Escritas

Corpo

Poemas neste tema

Sérgio Mattos

Sérgio Mattos

Quando Sinto

Quando sinto o desencanto, procuro tuas mãos
que trazem o conforto e me fazem palpitar.
Permaneço disperso, sentindo teu perfume
e tua presença, suspensa nas nuvens da imaginação.

Do papel onde escrevo, tuas curvas tomam formas
e, como sombra, teu corpo nu, eu vejo.
Um sorriso va enche-me o rosto
e na tentativa de acariciar-te ouço longe,
muito longe, passos, vozes e o bater da máquina de escrever.

Teu corpo nu desaparece, enquanto o tempo volta a agir
e minhas mãos a trabalhar.
Um leve tremor invade-me a alma
e uma complacente esperança
consola-me, porque tenho certeza
de ao chegar em casa, sobre a cama,
encontrar teu corpo quente.

868
Maria Braga Horta

Maria Braga Horta

Infância

Pelos caminhos da minha infância
sigo os teus passos na manhã
do teu ofício e meus deveres.
Ora encurtas teus passos, me esperando,
ora apresso os meus passos e te alcanço.
O importante é que se combinem como o corpo
e a sombra, e não importa qual dos dois
tem que ceder para acertar o compasso.

No percurso me ensinas uma flor
pousada como um pássaro num ramo
ou me explicas os pássaros no vôo
e me respondes o porquê das coisas.
Por quê? — vou sempre perguntando.
E descubro que atrás de cada mistério
há outro mistério e outro mistério.

Mistérios que nenhum de nós jamais desvendará.
Ninguém.
O homem poderá descobrir o universo,
voar entre as estrelas,
mas jamais descobrirá o que deseja descobrir.

Mas tudo se aclara, enfim, quando chegamos.
Esquecidos os mistérios,
enfrentamos a nossa lúcida rotina:
a tua — a de ensinar,
a minha — esta miscelânea de pequenos deveres
e grandes interesses,
esta vontade de descobrir o mundo
e inventar o céu.

Salpico o chão da escola com a água
de uma garrafa de rolha recortada;
varro, espano, encho de água a grande talha de barro
vermelho.
Enquanto isso, lá fora, as crianças em fila cantam.

II
Desço correndo
o morro-do-meio:
o sol me ofusca e o sangue do nariz salpica
o meu vestido branco.
Só consigo parar ao pé da ponte.
Lá vem seu Totonho-benzedor rodeado de gente
e seu Totonho e a gente que o rodeia
me rodeia.
Um lenço branco se tinge de vermelho
sob meu nariz.
Seu Totonho benze e diz:
"Mais vale o poder de Deus
do que o poder deste mal."
Uma prima me leva e empresta outro vestido.
Saio de azul da casa
e entro na venda de seu Roldão:
— Mamãe mandou buscar uma réstia de cebolas.

Havia poesia no sol, no morro, na ponte,
naquele deslumbramento de liberdade
na descida do morro,
no sentimento de importância de ver o povo
aglomerado em volta da menina
que veio voando com asas brancas
salpicadas de sangue.

De volta, passo a passo, subo o morro.
Ninguém mais nas janelas ou na rua.
Trago a réstia de cebolas como uma coroa de louros
conquistada no escuro.

919
Marta Gonçalves

Marta Gonçalves

Nuvens Brancas

Cavalos vermelhos voam no espaço
nuvens brancas desenham carneiros
o perfume da terra espera o homem
o homem quer sementes adubadas
plasmando o ar.

O poeta, de sandália azul, cobre a alma
com penas de pássaros.

938
Marta Gonçalves

Marta Gonçalves

Homens de Lã

Todos os limites planaram
na linha do infinito. Descobrirei
o segredo das sementes, a calma
de suas raízes. O peixe, o barco
no mar. Anjos mergulhando sorrisos
no rosto. Terra orvalhada de chuva.
Montanhas vasando imagens do vento.
Antes da queda do poeta,
carneiros não deixarão os homens
roubar a lã.

701
Marta Gonçalves

Marta Gonçalves

O Vento no Rosto

Descalços, andávamos no campo,
molhávamos os pés na relva verde.
Íamos atrás do vento.
Sentávamos, todas as tardes, no alpendre,
a olhar os passarinhos
apanhando migalhas.

- Esperando encontrar o que nos resta
do corpo.

976
Marta Gonçalves

Marta Gonçalves

Sutilezas

Brinco com seus lábios
já ausentes de meus olhos.
Imagino o relógio de sol
marcando peles brancas.
Lembranças envolvem sutilezas
que suas mãos ofereciam.
Doçuras carregam água de geleiras
e em cada verso que te oferto vejo
minha morte.

940
Marcus Accioly

Marcus Accioly

Latinoamérica

Round 22
Fórceps

madre América minha (minha madre)
às vezes no teu seio (quando sofro
por coragem não ter de ser covarde)
ânsias sinto de estar ou ser de novo
no teu útero (sim) na intimidade
capaz de me fechar (como em um ovo
dentro de ti) por isso é natural
que me coloque em posição fetal

(sim) encolho meu peito até os joelhos
puxados com os dois braços (sem falar
vou boiando das chamas dos teus pêlos
ao teu ventre redondo feito o mar)
nado em tua placenta onde os vermelhos
lençóis do sangue tentam me dobrar
em suas dobras (madre) e sou o filho
que religa o cordão ao próprio umbigo

(ai quando o pensamento cega o sonho
ou o sonho quer mentalizar o mundo)
quando eu me reconheço tão estranho
que fecho os olhos para ver mais fundo
(madre minha) eu me curvo enquanto ponho
toda a cabeça em tua vulva e afundo
(à semelhança do avestruz) por dentro
do fim e do começo do teu centro

(em ti posso esconder-me de mim mesmo)
sou o menino que era no teu colo
(mas perdeu a saúde e está enfermo
de tanto suplicar o teu consolo)
eu quero ser (mesmo empurrado a ferro
como um bolo-de-carne ou feito um rolo-
de-sangue) igual a um feto que se esforce
a entrar em ti sob invertido fórceps

1 893
Marcus Accioly

Marcus Accioly

Seis Vozes d’África

O Negro Sol

1
Eras (antes d’América) a América
de negro sol na pele escura (ó África)
teu rei era um leão que (da floresta)
fazia sua expedição de caça
e (de juba ou coroa na cabeça)
reinava a solidão que te reinava
com a própria liberdade (uma leoa
que era tua rainha sem coroa)

mas morreu esse rei e outros vieram
(astralopitecínios que emergiram
dos animais) e todos te quiseram
e todos (nos seus reinos) dividiram
a rainha-leoa ou lhe impuseram
a própria escravidão que conseguiram
através de uma história que te fez
monopólio do Império Português

(sim) que Diogo Cão chegou ao Congo
(Bartolomeu ao Cabo das Tormentas)
e o velho Gama (em seu percurso longo)
sentiu as tuas terras sob as ventas
(a lei do teu comércio foi o escambo
dos teus filhos que já não amamentas
do leite e que amamaentam com seu sangue
o mundo que com eles fiou grande)

continente gigante e pigmeu
(lavrado pela daba primitiva)
se aa Esfinge do Egiyo te comeu
perto do Cabo Branco (na Tunísia)
a África do Sul (que conheceu
o apartheid do branco que domina)
tem um leão (Mandela) que te traz
(com sua pele negra) a branca paz

A Cor é Negra
2
a cor (a cor) a cor (a cor) a cor
é negra (sim) é negra (por que não?)
negro é o universo e este universo (por
tanto sol abrasado) é a escuridão
total (escuridão que faz supor
a cegueira da luz) a dimensão
infinita do escuro (o absoluto
manto da solidão) ó rei de luto

(continente-africano) ó rei de escura
pele (ó couro de rei) ó rei curtido
e enrugado no trono (ó carne dura
que veste o rei do seu real vestido
sobre o marfim dos ossos) rei à altura
de outros reis-continentes (rei erguido
feito a águia que ao sol em fogo voa)
ó rei mais alto que a própria coroa

(ó rei-leão) ó rei-jaguar (rei-tigre)
hipópotamo-rei (rei-elefante)
macaco-rei (rei zebra) rei-antílope
(rei-leopardo e rei-rinoceronte)
ó rei que vive (com a rainha) livre
(rei-esposo) marido-rei (amante-
da-liberdade) rei que sabe a lei
do seu reinado (a lei da selva) ó rei

de cor (de cor) de cor (de cor) de cor
negra (sim) de cor negra (por que não?)
já não quero cantar a tua dor
(continente-africano) é uma canção
que te quero cantar ( o teu senhor
é Deus) basta de tanta escravidão
(ó continente-rei) basta de açoite
que o sol é sangue ( a lua é sangue ) a noite

O Sangue era Vermelho
3
esfolaram à faca a tua cor
(extraíram-te as vísceras) notaram
que o sangue era vermelho e (dentro) a dor
também doía igual (não encontraram
qualquer vestígio de alma nem rumor
de humano sentimento contemplaram
onde o teu coração) "é um animal"
(e tratada tu foste como tal)

o sol curtiu teu couro feito um céu
espichado por varas (o simum
dobrou do centro ao norte o seu chapéu-
de-vento em teu cabelo ruim) "algum
dia erguerei da boca um escarcéu
que subirá a Deus" (disseste em um
tom que não disfarçava a voz azeda
e pediste os relâmpagos da zebra)

"ó escada do pescoço da girafa
deixa eu subir pr ti meus pés Àquele
(suplicaste) "leão de férrea-pata
dá-me da tua força e tu (ó pele-
de-aço) rinoceronte (de blindada
carapaça) consente que eu te sele
feito um cavalo e (com teu chifre) arrombe
o mal que (perto) veio de longe "

(continuaste) "e tu também (cavalo-
de-rio) ó boi chamado de hipopótamo
que és obra-prima do Senhor (deitado
à sombra do teu junco e do teu loto)
não me negues o teu furor guardado
nos abismos da lama (onde teu osso
de baleia é encalhado) eu sou a África"
(e choraste através da negra náscara)

Benjamin Moloise
4
Benjamin (Benjamin Moloise) acorda
os teus olhos da morte (negro) eu ouço
o teu canto subindo pela corda
onde balança ao vento teu pescoço
sob a "gravata" (branca) e sob a bota
(de Botha) a cal é viva no teu fosso
próximo ao muro da prisão (ó África-
do-Sul) pérola-negra (escura-lágrima)

marfim-queimado no elefante-vivo
(noite dentro do túnel) Benjamin
vejo teu canto sob o poste (grito
e o meu grito é teu grito até o fim
da voz apunhalada no conflito
do Cabo ou Jahannnesburgo) antes assim
(poeta-guerrilheiro) antes ser homem
(tua raça se orgulha do teu sangue)

já não importa o pesadelo (sonhas
e ninguém pode dominar teu sonho
que é mais forte e mais alto que as montanhas)
em teu carvão se acende um fogo estranho
com a estranha luz que trazes das entranhas
da África do Sul (do seu medonho
mundo) da capital sem paz (Pretória)
que com teu giz-noturno escreve a história

(o carrasco descansa) "executado"
(ó República d’África do Sul)
te canto à esquerda margem do rachado
continente (ou d’América) ó tu
e eu estamos cada um de um lado
do mar (ou da cadeia) em que jaz nu
sob o pó (Benjamin) até que vento
cubra com a minha voz o seu silêncio

Nelson Mandela
5
"ó África do Sul (Nelson Mandela
o teu filho é meu filho: eu sou a América)
quando a noite era toda teta
de cor (e teu mamilo a sua estrela)
o teu leite era luz e eras (mãe-negra
de onde a raça de Winnie) forte e bela
(feito a girafa erguias o pescoço
a um céu de sangue e nervo e carne e osso)

até que os holandeses (africânderes
e boêres) seguidos por ingleses
(nitilanders) vieram das distantes
terras sobre o teu povo e tuas reses
e as presas de marfim dos elefantes
e o ouro em Transvaal (porém teus chefes
saltaram do Kraal como se antílopes
com as lanças dos seus chifres contra os tigres)

ó Áfricapartaid (enquanto a hiena
gargalhava à pantera) do teu coito
com a árvore-real da tribo themba
(reserva de Transkei) veio a dezoito
de julho de dezoito (última lenda
da tua história) o homem (sonho afoito
de liberdade) aquele que seria
pastor dos teus leões (Mandela) o guia

(ó minha negra-irmã) quase três décadas
de prisão não dobraram o espinhaço
do lutador-de-boxe (entre as celas
raiadas no seu pêlo) nenhum braço
logrou forjar seu ferro entre perpétuas
condenações pois ( sob o mesmo espaço
na jaula de Mandela) estavas tu
(leoa escura) África do Sul"

Zumbi
6
"uma cria de sexo masculino
com escassos dias de existência" (no ano
de mil seiscentos e cinquenta e cinco)
foi achada entre os presos de um mocambo
palmarino e chamada de Francisco
por seu preceptor ( o padre Antônio Melo)
sua cor negra era a da onça-
preta ou pantera (como conta a crônica)

fugiu aos quinze anos (coroinha
tornou-se guerrilheiro)foi Zumbi
("deus-da-guerra") na crespa carapinha
pôs palmas dos Palmares e dali
dividiu sua guerra entre a guerrilha
contra Domingos Jorge Velho e
a luta contra o tio Ganga-Zumba
que baixava o Quilombo ao rés da tumba

(tinha uma cobra armada em cada mão
e um gavião pousado em cada olho)
combatendo Manuel Lopes Galvão
sofreu um ferimento (ficou coxo)
por Antônio Soares (à traição)
foi furado a punhal e (do seu corpo
castrado na raiz) teve (na oca
garganta) o próprio pênis preso à boca

(América) porém ainda hoje
(da queda de Macaco) se
1 424
Maria Aparecida Reis Araújo

Maria Aparecida Reis Araújo

Faces do Silêncio

Pedras escondidas em prateleiras
de encostas
e guizos de aljôfar - silêncio
é o guia, o selo e a viagem.

O desembarcar de ossos
em asas do vento

o borbulhar de espuma
em corpos de areia

o riso milenar no roteiro de cinzas.

827
Marcelo Almeida de Oliveira

Marcelo Almeida de Oliveira

Só mais um

Mais um dia de concreto;
passos certos de quem tem destino;
olhos vão ao chão entre pés e sombras
que não ouvem a tempestade que ronda
na cabeça dos que são como eu,
ossos, carne e dor,
exalando palavras de amor
neste mundo que já se esqueceu
de quão bonito e perfeito poderia ser.

Mas no momento tenho que parar,
o sofrer agora é fadiga, e me consome.
Só nos braços dela encontro a cura.
Só os beijos dela podem me refazer.

Em passos tristes sigo
ao ver o irmão
que a fome roubou o orgulho;
por ele e por outros eu juro
que em breve retornarei mais forte;
mesmo que ainda me fira, ainda me corte,
deixar meu amor dormindo, no escuro,
depois de tudo...

Da esquina chegam notícias distantes,
do irmão que teve a paz tomada pela guerra;
que nem o silêncio nem a distância me deixem esquecer,
Mesmo depois de ser amado por ela,
muito perto agora, ouço você
me abre a porta e um sorriso
que me esquenta em paz e alegria;
a tempestade se vai salgada em teu colo;
agora sonho, sonho de seria, e será... um dia.

731
Marcelo Almeida de Oliveira

Marcelo Almeida de Oliveira

Paleta infeliz

Com suas tintas me pintaram criança,
da cor de seu céu,
de suas árvores,
da cor de seu ouro;
malditos reis gananciosos,
perceber não conseguem
que o céu é anil para todos,
as árvores não são de ninguém,
e seu ouro brilha para poucos.

Com suas tintas pintaram minha casa,
muito antes de eu nascer
num grande quarto sem janelas
e de portas fechadas por vocês;
conquistadores inconseqüentes,
nossos heróis de outrora,
negociando sofrimento por chão,
seus tons insanos são separados agora
pelo vermelho-sangue de meus irmãos.

Com suas tintas pintam cabeças,
preto e branco formam palavras,
elos de correntes impressas
em mentes desavisadas;
deuses impuros ditando leis,
triste realidade pintada por vocês,
quero fazer o que estiver afim,
afastem seus pincéis de mim.

659
Marcelo Almeida de Oliveira

Marcelo Almeida de Oliveira

Desvario descomunal

A brisa vermelha
anuncia tormenta que chega.
Revolução!
outubro voltou,
e não é mais gélido
bigode de ferro;
ainda rubro, mas caliente,
sangue pulsante
que faz ruflar corações.
na boca,
um grito-sorriso:
Liberdade!
nos punhos cerrados,
rosas (vermelhas);
nos corações,
Rosas (Luxemburg).

858
Marcelo Almeida de Oliveira

Marcelo Almeida de Oliveira

Dom quixote I

Se demônios te atormentam,
em casa ou na rua,
quando sol ou quando lua,
olhe para qualquer lado e me veja,
espelho de carne;
escute os murmuros que o vento carrega e me ouça,
eco distante;
certeza que desta vez não é sua cabeça
que doente te prega peças;
esqueça a paranóia e perceba
que louco, você me é,
louco, você sou eu,
louco, você e eu.

Penso naquilo que você pensa, mas não fala;
temo aquilo que você teme, mas não demonstra;
sei das flores na sua cabeça, mas você não as mostra;
sei que sua vontade é gritar, então apenas o faça,
como tiro de fuzil,
alívio como nunca sentiu,
na língua, baioneta,
como lança, uma caneta;
espantando os demônios...
guerreiro, você sou eu,
guerreiro, você e eu.

856
Mário Hélio

Mário Hélio

21-I-(As fezes da festa)

hoje derramamos
o líquido e a lágrima,
amanhã beberemos
o sangue e o suor de sempre.

924
Mário Hélio

Mário Hélio

10- X- (Orfeurídice)

o corpo ardente.

tuas curvas tuas mãos
se perderam na vertigem
dos que quiseram dizer sim
ao amor que já não pulsa
à canção que já não vibra.
teu hálito perdeu-se
entre flores, calores e perfumes.
nós nos perdemos no caminho onde não há volta
porque não se pode olhar atrás.
atrás ficaram todos os carinhos.
atrás ficou a sede desmedida,
atrás ficaram todos os caminhos.

890
Mário Hélio

Mário Hélio

5 - V (Cais sombrio)

eu te reparo nos olhos:
possuem um brilho intensamente mágico
e trágico
eu amo tua pele, cada traço,
cab:elos do mais fino fio
que desfio impulsivamente
tragicomicamente
em toda a extensão do teu ser
porque és maior do que a imaginação.

827
Lya Luft

Lya Luft

Tão sutilmente em tantos breves anos

do livro Mulher no Palco
Tão sutilmente em tantos breves anos
foram se trocando sobre os muros
mais que desigualdades, semelhanças,
que aos poucos dois são um, sem que no entanto
deixem de ser plurais:
talvez as asas de um só anjo, inseparáveis.
Presenças, solidões que vão tecendo a vida,
o filho que se faz, uma árvore plantada,
o tempo gotejando do telhado.
Beleza perseguida a cada hora, para que não baixe
o pó de um cotidiano desencanto.

Tão fielmente adaptam-se as almas destes corpos
que uma em outra pode se trocar,
sem que alguém de fora o percebesse nunca.

1 280
Leonardo de Leo Gama

Leonardo de Leo Gama

Saudação a Afrodite

Teu amor de proveta quer te mascararsábio patético palhaçoquem diz não vai aprender a voarsou loucotolomas quem diz nunca soube amaro sanguemajestosamente coaguladoheroínabom vinhoembriaga deuses fúteisque só se ocupam em cagarse considera viver um desafiodrogue-se com a monotonia de dias bizarrosamematequeimemas não te esqueças de pingar teu colíriopequepecar é divinofurte para sentirdoce cheiro proibidoamecomatrepesiga teu ponto para o infinitonão falesintacuspateu sangue com toda melo-burocracianão há sons para amornem palavras para vidaseja ateuolha teus minutos docemente escuros através do vidrotodo cúpido nasce mortosete badaladas do sinoa jaulaescancaradaabstrato em evidênciaamorrancoródioinvejaLobos-cordeiros sabem olhar com indiferença

1 733
Luís Inácio Araújo

Luís Inácio Araújo

Agreste

Não mais recuo:
o que escrevo é escassez e fendas,
é contra esse modo reto e seguro de escrever
que escrevo
— em desaprumo.
Bebo o gosto travado desse poema
numa cobiça de ser dito:
um laivo de sangue escorre de minha boca.

O processo vital subsiste ainda na artéria,
a manhã poluída prossegue sua lenta engrenagem,
seu incêndio diário, sua assimetria
— apesar do azinhavre no garfo
do pêndulo,
do cotidiano cigarro
igual ao trabalho noturno da morte num corpo.

Mas pra nomear o que respira secretamente
por trás dessa vida de veias nervos assombros penhoras
e sofre desfiladeiros poços terrenos baldios,
a mais inexplicável vertigem
— nenhuma palavra é possível:
nenhum selo.

807
Lúcio José Gusman

Lúcio José Gusman

O pirilampo

Um pirilampo indiscreto,
esperto,
sem pedir licença,
se pôs a contemplar-te
deitada no teu leito:
"- Como és linda!", disse ele.
O pirilampo indiscreto,
esperto,
teve o fado
que me é negado.
E pôde banhar-te
com sua delicada luz,
vislumbrando na fosforescência
do aveludado de teu corpo
a lascívia de tuas formas,
a beleza única de teus contornos.
Tu, qual Vênus pronta a se entregar
aos ansiados braços
de um Morfeu sedento...
Oh! O que eu não daria
para ser o pirilampo!
E ver-te, e admirar-te,
e desejar-te - e te querer! -,
e sentir teu hálito
num abraço-espasmo
longo, duradouro,
fundindo corpos,
entrelaçando almas,
para, enfim,
na exaustão do amor,
depositar na maciez sensual
de tua boca rósea
o ósculo santo da paixão
definitiva.
E depois,
beijar teus olhos semicerrados,
suavemente, ternamente,
e velar teu sono,
e segredar-te sussurrando
tudo aquilo que a uma deusa
se deve dizer ajoelhado.

Mas eu não sou o pirilampo...

874
Luís Inácio Araújo

Luís Inácio Araújo

As Indefinidas Palavras

Qualquer palavra que eu te diga ou te silencie
é tão sem sentido —
para o meu poema que é só bruma
voz muda esferográfica:
e o que sobre é esse silêncio pesando sobre os corpos,
esse chumbo,
o exaurir do carbono,
o vão dos corpos.

Agora quero inventar um poema
com isso que em mim é aresta,
arpão, fratura exposta,
berro içado sobre setembro,
estilhaço, beijo esgarçado,
grifar minha mudez sem fundo
afundada de tantas palavras.
Solto o poema como uma vertigem,
desse perigo não há fuga:
a nona sinfonia arrebenta num revés de crepúsculo.
Inverter o caos da tarde em melodia
ou aceitar o que um poema fabrica
de naufrágio?
pela página?
Num lapso: me escapam o salto e o grito irisado,
e daqui fotografo o abismo em cores kodak.
Palavras desabam numa catástrofe:
quero agora o vazio das margens,
a intransferível brecha,
o vão da palavra impronunciável.
Em que poema jogar fora
as palavras onde sempre esbarro?
— Vida & Morte
Deus & Sexo —
Escrever é o que se arquiteta
do deserto de uma falta,
infância e cio,
o turvo de alguém,
antro de uma boca.
Mas o que escrevo é noite cava,
emparedamento, poço
e não cabe no estreito de nenhum poema.
É só por afronta e voracidade
que escrevo escavo: indefinidamente
até preencher com o poema
a branca ausência: impreenchível.

832
Lúcio José Gusman

Lúcio José Gusman

Sabor

E depois do amor,
muito tempo depois do amor,
não sinto apenas a saudade,
nem lembro apenas o teu perfume,
nem sigo ouvindo apenas a tua voz,
e os teus ais, e os meus te-amo.
Continuo sentindo o teu sabor,
depois do amor,
muito tempo depois do amor...

809
Tomáz Kim

Tomáz Kim

Ladainha Para Qualquer Natal

Não seja esta noite, agora e sempre,
Igual às outras noites.
Não seja esta noite, agora e sempre,
Igual às outras noites:
Tumba de carne viva em ódio amortalhada,
Anunciando sangue e pranto e morte.
Não seja esta noite, agora e sempre,
Igual às outras noites.
Que esta noite não seja para sempre
De fome pra lá de tantas portas
Como flor viçosa em campa rasa.
Que esta noite não seja para sempre
De amor vendido a horas mortas
E o pudor lembrando e a raiva queimando.
Não seja esta noite, agora e sempre,
Igual às outras noites.
Não seja esta noite, agora e sempre,
Igual às outras noites:
Chaga aberta, como rubra flor de pesadelo,
Escorrendo sangue e pranto e morte.
Não seja esta noite, agora e sempre,
Igual às outras noites.
E seja para sempre esta noite
Cheia de graça na terra dos homens.

Assim seja

2 237
Tomáz Kim

Tomáz Kim

Tempo Habitual

De nojo o tempo, o nosso,
A perfídia estrumando
No presumir da carícia branda e sorriso
De todos.

De raiva o tempo, o nosso,
Céu, mar e terra abrasando
Em clamor de labareda e navalha afiada
E sangue.

De pavor o tempo, o nosso,
A primavera assombrando.
Exílio de ventres a fecundar e tudo o mais
Que a faz.

De amor o tempo, o nosso,
Onde uma voz espalhando
A boa nova no pântano fétido da noite
Imposta?

De nojo, de raiva, de pavor,
O tempo transido
Do nosso viver dia-a-dia!
Mas não de amor...

1 207