Felicidade e Alegria
Poemas neste tema
Fernando Pessoa
A moça que há na estalagem
A moça que há na estalagem
Ri porque gosta de rir.
Não sei o que é da viagem
Por esta moça existir.
Ri porque gosta de rir.
Não sei o que é da viagem
Por esta moça existir.
1 439
Fernando Pessoa
Boca que o riso desata
Boca que o riso desata
Numa alegria engraçada,
És como a prata lavrada
Que é mais o lavor que a prata.
Numa alegria engraçada,
És como a prata lavrada
Que é mais o lavor que a prata.
1 181
Fernando Pessoa
Tens um anel imitado
Tens um anel imitado
Mas vais contente de o ter.
Que importa o falsificado
Se é verdadeiro o prazer.
Mas vais contente de o ter.
Que importa o falsificado
Se é verdadeiro o prazer.
1 537
Fernando Pessoa
Se vais de vestido novo
Se vais de vestido novo
O teu próprio andar o diz,
E ao passar por entre o povo
Até teu corpo é feliz.
O teu próprio andar o diz,
E ao passar por entre o povo
Até teu corpo é feliz.
1 126
Fernando Pessoa
Coroai-me de rosas. [2]
Coroai-me de rosas.
Coroai-me em verdade
De rosas.
Quero ter a hora
Nas mãos pagãmente
E leve,
Mal sentir a vida,
Mal sentir o sol
Sob ramos.
Coroai-me de rosas
E de folhas de hera
E basta.
Coroai-me em verdade
De rosas.
Quero ter a hora
Nas mãos pagãmente
E leve,
Mal sentir a vida,
Mal sentir o sol
Sob ramos.
Coroai-me de rosas
E de folhas de hera
E basta.
1 442
Fernando Pessoa
Só a inocência e a ignorância são
Só a inocência e a ignorância são
Felizes, mas não o sabem. São-no ou não?
Que é ser sem no saber? Ser, como a pedra,
Um lugar, nada mais.
Felizes, mas não o sabem. São-no ou não?
Que é ser sem no saber? Ser, como a pedra,
Um lugar, nada mais.
3 950
Fernando Pessoa
Quase anónima sorris
Quase anónima sorris
E o sol doura o teu cabelo.
Porque é que, pra ser feliz,
É preciso não sabê-lo?
E o sol doura o teu cabelo.
Porque é que, pra ser feliz,
É preciso não sabê-lo?
1 503
Fernando Pessoa
A caixa que não tem tampa
A caixa que não tem tampa
Fica sempre destapada.
Dá-me um sorriso dos teus
Porque não quero mais nada.
Fica sempre destapada.
Dá-me um sorriso dos teus
Porque não quero mais nada.
1 689
Fernando Pessoa
Há grandes sombras na horta
Há grandes sombras na horta
Quando a amiga lá vai ter...
Ser feliz é o que importa,
Não importa como o ser!
Quando a amiga lá vai ter...
Ser feliz é o que importa,
Não importa como o ser!
1 444
Fernando Pessoa
Não morreram, Neera, os velhos deuses.
Não morreram, Neera, os velhos deuses.
Sempre que a humana alegria
Renasce, eles se voltam
Para a nossa saudade.
Sempre que a humana alegria
Renasce, eles se voltam
Para a nossa saudade.
1 279
Fernando Pessoa
Deixaste cair no chão
Deixaste cair no chão
O embrulho das queijadas.
Ris-te disso — e porque não?
A vida é feita de nadas.
O embrulho das queijadas.
Ris-te disso — e porque não?
A vida é feita de nadas.
948
Fernando Pessoa
Grinalda ou coroa
Grinalda ou coroa
É só peso posto
Na fronte antes limpa.
Grinalda de rosas,
Coroa de louros,
A fronte transtornam.
Que o vento nos possa
Mexer nos cabelos,
Refrescar a fronte!
Que a fronte despida
Possa reclinar-se,
Serena, onde durma.
Cloé! Não conheço
Melhor alegria
Que esta fronte lisa.
É só peso posto
Na fronte antes limpa.
Grinalda de rosas,
Coroa de louros,
A fronte transtornam.
Que o vento nos possa
Mexer nos cabelos,
Refrescar a fronte!
Que a fronte despida
Possa reclinar-se,
Serena, onde durma.
Cloé! Não conheço
Melhor alegria
Que esta fronte lisa.
1 942
Fernando Pessoa
Sob estas árvores ou aquelas árvores
Sob estas árvores ou aquelas árvores
Conduzi a dança,
Conduzi a dança, ninfas singelas
Até ao amplo gozo
Que tomais da vida. Conduzi a dança
E sê quase humanas
Com o vosso gozo derramado em ritmos
Em ritmos solenes
Que a nossa alegria torna maliciosos
Para nossa triste
Vida que não sabe sob as mesmas árvores
Conduzir a dança...
Conduzi a dança,
Conduzi a dança, ninfas singelas
Até ao amplo gozo
Que tomais da vida. Conduzi a dança
E sê quase humanas
Com o vosso gozo derramado em ritmos
Em ritmos solenes
Que a nossa alegria torna maliciosos
Para nossa triste
Vida que não sabe sob as mesmas árvores
Conduzir a dança...
1 393
Fernando Pessoa
Meia volta, toda a volta,
Meia volta, toda a volta,
Muitas voltas de dançar...
Quem tem sonhos por escolta
Não é capaz de parar.
Muitas voltas de dançar...
Quem tem sonhos por escolta
Não é capaz de parar.
1 632
Fernando Pessoa
Toda a noite ouvi os cães
Toda a noite ouvi os cães
P’ra manhã ouvi os galos.
Tristeza — vem ter connosco.
Prazeres — é ir achá-los.
P’ra manhã ouvi os galos.
Tristeza — vem ter connosco.
Prazeres — é ir achá-los.
1 286
Fernando Pessoa
Tudo se funde no movimento
Tudo se funde no movimento
(...)
E cada arbusto fitado
Nem é o terceiro que está a seguir.
A bondade da chama nocturna em casas distantes,
Os lares dos outros meras estrelas humanas na noite
A indefinida felicidade para nós de ver outros a distância.
(...)
E cada arbusto fitado
Nem é o terceiro que está a seguir.
A bondade da chama nocturna em casas distantes,
Os lares dos outros meras estrelas humanas na noite
A indefinida felicidade para nós de ver outros a distância.
1 396
Fernando Pessoa
FAUSTO— Viva a vida! Te digo, amigo, viva!
Viva a vida! Te digo, amigo, viva!
Viva a vida, que é tudo, e mais não há!
Viva a vida, que é tudo, e mais não há!
1 456
Fernando Pessoa
O que é haver ser
O que é haver ser, o que é haver seres, o que é haver coisas,
O que é haver vida em plantas e nas gentes,
E coisas que a gente constrói —
Maravilhosa alegria de coisas e de seres —
Perante a ignorância em que estamos de como isto tudo pode ser.
O que é haver vida em plantas e nas gentes,
E coisas que a gente constrói —
Maravilhosa alegria de coisas e de seres —
Perante a ignorância em que estamos de como isto tudo pode ser.
988
Fernando Pessoa
Cantemos que a vida
Cantemos que a vida
De nada nos serve
Que em nós a garrida
Canção desmedida
De vinho referve!
Cantemos, cantemos,
É medrosa a dor
E pegando em remos,
Buscando-as iremos
Às praias do amor!
Cantemos as belas
Que sabem amar,
Vamos que as estrelas,
Sem pudor ou cautelas
Nos vêm escutar!
De nada nos serve
Que em nós a garrida
Canção desmedida
De vinho referve!
Cantemos, cantemos,
É medrosa a dor
E pegando em remos,
Buscando-as iremos
Às praias do amor!
Cantemos as belas
Que sabem amar,
Vamos que as estrelas,
Sem pudor ou cautelas
Nos vêm escutar!
1 417
Giuseppe Ungaretti
Manhã
Manhã
Ilumino-me
de imenso
Tradução de Sérgio Wax
Mattina
M'illumino
d'immenso
3 645
Sandro Penna
O mar é todo azul
O mar é todo azul.
O mar é todo calmo.
Em mim há quase um urro
de gozo. E tudo é calmo.
:
Il mare è tutto azzurro.
Il mare è tutto calmo.
Nel cuore è quasi un urlo
di gioia. E tutto è calmo
de Poesie (1939)
O mar é todo calmo.
Em mim há quase um urro
de gozo. E tudo é calmo.
:
Il mare è tutto azzurro.
Il mare è tutto calmo.
Nel cuore è quasi un urlo
di gioia. E tutto è calmo
de Poesie (1939)
1 019
Gerard Reve
Paraíso
Eu era um urso muito grande que era muito amável.
Deus era um burro que me tinha em alta conta.
E todo mundo era muito contente.
:
Paradijs
Ik was een heel erg grote beer die toch heel lief was.
God was een Ezel en hield veel van mij.
En iedereen was erg gelukkig.
Deus era um burro que me tinha em alta conta.
E todo mundo era muito contente.
:
Paradijs
Ik was een heel erg grote beer die toch heel lief was.
God was een Ezel en hield veel van mij.
En iedereen was erg gelukkig.
776
Luís Vianna
DIA LINDO
Hoje estou feliz,
Por isto escrevo às flores.
Às flores que ofereço
Aos meus amores.
05/12/1995
Por isto escrevo às flores.
Às flores que ofereço
Aos meus amores.
05/12/1995
963
Anna Maria Feitosa
Iluminado
Ando em busca
do ponto de equilíbrio
entre o aqui
e o agora
Perco os limites
do tempo
sigo lenta.
Pensando como quem dorme
falando
como quem sonha
amando
como quem pode.
Vejo a vida
de olhos claros
translúcidos
coloridos
como vinho
iluminado.
do ponto de equilíbrio
entre o aqui
e o agora
Perco os limites
do tempo
sigo lenta.
Pensando como quem dorme
falando
como quem sonha
amando
como quem pode.
Vejo a vida
de olhos claros
translúcidos
coloridos
como vinho
iluminado.
851
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