Coragem e Força

Poemas neste tema

Angela Santos

Angela Santos

Além

E
disse o coração ao Homem:
que te não canse o olhar
que te não canse o sentir
que te não canse o andar
é sempre mais além
que te vais descobrir.

664
Angela Santos

Angela Santos

Ponte

Suspensos
ainda ontem,
sonhos
fugidias sombras, hoje
perdem-se à míngua de razão

Prenhe outro sonho
se agiganta entre ruínas
ponte lançada
entre o eu
e o futuro de mim.

derradeiro sobre-humano gesto
empurrando o que em nós se gera na rebelião
o que resiste e ensaia
a coragem que esmaga todos os nãos.

934
Angela Santos

Angela Santos

Recomeço

Recomeçar
como a força silenciosa
dos invernos

Recomeçar
leve a alma
vigilantes os sentidos

Recomeçar
e rasgar num voo
o espaço imenso
onde ainda possa
desenhar sem medos
o meu golpe de asa.

949
Angela Santos

Angela Santos

Asas

Do
cimo de uma falésia
olhou com olhos despidos de mágoa
dentro do sonho suspenso no tempo

e fez dos gestos um grito
de encontro ao silencio
dos que o olhavam.

Olhos abertos ao devir
e ao sonho,
esfinge resistindo ao tempo
afrontando o vago de almas
e o olhar sem deslumbre,
ao chão da evidência preso.

697
Angela Santos

Angela Santos

Além-Limite

Partir

rumo ao
ser secreto
que espera
viagem sempre adiada…

Seguir…
reter rostos e vozes
embriagar os sentidos
a tragos de vida.
e partir…

Navegar…
oceanos que nuns olhos inventar,
descobrir
na terra passos irmãos
entender
da vida os sinais
e seguir…

Ousar…
ir além-limite
num golpe de asa que ousando
chega a tocar o infinito

661
Carlos Nejar

Carlos Nejar

Cântico

Limarás
tua esperança
Até que a mó se desgaste;
Mesmo sem mó, limarás
Contra a sorte e o desespero.

Até que tudo te seja
Mais doloroso e profundo
Limarás sem mãos ou braços,
Com o coração resoluto.

Conhecerás a esperança,
Após a morte de tudo.

1 116
Carlos Nejar

Carlos Nejar

Inscrição

Aqui estou,
aberto o pórtico.
Serei breve no amor e no transporte.
O óbolo está pago, o dia resgatado
E a barca pronta, com seu barqueiro amargo.

Aos deuses não ouso nada,
nem compro,
senão o intervalo
de meu próprio espanto.

Carregai-me, barca
E ainda canto.

866
Terezinha Rezende Moreira

Terezinha Rezende Moreira

Semear

Semeia,

o que importa é semear
pouco, muito, tudo,
a semente da esperança.
Semeia
tuas energias para poderes
enfrentar as lutas
Semeia tua coragem
para poderes encorajar
o outro.
Semeia teu entusiasmo,
tua fé, o teu amor.
Semeia coisas pequeninas,
Insignificantes
semeia e confia
Cada semente
há de enriquecer,
um pedaço de chão.

2 405
Marcelo Ribeiro

Marcelo Ribeiro

Pássaro Ferido

Ferido
o pássaro que voa;
Bico entreaberto
Garras preparadas e penas eriçadas
O coração saltitando
Dentro do minúsculo peito
Coberto de penas alvas tingidas de rubro
O mais belo tom de rubro:
O vivo vermelho do sangue da liberdade

Ferido o pássaro que voa
Porém livre
1 146
José Paulo Moreira da Fonseca

José Paulo Moreira da Fonseca

Buscar a Rosa

Buscar a rosa no cimo dos penhascos,
a rosa supérflua e essencial,
perdida pelos ventos agrestes,
pelas grimpas sem-fim,
uma rosa dádiva —
e desprezares a morte
sob o céu azul.

905
Ruy Pereira e Alvim

Ruy Pereira e Alvim

Manifesto I - Contra o Vento

Príncipe,
cavaleiro audaz
espada cingida
ao pensamento;
Lança erguida
pelo advento
da Nação que faz.

Nem dúvida nem vento
que afaste o braço
criador do evento.
A História
é vontade
de ser
em movimento.

811
Noel de Arriaga

Noel de Arriaga

Circuito Fechado

Já regressei da viagem
Que me deixou no peito
Estranha tatuagem.

Marcada a ferro e fogo,
Mal que ma destinaram
Eu aceitei-a logo.

É glorioso sentir
A carne trespassada
Sem Missão a cumprir.

Sofrer só por sofrer,
Negando a covardia
Dum pretexto qualquer.

990
Joaquim Namorado

Joaquim Namorado

Legenda

Façam ruínas
do que me afirmo,
espalhem ao vento as cinzas
do que sou:
na parcela mais remota do que fui
estou.

1 849
Mário Donizete Massari

Mário Donizete Massari

A voz do louco II

Não sou louco não,
mas assumo
o gosto amargo da vida.

Não sou louco não,
mas do dia a dia
construo versos,
venço a fadiga,
e faço do cais
sempre um porto
seguro,
um ponto de partida
para galgar muros.

Não sou louco não,
ou melhor,
sou louco pela vida.

847
José de Paula Ramos Jr.

José de Paula Ramos Jr.

Lição de Elementos

Para faca, água;
para murro, terra;
para fera, fogo;
para vida, ar.

Em você se acanhe o medo,
em você se mostre a raça
de água, terra, fogo e ar.

792
José Eduardo Mendes Camargo

José Eduardo Mendes Camargo

Ouça

Quem silenciosamente
Provou o fel da dúvida,
Derramou lágrimas de tristeza,
Amargou longas esperas,
Sentiu-se só e abandonado,
Teve o descrédito de quase todos
E a tudo superou,
Hoje, nada assombra,
Tudo encanta,
Até mesmo os desencantos.

904
Idalina de Carvalho

Idalina de Carvalho

Sem Título

Quando a tarde
caía sobre nós
enegrecendo o céu
era como se a vida
nos fosse tirada
por momentos
que a crueldade
fazia eternos.

Mas amanhecia
sempre
e tínhamos o sol
o quintal
recheado de cenouras
e o balanço
na goiabeira
insistentes em nos
fazer crer que
sobrevivíamos.

868
Myriam Fraga

Myriam Fraga

Inquisição

Costuraram sua boca
Com alfinetes

E ele dizia que NÃO
E perguntavam.

E cortaram seus dedos
E o lançaram
Bem no fundo do poço

E ele dizia que não, que não, que não

E seus cabelos cresciam como chamas.

1 337
Myriam Fraga

Myriam Fraga

Minogram

Não te mires no espelho
Côncavo das virtudes.

Esquece o labirinto.

Não cogites,
Devora

1 216
Gabriel Archanjo de Mendonça

Gabriel Archanjo de Mendonça

Aclive

A montanha
é um convite obstinado
da consciência.
A antevisão da posse
compensa os sobressaltos
da escalada.
Oh, a vertigem do inusitado.
Os pés se ferem
na ferrugem de agulhas
regeladas.
Avalanchas de pranto
rolando estrepitosamente
entulham gargantas
escancaradas.

806
Fanny Luíza Dupré

Fanny Luíza Dupré

Verão

Sobe a piracema
desafiando a correnteza
do rio caudaloso.

Vestibular...
Entra para a faculdade
o candidato cego.

774
Donizete Galvão

Donizete Galvão

Silêncio

De pedra ser.

Da pedra ter

o duro desejo de durar.

Passem as legiões

com seus ossos expostos.

Chorem os velhos

com casacos de naftalina.

A nave branca chega ao porto

e tinge de vinho o azul do mar.

O maciço de rocha,

de costas para a cidade

sete vezes destruída,

celebra o silêncio.

A pedra cala

o que nela dói.

1 170
Marcial

Marcial

V, 76 - A CINA

Tanto bebeu Mitrídates veneno
Que mal nenhum já lhe poder fazia.
Tal como tu: de sempre cears tão mal,
Não podes, Cina, já morrer de fome.

556
Augusto de Campos

Augusto de Campos

O atirador

Viam-no, outra vez, cair de bruços,
baleado.
Mas viam outra vez erguer-se, invulnerável,
assombroso, terrível, abatendo-se
e aprumando-se, o atirador fantástico.

1 455