Literatura e Palavras

Poemas neste tema

Paulo Leminski

Paulo Leminski

parem

parem
eu confesso
sou poeta

cada manhã que nasce
me nasce
uma rosa na face

parem
eu confesso
sou poeta

só meu amor é meu deus

eu sou o seu profeta

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Paulo Leminski

Paulo Leminski

as coisas estão pretas

uma chuva de estrelas
deixa no papel
esta poça de letras

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Paulo Leminski

Paulo Leminski

Quem dera eu fosse um músico

Quem dera eu fosse um músico
que só tocasse os clássicos,
a platéia chorando
e eu contando os compassos.
Se eu soubesse agora,
como eu soube antes,
a dança alegórica
entre as vogais e as consoantes!


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Paulo Leminski

Paulo Leminski

o bicho alfabeto

o bicho alfabeto
tem vinte e três patas
ou quase

por onde ele passa
nascem palavras
e frases

com frases
se fazem asas
palavras
o vento leve

o bicho alfabeto
passa
fica o que não se escreve

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Paulo Leminski

Paulo Leminski

Distâncias Mínimas

um texto morcego
se guia por ecos
um texto texto cego
um eco anti anti anti antigo
um grito na parede rede rede
volta verde verde verde
com mim com com consigo
ouvir é ver se se se se se
ou se se me lhe te sigo?

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Paulo Leminski

Paulo Leminski

LÁPIDE 1

epitáfio para o corpo


Aqui jaz um grande poeta.
Nada deixou escrito.
Este silêncio, acredito,
são suas obras completas.


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Paula Taitelbaum

Paula Taitelbaum

Meu verso

Meu verso
Não tem estática
Técnica
Ou métrica
Ao contrário
Tem truques
Badulaques
E ataques
é um verso
Caduco
Eunuco
Fanático
Mas tem seu valor
Por ser democrático.

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Bocage

Bocage

Epitáfio

De Elmano eis sobre o mármore sagrado
A lira em que chorava ou ria de amores.
Ser deles, ser das Musas foi seu fado:
Honrem-lhe a lira vates e amadores.

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Venúsia Neiva

Venúsia Neiva

Flor Azul

era uma flor desmaiada
e, ao vento, tinha gesto de pássaro
que foge ao frio.
era azul e nasceu nos primeiros véus da noite.
ninguém a viu.
ninguém sentiu o seu estranho perfume.
só eu que amo as coisas misteriosas e fugaces.
e ela se evaporou nas brumas do meu sonho.
ó poesia!
ó musa!
ó inatingível!

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João Augusto Sampaio

João Augusto Sampaio

Me risca qu’eu gosto

Ô canetinha macia
Que desliza e passeia neste papel
Que de quase lixo é reciclado e entra prá História.

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Roberval Pereyr

Roberval Pereyr

A Essência é Bá

A essência é bá.
Tuburundum ecoé.
Tivejo de túrbia
na
fecundidade à penumbra
comuno bá vusevi.
Mas nontitemo.
Tantra vetusta ursa branca
nos flancos divina solídez.
Pero que si
o que non
ao corazón nom basta dividir-se.
Mister ser mu
como no zen
Gantó gritando a morte em espiral,
axê!

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António Manuel Couto Viana

António Manuel Couto Viana

Segredo

Fiz uma estátua de neve
(Mas há sol no meu pais!)
A mentira que se escreve
É a verdade com que a fiz.

Pus-lhe uma flor entre os dedos,
Para ver se os aquecia
— Não sei revelar segredos
Sem que floresças, poesia!

Para seres casto, sê breve
— Aonde a estátua de neve?

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José de Paula Ramos Jr.

José de Paula Ramos Jr.

A um Poeta

para Frederico Barbosa
Agudo pensamento, coração preclaro,
o poeta
cata um grão esconso
no labirinto nada.
O poeta
a palavra vela
e o signo rala
na linha vasa:
muda geometria.
Eis, súbito, um projétil,
que não falha,
a língua tesa prepara.
O poeta,
zarabatana calada,
no silêncio do rigor,
raro artefato dispara.

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Luís Filipe Maçarico

Luís Filipe Maçarico

Alentejo

Alentejo terra de vento e silêncio
onde o Homem semeia a Palavra
Alentejo terra de sonho e sofrimento
onde o poema tem sede de flores
e rios. Como quem faz um pão,
escrevo à sombra das tuas oliveiras.

E canto o vôo altivo das cegonhas.
Esta leveza de viver em ruas brancas...

(Mértola, 1994)

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José Eustáquio da Silva

José Eustáquio da Silva

Opinião

opinião do poeta sem letras:

a poesia começa quando a sentimos e termina quando a escrevemos

opinião do poeta letrado:

a poesia começa quando a sentimos e se eterniza quando a escrevemos

opinião da poesia:

eu não começo, não termino e não eternizo.

sou apenas poesia...

opinião do leitor:

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Helena Parente Cunha

Helena Parente Cunha

Bloqueio

onde sopra agora o vento
que levava o que eu dizia?

onde se perderam os nomes
que tantas coisas tiveram?

onde ficaram as coisas
chamadas em minha voz?

e minha voz
como assim subtraída?

gosto de pedra
na saliva em minha língua

as palavras me emparedam
onde houvera minha boca

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Helena Ortiz

Helena Ortiz

Poesia Viva

precisou que te fosses
para que a poesia
renascesse em mim

enquanto estiveste ao meu lado
ela existia
tinha um corpo que dançava
olhos que abraçavam
mãos que me erguiam
e chamava-se Alice

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Décio Pignatari

Décio Pignatari

Cloaca

                   beba    coca   cola
                   babe               cola
                   beba    coca
                   babe    cola   caco
                   caco
                   cola
                                c l o a c a
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Dilercy Adler

Dilercy Adler

Poema

... Fala, poeta, por ti e por nós
a palavra de amor
por sob os lençóis
a palavra benigna
que não fere jamais,
a palavra da vida
que lava a ferida
tantas chagas de dor.
Fala, poeta,
palavras, palavras
em rimas de amor!

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Castro Alves

Castro Alves

Depois da Leitura de Um Poema

(Em sessão literária)

(IMPROMPTU)

Lá vem o pastor subindo aos Alpes
Lança aos abismos a canção tremente.
Responde embaixo - o precipício enorme!
Responde em cima - o firmamento ingente!

Poeta! a voz do pegureiro errante
Em ti vibrando... se alteou!... cresceu!
Tua alma é funda - como é fundo o pego!
Teu gênio é alto - como é alto o céu!

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Geraldo Carneiro

Geraldo Carneiro

os fogos da fala

a fala aflora à flor da boca
às vezes como fogos de artifício
fulguração contra os terrores do silêncio
só espada espavento espelho
ou pedra ficção arremessada
ou canção para cantar as graças
as virilhas as maravilhas da amada
a deusa idolatrada do amor:
essa outra voz quase jazz
que subjaz ventríloqua de si mesma

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Albano Dias Martins

Albano Dias Martins

Palavras

Nenhum ramo
é seguro. Frágeis
são as palavras.

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Poemas Sânscritos

Poemas Sânscritos

DE KALIDASA

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Melhor é uma poesia por antiga?
Então é sempre má, se for moderna?
Só o amador conhece a luta eterna:
e o crítico que espere o que ele diga.

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Giuseppe Ungaretti

Giuseppe Ungaretti

PORTO SEPULTO

Aí chega o poeta
e depois volta à luz com seus cantos
e os dispersa.

Desta poesia
resta-me um
nada
de inexaurível segredo.

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