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Poemas neste tema

Sérgio Mattos

Sérgio Mattos

Sonhei Orizontes

Sonhei horizontes.
Vivi, entre vírgulas, um hiato.
Andei exclamando paixões
e interrogando amores:
(dois pontos)

De repente,
quebrei lanças de solidão
na solidez de teu coração...

866
Maurício Batarce

Maurício Batarce

A Sonata do Amor

Na noite opaca do luar
Tento imaginar você.
Seus sentimentos me vêm
E sua alma cristalina
Exala de seu corpo
Por onde navego delirante.
Minhas palavras ante - românticas
Não são nada para seus gestos romanescos.
Ao som de um piano
Com flauta ao fundo
Imagino-lhe caminhando nas notas.
O dedo que corre ao piano
Toca-lhe sensivelmente
E o romantismo da flauta
Penetra em seu interior.
Música sai de seus lábios em sussurros...
O resplandecer do sol
E a beleza do crepúsculo
Não são mais belos que a música de seus lábios
Você é o sopro de vida do mundo...

985
Maurício Batarce

Maurício Batarce

Homenagem ao Poeta

Nos dias em que o pensamento inexiste
E que a Natureza é triste,
Precisamos do imaginário...
O poeta, através de pequenos grãos de sentimento,
Envolvidos por sons que se dissipam ao vento,
Saúda a vida, brindando-a
Com o vinho das palavras...
Consegue decifrar a mensagem divina dos versos
Através da inspiração
E floresce os campos estéreis da tristeza...

Obrigado poeta por nos apresentar
Sua contribuição valorosa,
Obrigado por nos perfumar com suas rosas.
Obrigado poeta...

711
Manoel Carlos de Almeida

Manoel Carlos de Almeida

Soneto

Demoro-me na escassa infância
em buscamentos de poesia
Que um severo milagre se proponha
e se abasteça a noite de seu dia.

Guardar-me não será melhor que unir-me
à memória dos olhos e do ouvido.
Existe a solidão de um tempo atado
ao que ouvi sem ter sentido.

Sem proeza ofertei amor exíguo.
Não perguntei às formas exauridas
onde encontrar estojo para o verso.

Conquisto para mim palavras minhas
em que o medo engendrou um grave espanto:
fonte de hermética paisagem.

442
Mário António

Mário António

Poema

Quando li Jubiabá
me cri Antônio Balduíno.
Meu Primo, que nunca o leu
ficou Zeca Camarão.

Eh Zeca!

Vamos os dois numa chunga
Vamos farrar toda a noite
Vamos levar duas moças
para a praia da Rotunda!
Zeca me ensina o caminho:
Sou Antônio Balduíno.

E fomos farrar por aí,
Camarão na minha frente,
Nem verdiano se mete:
Na frente Zé Camarão,
Balduíno vai no trás.

Que moça levou meu primo!
Vai remexendo no samba
que nem a negra Rosenda;
Eu praqui olhando só!

Que moça que ele levou!
Cabrita que vira os olhos.
Meu Primo, rei do musseque:
Eu praqui olhando só!

Meu primo tá segredando:
Nossa Senhora da Ilha
ou que outra feiticeira?
A moça o acompanhando.

Zé Camarão a levou:
E eu para aqui a secar.
Eu eu para aqui a secar.

1 368
Maurício Batarce

Maurício Batarce

Sonhos de Um Poeta

Palavras soltas surgem ao vento.
Em um turbilhão confuso de letras
O poeta acompanha o passar do tempo.
O poeta não racionaliza as palavras,
Não raciocina, sente...

Os sonhadores gostariam de escrever neve
Mas não sabem como se escreve.
Sonham com o campo
Para sentir seu aroma;
Imaginam o horizonte
Mas não o encontram no distante...

São narrados nesse momento
Apenas dissentimentos.
Uma voz ecoa ao vento...
O poeta pega carona nas ondas
E envereda-se para o fim do tapete azul...

684
Marigê Quirino Marchini

Marigê Quirino Marchini

Sonetos Venezianos

Melhora Amor, sorrindo, amor que tenho:
deste resto salino de lembranças
forma lagunas e o molhado lenho,
gôndolas que antecipam as bonanças;

do som e acorde, cores e aláude,
faz um quarteto de perfeita dor,
por onde, navegando em beatitude
de Veneza, em acústico langor

as vibrações nos ares geram paz,
vitrais em claridade bizantina
- abre-se o sol em círculos, refaz,

de lembranças salinas, de saudade,
Amor se espelha nágua cristalina,
dourados picos, rútila cidade.

1 016
Marta Gonçalves

Marta Gonçalves

Lições de Vida

Nos lábios, secura de fome espera
o rio manso das palavras. Ando
soltando pássaros verdes e descubro
nos ninhos lições de vida. O galho
do salgueiro conversa com o vento.
No corpo, marcas de ferro. Nas cavernas,
lembranças embalsamadas.

Tudo o que escrevo está em mim.

950
Marta Gonçalves

Marta Gonçalves

O pássaro de Pedra

(... sucumbiremos para renascer sem calendário e roda de fiar.)
Sérgio Campos
Era dezembro. O anjo vestido de açafrão
voava na Estrada da Bica. O flamboyant
florido. O poeta recolhia o silêncio nos olhos.

Pastorava poemas o rosto perdido no tempo.
Ouvia os pardais na janela. Longe, o sonho derretendo
no último verão. O pássaro se esconde do dilúvio.
Os escorpiões estancam o relógio de marrom glacê.

O sal nas paredes, vultos alastram lembranças.
O poeta sente as vértebras soterradas. A liberdade
da mão forma concha e asas morrem no pórtico da casa.

Era dezembro. O anjo vestido de açafrão sangrou a túnica
do poeta. Levou os pardais. O vento sopra na noite os lábios
de pedra.

Vejo a tocha da poesia no caminho. Coloco âncoras,
os sinos dobram, escuto ladainhas de Ouro Preto.

A clarineta veste a alma e papoulas enfeitam nuvens.
Viaja para o equinócio. Seu corpo é o mito da linguagem.
Coloco o manto de lã repleto de memórias. O vôo leva os pardais.

1 153
Marco Antônio de Souza

Marco Antônio de Souza

O Som do Poeta

O que foi feito das palavras ?
Quando voltarão a ser versos ?
O poeta perdeu a razão,
ou passou a não usá-la ?
Um ano, ou quase, do último texto !
Último texto ?
Ou último riso ?
Ou último gemido ?
Se a alegria pode ser som
porque não a tristeza... silêncio

981
Maria Aparecida Reis Araújo

Maria Aparecida Reis Araújo

Palavras

O poeta se esconde na falácia dos ventos, nos nódulos do tempo, no perfume das essências, em urdiduras do mar e espraia seu canto de nostalgia e pânico submersos. Abre janelas e colhe neblina com efervescência de sol, num vôo sutil de borboletas.
Pastor e peregrino arrebanha palavras e lapida silêncios. Sobreleva à cantiga de estrelas a chuva polindo o âmago da terra - solidão de pedras, criando silos em corpos de argila. Bebendo o desvairado vinho da lucidez, entorna réstias de luz nos estertores da alma.

892
Marcia Agrau

Marcia Agrau

Praça Saenz Pena

Sou poeta
e posso ser chamada de maluca
mas nasci na Tijuca
e hoje evito vir aqui.
porque a Praça Sáenz Peña que conheci
era bem diferente.
Da infância me lembro
me estão vivos na mente
os filmes que assisti,
os cinemas daqui...
o Carioca,o América,
o Metro, o Olinda,
Tijuquinha,"o poeira"...
A praça era tão linda
que a Tijuca inteira
se orgulhava daqui.
A Sloper onde comprei
meu colar de continhas
continhas e correntinhas
pelo qual me apaixonei
e no qual gastei todinho
o primeiro dinheiro que ganhei...
A Bella Itália, o palheta,
o Éden lá na esquina
onde hoje é o Banerj..
A praça era branca, preta,
tanto cheirava a grã-fina
quanto a salgueiro poeta...
E a sinuca, no sobrado,
enlevava os rapazotes
num ar de maioridade
mesmo que uns piparotes
os trouxessem à realidade.
O comércio emgeral
se enfeitava no Natal
e as árvores dessa praça
que já tinham sua graça
no estado natural
ficavam engalanadas
bolas grandes,coloridas
festões, luzes, nossa vida
se animava por igual.
A mangueira centenária
agradecia orgulhosa
enfeitada e toda prosa
em seu jeitão solidária.

Evito vir aqui.
porque a Praça Sáez Peña que conheci
era bem outra.
Mas me orgulho de vê-la renascida.
Quem sabe inda algum dia
a vejo parecida
com a mesma em que vivi?
Apenas parecida,
só isso, não quero mais
que sei que o tempo é incapaz
de voltar para trás.
Essa praça tão querida
que faz parte da minha vida
e de tantos demais,
tem resistido há tanto tempo,
a tantas agressões, atanto assédio,
que penso
que o que tem vindo em seu socorro
é o samba que embala seu sono descendo do morro...
e a janelinha da Granado que, à meia-noite, se abre
pra lhe dar remédio...

743
Majela Colares

Majela Colares

O Soldador de Palavras

Fazer poemas é soldar palavras,
fundir o signo - literal sentido -
do verbo frio, transformado em chama,
aceso verso, pensado e medido

sob a moldura da expressão intensa
fingem palavras um som mais fingido
além, no ocaso, da sintaxe extrema,
fuga do verbo não mais definido.

Criado o texto, com idéia e tinta,
forma e figura na linguagem extinta,
quebrando regras de comuns fonemas.

A idéia é fogo. Fogo... o verbo aquece.
A tinta é solda que remenda e tece
versos, metáforas e, por fim, poemas.

2 026
Mário Hélio

Mário Hélio

8 - VIII (Révora)

eu pensei que não seria o único
a penetrar sorrateiro em tua alcova
e beber o lume e a lama de tantos corpos.
nós estávamos um pouco tristes,
e nus sabíamos os últimos puros.
o suor saía dos teus poros,
e eu já para ti algum escudo
quando a luz da escuridão nos envolvia.
e tu volvias, amiga.
eu não sabia que vias poesia em tudo.

teu lábio, contudo, emudecia, umedecia-se de orvalho,
e nós estávamos mudos.
foi quando o anjo singular da fantasia
despiu-se mostrando-se todo.
e então em um ato sublime
também te deitaste em mim
como um jardim em espinhos.
tu não sabes que este não é o caminho?
não atinavas, estavas sozinha, e eu, sozinho,
brincando com a tua agonia.
eu não sabia que vias poesia em tudo.

mas o que esse tudo abrangia?
a mim? a nós? ou ao que me iludo
adaptando-me moldando-me à alegria
que existia sempre? sempre até quando?
e ser preciso morrer de vez em quando
e ser preciso precisar-te que preciso
e aguardo-te, e guardo teu riso no meu viso
que sem ter mais o que espelhar
vai-se espelhando narciso.
eu vi um vulto sem saber que via,
sem saber que vias poesia em tudo.

veneno doce que bebido mata
mas que embebido só numa canastra
arde e maltrata só.
mas que importa toda parafasia
ou monomania de dois nomes
se é substantivo poesia
e tudo é indefinido pronome?

607
Machado de Assis

Machado de Assis

A uma Senhora que me Pediu Versos

Pensa em ti mesma, acharás
Melhor poesia,
Viveza, graça, alegria,
Doçura e paz.

Se já dei flores um dia,
Quando rapaz,
As que ora dou têm assaz
Melancolia.

Uma só das horas tuas
Valem um mês
Das almas já ressequidas.

Os sóis e as luas
Creio bem que Deus os fez
Para outras vidas.

2 223
Mário Hélio

Mário Hélio

15-V(Evangelho)

quantos poetas prováveis
inventam rimas prováveis
neste instante provável!
muitos disseram milhares de fórmulas,
mas quantos provaram
o simples sem teorias?
é isto escrever poesia?
tecer um camafeu absurdo, relativabsoluto?
morrer de medo no escuro,
escrever cartas de amor,
depois querer que a humanidade beba
esse cauim azedo?
quantos neste minuto improfíquo
gastam três minutos de alegria
num poema gasto
que depois de feito produz que efeito?
quantos tantos morrem de febre de pranto
e querem que a razão dos outros acate
esse momento tão pessoal.
quantos outros abarrotam as gavetas
de papéis manusados plenos de arabescos
a que chamam poesia.
felizmente são poucos os loucos
que cultivam esta arte mal dita poesia.

575
Mário Hélio

Mário Hélio

35-V-(Esparsa)

desculpa meu edgar poe
mas talvez a tua dor
não tenha sensibilizado os nossos corações
meu caro edgar
mas ensinam muito
a quem tem mente e a quem não tem também
é pela sede de alguma coisa a mais
que buscamos refúgio no verso
só por isso
meu raro edgar
é para regar as nossas almas
para preencher velhos esparsos
somos os que pintam a morte
o medo de muitos
a dor de muitos
tamanhos
confusos horários
daqui à tua terra
à eternidade
até a eternidade
espero que não haja barreiras
desculpe meu claro edgar
mas esqueci que se eu errasse o caminho
só ouviria um longínquo pavoroso
silêncio
não despertem quem pensa

747
Mário Hélio

Mário Hélio

Livrório-Opuszero

(livro de poesia de Mário Hélio, publicado pela Prefeitura do Recife, em 1985, em virtude de haver conquistado o primeiro lugar no Concurso Literário Cidade do Recife. A presente versão não inclui todos os textos desse livro. Embora mantenha a maioria absoluta dos textos, alguns deles sofreram cortes, tiveram estrofes reduzidas e estrutura simplificada, mantendo-se, no entanto, praticamente intacto o conteúdo e sentido dos poemas, que foram escritos em maioria de 1979 a 1982, portanto, entre os 14 e os 17 anos de vida do autor. Originalmente compunha-se o livro de cem poemas, e estava subdividido em seis gritos, assim distribuídos: 1. Heróide; 2. Longitude Morta; 3. Sol Incompleto; 4. Limitações; 5.Logomaquia; 6. Nós, os pútridos. O opuszero não é gratuito, pois nada é mais é que a primeira parte de um livro composto de várias, com o título geral de Livrório. Além de ser todo escrito em verso livre, esse Livrório define-se pela unidade, a começar pela dedicatória: cada um dos livros de que se compõe o Livrório tem uma, no mesmo espírito dos demais)
Dedicatória:
para hefaistos,
com devoção,
seis pobres gritos,
pobre paixão.

867
Mário Hélio

Mário Hélio

45-II-(Cero C C Prevaricator)

ele pensava que era poeta
e o fogo inspirador
comia-lhe as entranhas

801
Mário Hélio

Mário Hélio

11-I(Formas)

vou deixar de fazer poema
para as estrelas.
hei de cantar as formas duras e abscônditas,
as formas brutas,
a fome e o desespero tão irmãos,
as pequeninas mortes, o imodelável,
as normas brancas.
o poema deve falar à alma e aos sentidos.
nós somos deuses:
deuses não destroem.
o mistério da imensidade não me ofusca,
talvez o mundo nem saiba,
e é isto o que me espanta e me exulta --
a fonte que há dentro de mim.
nós somos deuses, mas ainda não
fizemos a descoberta.
diferente de todos semelhante a todos
sou mais poderoso
todas as coisas me servem eu sou as coisas
a dor não me espanta eu sou a dor.
o homem só é grande quando constrói.

não fiz mais poema para as estéreis estrelas.
desde a última vez que te vi em vaivém com a vida
não sabias da essência forte
que habitava o teu corpo nessas noites
naquelas noites em que te fiz tão minha
que era difícil conjugar quem eu era quem tu eras
já não éramos.

teu sorriso já não encherá as salas.
a palavra resiste a alturas ainda maiores.
mas que eram os ais mulher por quem te calas,
tu sabes que eram sinfonias de amores.
ah sagrada mulher, dorme em meu peito,
talvez o mundo te desperte amanhã.
o que é a vida sem o aroma do teu leito,
sem os hinos de afagos que me entoas no afã?

cantarei simplesmente o momento esgotado
como tributo.
neste mundo jamais conceberemos as formas puras.
são as impurezas que fazem as formas belas,
e as formas são sempre figuras
real ilusão
talvez não haja a negação da negação.
não é a dignidade moral que nos faz deuses,
é o ato de criar, nos lambusar nas formas.
o mundo é maravilhoso, a vida, a criação,
tudo é uma grande massa de modelar
na aparente harmonia que rege cada coisa.
a areia da praia é a parede celular,
o zumbidoecatombe é um sussurrotrovão
e todos são irmãos
nas divisas entrevalux intervalus.
fico pensando na alma das formigas,
nas mais diversas formas do criador.
deus é um grande artista plástico,
poeta músico seresteiro de noites não pensadas.

não farei mais versos às estrelas.
elas têm o seu vate.
cantarei as nossas formas
e mais a mais
existem gritos grifando a multidão,
é preciso perseguir as coisas e alcansá-las
mudá-las moldá-las mandálas acabálas.
nenhum halo se acendera em tua cabeça.
repito que a aparente sensação de vislumbre
é só visão.
através do atrazo destes anos atrozes
são como cem deuses sem ritos sem infinitos
sem eleuses
abaixo todos os mitos.

877
Mário Hélio

Mário Hélio

17-VII(Mentes doentes)

essas inquietudes que escapam do meu ser
por tudo o que eu sou sem perceber.
o que eu fui foi alguma vez o hipotétrico,
o que senti sente o que me transformou.
tinhas razão, poeta,
sempre tristíssimas essas cantigas
sempre
gritando coisas que bem
não compreendemos.
tanta coisa!
e o que é real-
mente esse poema? uma parcela... um canto in-
completo...
verdadeiros lampejos... só lampejos...
sempre tristíssimos...
breve ilusão semiacon-
tecida que encanta e arrefece.
um som um sopro e tudo se transporta
pelo trauma que há por trás da porta;
depois a inquietação novamente
o cálice da indecisão...
como uma árvore no regato
esperando que chegue o outono
que as estações se transformem
levando os sonhos dispersos
e no silêncio ensinem
que é necessário matar as lembranças.

606
Luiz de Aquino

Luiz de Aquino

Clave de Lua

Clave de Lua

Cantar é tão longe
como o encontro efêmero
num verso travesso
acontecido infeliz.

Cantar é tão doce
como o encontro esperado
e demorado
num pentagrama, dois por dois.

Cantar é a clave
de sol crescente
em fundo de lua
cheia de amor
perfeito pra nós.

Cantar é te ver
cantando esperanças
pros meus sentidos.

1 163
Lupe Cotrim Garaude

Lupe Cotrim Garaude

Ars Poética

Da desordem nunca
erguerei um verso.

Bem sei
que na bela superfície de um momento,
existe o alento
da Poesia.

Mas é do futuro,
é do instante que serve
a continuidade da vida
em sentimento,
que desejo o meu poema.

O Homem,
sofrido a prosseguir
na sua eternidade construída —
— eis o meu tema.

1 008
Luiz Nogueira Barros

Luiz Nogueira Barros

Breves palavras sobre a poética deAntonio Massa

Antônio Massa me faz senti-lo como uma espécie de poeta do desencanto, no tocante ao seu canto e suas queixas sobre a condição humana. O poema Cartesianos é o mais expressivo dos versos que eu li. Nele o racionalismo é ponto de partida, e dentro do qual está, com toda a clareza, uma grande queixa, uma ode, um hino e, finalmente um manifesto pela liberdade, a liberdade que exigiria romper com os laços do convencionalismo racionalista das coisas institucionalizadas. Importa pois, sair das formas geométricas dentro das quais estamos perdidos, engradados, resignados a um teorema.
O racionalismo, então pré-racionalismo, com Santo Agostinho, em "A Cidade de Deus", estava assim expresso, no século III : "Intelligas ut creda; credi ut intelligas"( Ver para crer, crer para compreender). Mas tarde o santo diria " Se eu me engano é porque sou, pois quem não se engana não é" , num rompante próprio dos padres filósofos, da filosofia patrística que procurava explicar Deus não mais à luz dos dogmas e sim de um entendimento racional. René Descartes, século XIV, retoma as perquirições agostinianas e, com o " Penso, logo existo" ( Cogito, ergo sum ), passa à história como o criador do racionalismo, face aos seus conhecimentos das ciências matemáticas...
O racionalismo, portanto, foi apenas a busca das dimensões reais das coisas, quando a humanidade ainda se debatia entre a mitologia, a religião e as ciências. E não poderia ter nada a ver com convencionalismo, muito mais um categoria sócio-político e elemento fundamental das sociedades humanas que nos contiveram em números, datas, e um código de obrigações, forçando a que o poeta, angustiado, afirme em "Firma Reconhecida", com todos tons e matizes da alma que busca o sentido do existir, do homem que busca um papel humano, ou humanístico:

Está tudo no papel
e em todos os papéis
homens carimbados
buscando papel de gente.

Mas Antonio Massa, em Cartesianos, abre fogo contra o racionalismo
Por demais acartesianados
não distinguimos o espírito
despido de números ou códigos.
E segue :
Nem entendemos que o silêncio
foi criado a fim de ouvirmos seu doce pranto.

E prossegue falando das nossas preocupações sobre quantos raios o sol emite ou de quantos pelos há na pubis; da nossa incapacidade de separarmos o homem do lobisomen que há dentro de nós, insensível e incapaz de conceder, conceber, perdoar, empreender, etc, no tocante a certas necessidades e relações entre seres humanos, por vezes não institucionalizadas e por isto estranhas e condenadas...
Num crescendo, Antonio Massa pretende dar por encerrada sua queixa quando nos afirma:
Estamos esperando
que a praia seque
e o mar se vá
para sentarmos, então, ao nada
e queixarmos academicamente
- Onde foi que erramos a conta ?

Quando imagino que o poema lembra uma ode á liberdade, lembro-me de Max Nordau, que escreveu sobre as mentiras convencionais do século XX. E até mesmo de Zaratustra, de Nietzsche, quando nos afirma que desteta os que se escondem por detrás de uma estrela e não lutam pela terra...
Quando tudo parece estar finalizando, então, Antonio Massa dá uma receita de como encerar o homem, na verdade a sua vaiade, o seu egoismo, a sua pretendida identidade, no fundo mesmo a sua caricatura, em Instruções para se Encerar um Homem. E depois de muitas peripécias chega ao topo do homem, a cabeça, afirmando:
Ao chegar ao topo,
deve-se abrir a caixa
e sujar o homem com seu
conteúdo
e quando
depois de ofuscada a cera
teremos um homem perfeito.

...o que o poeta parece nos querer dizer, que o brilho, o polimento dado no homem tanto pode ser efêmero como necessário, por vezes, que a caricatura do homem que somos e temos sido é algo incômodo.
Mas quando menos se espera que o tema está terminado Antonio Massa nos informa, em Não há vagas, que o homem continua procurando vagas ( espaço ) em todos os lugares:
...nas casas, nas mágoas
no ofício de gente
no prato do irmão.

...nos muros , na arte
e nos arremates
de vida e de sorte.

...apesar de tudo, numa fatalidade dramática, se não estiver enganado. Mas agora um certo "darwinismo social" toma conta do tema do poeta
porque, feliz ou felizmente

...os senhores da Ordem
justos e prestos
buscam informatizar
as alas do inferno.

...impedindo-nos mesmo de uma morte tranquila...
O que há de belo nos poetas e nas poesias são as suas afirmativas e negativas, as suas contraposições metafísicas, mas, de repente, a espiral dialética que lhes permitem sair no outro lado do túnel.
Continuo acreditando no Zaratustra, de Nietzsche, quando nos afirma que às vezes é preciso termos o caos dentro de nós para darmos à luz uma estrela cintilante.
Pode ter sido, não sei, o caos que Antonio Massa vê em torno do homem o motivo para que ele desse ao mundo a sua estrela cintilante, sob forma de poesia.
Quem sabe,finalmente, e também, não lhe moveu, inconscientemente, a alma de Gonçalves Dias, o poeta guerreiro que o convocou para não se intimidar diante do mundo e do homem, ordenando-lhe denunciar as prefigurações do ente que está mais próximo dele mesmo e sobre o qual ele tem algumas dúvidas...
O mundo é assim mesmo, meu caro poeta. Mas apesar de tudo estaremos sempre a sair do outro lado do túnel. E você saiu, com sua poesia, apesar das "dores do mundo", do melancólico mas extraordinário Schopenhauer...
Quando Nietzsche, do "Ecce Homo", trata do homem no tocante à "vontade do advento" nos afirma, categoricamente: "...aquilo que não o aniquila, torna-o bem mais forte..."
O advento da poesia, em sua vida, meu caro poeta, é a sua estrela cintilante.
Vá em frente...
Luiz Nogueira Barros

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