Desejo

Poemas neste tema

Maria Teresa Horta

Maria Teresa Horta

Gozo X

São de alumínio
os flancos
e de feltro a língua

de felpa ou seda
a abertura incerta
que cede breve a humidade
esguia
presa no quente do interior
da pedra

Ou musgo doce
de haste sempre dura
de onde pendem seus dois mansos frutos
que a boca aflora e os dentes prendem
a tatear-lhes
o hálito e o suco

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Paulo Montalverne

Paulo Montalverne

Luxúria

Quero descobrir
Teu corpo, teu suor
Percorrendo, correndo
Sem pressa os instintos.
Deixar mãos
Colarem pernas
Marcarem seios
Rasgarem bocas.
Quero tua descoberta
Feita em meu corpo
Na luxúria nossa de cada dia.

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David Mourão-Ferreira

David Mourão-Ferreira

Inscrição estival

Ó grande plenitude!

E a tudo
a tudo alheio,
saboreio.

Absorto
sorvo
este cacho de uvas
tão maduras...

Este cacho de curvas que é o teu corpo.

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Maria Teresa Horta

Maria Teresa Horta

Gozo VII

São as tuas nádegas
na curva dos meus dedos

as tuas pernas
atentas e curvadas

O cravo – o crivo
sabor da madrugada
no manso odor do mar das tuas
espáduas

E se soergo com as mãos
as tuas coxas
e acerto o corpo no calor
das vagas

logo me vergas

e és tu então
que tens os dedos
agora
em minha nádegas

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Ivan Miziara

Ivan Miziara

A concha

Da concha
rubra
retiro
fluida
alva
tuas líquidas
sementes
que trago
entredentes

Na concha
rubra
mergulho
com a ponta
do arpão
que perturba
e escuta
teu íntimo
rumor

Na concha
rubra
busco
a pérola
úmida
ardente
que me faz
ser
quem sou

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Maria Teresa Horta

Maria Teresa Horta

Gozo IX

Ondula mansamente a tua língua
de saliva tirando
toda a roupa...

já breves vêm os dias
dentro de noites já
poucas.

Que resta do nosso
gozo
se parares de me beijar?

Oh meu amor...
devagar...
até que eu fique louca!

Depois... não vejas o mar
afogado em minha
boca!

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Paulo Leminski

Paulo Leminski

Sossegue coração

sossegue coração
ainda não é agora
a confusão prossegue
sonhos afora

calma calma
logo mais a gente goza
perto do osso
a carne é mais gostosa

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David Mourão-Ferreira

David Mourão-Ferreira

Segredo

Nem o tempo tem tempo
Para sondar as trevas
Deste rio correndo
Entre a pele e a pele
Nem o Tempo tem tempo
Nem as trevas dão tréguas
Não descubro o segredo
Que o teu corpo segrega.
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João de Jesus Paes Loureiro

João de Jesus Paes Loureiro

Poema

As palavras arfando entre virilhas
entre lábios
cópulas de consoantes e vogais.
Saboreadas palavras
defloradas palavras
túmidas palavras
ávidas
oh! palavras
arfando umidamente entre pentelhos.
Suor. Calor. Odor. Linguagem. Gozo.

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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Sei que nunca terei o que procuro

Sei que nunca terei o que procuro
E que nem sei buscar o que desejo,
Mas busco, insciente, no silêncio escuro
E pasmo do que sei que não almejo.


10/04/1927
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Herberto Helder

Herberto Helder

I A

A uma devagarosa mulher com a boca
do corpo cheia de sangue e a boca
do rosto cheia
de respiração, por cinco dedos meus
esquerdos, na curta duração de tudo,
a curta canção que pulsa
do fundo de si mesma:
a uma devagarosa mulher no mundo.
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Martim Codax

Martim Codax

Eno Sagrado Em Vigo

Eno sagrado em Vigo
bailava corpo velido.
       Amor hei!

Em Vigo, no sagrado
bailava corpo delgado.
       Amor hei!

Bailava corpo velido
que nunc'houver'amigo.
       Amor hei!

Bailava corpo delgado
que nunc'houver'amado.
       Amor hei!

Que nunc'houver'amigo
ergas no sagrad'em Vigo.
       Amor hei!

Que nunc'houver'amado
ergas em Vigo no sagrado.
       Amor hei!
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Marina Colasanti

Marina Colasanti

Sim, mas também

Porque é meu amor
põe a mão em mim
em qualquer lugar
sem que a carne crispe.

Porque é meu amor
em qualquer lugar
onde ponha a mão
toda me estremece.
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Noite

Mais uma vez encontro a tua face,
Ó minha noite que eu julguei perdida.

Mistério das luzes e das sombras
Sobre os caminhos de areia,

Rios de palidez em que escorre
Sobre os campos a lua cheia,

Ansioso subir de cada voz,
Que na noite clara se desfaz e morre.

Secreto, extasiado murmurar
De mil gestos entre a folhagem,

Tristeza das cigarras a cantar.

Ó minha noite, em cada imagem
Reconheço e adoro a tua face,
Tão exaltadamente desejada,
Tão exaltadamente encontrada,
Que a vida há-de passar, sem que ela passe,
Do fundo dos meus olhos onde está gravada.
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Quero Me Casar

Quero me casar
na noite na rua
no mar ou no céu
quero me casar.

Procuro uma noiva
loura morena
preta ou azul
uma noiva verde
uma noiva no ar
como um passarinho.

Depressa, que o amor
não pode esperar!
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Boca

Boca: nunca te beijarei.
Boca de outro, que ris de mim,
no milímetro que nos separa,
cabem todos os abismos.

Boca: se meu desejo
é impotente para fechar-te,
bem sabes disto, zombas
de minha raiva inútil.

Boca amarga pois impossível,
doce boca (não provarei),
ris sem beijo para mim,
beijas outro com seriedade.
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Nuno Júdice

Nuno Júdice

Amor

Bêbedo da luz pálida dos teus olhos,
esvazio ainda o teu copo; e voltas a enchê-lo,
sabendo que é inesgotável esta sede!


Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 41 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Aquelas Que Exaltadas E Secretas

Aquelas que exaltadas e secretas
À janela espreitaram inquietas
O rumor do poente nas estradas,
Julgaram vir de ti essa passagem
Contida na beleza da paisagem.
Solitárias mordendo a sua fome
Percorrem o silêncio dos jardins
E vão gritando às sombras o teu nome.
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Xii. Cupidez Roendo o Verde Emergir Das Ilhas a Barlavento

Cupidez roendo o verde emergir das ilhas a barlavento
Cupidez roendo o rosto nu do encontro
1982
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Intervalo Ii

Dai-me um dia branco, um mar de beladona
Um movimento
Inteiro, unido, adormecido
Como um só momento.

Eu quero caminhar como quem dorme
Entre países sem nome que flutuam.

Imagens tão mudas
Que ao olhá-las me pareça
Que fechei os olhos.

Um dia em que se possa não saber.
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Luar

Toma-me ó noite em teus jardins suspensos
Em teus pátios de luar e de silêncio
Em teus adros de vento e de vazio.

Noite
Bagdad debruçada no teu rio
País dos brilhos e do esquecimento
Com teu rumor de cedros e teu lento
Círculo azul do tempo.
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Se Alguém Passa Agora Nos Areais

Se alguém passa agora nos pinhais,
Diz,
Em gestos plenos e naturais,
Tudo o que eu, tão em vão, perdidamente quis.
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Em Minha Frente Caminhas

Em minha frente caminhas
Pesado do teu desejo,
Pesado da tua graça,
E as tuas mãos tocam as coisas que hão-de vir
E a sua sombra cobre a tua face.

E em tua frente estou suplicante e exausta
Pois a tua vinda apaga
Os meus frágeis gestos de alegria.
E em tua frente estou suplicante e exausta
Pois a tua vinda quebra
A minha vida.

Às vezes todo o dia o teu sorriso
Está presente em cada coisa:
No fundo dos espelhos e nos vidros,
No vermelho das rosas e nos astros.
E através dessa presença caminho em delírio
Para o grande cintilar dos teus desastres
Onde me quero destruir.
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Há Jardins Invadidos de Luar

Há jardins invadidos de luar
Que vibram no silêncio como liras.
Segura o teu amor entre os teus dedos
Neste jardim de Abril em que respiras.

A vida não virá — as tuas mãos
Não podem colher noutras a doçura
Das flores baloiçando ao vento leve.

Fosse o teu corpo feito de luar,
Fosses tu o jardim cheio de lagos,
As árvores em flor, a profusão
Da sua sombra negra nos caminhos.
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