Corpo
Poemas neste tema
António Borges Coelho
Não tenhas medo
Não tenhas medo do sangue aberto
do corpo enfeitado pelas balas
do corpo enfeitado pelas balas
805
1
Martim Codax
Eno Sagrado Em Vigo
Eno sagrado em Vigo
bailava corpo velido.
Amor hei!
Em Vigo, no sagrado
bailava corpo delgado.
Amor hei!
Bailava corpo velido
que nunc'houver'amigo.
Amor hei!
Bailava corpo delgado
que nunc'houver'amado.
Amor hei!
Que nunc'houver'amigo
ergas no sagrad'em Vigo.
Amor hei!
Que nunc'houver'amado
ergas em Vigo no sagrado.
Amor hei!
bailava corpo velido.
Amor hei!
Em Vigo, no sagrado
bailava corpo delgado.
Amor hei!
Bailava corpo velido
que nunc'houver'amigo.
Amor hei!
Bailava corpo delgado
que nunc'houver'amado.
Amor hei!
Que nunc'houver'amigo
ergas no sagrad'em Vigo.
Amor hei!
Que nunc'houver'amado
ergas em Vigo no sagrado.
Amor hei!
1 157
1
José Paulo Paes
À MINHA PERNA ESQUERDA
Pernas
para que vos quero?
Se já não tenho
por que dançar,
Se já não pretendo
ir a parte alguma.
Pernas?
Basta uma.
para que vos quero?
Se já não tenho
por que dançar,
Se já não pretendo
ir a parte alguma.
Pernas?
Basta uma.
1 982
1
Marina Colasanti
Sim, mas também
Porque é meu amor
põe a mão em mim
em qualquer lugar
sem que a carne crispe.
Porque é meu amor
em qualquer lugar
onde ponha a mão
toda me estremece.
põe a mão em mim
em qualquer lugar
sem que a carne crispe.
Porque é meu amor
em qualquer lugar
onde ponha a mão
toda me estremece.
1 242
1
José Saramago
Antes Calados
E se os ossos rangessem quando os gritos
Dentro no sangue negro se amordaçam?
E se os olhos uivassem quando a lágrima
Grossa de sal amargo rasga a pele?
E se as unhas mudadas em navalhas
Abrissem dez caminhos de desforra?
E se os versos doessem mastigados
Entre dentes que mordem o vazio?
(Mais perguntas, amor? Antes calados.)
Dentro no sangue negro se amordaçam?
E se os olhos uivassem quando a lágrima
Grossa de sal amargo rasga a pele?
E se as unhas mudadas em navalhas
Abrissem dez caminhos de desforra?
E se os versos doessem mastigados
Entre dentes que mordem o vazio?
(Mais perguntas, amor? Antes calados.)
1 015
1
Carlos Drummond de Andrade
Liberdade
O pássaro é livre
na prisão do ar.
O espírito é livre
na prisão do corpo.
Mas livre, bem livre,
é mesmo estar morto.
na prisão do ar.
O espírito é livre
na prisão do corpo.
Mas livre, bem livre,
é mesmo estar morto.
2 671
1
António Ramos Rosa
Numa Fronte Ausente
Terra e noite,
as mãos escavam.
Insistem e desfazem-se
numa fronte ausente.
Na cabeça subsistem
algumas palavras inúteis.
A mão devagar traça
— vai traçar —
uma rede de sinais de que dependo.
A luz descobre o corpo.
Algumas palavras a mais desaparecem.
Neste instante
a pedra é nua.
as mãos escavam.
Insistem e desfazem-se
numa fronte ausente.
Na cabeça subsistem
algumas palavras inúteis.
A mão devagar traça
— vai traçar —
uma rede de sinais de que dependo.
A luz descobre o corpo.
Algumas palavras a mais desaparecem.
Neste instante
a pedra é nua.
2 266
1
Edmir Domingues
Dístico para as portas do Recife
A quem vem se diga:
percorra a cidade
como quem afaga
o corpo despido
da mulher amada.
Que o faça pois com
carinho e cuidado.
1 518
1
Jorge Luis Borges
Carnicería
Más vil que un lupanar
la carnicería rubrica como una afrenta la calle.
Sobre el dintel
una ciega cabeza de vaca
preside el aquelarre
de carne charra y mármoles finales
con la remota majestad de un ídolo.
"Fervor de Buenos Aires", 1923
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 34 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
la carnicería rubrica como una afrenta la calle.
Sobre el dintel
una ciega cabeza de vaca
preside el aquelarre
de carne charra y mármoles finales
con la remota majestad de un ídolo.
"Fervor de Buenos Aires", 1923
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 34 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
3 469
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
Nocturno
Acordo quando os muros são o medo,
Acordo quando o tempo cai contado,
E no meu quarto entra o arvoredo,
E se desfolha ao longo dos meus membros.
Acordo quando a aurora nas paredes
Desenha nardos brancos e macios,
Acordo quando o sono vos convence
De que sois rios.
Acordo quando o tempo cai contado,
E no meu quarto entra o arvoredo,
E se desfolha ao longo dos meus membros.
Acordo quando a aurora nas paredes
Desenha nardos brancos e macios,
Acordo quando o sono vos convence
De que sois rios.
2 003
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
Dança
O quarto verde, os peixes da penumbra
Peso duplo do corpo no vazio
Gesto dilacerando os nós do frio.
Peso duplo do corpo no vazio
Gesto dilacerando os nós do frio.
2 101
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
Corpo
Corpo serenamente construído
Para uma vida que depois se perde
Em fúria e em desencontro vivido
Contra a pureza inteira dos teus ombros.
Pudesse eu reter-te no espelho
Ausente e mudo a todo outro convívio
Reter o claro nó dos teus joelhos
Que vão rasgando o vidro dos espelhos.
Pudesse eu reter-te nessas tardes
Que desenhavam a linha dos teus flancos
Rodeados pelo ar agradecido.
Corpo brilhante de nudez intensa
Por sucessivas ondas construído
Em colunas assente como um templo.
Para uma vida que depois se perde
Em fúria e em desencontro vivido
Contra a pureza inteira dos teus ombros.
Pudesse eu reter-te no espelho
Ausente e mudo a todo outro convívio
Reter o claro nó dos teus joelhos
Que vão rasgando o vidro dos espelhos.
Pudesse eu reter-te nessas tardes
Que desenhavam a linha dos teus flancos
Rodeados pelo ar agradecido.
Corpo brilhante de nudez intensa
Por sucessivas ondas construído
Em colunas assente como um templo.
2 341
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
Mãos
Côncavas de ter
Longas de desejo
Frescas de abandono
Consumidas de espanto
Inquietas de tocar e não prender.
Longas de desejo
Frescas de abandono
Consumidas de espanto
Inquietas de tocar e não prender.
4 298
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
Sua Beleza
Sua beleza é total
Tem a nítida esquadria de um Mantegna
Porém como um Picasso de repente
Desloca o visual
Seu torso lembra o respirar da vela
Seu corpo é solar e frontal
Sua beleza à força de ser bela
Promete mais do que prazer
Promete um mundo mais inteiro e mais real
Como pátria do ser
Tem a nítida esquadria de um Mantegna
Porém como um Picasso de repente
Desloca o visual
Seu torso lembra o respirar da vela
Seu corpo é solar e frontal
Sua beleza à força de ser bela
Promete mais do que prazer
Promete um mundo mais inteiro e mais real
Como pátria do ser
2 617
1
Raquel Nobre Guerra
Trapézio
subir por aquele rapaz acima
e chamar deus à vontade
de subir
e chamar deus à vontade
de subir
1 494
1
Sebastião Alba
Ícaro
Da Mafalala estorva-nos
a memória dos gregos
É um anjo negro segredado
e assim goza
de asas sussurrantes
Desce por entre
intervalos do vento
e findo o voo refunde
o modelo de cera
Como qualquer pássaro faz ninho
ele no vestido das mulheres
Sem céu fixo
exala a plumagem
da comum nudez interrompida.
a memória dos gregos
É um anjo negro segredado
e assim goza
de asas sussurrantes
Desce por entre
intervalos do vento
e findo o voo refunde
o modelo de cera
Como qualquer pássaro faz ninho
ele no vestido das mulheres
Sem céu fixo
exala a plumagem
da comum nudez interrompida.
1 225
1
Chico Doido de Caicó
Nunca comi Maria Antonieta Pons
Nunca comi Maria Antonieta Pons
Nunca comi Terezinha Morango
Nunca comi Elizabeth Taylor
Nunca comi Martha Rocha
Nunca comi Kim Novak
Mas comi todas as raparigas do Cai Pedaço
1 034
1
Juan Gelman
Semper
Teu corpo é alto como os pátios da infância
doce como a luz dos crepúsculos
e triste
teu corpo dura como o sol
doce como a luz dos crepúsculos
e triste
teu corpo dura como o sol
2 397
1
José Craveirinha
A boca
Jucunda boca
deslabiada a ferozes
júbilos de lâmina
afiada.
Alva dentadura
antónima do riso
às escâncaras desde a cilada.
Exotismo de povo flagelado
esse atroz formato
da fala.
deslabiada a ferozes
júbilos de lâmina
afiada.
Alva dentadura
antónima do riso
às escâncaras desde a cilada.
Exotismo de povo flagelado
esse atroz formato
da fala.
4 944
1
Arlindo Barbeitos
Em teus dentes
Em teus dentes
o sol
é diamante de fantasia
a lua
caco-de-garrafa
e
a mentira
verdade vagabunda
errando de cágado
em torno da lagoa dos olhos da noite
na treva aveludada
de tua pele
os dedos curiosos
são estrelas de marfim
à busca
de um dia caprichoso
despontando de miragem
por detrás das corcundas de elefantes adormecidos
o sol
é diamante de fantasia
a lua
caco-de-garrafa
e
a mentira
verdade vagabunda
errando de cágado
em torno da lagoa dos olhos da noite
na treva aveludada
de tua pele
os dedos curiosos
são estrelas de marfim
à busca
de um dia caprichoso
despontando de miragem
por detrás das corcundas de elefantes adormecidos
1 412
1
Fernando Paixão
41 [Vêm da terra os legumes
Vêm da terra os legumes
morrer no silêncio da sopa.
Incendeiam sabores
na língua
e iluminam trevas
da boca.
In: PAIXÃO, Fernando. Fogo dos rios. 2.ed. São Paulo: Brasiliense, 1991. p.3
morrer no silêncio da sopa.
Incendeiam sabores
na língua
e iluminam trevas
da boca.
In: PAIXÃO, Fernando. Fogo dos rios. 2.ed. São Paulo: Brasiliense, 1991. p.3
1 484
1
Neide Archanjo
Toca minha pele assim
Toca minha pele assim:
as costas com beijos lentos
a nuca com lábios roxos
as coxas com mãos noturnas.
Nada é mais suave
que teu cabelo solto
aberto como asa
sobre meu corpo.
Poema integrante da série Canto IV: Ilhas Idílicas.
In: ARCHANJO, Neide. As marinhas. Apres. Sônia Régis. Rio de Janeiro: Salamandra, 1984
as costas com beijos lentos
a nuca com lábios roxos
as coxas com mãos noturnas.
Nada é mais suave
que teu cabelo solto
aberto como asa
sobre meu corpo.
Poema integrante da série Canto IV: Ilhas Idílicas.
In: ARCHANJO, Neide. As marinhas. Apres. Sônia Régis. Rio de Janeiro: Salamandra, 1984
1 407
1
Affonso Ávila
Por Carmen Miranda
balangandãs
brinco de ouro e uma
bolota assim gozo os três
bês de carmen e
bambo na cama decodifico afinal o que é que a
baiana tem
Publicado no livro Masturbações (1980).
In: ÁVILA, Affonso. O visto e o imaginado. Ilustrações de Maria do Carmo Secco. São Paulo: Perspectiva: Edusp, 1990. p. 139. (Signos, 12
brinco de ouro e uma
bolota assim gozo os três
bês de carmen e
bambo na cama decodifico afinal o que é que a
baiana tem
Publicado no livro Masturbações (1980).
In: ÁVILA, Affonso. O visto e o imaginado. Ilustrações de Maria do Carmo Secco. São Paulo: Perspectiva: Edusp, 1990. p. 139. (Signos, 12
1 501
1
Alice Ruiz
lá ia eu
lá ia eu
toda exposta
àquele olhar
de garfo e faca
vendo
a mesa posta
minhas postas em fatias
ouvindo dos convivas
piadas macarrônicas
Publicado no livro Navalhanaliga (1980).
In: RUIZ, Alice. Pelos pelos. São Paulo: Brasiliense, 1984. (Cantadas literárias, 24
toda exposta
àquele olhar
de garfo e faca
vendo
a mesa posta
minhas postas em fatias
ouvindo dos convivas
piadas macarrônicas
Publicado no livro Navalhanaliga (1980).
In: RUIZ, Alice. Pelos pelos. São Paulo: Brasiliense, 1984. (Cantadas literárias, 24
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