Memória
Poemas neste tema
Raquel Nobre Guerra
Objectos restantes
o tubo de tabaco Lucky Strike (seguramente)
e a pontuada consoante «só».
Coisas sem significado que se deixam ficar
como um piropo sem resposta.
Emprestei-me à ideia do erro trágico poder ser belo
rendi-me ao bandido, acomodei-me entre camas
talvez assim nos percamos irremediavelmente.
Mas que farei eu deste lado do muro?
Mover-me na medida da tua distância
para as habituais ratoeiras de estante.
A casa aos baldões porque me deixaste
os explosivos mas não a farmácia
os primeiros socorros e o «Ser e Tempo»
que, quando muito, me alinha um átomo.
Nenhum clássico alternativo ao homem
mudou alguma vez o fuso do mundo.
A malha cai, o gajo escapa
é uma rosa, senhor, de plástico.
Que direi eu deste lado da história?
Que tudo há-de ir para o escuro se até esta luz,
nossa única saúde, foi fechada à perna.
Se pudesse chegar à expressão certa
mentir-te com Deus e Rock & Roll,
perdão, uma pequena elipse,
porque não não foi a flor desse romântico inglês
nem o homem de Porlock mais o paraíso coitado,
quem nos baralhou tão perto de um final feliz.
Foi a noite do teu rosto na noite do meu rosto.
Assim.
Sou até capaz de enunciar as razões
ratazanas da mais afiada prosa roendo
até que o resultado seja outro.
Mas não consigo melhor que isto:
duas beatas tuas encolhidas na cinza.
Pertencem-me para sempre esses cadaverzinhos
que fumaste depois de me beijares ao alto
e arrastar a voz a um amo-te
com a força da luz extrema.
Manuel António Pina
Se falo
Se falo falta-me um
silêncio rápido no papel: entre as pernas.
Oh, nesse lugar me comovo! Perverso percurso
do corpo, aqui é a cama, o congresso.
Venais movimentos do corpo na cama; o peso.
Eu falo de mais. Não tenho palavras para isto.
Breve morte que sobre o coração
páras tua mortal perversão, a tua morte,
falta-me subitamente com a tua
mão e que eu morra como um corpo
dentro do coração da luz do silêncio
que me cale que não viva nem esteja morto.
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 28 | Assírio & Alvim, 2012
Susana Thénon
Minuto
se renova
a fugaz memória dos espelhos,
o perfil tosco dos corpos oxidados,
o andaime de palavras
não habitadas por mãos
ou por bocas escuras.
O tempo enruga os caminhos,
apaga os olhares longínquos,
vai iluminando a morte nas esquinas.
E como não saber isto:
chegará um minuto vazio
que almeja nossos rostos.
Manuel António Pina
Já não é possível
deuses digere o próprio estômago.
O rio da morte corre para a nascente.
O que é feito das palavras senão as palavras?
O que é feito de nós senão
as palavras que nos fazem
Todas as coisas são perfeitas de
Nós até ao infinito, somos pois divinos.
Já não é possível dizer mais nada
mas também não é possível ficar calado.
Eis o verdadeiro rosto do poema.
Assim seja feito a mais e a menos.
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 12 | Assírio & Alvim, 2012
José Miguel Silva
Exame de estética
The Go-Betweens
Eu estava na Lavandeira a espera do César
que me prometera 10 gramas para as 6,30
quando um desgraçado me trouxe a notícia
de que o Artur fora encontrado em casa
com a morte a correr-lhe nas veias.
Oh terríveis 6 horas da tarde, eu tinha
na manhã seguinte um exame de Estética
e a questão era responder para que serve
a arte, se não impede a mudança,
se não faz que estejas aqui ao pé de nós
a ouvir o último dos Go-Betweens.
Não serve para muito, serve apenas
para escudar uma sombra, para escorar
as lágrimas, para que a morte não seja
a penúltima a rir.
José Miguel Silva
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cores, colmeias de melífluo sentido.
Eu nunca vi senão prefácios à destruição.
Nas linhas dum rosto via medo farpado,
na curva dum ombro, o peso que suporta.
Encarava com descrença o sorriso das praças,
na cabeça dum menino lia o mapa do inferno
e no amor o combustível da ganância.
Não sei como foi, eu nunca soube fechar
os olhos e dormir como os demais.
E se olhava para dentro de mim, era ainda
pior: uma paisagem abjecta entre colunas
de mercúrio, de enxofre, de metais pesados
como a consciência. Fui, em suma, um triste,
um homem estacado na fronteira entre
verdade e pânico, e desconfiado, sempre,
de qualquer ideia de consolação. Retirado,
no final, para um respiro de montanha,
esforcei-me por manter a ilusão de ser
o último elo na cadeia antropológica,
o nec plus ultra da insanidade.
José Miguel Silva
Não é tarde
onde o ar escasseia. Mas não te preocupes,
eu fecho mais a porta.
Gestos e paveias, acendalhas, o isqueiro
funciona! Poderoso combustível
é o corpo. Acende deste lado.
Ainda não é tarde, foi agora anunciado
pela rádio, são dezoito e vinte e cinco.
Respira-nos, repara, a ilusão de que a vida
não se esgota, como os saldos de Verão.
E a morte, à medida que te despes,
vai perdendo o nosso número de telefone.
José Miguel Silva
Feios, porcos e maus - Ettore Scola (1976)
com as cores do partido que melhor os ilude.
Aos quinze fazem por dar nas vistas no congresso
da jota, seguem a caravana das bases, aclamam
ou apupam pelo cenho das chefias, experimentam
o bailinho das federações de estudantes.
Sempre voluntariosos, a postos sempre,
para as tarefas da limpeza após o combate.
São os chamados anos de formação. Aí aprendem
a compor o gesto, interpretar humores,
a mentir honestamente, aí aprendem a leveza
das palavras, a escolher o vinho, a espumar
de sorriso nos dentes, o sim e o não
mais oportunos. Aos vinte já conhecem pelo faro
o carisma de uns, a menos valia
de outros, enquanto prosseguem vagos estudos
de Direito ou de Economia. Começam, depois
disso, a fazer valer o cartão de sócio: estão à vista
os primeiros cargos, há trabalho de sapa pela frente,
é preciso minar, desminar, intrigar, reunir.
Só os piores conseguem ultrapassar esta fase.
Há então quem vá pelos municípios, quem prefira
os organismos públicos - tudo depende do golpe
de vista ou dos patrocínios que se tem ou não.
Aos trinta e dois é bem o momento de começar
a integrar as listas, de preferência em lugar
elegível, pondo sempre a baixeza acima de tudo.
A partir do Parlamento, tudo pode acontecer:
director de empresa municipal, coordenador de,
assessor de ministro, ministro, comissário ou
director executivo, embaixador na Provença,
presidente da Caixa, da PT, da PQP e, mais à frente
(jubileu e corolário de solvente carreira),
o golden-share de uma cadeira ao pôr-do-sol.
No final, para os mais obstinados, pode haver
nome de rua (com ou sem estátua) e flores
de panegírico, bombardas, fanfarras de formol.
José Miguel Silva
Uffizi
no país da arte sacra? Como pode
libertar-se da noção de que estes jogos
de volumes, estes planos vivamente
coloridos, representam tudo aquilo em
que não crê: o fanatismo, a videiterna,
o sacrifício do corpo? Deambula
pelas salas como um cão esfomeado
por um campo de tremoço, sem achar
em tão exótica e senil mitologia
firme carne onde ferrar o pensamento.
Irritado, estuga o passo, cada vez
mais insensível à seráfica beleza
das madonas parideiras, de sorriso
complacente, ao intérmino desfile
de agonias, ascensões e pietás,
procurando avidamente as belas damas
de Bronzino, as doces Vénus ou até
o rosto duro (mas humano, pelo menos)
de burgueses, mercenários e fidalgos:
emissários do real, da violência
do desejo deturpado em senhorio.
À saída é contemplado pelo ébrio
sorriso dum velhaco sem futuro,
p'lo olhar esfomeado duma Maggie
de cem quilos, por dois cacos à procura
duma cola essencial. E promete
a São Vermeer cometer a breve trecho
expiatória romagem ao terreno,
liberal e nivelado mundo novo
da pintura de seiscentos holandesa.
José Miguel Silva
Nocturno
da imperfeição das coisas
que trazemos para casa
com o pó da rua
quando a tarde finda
e não temos água quente
para lavar a cabeça.
Tentamos regular
com açudes de orações
o curso da tristeza
mudamos de cadeira
e levamos a noite
a dizer oxalá
como se a palavra
praticasse anestesia.
Manuel António Pina
Arte poétca
Vai pois, poema, procura
a voz literal
que desocultamente fala
sob tanta literatura.
Se a escutares, porém, tapa os ouvidos,
porque pela primeira vez estás sozinho.
Regressa então, se puderes, pelo caminho
das interpretações e dos sentidos.
Mas não olhes para trás, não olhes para trás,
ou jamais te perderás;
e teu canto, insensato, será feito
só de melancolia e de despeito.
E de discórdia. E todavia
sob tanto passado insepulto
o que encontraste senão tumulto,
senão de novo ressentimento e ironia?
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 309 | Assírio & Alvim, 2012
José Miguel Silva
Agora a sério
o bastante para as guerras
mundiais da mercadânsia,
são simpáticos, os «tugas»,
como todos os inábeis.
Se dão pouco, menos pedem,
desafogam-se em abraços
de convívio quintaleiro,
com o mundo num chinelo
e o chinelo ao pé da porta.
Sem mudanças nem conflitos,
são amáveis com os factos,
obedecem aos estreitos
razoados da renúncia,
não se levam muito a sério.
No lagar da contingência,
reconhecem quase a gosto
a astenia da azeitona,
fazem migas do orgulho,
fazem figas, queimam velas
de tamanho não-te-rales
e que se lixe o candeeiro
do futuro. Malnascidos,
comoventes como ratos
na gaveta da cozinha,
com as patas num trapézio
de suspiros cauteloso,
atilados como filhos
primogénitos da fome,
são apáticos, mas giros:
piedosos quanto baste,
confiantes quando podem,
inocentes como poldros,
pés de salsa ao regadio
da vidina providência.
Faço meus os seus defeitos
(a preguiça, a timidez,
a vocação do remedeio)
e agradeço ter nascido
bem pequeno, com espaço
(quer dizer) para crescer
um pouco mais. Pois
não há pior destino
que nascer acabadinho,
já montado na carroça
triunfante da fiúza,
vendo o mundo p"lo binóculo
invertido do umbigo,
com a alma metralhada
de paixão e cupidez.
José Miguel Silva
Poema com Apólogo Moral
de Los Alamos, do Rapto das Sabinas,
nunca mais se pode escrever com maiúsculas
a palavra "Deus"; que se tornou imoral
a gente queixar-se à lua de uma farpa no dedo,
do infortúnio, do tempo que perdemos na paragem
do autocarro. Quem o diz que não se pode,
não sabe, não entende o que poesia seja.
Era um homem que vivia a profissão de marceneiro.
É conhecida a ligação do marceneiro com as farpas
que lhe entram na pele. Este falava com elas,
contava-lhes casos de sorte e azar, queria-lhes bem.
Entendia que também as farpas são filhas de Deus,
isto é, do amor que sentia pela sua arte.
Um dia um acidente aconteceu na máquina de corte,
esse homem perdeu a mão direita. Não por isso deixou
de sentir farpas alojarem-se na mão perdida,
de falar com elas, de recomendar-lhes
que tivessem juizo, que fossem brincar para outro lado.
José Miguel Silva
Morangos Silvestres - Ingmar Bergman (1957)
sofrimento e necedade. Não comove ninguém.
Uma pedra não comove ninguém. A beleza
é um acidente banal e pressupõe a morte;
muitas vezes se rodeia de sandice, e se nos fala,
chega a ser assustador. A inteligência, refrescante
como um duche, sabe bem, no Estio; mas agora,
que é Inverno toda a vida, que lugar atribuir
à inteligência? O de criada de servir nos aposentos
da ganância. Não comove, é evidente, ninguém.
A bondade, sim, comove. Mas é tão débil
e tão rara que ninguém a ouve. Não é fácil,
assim, encontrar algo que possamos amar. Eu
tenho procurado, eu juro que não sei o que fazer:
tudo me parece, até a música, produto de uma falha.
Vou por essas ruas ao acaso e não acerto a conhecer
quem me convença que bem outra poderia ser
a vida. Tudo se mostra sob espelhos deformantes,
tudo arde numa estranha aceitação. Francamente,
que alguém me demonstrasse que não tenho razão.
Al Berto
escuto o lamento
os ventos varrem, ainda uivam em todas as frestas do Reino das Índias
Índias de fome, Índias de noite gelada
procuro no fundo das algibeiras os bonecos da bola, e as cobras nos valados do Rio da Moura
o sumo das amoras e o cheiro fresco do sabão...a memória envolve-se nos lençóis que secam estendidos ao sol
adivinho lugares distantes e sombrios, habitados pelo Último Cavaleiro dos Ventos, o Zé Babão... por andará o Cabecinha? e a Tia Clementina? e o Cisinato? e o Perna-Marota? e a Ti Carlota? e a Dentinho d'Ouro? e
em mim nada secou
não possuo a morte no coração, mas sim um pouco de chuva que lentamente apaga o fogo doutros dias mais simples
escuto o lamento das águas e sei que tudo continua vivo no fundo do mar...e no coração persistente das plantas
Manuel António Pina
Gare do Sud
Tudo o que temos pertence a outros
desconhecidos de nós, e ainda a outros,
e temo-lo como se o perdêssemos
ficando uma sombra, a nossa sombra.
Estamos longe de casa e essa sombra
é a única morada a que podemos acolher-nos.
A nossa voz não somos capazes já de ouvi-la, balbuciante;
e se a ouvíssemos não a compreenderíamos
porque falamos uma língua estrangeira.
Tivemos um passado mas também ele não nos pertenceu,
lemo-lo, ou ouvimo-lo a
outros mais densos que nós.
Aonde regressamos então?
Ao lado das fluviantes águas,
águas idas e vindas. Noite!,
alguém nos chama mas
não é ninguém que conheçamos
nem ninguém de quem possamos dizer o nome.
Um murmúrio a que alguma razão passada
prende os sentidos e que perdura
no meio da vozearia da solidão e das interrogações,
um olho cego, um animal indecifrável atravessando a
distância e olhando-nos ainda,
a nós que os nossos olhos já não podem ver.
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", págs. 314 e 315 | Assírio & Alvim, 2012
Al Berto
Se um Dia a Juventude Voltasse
na pele das serpentes atravessaria toda a memória
com a língua em teus cabelos dormiria no sossego
da noite transformada em pássaro de lume cortante
como a navalha de vidro que nos sinaliza a vida
sulcaria com as unhas o medo de te perder... eu
veleiro sem madrugadas nem promessas nem riqueza
apenas um vazio sem dimensão nas algibeiras
porque só aquele que nada possui e tudo partilhou
pode devassar a noite doutros corpos inocentes
sem se ferir no esplendor breve do amor
depois... mudaria de nome de casa de cidade de rio
de noite visitaria amigos que pouco dormem e têm gatos
mas aconteça o que tem de acontecer
não estou triste não tenho projectos nem ambições
guardo a fera que segrega a insónia e solta os ventos
espalho a saliva das visões pela demorada noite
onde deambula a melancolia lunar do corpo
mas se a juventude viesse novamente do fundo de mim
com suas raízes de escamas em forma de coração
e me chegasse à boca a sombra do rosto esquecido
pegaria sem hesitações no leme do frágil barco... eu
humilde e cansado piloto
que só de te sonhar me morro de aflição
(in 'Rumor dos Fogos')
Manuel António Pina
As coisas
Há em todas as coisas uma mais-que-coisa
fitando-nos como se dissesse: "Sou eu",
algo que já lá não está ou se perdeu
antes da coisa, e essa perda é que é a coisa.
Em certas tardes altas, absolutas,
quando o mundo por fim nos recebe
como se também nós fôssemos mundo,
a nossa própria ausência é uma coisa.
Então acorda e os livros imaginam-nos
do tamanho da sua solidão.
Também nós tivemos um nome
mas, se alguma vez o ouvimos, não o reconhecemos.
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 356 | Assírio & Alvim, 2012
Manuel António Pina
No rosto da morte
alguém passa numa rua eternamente.
Alguém ficou lá em mim depois,
outro perdeu-o o coração para sempre.
Quem me lembro de isto
dorme um sono alheio
onde em mim existo. -
Coração, sombra de uma sombra,
na pétala mais funda da noite.
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 121 | Assirio & Alvim, 2012
Manuel António Pina
Interiores
tu sentada diante da TV
e eu escrevendo isto, não sei o quê,
como outros dois que nós não conhecemos?
Será que alguma coisa permaneceu
do nosso amor com uma inevitabilidade,
uma saudade pousada agora na mão de Deus
existindo para sempre na sua breve eternidade?
Talvez percorramos uma rota circular
através da curvatura do espaço e do tempo
onde haveremos de nos reencontrar;
será que então de alguma forma nos reconheceremos?
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 321 | Assírio & Alvim, 2012
Nuno Júdice
Desperdícios
te suja os dedos de versos, se os teus lábios
não pronunciaram nunca as palavras que esperei,
quando, em tardes de vento, te olhava em
silêncio? Por que interrompes a estrofe no meu nome,
a flor obscura de uma primavera que não
chegou? Deixa-me!, entre
as copas geométricas de um ritmo vegetal,
respirando na efémera duração de vozes que não ouço;
e sob um breve bater de folhas nos arbustos
perenes que o fumo da madrugada escurece: sombra
separada da própria sombra, e eco já vago
de um canto de pássaro morto! E não deixes que
a minha queixa se dissipe num rumor de águas estagnadas -
charcos da chuva sedentária do outono,
lagoas baças de um choro matinal...» Desperdícios
de vida num fundo amargo de memória.
Nuno Júdice
No barco
Sobre estas escuras águas pouso o corpo e flutuo.
Do mesmo modo flutua a memória sobre a minha obscura alma,
e o seu desenho reflecte-se na atmosfera sombria
do entardecer. "Ficarei?", pergunto,
e sem esperar resposta olho a outra margem e o cais
a aproximar-se. Por fim, não desembarco. À espera do regresso
seguro-te as mãos, embora ninguém esteja comigo. Em silêncio
respiro o cheiro das máquinas; "para onde me conduzes,
ó infindável morte, por entre os vivos e as suas sombras", ouço-me
dizer-te. Para que não me respondas, deixando-me preso
a um banco de barco, sacudido pelos temporais, vendo a chuva cair
por detrás dos vidros.
Nuno Júdice | "Obra Poética" (1972 - 1985), pág. 92 | Quetzal Editores, 1999
Nuno Júdice
Aqui onde nada me espera
de nada e vestígio de um puro resto,
deixo-me ficar, deitado para o fundo
da terra e de costas para o horizonte,
na expectativa de hora nenhuma;
e um insecto de tempo pousa-me nos ombros,
toca-me com as suas asas impuras,
suja-me de vagos minutos - até que,
numa impaciência de dedos,
o esmago.
Nuno Júdice | "A Condescendência do Ser", pág. 25 | Quetzal Editores, 1988
Nuno Júdice
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