 AD

842
Ana Júlia Monteiro Macedo Sança

Ana Júlia Monteiro Macedo Sança

Napoleon Fillet Mignon

Que lá do alto da tua Torre
vejo-te como um mapa nas minhas mãos
E no Arco do Triunfo
a chama sempre acesa
embalando calmamente
o teu soldado desconhecido
Adormecido...

Et moi, je suis ici
Mon doux PARIS
De mon SOUVENIR.
954
Delores Pires

Delores Pires

Outono

Imersa em neblina
a cidade se reveste
de um tom nostalgia.

1 060
Luís Palma Gomes

Luís Palma Gomes

Lugar nenhum

Há afinal um lugar para nós,
a salvo dos novos deuses,
um lugar onde o tempo foi um rio
e o rio, uma película incolor

Por detrás da vida
e dos velhos olhos
há ainda um lugar assim
onde iremos finalmente ver
e sem cuidados caminhar
nos pedais da nossa infância

1 142