Desilusão e Desamor

Poemas neste tema

Afonso X

Afonso X

Dom Meendo, Vós Veestes

Dom Meendo, vós veestes
falar migo noutro dia;
e na fala que fezestes
perdi eu do que tragia.
       Ar quer[r]edes falar migo
       e nom querrei eu, amigo.
899
Afonso Mendes de Besteiros

Afonso Mendes de Besteiros

Que Sem Meu Grado Me Parti

Que sem meu grado me parti
de mia senhor e do meu bem,
que quero melhor doutra rem!
E em grave dia naci
por eu nunca poder veer,
poila nom vi, nẽum prazer!
[...]
527
Mário-Henrique Leiria

Mário-Henrique Leiria

ÚLTIMA TENTAÇÃO

E então ela quis tentá-lo definitivamente. Olhou bem em volta, com extrema atenção. Mas só conseguiu encontrar uma pêra pequenina e pálida.
Ficaram os dois numa desesperante frustação.
Não há dúvida que o Paraíso está a tornar-se cada vez mais chato!
523
Paulo Henriques Britto

Paulo Henriques Britto

MADRIGAL

Desista: não vai dar certo.
O mundo é o mesmo de sempre,
desejo é uma coisa cega.
Desista, enquanto é tempo.

As mãos não sabem o que pegam,
os pés vão aonde não sabem.
As cartas estão marcadas:
vai dar desgraça na certa.

O mundo é sempre a esmo,
desejo é uma porta aberta.
Desista, que a vida é incerta.
Ou insista. Dá no mesmo.
789
Simone Brantes

Simone Brantes

Diálogo

I
Eu disse a ela
que eu tenho um
bom coração
Ela disse
sim claro que
você tem
quando tem
coração

II
Olha aqui,
eu falei,
esse
poeminha
nós duas
que fizemos
juntas
Ela respondeu
engano seu
o poema é todo
meu
você
só escreveu
461
Luís Quintais

Luís Quintais

Passos

Escutaste os passos
no quarto
semi-escurecido
pela tua derrota?

Não eram teus,
mas do que amaste:

os passos
do que esqueces.
735
Mauro Mota

Mauro Mota

A divina mentira

Eu dizia:
“Quando ela partir eu hei de chorar tanto…
Serei a imagem da melancolia
toda cheia de pranto…”

No entanto,
uma lágrima, sequer, dos meus olhos caiu…
Eu não senti saudade — a mais leve emoção! —
— Quando ela partiu
levou meu coração!…
669
Mário Cláudio

Mário Cláudio

Feles

Por todo um Inverno,
O amor lhe dilacerou o ventre,
Com fundas garras de gelo.

E a Primavera zumbiu,
Sobre sua cabeça,
Numa vertigem de pólen.

Senta-se agora,
Junto à lareira do Outono,
E é um bule de porcelana.
1 178
Armando Cortes-Rodrigues

Armando Cortes-Rodrigues

Canção do Mar Aberto

Onde puseram teus olhos
A mágoa do teu olhar?
Na curva larga dos montes
Ou na planura do mar?

De dia vivi este anseio;
De noite vem o luar,
Deixa uma estrada de prata
Aberta para eu passar.

Caminho por sobre as ondas
Não paro de caminhar.
O longe é sempre mais longe…
Ai de mim se me cansar!...

Morre o meu sonho comigo,
Sem te poder encontrar
718
José Paulo Paes

José Paulo Paes

Outro Retrato

O laço de fita
que prende os cabelos
da moça do retrato
mais parece uma borboleta.

Um ventinho qualquer
e sai voando
rumo a outra vida
além do retrato.

Uma vida onde os maridos
nunca chegam tarde
com um gosto amargo
na boca.
1 110
Salgado Maranhão

Salgado Maranhão

Do Raio

Nem o acre sabor das uvas
nos aplaca. Nem a chuva

nos olhos incendidos
devolve o que é vivido.

O magma que nos evapora
tange o rascunho das horas

sob um raio de suspense.
Nem o que é nosso nos pertence.
712
Charles Bukowski

Charles Bukowski

quatro

a sabedoria de desistir
é tudo o que nos
restou

969
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Alguma Coisa

estou sem fósforos.
as molas de meu sofá
estouraram.
roubaram minha maleta.
roubaram minha tela a óleo de
dois olhos rosados.
meu carro quebrou.
lesmas escalam as paredes de meu banheiro.
meu coração está partido.
mas as ações tiveram um dia de alta
no mercado.
1 022
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Encurralado

não dispa o meu amor
você pode encontrar um manequim;
não dispa um manequim
você pode encontrar
o meu amor.

ela há muito tempo
me esqueceu.

ela experimenta um novo
chapéu
e parece mais
coquete
do que nunca.

ela é uma
criança
e um manequim
e
é a morte.

não tenho como odiar
isso.

ela não faz
nada fora do
comum.

queria apenas que ela
fizesse.
612
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Madrigal do Pé para a Mão

Teu pé... Será início ou é
Fim? E as duas coisas teu pé.

Por quê? Os motivos são tantos!
Resumo-os sem mais tardanças:
Início dos meus encantos,
Fim das minhas esperanças.
1 064
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Canção

Mandaste a sombra de um beijo
Na brancura de um papel:
Tremi de susto e desejo,
Beijei chorando o papel.

No entanto, deste o teu beijo
A um homem que não amavas!
Esqueceste o meu desejo
Pelo de quem não amavas!

Da sombra daquele beijo
Que farei, se a tua boca
É dessas que sem desejo
Podem beijar outra boca?
1 474
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

O Amor, a Poesia, As Viagens

Atirei um céu aberto
Na janela do meu bem:
Caí na Lapa — um deserto...
— Pará, capital Belém !...
839
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Esclerose Amorosa

O que fazíamos no leito?
De tua voz já nem me lembro.
Tuas pernas dissolvem-se na neblina.
Havia uivos de gozo?
Nem dos seios sei exatamente.
O que eu fazia? O que fazias?
Ah! uma vaga lembrança
a que nem amor eu chamaria.
No entanto, parece que eu sofria.
Sofria?
Já não me lembro por que sofria.
1 066
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Amor E Ódio

Amor, te odeio
pelo que me fazes sofrer,
te odeio
porque não paro
de te querer,
te odeio porque sofro,
e, vivo, morro,
te odeio porque
em ti naufrago
quando era de ti
que tinha que vir
o meu socorro.
1 213
Pablo Neruda

Pablo Neruda

XLVI

E como se chama esse mês
que está entre dezembro e janeiro?

Com que direito numeraram
as doces uvas do racimo?

Por que não nos deram extensos
meses que durem todo o ano?

Não te enganou a primavera
com beijos que não floresceram?
1 057
Ana Martins Marques

Ana Martins Marques

guarda-roupa

seu vestido de verão
sem você dentro
não é um vestido de verão
porque no vestido o verão
era você


Da série “Arquitetura de interiores”
1 112
José Saramago

José Saramago

Até Ao Fim do Mundo

É tempo já, Inês, o mundo acaba
Em que amor foi possível e urgente;
A promessa talhada nessa pedra,
Ou é cumprida hoje, ou tudo mente.
1 065
José Saramago

José Saramago

Natal

Nem aqui, nem agora. Vã promessa
Doutro calor e nova descoberta
Se desfaz sob a hora que anoitece.
Brilham lumes no céu? Sempre brilharam.
Dessa velha ilusão desenganemos:
É dia de Natal. Nada acontece.
2 354
José Saramago

José Saramago

Sé Velha de Coimbra

Aqui, onde estas pedras marteladas
Em forma de esconjuro e alçapão,
De estátuas e colunas disfarçadas,
A luz me prometeram, com o pão;
Aqui, onde o silêncio mais profundo
Sob o passo do homem se tornou:
Nem primeiro aqui houve nem segundo,
Foi Deus chamado aqui e não falou.
1 220