Emoções
Poemas neste tema
Otávio Ramos
Bar do Lulu
(à maneira de Fernando Pessoa e Noel Rosa)
O bar do Lulu solta fogo pelas ventas.
Madrugada insinua ânsias lentas.
A juke-box desfila Perfume de Gardênia
- me alegro ao som do bolero plangente -
beijo na boca uma negra do Kênia
(nada do que é humano me é indiferente).
Calorosos aplausos da claque -
e eu peço ao garçom mais um conhaque.
Me esqueço de ti no bar do Lulu.
Säo tantas coisas tantos rires
viveres sonhares quereres
me sinto múltiplo de mim mesmo a nu,
que por näo estares acabas por näo seres.
Mas vai fechar o bar do Lulu
-metafísico alvorecer de claro-escuro -
empilham mesas, varrem o chäo duro
e eu pago a conta e subo a rua,
pra ir dormir junto com a lua.
(1995)
O bar do Lulu solta fogo pelas ventas.
Madrugada insinua ânsias lentas.
A juke-box desfila Perfume de Gardênia
- me alegro ao som do bolero plangente -
beijo na boca uma negra do Kênia
(nada do que é humano me é indiferente).
Calorosos aplausos da claque -
e eu peço ao garçom mais um conhaque.
Me esqueço de ti no bar do Lulu.
Säo tantas coisas tantos rires
viveres sonhares quereres
me sinto múltiplo de mim mesmo a nu,
que por näo estares acabas por näo seres.
Mas vai fechar o bar do Lulu
-metafísico alvorecer de claro-escuro -
empilham mesas, varrem o chäo duro
e eu pago a conta e subo a rua,
pra ir dormir junto com a lua.
(1995)
937
1
Núbia Marques
Itinerário
Se tua cabeça de repente
fosse bússolas-rotas
mesmo amando a segurança-nortes
teria receio de seguí-la
Se do teu peito torpe
Surgisse lírio orvalhado
mesmo amando a delirante beleza-lírio
teria medo de olhá-lo
Se do teu sexo impetuoso e voraz
de repente surgisse estrela candente luminosa
mesmo amando a cintilante brancura da estrela
teria horror de tocá-lo
Se da tua voz afônica
surgissem de repente sonatas andantinas
mesmo sentindo a música em todos os recantos
de mim
teria pânico de escutá-la
Se nos teus calcanhares de Aquiles
houve milagre das andanças seculares
e de repente o caminho não fosse acaso mas rumo
mesmo assim teria horror de seguí-los
Bússolas e rotas
Lírio orvalho
sonatas andantinas
caminho seguro
tudo é frágil taça de cristal.
fosse bússolas-rotas
mesmo amando a segurança-nortes
teria receio de seguí-la
Se do teu peito torpe
Surgisse lírio orvalhado
mesmo amando a delirante beleza-lírio
teria medo de olhá-lo
Se do teu sexo impetuoso e voraz
de repente surgisse estrela candente luminosa
mesmo amando a cintilante brancura da estrela
teria horror de tocá-lo
Se da tua voz afônica
surgissem de repente sonatas andantinas
mesmo sentindo a música em todos os recantos
de mim
teria pânico de escutá-la
Se nos teus calcanhares de Aquiles
houve milagre das andanças seculares
e de repente o caminho não fosse acaso mas rumo
mesmo assim teria horror de seguí-los
Bússolas e rotas
Lírio orvalho
sonatas andantinas
caminho seguro
tudo é frágil taça de cristal.
906
1
Osvaldo Alcântara
Ressaca
Venham todas as vozes, todos os ruídos e todos os gritos
venham os silêncios compadecidos e também os silêncios satisfeitos;
venham todas as coisas que não consigo ver na superfície da sociedade dos homens;
venham todas as areias, lodos, fragmentos de rocha
que a sonda recolhe nos oceanos navegáveis;
venham os sermões daqueles que não têm medo do destino das suas palavras
venha a resposta captada por aqueles que dispõem de aparelhos detetores apropriados;
volte tudo ao ponto de partida,
e venham as odes dos poetas,
casem-se os poetas com a respiração do mundo;
venham todos de braço dado na ronda dos pecadores,
que as criaturas se façam criadores
venha tudo o que sinto que é verdade
além do círculo embaciado da vidraça...
Eu estarei de mãos postas, à espera do tesouro que me vem na onda do mar...
A minha principal certeza é o chão em que se amachucam os meus joelhos doloridos,
mas todos os que vierem me encontrarão agitando a minha lanterna de todas as cores
na linha de todas as batalhas.
venham os silêncios compadecidos e também os silêncios satisfeitos;
venham todas as coisas que não consigo ver na superfície da sociedade dos homens;
venham todas as areias, lodos, fragmentos de rocha
que a sonda recolhe nos oceanos navegáveis;
venham os sermões daqueles que não têm medo do destino das suas palavras
venha a resposta captada por aqueles que dispõem de aparelhos detetores apropriados;
volte tudo ao ponto de partida,
e venham as odes dos poetas,
casem-se os poetas com a respiração do mundo;
venham todos de braço dado na ronda dos pecadores,
que as criaturas se façam criadores
venha tudo o que sinto que é verdade
além do círculo embaciado da vidraça...
Eu estarei de mãos postas, à espera do tesouro que me vem na onda do mar...
A minha principal certeza é o chão em que se amachucam os meus joelhos doloridos,
mas todos os que vierem me encontrarão agitando a minha lanterna de todas as cores
na linha de todas as batalhas.
3 397
1
Joaquim Namorado
Cantar de Amigo
Eu e tu: milhões!…
Entre nós — perto ou longe!
— entre nós rios e mares
montanhas e cordilheiras…
Eu e tu perdidos
nesta distância sem fim do desconhecido.
Eu e tu unidos
para além das cordilheiras
por sobre mares de diferença
na comunhão de nossos destinos confundidos
— a minha e a tua vida
correndo para a confluência
num mesmo Norte.
Eu e tu amassados
nesta angútia que é de nós,
minha e tua,
e mais do que de nós…
Eu e tu
carne do mesmo corpo
amor do mesmo amor
sangue do mesmo sacrificio!
Eu e tu
elos da mesma cadeia
grãos da mesma seara
pedras da mesma muralha!
Eu e tu, que não sei quem és.
Que não sabes quem sou:
— Eu e tu: Amigo! Milhões…
(in Antologia de Poetas Alentejanos)
Entre nós — perto ou longe!
— entre nós rios e mares
montanhas e cordilheiras…
Eu e tu perdidos
nesta distância sem fim do desconhecido.
Eu e tu unidos
para além das cordilheiras
por sobre mares de diferença
na comunhão de nossos destinos confundidos
— a minha e a tua vida
correndo para a confluência
num mesmo Norte.
Eu e tu amassados
nesta angútia que é de nós,
minha e tua,
e mais do que de nós…
Eu e tu
carne do mesmo corpo
amor do mesmo amor
sangue do mesmo sacrificio!
Eu e tu
elos da mesma cadeia
grãos da mesma seara
pedras da mesma muralha!
Eu e tu, que não sei quem és.
Que não sabes quem sou:
— Eu e tu: Amigo! Milhões…
(in Antologia de Poetas Alentejanos)
2 525
1
Paulo F. Cunha
As faces da solidão
Minha solidão tem mil faces
e entre todas me escondo
pretendendo que a coragem
que existe , está em mim .
Que a vida não é
insuportavelmente longa
e que eu não quero
que ela acabe.
A fuga noturna
de um sono intranqüilo
que custa a me achar
e , se me encontra ,
sabe ao fim
de tal maneira que duplica
minha insônia .
Minha solidão tem a face
(entre tantas outras )
da moça que me acorda
todos os dias
apesar de meus rogos em contrário ,
Mas ela não me sabe ,
ela só pensa que sabe .
Mas se engana ,
como se enganam
todos que porventura tentem
um esboço que seja de mim .
e entre todas me escondo
pretendendo que a coragem
que existe , está em mim .
Que a vida não é
insuportavelmente longa
e que eu não quero
que ela acabe.
A fuga noturna
de um sono intranqüilo
que custa a me achar
e , se me encontra ,
sabe ao fim
de tal maneira que duplica
minha insônia .
Minha solidão tem a face
(entre tantas outras )
da moça que me acorda
todos os dias
apesar de meus rogos em contrário ,
Mas ela não me sabe ,
ela só pensa que sabe .
Mas se engana ,
como se enganam
todos que porventura tentem
um esboço que seja de mim .
666
1
Oliveira Neto
O Parnaíba
Águas turvas, imenso, vagaroso,
O Parnaíba desce para o mar.
Qual um molusco, lerdo, preguiçoso,
parece sem vontade de chegar!
Sereno, vai andando, majestoso,
o aguaceiro barrento a deslizar...
E nas margens um bando vaporoso
de garças cor de neve a esvoaçar...
Ó velho Parnaíba dos poetas!
O progresso mudou o teu destino
e te deu novas e importantes metas!
És portador de um mundo de esperanças
E o povo do Nordeste canta o hino
do sonhado futuro de bonanças...
O Parnaíba desce para o mar.
Qual um molusco, lerdo, preguiçoso,
parece sem vontade de chegar!
Sereno, vai andando, majestoso,
o aguaceiro barrento a deslizar...
E nas margens um bando vaporoso
de garças cor de neve a esvoaçar...
Ó velho Parnaíba dos poetas!
O progresso mudou o teu destino
e te deu novas e importantes metas!
És portador de um mundo de esperanças
E o povo do Nordeste canta o hino
do sonhado futuro de bonanças...
1 834
1
Marta Gonçalves
Palavras
O vegetal que me cerca e envolve meu corpo arreia as correntes dos braços. Deixaremos vidros quebrados nas manhãs e o sol brotará sementes de milho. Chegará a época de recriarmos o solo da terra, de aleitarmos a infância. Deve existir uma mudança cósmica neste pó que habitamos. Sorveremos água das pedras e as montanhas que nos cercam perderão a chave. Ao abrir as portas, a palavra chegará na ponta do mar. A areia quente das praias vai sorver borboletas. Descobrirão que a poesia chega no vento. Ela precisa de olhos além do infinito. O poeta não deve sair de sua solidão. Quieto em seu canto, armazena a alquimia. Existem palavras que são lâminas cortando veias. E essas veias sangrarão as faces nodosas. Destruiremos o lodo, mas a erva continuirá crescendo nas noites. Jogaremos margaridas brancas, poucos estenderão as mãos para colhê-las.
968
1
Alphonsus de Guimaraens Filho
Quando eu Disser Adeus
Quando eu disser adeus, amor, não diga
adeus também, mas sim um "até breve";
para que aquele que se afasta leve
uma esperança ao mesno fadiga
da grande, inconsolável despedida...
Quando eu disser adeus, amor, segrede
um " até mais" que ainda ilumine a vida
que no arquejo final vacila e cede.
Quando eu disser adeus, quando eu disser
adeus, mas um adeus já derradeiro,
que a sua voz me possa convencer
de que apenas eu parti primeiro,
que em breve irá, que nunca outra mulher
amou de amor mais puro e verdadeiro.
adeus também, mas sim um "até breve";
para que aquele que se afasta leve
uma esperança ao mesno fadiga
da grande, inconsolável despedida...
Quando eu disser adeus, amor, segrede
um " até mais" que ainda ilumine a vida
que no arquejo final vacila e cede.
Quando eu disser adeus, quando eu disser
adeus, mas um adeus já derradeiro,
que a sua voz me possa convencer
de que apenas eu parti primeiro,
que em breve irá, que nunca outra mulher
amou de amor mais puro e verdadeiro.
1 596
1
Mário Hélio
16-VI(Niilismo)
a inutilidade da existência
a existência da inutilidade
viver sofrer gozar
ter bons e maus momentos
depois morrer e encontrar com deus
com deus encontrar depois morrer
que importância têm
viver sofrer gozar
ter bons e maus... enfim a perfeição
a mais vaga das paixões
a felicidade eterna que nos leva ao suicídio
nos faz joguetes dos deuses
deuses dos joguetes faz-nos
a religião confunde tudo
tudo confunde a religião
a inutilidade da assistência
a assistência da inutilidade
o homem como corre como morre
descobre a ciência que a ciência descobre
arquiteta universos, fica deus,
ah angústia suprema de ser tudo
de ser tudo angústia suprema
prana inútil
inutilidade da insistência
insistência da inutilidade.
a existência da inutilidade
viver sofrer gozar
ter bons e maus momentos
depois morrer e encontrar com deus
com deus encontrar depois morrer
que importância têm
viver sofrer gozar
ter bons e maus... enfim a perfeição
a mais vaga das paixões
a felicidade eterna que nos leva ao suicídio
nos faz joguetes dos deuses
deuses dos joguetes faz-nos
a religião confunde tudo
tudo confunde a religião
a inutilidade da assistência
a assistência da inutilidade
o homem como corre como morre
descobre a ciência que a ciência descobre
arquiteta universos, fica deus,
ah angústia suprema de ser tudo
de ser tudo angústia suprema
prana inútil
inutilidade da insistência
insistência da inutilidade.
966
1
Manuel Geraldo
Memória III
Pardas
as noites
Bazucas rasantes
Uivos de medo
Palhotas queimadas
Silêncios vaiados
Rajadas em fúria
Velhos crianças
De corpos varados
as noites
Bazucas rasantes
Uivos de medo
Palhotas queimadas
Silêncios vaiados
Rajadas em fúria
Velhos crianças
De corpos varados
794
1
Mário Donizete Massari
Infância
Pés no chão
alma descalça . . .
A vida passa
os pés se calçam
a alma se veste
Os pés são os mesmos,
os caminhos segredos,
chega o medo . . .
A escuridão
ilusão . . .
Da infância resta
o chão
— e os pés a fugir
da solidão.
alma descalça . . .
A vida passa
os pés se calçam
a alma se veste
Os pés são os mesmos,
os caminhos segredos,
chega o medo . . .
A escuridão
ilusão . . .
Da infância resta
o chão
— e os pés a fugir
da solidão.
893
1
Mário Dionísio
Elegia ao Companheiro Morto
Meu companheiro morreu às cinco da manhã
Foi de noite ao fim da noite às cinco em ponto da manhã
Ah antes fosse noite noite apenas noite
sem a promessa da manhã
Ah antes fosse noite noite noite apenas noite
e não houvesse em tudo a promessa da manhã
Deitado para sempre às cinco da manhã
Agora que sabia olhar os homens com força
e ver nas sombras que até aí não via a promessa risonha da manhã
Mas quem se vai interessar amigos quem
por quem só tem o sonho da manhã?
E uma vez de noite ao fim da noite mesmo ao cabo da noite
meu companheiro ficou deitado para sempre
e com a boca cerrada para sempre
e com os olhos fechados para sempre
e com as mãos cruzadas para sempre
imóvel e calado para sempre
E era quase manhã E era quase amanhã
Foi de noite ao fim da noite às cinco em ponto da manhã
Ah antes fosse noite noite apenas noite
sem a promessa da manhã
Ah antes fosse noite noite noite apenas noite
e não houvesse em tudo a promessa da manhã
Deitado para sempre às cinco da manhã
Agora que sabia olhar os homens com força
e ver nas sombras que até aí não via a promessa risonha da manhã
Mas quem se vai interessar amigos quem
por quem só tem o sonho da manhã?
E uma vez de noite ao fim da noite mesmo ao cabo da noite
meu companheiro ficou deitado para sempre
e com a boca cerrada para sempre
e com os olhos fechados para sempre
e com as mãos cruzadas para sempre
imóvel e calado para sempre
E era quase manhã E era quase amanhã
2 482
1
Maria Inês Gambogi
Com tantos curtos casos
Com tantos curtos casos
Com dois amores admiráveis em mim
Com a fala sem muitos segundos
Com a morte absorta no viver
Com as feições todas
Com aquele ar de tudo às mãos
Bem visto,
sem revelação sem expiação
vou dando sem sobra sem sombra insólita
sem amor estranho
Cato sem vida conhecida o que não escapou
Cato sem amor conhecido
o que envelhecido, caiu
Cato atrozmente as aparências caídas
quedo como quem deve
como quem não oferece
sua humanidade a desejos em disputa
Sem amor conhecido
no mais sem ninguém em totalidade
Em atenção
qualquer coisa que cai eu sei
Silente vou indo como quem não vai
Inindentificada, surpreendo sem deslustre
os vãos devidos a este mundo de pessoas
Quero sem preito
Quero sem o amor conhecido por tanta gente
Descodifico e não me encabulo
Vivenciada em novidades
não forço o coração a repetidas forças
vou sendo o que menos se esperava
vou viva
deixando concretas as advinhações de ser.
Com dois amores admiráveis em mim
Com a fala sem muitos segundos
Com a morte absorta no viver
Com as feições todas
Com aquele ar de tudo às mãos
Bem visto,
sem revelação sem expiação
vou dando sem sobra sem sombra insólita
sem amor estranho
Cato sem vida conhecida o que não escapou
Cato sem amor conhecido
o que envelhecido, caiu
Cato atrozmente as aparências caídas
quedo como quem deve
como quem não oferece
sua humanidade a desejos em disputa
Sem amor conhecido
no mais sem ninguém em totalidade
Em atenção
qualquer coisa que cai eu sei
Silente vou indo como quem não vai
Inindentificada, surpreendo sem deslustre
os vãos devidos a este mundo de pessoas
Quero sem preito
Quero sem o amor conhecido por tanta gente
Descodifico e não me encabulo
Vivenciada em novidades
não forço o coração a repetidas forças
vou sendo o que menos se esperava
vou viva
deixando concretas as advinhações de ser.
643
1
Maria Alberta Menéres
Água-Memória
Que súbita alegria me tortura
alegria tão bela e estranha
tão inquieta
tão densa de pressentimentos?
Que vento nos meus nervos
que temporal lá fora
que alegria tão pura, quase medo ao silêncio?
Pára a chuva nas árvores
pára a chuva nos gestos,
interiores contornos
divisíveis distâncias
ultrapassáveis gritos
que alegria no inverno,
que montanha esperada ou inesperado canto?
alegria tão bela e estranha
tão inquieta
tão densa de pressentimentos?
Que vento nos meus nervos
que temporal lá fora
que alegria tão pura, quase medo ao silêncio?
Pára a chuva nas árvores
pára a chuva nos gestos,
interiores contornos
divisíveis distâncias
ultrapassáveis gritos
que alegria no inverno,
que montanha esperada ou inesperado canto?
2 709
1
Mário Hélio
25-V(A angústia)
a angústia é um barco
a angústia é um porto
a angústia é uma semente
na mente da carne do homem
louco que morre sem saber
a angústia é um homem
excessivamente morto
a angústia é um porto
a angústia é uma semente
na mente da carne do homem
louco que morre sem saber
a angústia é um homem
excessivamente morto
560
1
Maria Rita Kehl
recurso
O método faz milagres.
Passar no quarto das crianças antes de deitar
só matar os insetos comprovadamente nocivos
sair lá fora no escuro, cinco minutos na primeira noite,
dez na segunda, até conseguir no mínimo uma hora de contemplação
sem terror.
O método tece uma teia ——
horários —— rotas de ônibus —— receitas ——
telefonemas na 6a. ——
caderninhos ——
quando a trama é bem firme e cada gesto idiota adquire sentidos surpreendentes
imprescindíveis depois de algum tempo
capazes de sustentar uma existência inteira.
Passar no quarto das crianças antes de deitar
só matar os insetos comprovadamente nocivos
sair lá fora no escuro, cinco minutos na primeira noite,
dez na segunda, até conseguir no mínimo uma hora de contemplação
sem terror.
O método tece uma teia ——
horários —— rotas de ônibus —— receitas ——
telefonemas na 6a. ——
caderninhos ——
quando a trama é bem firme e cada gesto idiota adquire sentidos surpreendentes
imprescindíveis depois de algum tempo
capazes de sustentar uma existência inteira.
1 035
1
Mário Donizete Massari
Dimensão das horas
Dimensão das horas
nos caminhos do homem
fogo nas retinas
paixões, fadiga . . .
"a vida tragada e
consumida em
memoráveis porres
de melancolia . . ."
cinzas na avenida
e o homem caminha
Flutua no ar
qual bêbado no seu
mundo
por que não dizer lindo,
pois qualquer mundo é lindo
quando se é livre e
não lhe cobram por isso.
E a vida se molda
na dimensão das horas
vadias . . .
nos caminhos do homem
fogo nas retinas
paixões, fadiga . . .
"a vida tragada e
consumida em
memoráveis porres
de melancolia . . ."
cinzas na avenida
e o homem caminha
Flutua no ar
qual bêbado no seu
mundo
por que não dizer lindo,
pois qualquer mundo é lindo
quando se é livre e
não lhe cobram por isso.
E a vida se molda
na dimensão das horas
vadias . . .
891
1
José Joaquim Medeiros e Albuquerque
Soneto Decadente
Morria rubro o sol e mansa, mansamente...
sombras baixando em flocos, lentas, pelo espaço...
Um morrer pungitivo e calmo de inocente:
doces, as ilusões fanadas no regaço.
Passa um cicio leve e suave... Num traço,
ave rápida passa súbita e tremente...
A tristeza, que vem, cinge como um baraço
a garganta: o soluço estaca ali fremente...
Lembranças de pesar... Navio que na curva
do mar, de água pesada e funda e escura e turva,
some-se de vagar das ondas ao rumor...
Ó crepúsculos sós! os exilados sentem
a angústia sem igual de amantes que pressentem
o derradeiro adeus do derradeiro amor!
sombras baixando em flocos, lentas, pelo espaço...
Um morrer pungitivo e calmo de inocente:
doces, as ilusões fanadas no regaço.
Passa um cicio leve e suave... Num traço,
ave rápida passa súbita e tremente...
A tristeza, que vem, cinge como um baraço
a garganta: o soluço estaca ali fremente...
Lembranças de pesar... Navio que na curva
do mar, de água pesada e funda e escura e turva,
some-se de vagar das ondas ao rumor...
Ó crepúsculos sós! os exilados sentem
a angústia sem igual de amantes que pressentem
o derradeiro adeus do derradeiro amor!
1 172
1
Linhares Filho
Das Coisas
Meus cabelos captam a voz das coisas
do espaço e do inespaço.
As coisas: fungíveis e infungíveis,
móveis, imóveis e semoventes,
operam o fenômeno ou são o númeno.
Queiramos ou não,
as coisas nos cercam, nos integram,
ou são presença na nossa memória.
E nos espreitam com o enigma
de seu olho plurimático.
Aonde ninguém vai,
aí penetra o olhar de alguma coisas.
Testemunhas de virtudes e munditudes,
de todas as nossas contradições,
do sem-saber-para-onde-ir.
Levam a marca dos nossos
usos e abusos.
Sofrem conosco? Riem conosco? ou de nós?
Confidentes na solidão,
inconfidentes para a perícia.
As coisas nos encantam e desencantam.
Umas coisas, talvez,
nos libertem algum dia,
e outras decerto dependurada
trazem a morte consigo.
As coisas nos mandam e desmandam,
formam, deformam,
informam, transformam.
As coisas nos assaltam e improvisam.
Com o xadrez de situações elaboram
mais a surpresa do que a expectativa.
As coisas nos precederam e nos sucederão.
(É preciso reagir contra certas coisas.)
Sentimo-nos sós no meio das coisas.
do espaço e do inespaço.
As coisas: fungíveis e infungíveis,
móveis, imóveis e semoventes,
operam o fenômeno ou são o númeno.
Queiramos ou não,
as coisas nos cercam, nos integram,
ou são presença na nossa memória.
E nos espreitam com o enigma
de seu olho plurimático.
Aonde ninguém vai,
aí penetra o olhar de alguma coisas.
Testemunhas de virtudes e munditudes,
de todas as nossas contradições,
do sem-saber-para-onde-ir.
Levam a marca dos nossos
usos e abusos.
Sofrem conosco? Riem conosco? ou de nós?
Confidentes na solidão,
inconfidentes para a perícia.
As coisas nos encantam e desencantam.
Umas coisas, talvez,
nos libertem algum dia,
e outras decerto dependurada
trazem a morte consigo.
As coisas nos mandam e desmandam,
formam, deformam,
informam, transformam.
As coisas nos assaltam e improvisam.
Com o xadrez de situações elaboram
mais a surpresa do que a expectativa.
As coisas nos precederam e nos sucederão.
(É preciso reagir contra certas coisas.)
Sentimo-nos sós no meio das coisas.
582
1
David Mourão-Ferreira
Sala de Espera
Quem foi
antes de mim não demorou,
Aqui, senão o tempo de cansar-se....
Fiquei, na sala verde, eu só:
A sós comigo, só
Impuro e sem disfarce..
Verde, também, a vida onde esperamos
O fim que bem sabemos nos espera....
M as enquanto aqui estamos
Sejam verdes os ramos
E verde a Primavera....
Quem por aqui passou, passou
Em busca dum pavor que lhe faltara...
Fiquei, nasala verde, eu só.
(Agora nem me dou
à flor mais rara....)
Perto me aguarda a simples decisão.
(Que por enquanto, aqui, é só a espera.)
- E , arrependido, o coração
Vai dizendo que não
À Primavera.
antes de mim não demorou,
Aqui, senão o tempo de cansar-se....
Fiquei, na sala verde, eu só:
A sós comigo, só
Impuro e sem disfarce..
Verde, também, a vida onde esperamos
O fim que bem sabemos nos espera....
M as enquanto aqui estamos
Sejam verdes os ramos
E verde a Primavera....
Quem por aqui passou, passou
Em busca dum pavor que lhe faltara...
Fiquei, nasala verde, eu só.
(Agora nem me dou
à flor mais rara....)
Perto me aguarda a simples decisão.
(Que por enquanto, aqui, é só a espera.)
- E , arrependido, o coração
Vai dizendo que não
À Primavera.
4 650
1
Leda Costa Lima
Meu Nome é Esperança
Eu sou aquela que afasta
a sombra que passa
para dar luz ao teu sonho.
Sou a mão que te conduz,
nos momentos mais sombrios,
em que se delineia
o quadro do desalento.
Sou a voz que te soergue
e faz assomar o teu riso.
Sou sussurro aos teus ouvidos,
murmurando a palavra mágica
no momento preciso.
Eu sou a taça
transbordante de vinho
de sabor inebriante.
Eu sou o bálsamo
para os corações vazios,
pobres de amor,
carentes de afeto,
de sonhos e de ilusões.
Eu sou o vitral translúcido,
música em compassos uníssonis.
Por onde passo
as luzes se acendem
e surge um arco-íris.
Expulso o desânimo
para os longes do infinito.
Sou o sopro vital energizante.
Enquanto há vida
estou sempre presente.
Meu nome é esperança!
a sombra que passa
para dar luz ao teu sonho.
Sou a mão que te conduz,
nos momentos mais sombrios,
em que se delineia
o quadro do desalento.
Sou a voz que te soergue
e faz assomar o teu riso.
Sou sussurro aos teus ouvidos,
murmurando a palavra mágica
no momento preciso.
Eu sou a taça
transbordante de vinho
de sabor inebriante.
Eu sou o bálsamo
para os corações vazios,
pobres de amor,
carentes de afeto,
de sonhos e de ilusões.
Eu sou o vitral translúcido,
música em compassos uníssonis.
Por onde passo
as luzes se acendem
e surge um arco-íris.
Expulso o desânimo
para os longes do infinito.
Sou o sopro vital energizante.
Enquanto há vida
estou sempre presente.
Meu nome é esperança!
944
1
João Ferry
Não Se Pode
Quando eu era menino andava em voga
A história da "Não se Pode",
Uma mulher esguia, que de toga
Como um fantasma, à toa, de pagode
Altas horas da noite então vagava.
E quando alguém seu nome perguntava
Invariavelmente respondia,
Com a voz cava e cheia de agonia:
"Não se Pode!" "Não se Pode!"
Era um fantasma esquisito e feio
De estatura comum, mas que crescia
Toda vez que cigarros acendia
Nos lampiões das esquinas e do passeio.
Escaveirada, de carão ossudo,
olhos sem brilho, sem nenhum clarão,
A "Não se Pode" era um duende mudo
Alma penada pela solidão.
Soldados de patrulha da cidade
Uma noite entenderam de segui-la.
Mas a "Não se Pode", como um cão de fila,
Evitava qualquer intimidade.
Suas pegadas no chão jamais se viu
E do velho quartel para o mercado,
Seus pontos preferidos,
Era como um vulto malfadado
Dos mistérios do além, desconhecidos...
E quando uma noite fugia pelo espaço
"Não se Pode" também no seu regaço
Em fumaças de pós se desfazia...
A minha alma também é assim
Se alguém sacode
Os sofrimentos que meu peito esconde
Pressurosa e bem triste ela responde:
"Não se Pode!" "Não se Pode!"
A história da "Não se Pode",
Uma mulher esguia, que de toga
Como um fantasma, à toa, de pagode
Altas horas da noite então vagava.
E quando alguém seu nome perguntava
Invariavelmente respondia,
Com a voz cava e cheia de agonia:
"Não se Pode!" "Não se Pode!"
Era um fantasma esquisito e feio
De estatura comum, mas que crescia
Toda vez que cigarros acendia
Nos lampiões das esquinas e do passeio.
Escaveirada, de carão ossudo,
olhos sem brilho, sem nenhum clarão,
A "Não se Pode" era um duende mudo
Alma penada pela solidão.
Soldados de patrulha da cidade
Uma noite entenderam de segui-la.
Mas a "Não se Pode", como um cão de fila,
Evitava qualquer intimidade.
Suas pegadas no chão jamais se viu
E do velho quartel para o mercado,
Seus pontos preferidos,
Era como um vulto malfadado
Dos mistérios do além, desconhecidos...
E quando uma noite fugia pelo espaço
"Não se Pode" também no seu regaço
Em fumaças de pós se desfazia...
A minha alma também é assim
Se alguém sacode
Os sofrimentos que meu peito esconde
Pressurosa e bem triste ela responde:
"Não se Pode!" "Não se Pode!"
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Luciano Matheus Tamiozzo
Solidão
Solidã o é esperar um pouco mais
De alguém que nos oferece um pouco menos
Do que poderia oferecer...
De alguém que nos oferece um pouco menos
Do que poderia oferecer...
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1
José Eustáquio da Silva
Opinião
opinião do poeta sem letras:
a poesia começa quando a sentimos e termina quando a escrevemos
opinião do poeta letrado:
a poesia começa quando a sentimos e se eterniza quando a escrevemos
opinião da poesia:
eu não começo, não termino e não eternizo.
sou apenas poesia...
opinião do leitor:
a poesia começa quando a sentimos e termina quando a escrevemos
opinião do poeta letrado:
a poesia começa quando a sentimos e se eterniza quando a escrevemos
opinião da poesia:
eu não começo, não termino e não eternizo.
sou apenas poesia...
opinião do leitor:
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