Dor e Desespero

Poemas neste tema

José Craveirinha

José Craveirinha

Gente a trouxe-mouxe

Gente à trouxe-mouxe da má sorte
calcorreia a pátria asilando-se onde
não cheira a bafo
de bazucadas.

Gente que gastronomiza
desapetitosos bifes de cascas
guisados de raízes ao natural
e sobremesas de capim seco.

Gente dessedentando martírios
nos charcos se chover.
...
ou a pé descalço dançando.
A castiça folia.
Das minas.
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José Craveirinha

José Craveirinha

Prótese bucal

Insolente
desalegria do riso
em patético mau senso de humor

e da sardónica dentadura alvar
ao bel-prazer das lâminas
que lhe desbeiçaram
a boca.
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José Craveirinha

José Craveirinha

A boca

Jucunda boca
deslabiada a ferozes
júbilos de lâmina
afiada.

Alva dentadura
antónima do riso
às escâncaras desde a cilada.

Exotismo de povo flagelado
esse atroz formato
da fala.
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José Craveirinha

José Craveirinha

Carreira de Gaza

Escusado fazer pontaria.
Chusmas de rajadas acertam sempre.

Povo armado de maternitude e velhice
esgota a lotação das carreiras de Gaza
rumo à saudade de onde saiu.

Objectivo estratégico de maternitude
machibombo da carreira de Gaza
atingido em cheio calcinou.

A mãe que dava o peito ao bebé de três meses
foi removida assim mesmo.
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Antonio Fernando De Franceschi

Antonio Fernando De Franceschi

Sílex

face angular
que cavo a talho
esta em que me mudo
reiterado
cópia provável de mim
no mudo rosto
e abrasado golpe
que desfecho:

minha antes não fosse
a dor
e a mão crispada
que desce
fere
e me desvela pedra


In: DE FRANCESCHI, Antonio Fernando. Sal. São Paulo: companhia das Letras, (1989). Poema integrante da série Perfis em Pedra.
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Paulo Leminski

Paulo Leminski

Rosa Rilke Raimundo Correia

Uma pálpebra,
Mais uma, mais outras,
Enfim, dezenas
De pálpebras sobre pálpebras
Tentando fazer
Das minhas trevas
Alguma coisa a mais
Que lágrimas

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Paulo Leminski

Paulo Leminski

KAI

Mínimo templo
para um deus pequeno,
aqui vos guarda,
em vez da dor que peno,
meu extremo anjo de vanguarda.

De que máscara
se gaba sua lástima,
de que vaga
se vangloria sua história,
saiba quem saiba.

A mim me basta
a sombra que se deixa,
o corpo que se afasta.

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Paulo Leminski

Paulo Leminski

que tudo se foda

-- que tudo se foda,
disse ela,
e se fodeu toda

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Paulo Leminski

Paulo Leminski

Um homem com uma dor

um homem com uma dor
é muito mais elegante
caminha assim de lado
como se chegasse atrasado
andasse mais adiante

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Fernando Namora

Fernando Namora

Intervalo

Quando nasci,
em rendas e afagos
Os rouxinóis vinham com a aurora esperar a Primavera
Mas o seu canto
Emudeceu de espanto
Como se o meu choro os degolasse.
Minha mãe, nessa noite,
Sonhara com o aceno húmido de um lenço
Branco
Num dia de partida.
Ó Terra
eu cheguei e tu ficaste ainda.
Porque não estoiraste se foste iludida

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Rogaciano Leite Filho

Rogaciano Leite Filho

Relógio

No tic-tac do tempo
o mundo passa.
Presa entre cordas
e correntes,
a mente se cala.
E a vida passa.
Sofrendo e morrendo
entre canhões e balas
o sangue se coalha.
E o tempo vai.
Correndo com fome
entre muros altos e duros
o homem se perde.
Mas, a vida passa.

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Caetano Ximenes Aragão

Caetano Ximenes Aragão

Poema

João vivia no precisado
de pertences só os penduricalhos

Maria vivia no acontecido
de emprenhar todos os anos

Seus filhos viviam de morrer
sem saber, antes do tempo.

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Mário Hélio

Mário Hélio

25-V(A angústia)

a angústia é um barco
a angústia é um porto

a angústia é uma semente
na mente da carne do homem
louco que morre sem saber

a angústia é um homem
excessivamente morto

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Manuel Geraldo

Manuel Geraldo

Memória II

E à tarde
Os soldados voltavam

Traziam feridas
E balas a menos
Traziam memórias
De sonhos traídos
Traziam fadigas
De corpos caídos

Nos sacos e rostos
Traziam o regresso
Traziam memórias

Soldados sem armas
Voltavam em transe
Não eram os mesmos

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Manuel Geraldo

Manuel Geraldo

Memória III

Pardas
as noites

Bazucas rasantes
Uivos de medo

Palhotas queimadas
Silêncios vaiados

Rajadas em fúria

Velhos crianças
De corpos varados

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Manuel Geraldo

Manuel Geraldo

Memória I

Barco de fumo
Cérebros e ventres
Napalm e capim

Gatilho de arma
Espoleta e granada

Crâneos desfeitos
Vomitar de náuseas
Capim em fogo
Homens e gritos
Estoiros e rajadas

Vómitos de sangue
Alienação de um povo

Barco de fumo
Voltar à terra
Nascer de novo

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Leila Cristina de Carvalho

Leila Cristina de Carvalho

Paradoxo

Meu coração partiu-se
Em duas partes iguais
Uma chora loucamente
Outra ri docemente
Uma é névoa negra
Outra nuvem cor-de-rosa
Uma é ferida que sangra
Outra riacho manso
Uma fez-se noite eterna
Outra repousa em silêncio.

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Eunice Arruda

Eunice Arruda

Outra Dúvida

Não sei se é
amor

ou

minha vida que pede
socorro

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Cynara Novaes

Cynara Novaes

Ausência

Partida
ida
parte que fica
parte que vai
Afinal quem sofre?
Quem parte
ou quem fica
com a parte
de quem vai?

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João de Deus de Nogueira Ramos

João de Deus de Nogueira Ramos

A Enjeitadinha

— De que choras tu, anjinho?
"Tenho fome e tenho frio!"
— E só por este caminho
Como a ave que caiu
Ainda implume do ninho!...
A tua mãe já não vive?

"Nunca a vi em minha vida;
Andei sempre assim perdida,
E mãe por certo não tive!"
— És mais feliz do que eu,
Que tive mãe e... morreu!

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Almeida Garrett

Almeida Garrett

Víbora

Como a víbora gerado,
No coração se formou
Este amor amaldiçoado
Que à nascença o espedaçou.

Para ele nascer morri;
E em meu cadáver nutrido,
Foi a vida que eu perdi
A vida que tem vivido.
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José Tolentino Mendonça

José Tolentino Mendonça

Os Girassóis

Às vezes ouves-me chorar
não é fácil deixar a tua mão

De quarto em quarto
quem espera
o terror de não haver ninguém

As paisagens alteram-se sem resolução
narrativas imortais desaparecem
e os girassóis assim
vulneráveis a desconhecidas ordens

Tu estás tão perto
mas sofro tanto
porque não vejo
como possa falar de ti
entre dois ou três séculos

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Murillo Mendes

Murillo Mendes

A Tentação

Diante do crucifixo
Eu paro pálido tremendo:
"Já que és o verdadeiro filho de Deus
Desprega a humanidade desta cruz".
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Alejandra Pizarnik

Alejandra Pizarnik

Poema

Poema

Tú eliges el lugar de la herida

en donde hablamos nuestro silencio

Tú haces de mi vida

esta ceremonia demasiado pura.

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