Beleza
Poemas neste tema
António Ramos Rosa
Atlan
Estas cores livres
em que o sonho é sol
homem ouve o dia
que há nos teus olhos
Estas cores bruscas
de quinas de pedras
homem vê os ossos
da tua alegria
Estas cores negras
de cílios de vespas
homem olha o centro
da loucura certa
em que o sonho é sol
homem ouve o dia
que há nos teus olhos
Estas cores bruscas
de quinas de pedras
homem vê os ossos
da tua alegria
Estas cores negras
de cílios de vespas
homem olha o centro
da loucura certa
992
António Ramos Rosa
Um Dia Perfeito. Um Ombro…
Um dia perfeito
Um ombro
E treme a flor
Nenhum vento
nos objectos leves
Apenas
a reticência duns cílios
*
Ó rosa imóvel
a lâmpada dum seio
Ó tenebrosa e clara
suavidade
de mulher
*
O quarto sem espelho
Um jardim só de nome
Pousam os objectos
na mesa sem cuidados
Tudo está consumido
Ó glória dum insecto
silencioso no quarto
*
Impenetrável nome
a meio do livro aberto
A noite é uma presença
sem perfil flutuante
Mas o dia ordenou-se
na fímbria duma rosa
Bola de escaravelho
*
Claro e sem destino
se perfaz este dia
arrumado em silêncios
e sombras sombras leves
Um ombro
E treme a flor
Nenhum vento
nos objectos leves
Apenas
a reticência duns cílios
*
Ó rosa imóvel
a lâmpada dum seio
Ó tenebrosa e clara
suavidade
de mulher
*
O quarto sem espelho
Um jardim só de nome
Pousam os objectos
na mesa sem cuidados
Tudo está consumido
Ó glória dum insecto
silencioso no quarto
*
Impenetrável nome
a meio do livro aberto
A noite é uma presença
sem perfil flutuante
Mas o dia ordenou-se
na fímbria duma rosa
Bola de escaravelho
*
Claro e sem destino
se perfaz este dia
arrumado em silêncios
e sombras sombras leves
986
António Ramos Rosa
Corpo E Terra
Vejo o corpo grande, na solidão ignorada,
na sua alvura larga, toalha viva e água,
na banheira cantando como é larga a mulher!
Sem destino oiço o sol e as janelas abertas,
oiço um corpo extenso, branco, volumoso,
abraçando a madeira, abraço a carne, a terra viva.
Entrar em ti, mulher, ó lâmpada de seda,
abrir-me na paisagem de um só tronco com boca,
encrespar as planícies da tua pele ondulada,
oh como o mar é claro nesta onda deitada!
Oh como eu sou um homem no meio-dia claro!
*
Os seus seios louros (ó cor só de sonhá-la)
entre o branco e o negro, ó rósea sedução,
deitado à sombra respiro mamilos plenos
a obscura densa suave oscilação
*
(mulheres de Picasso)
Estou preso a estas linhas de espaço e de ternura
tremendo na montanha fina da carne plena
*
Murmúrio tão intenso e a água sempre bela!
A casa branca, gloriosa e simples.
Aberto o vale diante da janela,
a mesa com os frutos e a claridade da água
na jarra ao centro, as flores no azul!
na sua alvura larga, toalha viva e água,
na banheira cantando como é larga a mulher!
Sem destino oiço o sol e as janelas abertas,
oiço um corpo extenso, branco, volumoso,
abraçando a madeira, abraço a carne, a terra viva.
Entrar em ti, mulher, ó lâmpada de seda,
abrir-me na paisagem de um só tronco com boca,
encrespar as planícies da tua pele ondulada,
oh como o mar é claro nesta onda deitada!
Oh como eu sou um homem no meio-dia claro!
*
Os seus seios louros (ó cor só de sonhá-la)
entre o branco e o negro, ó rósea sedução,
deitado à sombra respiro mamilos plenos
a obscura densa suave oscilação
*
(mulheres de Picasso)
Estou preso a estas linhas de espaço e de ternura
tremendo na montanha fina da carne plena
*
Murmúrio tão intenso e a água sempre bela!
A casa branca, gloriosa e simples.
Aberto o vale diante da janela,
a mesa com os frutos e a claridade da água
na jarra ao centro, as flores no azul!
1 077
Sully Prudhomme
O cisne
Calmo, do espelho azul d’água profunda e calma
à face errando, os pés, lânguido, o cisne espalma
E desliza. Da neve os raros flocos brancos
Lembra o fino frouxel que lhe amacia os flancos;
Línea vela parece a asa que encurva e brande,
Esbelto, e ora retrai, ora sacode e expande;
Entre as ninféias indo, o alvo pescoço apruma,
Colhe-o após, some-o n’água, estende-o sobre a espuma,
Curva-o mole e gracioso, e ânfora antiga imita.
Dos pinheiros ao longo, onde o silêncio habita
E a paz e a sombra, vai; rastejando na esteira,
Que atrás fica, semelha intensa cabeleira
A basta ervagem fresca a palpitar. A gruta,
Que a alma atrai do poeta e a voz da tarde escuta,
Praz-lhe e a fonte que além flui, regurgita e bolha.
Vendo-as, lento se arrasta. às vezes numa folha
Leve cai do salgueiro e, em sua queda, leve,
Roça-lhe, muda sombra, as plumas cor de neve.
Caminha agora ao largo; o implexo da ramagem
Deixa e a parte procura onde o esplendor selvagem
Diz melhor com o brilhar d’água anilada e pura.
Do lado é a parte mais azul que ele procura;
E lá vai… a cismar sobre as ondas serenas,
Entrega à luz do sol a brancura das penas.
Depois, quando, em redor, se confundem, caindo
A noite, do amplo lago as margens, e no infinito
Horizonte há somente um ponto avermelhado;
Quando tudo quedou, quando no ilimitado
Do céu paira da lua o globo enorme e albente;
Quando acende o lampiro a luz fosforescente,
E nem o menor sopro o débil junco embala:
O cisne, sob o olhar dessa noite de opala,
Em seu lago sombrio, enfim, descansa; e, acaso
Visto de alguém, assim, lembra de prata um vaso…
Põe sob a asa a cabeça, os olhos sonolentos
Fecha, e dorme, feliz, entre dois firmamentos.
Le cygne
Sans bruit, sous le miroir des lacs profonds et calmes,
Le cygne chasse l’onde avec ses larges palmes,
Et glisse. Le duvet de ses flancs est pareil
A des neiges d’avril qui croulent au soleil;
Mais, ferme et d’un blanc mat, vibrant sous le zéphire,
Sa grande aile l’entraîne ainsi qu’un lent navire.
Il dresse son beau col au-dessus des roseaux,
Le plonge, le promène allongé sur les eaux,
Le courbe gracieux comme un profil d’acanthe,
Et cache son bec noir dans sa gorge éclatante.
Tantôt le long des pins, séjour d’ombre et de paix,
Il serpente, et, laissant les herbages épais
Traîner derrière lui comme une chevelure,
Il va d’une tardive et languissante allure.
La grotte où le poète écoute ce qu’il sent,
Et la source qui pleure un éternel absent,
Lui plaisent; il y rôde; une feuille de saule
En silence tombée effleure son épaule.
Tantôt il pousse au large, et, loin du bois obscur,
Superbe, gouvernant du côté de l’azur,
Il choisit, pour fêter sa blancheur qu’il admire,
La place éblouissante où le soleil se mire.
Puis, quand les bords de l’eau ne se distinguent plus,
A l’heure où toute forme est un spectre confus,
Où l’horizon brunit rayé d’un long trait rouge,
Alors que pas un jonc, pas un glaïeul ne bouge,
Que les rainettes font dans l’air serein leur bruit,
Et que la luciole au clair de lune luit,
L’oiseau, dans le lac sombre où sous lui se reflète
La splendeur d’une nuit lactée et violette,
Comme un vase d’argent parmi des diamants,
Dort, la tête sous l’aile, entre deux firmaments.
tradução Alberto de oliveira
à face errando, os pés, lânguido, o cisne espalma
E desliza. Da neve os raros flocos brancos
Lembra o fino frouxel que lhe amacia os flancos;
Línea vela parece a asa que encurva e brande,
Esbelto, e ora retrai, ora sacode e expande;
Entre as ninféias indo, o alvo pescoço apruma,
Colhe-o após, some-o n’água, estende-o sobre a espuma,
Curva-o mole e gracioso, e ânfora antiga imita.
Dos pinheiros ao longo, onde o silêncio habita
E a paz e a sombra, vai; rastejando na esteira,
Que atrás fica, semelha intensa cabeleira
A basta ervagem fresca a palpitar. A gruta,
Que a alma atrai do poeta e a voz da tarde escuta,
Praz-lhe e a fonte que além flui, regurgita e bolha.
Vendo-as, lento se arrasta. às vezes numa folha
Leve cai do salgueiro e, em sua queda, leve,
Roça-lhe, muda sombra, as plumas cor de neve.
Caminha agora ao largo; o implexo da ramagem
Deixa e a parte procura onde o esplendor selvagem
Diz melhor com o brilhar d’água anilada e pura.
Do lado é a parte mais azul que ele procura;
E lá vai… a cismar sobre as ondas serenas,
Entrega à luz do sol a brancura das penas.
Depois, quando, em redor, se confundem, caindo
A noite, do amplo lago as margens, e no infinito
Horizonte há somente um ponto avermelhado;
Quando tudo quedou, quando no ilimitado
Do céu paira da lua o globo enorme e albente;
Quando acende o lampiro a luz fosforescente,
E nem o menor sopro o débil junco embala:
O cisne, sob o olhar dessa noite de opala,
Em seu lago sombrio, enfim, descansa; e, acaso
Visto de alguém, assim, lembra de prata um vaso…
Põe sob a asa a cabeça, os olhos sonolentos
Fecha, e dorme, feliz, entre dois firmamentos.
Le cygne
Sans bruit, sous le miroir des lacs profonds et calmes,
Le cygne chasse l’onde avec ses larges palmes,
Et glisse. Le duvet de ses flancs est pareil
A des neiges d’avril qui croulent au soleil;
Mais, ferme et d’un blanc mat, vibrant sous le zéphire,
Sa grande aile l’entraîne ainsi qu’un lent navire.
Il dresse son beau col au-dessus des roseaux,
Le plonge, le promène allongé sur les eaux,
Le courbe gracieux comme un profil d’acanthe,
Et cache son bec noir dans sa gorge éclatante.
Tantôt le long des pins, séjour d’ombre et de paix,
Il serpente, et, laissant les herbages épais
Traîner derrière lui comme une chevelure,
Il va d’une tardive et languissante allure.
La grotte où le poète écoute ce qu’il sent,
Et la source qui pleure un éternel absent,
Lui plaisent; il y rôde; une feuille de saule
En silence tombée effleure son épaule.
Tantôt il pousse au large, et, loin du bois obscur,
Superbe, gouvernant du côté de l’azur,
Il choisit, pour fêter sa blancheur qu’il admire,
La place éblouissante où le soleil se mire.
Puis, quand les bords de l’eau ne se distinguent plus,
A l’heure où toute forme est un spectre confus,
Où l’horizon brunit rayé d’un long trait rouge,
Alors que pas un jonc, pas un glaïeul ne bouge,
Que les rainettes font dans l’air serein leur bruit,
Et que la luciole au clair de lune luit,
L’oiseau, dans le lac sombre où sous lui se reflète
La splendeur d’une nuit lactée et violette,
Comme un vase d’argent parmi des diamants,
Dort, la tête sous l’aile, entre deux firmaments.
tradução Alberto de oliveira
997
Sully Prudhomme
O Cisne
Sem rumor, sob o espelho em lagos fundos, calmos,
O cisne impele a onda com as amplas palmas,
E desliza. A penugem em seus flancos, tal
Neves de abril tremendo ao sol de forma igual;
Mas, rijo, branco mastro a vibrar pelo vento,
Sua imensa asa o leva assim qual barco lento,
Passa seu belo peito acima de umas plantas,
Mergulha e sobre as águas o alonga, levanta,
Arqueia-o gracioso qual perfil de acanto
E guarda o negro bico em seu colo de encanto.
Ora ao longo dos pinhos, lar de sombra e paz,
Serpeia, deixando ervas espessas atrás
Arrastando-se assim como uma cabeleira,
E segue ele em suave e lânguida maneira.
A gruta onde o poeta escuta o que ele sente
E a fonte que lamenta um sempre eterno ausente
Lhe prazem; Lá gira ele; e a folha de salgueiro
Em silêncio caída, ao seu dorso se abeira.
Quanto mais ele faz-se ao largo; a se afastar
Do bosque escuro e, esplêndido, no azul reinar,
Só elegeu para saudar o alvor que admira
O lugar reluzente em onde o sol se mira.
E depois quando as margens tornam-se confusas,
Na hora onde toda forma é um espectro difuso,
Onde reduz um horizonte em rubro risco,
Enquanto nenhum junco ou espadana pisca,
Com as rãs verdes a soar no sereno ar
E quando o pirilampo refulge ao luar,
A ave, no sombrio lago aonde se reflete
O fulgor de uma noite láctea e violeta,
Como um jarro de prata em meio a diamantes,
Dorme, a cabeça entre asas e dois céus brilhantes.
tradução José Lino Grünewald
O cisne impele a onda com as amplas palmas,
E desliza. A penugem em seus flancos, tal
Neves de abril tremendo ao sol de forma igual;
Mas, rijo, branco mastro a vibrar pelo vento,
Sua imensa asa o leva assim qual barco lento,
Passa seu belo peito acima de umas plantas,
Mergulha e sobre as águas o alonga, levanta,
Arqueia-o gracioso qual perfil de acanto
E guarda o negro bico em seu colo de encanto.
Ora ao longo dos pinhos, lar de sombra e paz,
Serpeia, deixando ervas espessas atrás
Arrastando-se assim como uma cabeleira,
E segue ele em suave e lânguida maneira.
A gruta onde o poeta escuta o que ele sente
E a fonte que lamenta um sempre eterno ausente
Lhe prazem; Lá gira ele; e a folha de salgueiro
Em silêncio caída, ao seu dorso se abeira.
Quanto mais ele faz-se ao largo; a se afastar
Do bosque escuro e, esplêndido, no azul reinar,
Só elegeu para saudar o alvor que admira
O lugar reluzente em onde o sol se mira.
E depois quando as margens tornam-se confusas,
Na hora onde toda forma é um espectro difuso,
Onde reduz um horizonte em rubro risco,
Enquanto nenhum junco ou espadana pisca,
Com as rãs verdes a soar no sereno ar
E quando o pirilampo refulge ao luar,
A ave, no sombrio lago aonde se reflete
O fulgor de uma noite láctea e violeta,
Como um jarro de prata em meio a diamantes,
Dorme, a cabeça entre asas e dois céus brilhantes.
tradução José Lino Grünewald
661
Antônio Ribeiro dos Santos
Soneto
Á formosura de Lília
Vénus buscando a Amor andava um dia,
E a todos seus por ele procurava;
A mim me perguntou onde ele estava,
E eu lhe disse que em Lilia o acharia.
À Lilia corre, e vê que Amor dormia
Em seu mole regaço; vozes dava
Por que Amor acordasse; ele acordava,
Mas ria-se da mãe, e adormecia.
Por fim lhe torna: Mãe, não mais te canses,
Qu'eu já daqui não saio, ainda quando
Rogues, ou mandes, ou grilhões me lances.
Fica-te em paz, diz Vénus já voltando,
Nem tu tens melhor colo em que descanses,
Nem Lília maior bem que ter-te brando.
Vénus buscando a Amor andava um dia,
E a todos seus por ele procurava;
A mim me perguntou onde ele estava,
E eu lhe disse que em Lilia o acharia.
À Lilia corre, e vê que Amor dormia
Em seu mole regaço; vozes dava
Por que Amor acordasse; ele acordava,
Mas ria-se da mãe, e adormecia.
Por fim lhe torna: Mãe, não mais te canses,
Qu'eu já daqui não saio, ainda quando
Rogues, ou mandes, ou grilhões me lances.
Fica-te em paz, diz Vénus já voltando,
Nem tu tens melhor colo em que descanses,
Nem Lília maior bem que ter-te brando.
625
Natasha Tinet
Não tem geometria
Não tem geometria que explique
o gosto das cinco horas da manhã
a tragédia das amoras
a geologia de uma íris
a fúria dos grânulos de areia
contra os teus pés.
o gosto das cinco horas da manhã
a tragédia das amoras
a geologia de uma íris
a fúria dos grânulos de areia
contra os teus pés.
643
Stéphane Mallarmé
Tristeza de verão
O sol, na areia, aquece, ó brava adormecida,
O ouro da tua coma em banho langoroso,
Queimando o seu incenso em tua face aguerrida,
E mistura aos teus prantos um filtro amoroso.
Desse branco fulgor a imóvel calmaria
Te faz dizer, dolente, ó carícias discretas,
‘Jamais nós dois seremos uma múmia fria
Sob o antigo deserto e as palmeiras eretas!’
Porém os teus cabelos, rio morno, imploram
Para afogar sem medo a nossa alma triste
E encontrar esse Nada que em teu ser não medra.
Degustarei o bistre que teus cílios choram
Para ver se ele doa àquele que feriste
A insensibilidade do azul e da pedra.
(Stéphane Mallarmé, 1864, trad. Augusto de Campos)
O ouro da tua coma em banho langoroso,
Queimando o seu incenso em tua face aguerrida,
E mistura aos teus prantos um filtro amoroso.
Desse branco fulgor a imóvel calmaria
Te faz dizer, dolente, ó carícias discretas,
‘Jamais nós dois seremos uma múmia fria
Sob o antigo deserto e as palmeiras eretas!’
Porém os teus cabelos, rio morno, imploram
Para afogar sem medo a nossa alma triste
E encontrar esse Nada que em teu ser não medra.
Degustarei o bistre que teus cílios choram
Para ver se ele doa àquele que feriste
A insensibilidade do azul e da pedra.
(Stéphane Mallarmé, 1864, trad. Augusto de Campos)
1 605
Alexandre Herculano
Arrábida
I
Salve, ó vale do sul, saudoso e belo!
Salve, ó pátria da paz, deserto santo,
Onde não ruge a grande voz das turbas!
Solo sagrado a Deus, pudesse ao mundo
O poeta fugir, cingir-se ao ermo,
Qual ao freixo robusto a frágil hera,
E a romagem do túmulo cumprindo,
Só conhecer, ao despertar na morte,
Essa vida sem mal, sem dor, sem termo,
Que íntima voz contínuo nos promete
No trânsito chamado o viver do homem.
II
Suspira o vento no álamo frondoso;
As aves soltam matutino canto;
Late o lebréu na encosta, e o mar sussurra
Dos alcantis na base carcomida:
Eis o ruído de ermo! Ao longe o negro,
Insondado oceano, e o céu cerúleo
Se abraçam no horizonte. Imensa imagem
Da eternidade e do infinito, salve!
III
Oh, como surge majestosa e bela,
Com viço da criação, a natureza
No solitário vale! E o leve insecto
E a relva e os matos e a fragrância pura
Das boninas da encosta estão contando
Mil saudades de Deus, que os há lançado,
Com mão profusa, no regaço ameno
Da solidão, onde se esconde o justo.
E lá campeiam no alto das montanhas
Os escalvados píncaros, severos,
Quais guardadores de um lugar que é santo;
Atalaias que ao longe o mundo observam,
Cerrando até o mar o último abrigo
Da crença viva, da oração piedosa,
Que se ergue a Deus de lábios inocentes.
Sobre esta cena o sol verte em torrentes
Da manhã o fulgor; a brisa esvai-se
Pelos rosmaninhais, e inclina os topos
Do zimbro e alecrineiro, ao rés sentados
Desses tronos de fragas sobrepostas,
Que alpestres matas de medronhos vestem;
O rocio da noite à branca rosa
No seio derramou frescor suave,
E inda existência lhe dará um dia.
Formoso ermo do sul, outra vez, salve!
IV
Negro, estéril rochedo, que contrastas,
Na mudez tua, o plácido sussurro
Das árvores do vale, que vicejam
Ricas d'encantos, coa estação propícia;
Suavíssimo aroma, que, manando
Das variegadas flores, derramadas
Na sinuosa encosta da montanha,
Do altar da solidão subindo aos ores,
És digno incenso ao Criador erguido;
Livres aves, filhas da espessura,
Que só teceis da natureza as hinos,
O que crê, o cantor, que foi lançado,
Estranho no mundo, no bulício dele,
Vem saudar-vos, sentir um gozo puro,
Dus homens esquecer paixões e opróbio,
E ver, sem ver-lhe a luz prestar a crimes,
O Sol, e uma só vez puro saudar-lha.
Convosco eu sou maior; mais longe a mente
dos céus se imerge livre,
E se desprende de mortais memórias
Na solidão solene, onde, incessante,
Em cada pedra, em cada flor se escuta
Do Sempiterno a voz, e vê-se impressa
A dextra sua em multiforme quadro.
V
Escalvado penedo, que repousas
Lá no cimo do monte, ameaçando
Ruína ao roble secular da encosta,
Que sonolento move a coma estiva
Ante a aragem do mar, foste formoso;
Já te cobriram cespedes virentes;
Mus o tempo voou, e nele envolta
A formosura tua. Despedidos
Das negras nuvens o chuveiro espesso
E o granizo, que o solo fustigando
Tritura u tenra lanceolada relva,
Durante largos séculos, no Inverno,
Dos vendavais no dorso a ti desceram.
Qual amplexo brutal de ardos grosseiro,
Que, maculando virginal pureza.
Do pudor varre a auréola celeste,
E deixa, em vez de um serafim m Terra,
Queimada flor que devorou o raio.
VI
Caveira da montanha, ossada imensa,
É tua campa o Céu: sepulcro o vale
Um dia te será. Quando sentires
Rugir com som medonho a Terra ao longe,
Na expansão dos vulcões, e o mar, bramindo,
Lançar à praia vagalhões cruzados;
Tremer-te a larga base, e sacudir-te
De sobre si, o fundo deste vale
Te vai servir de túmulo; e os carvalhos
Do mundo primogénitos, e os sobros,
Arrastados por ti lá da colina,
Contigo hão-de jazer. De novo a terra
Te cobrirá o dorso sinuoso:
Outra vez sobre ti nascendo os lírios,
Do seu puro candor hão-de adornar-te;
E tu, ora medonho e nu e triste,
Ainda belo serás, vestido e alegre.
VII
Mais que o homem feliz! Quando eu no vale
Dos túmulos cair; quando uma pedra
Os ossos me esconder, se me for dada,
Não mais reviverei; não mais meus olhos
Verão, ao pôr-se, o Sol em dia estivo,
Se em turbilhões de púrpura, que ondeiam
Pelo extremo dos céus sobre o ocidente.
Vai provar que um Deus há o estranhos povos
E além das ondas trémulo sumir-se;
Nem, quando, lá do cimo das montanhas,
Com torrentes de luz inunda as veigas:
Não mais verei o refulgir da Lua
No irrequieto mar, na paz da noite,
Por horas em que vela o criminoso,
A quem íntima voz rouba o sossego.
E em que o justo descansa, ou, solitário,
Ergue ao Senhor um hino harmonioso.
VIII
Ontem, sentado num penhasco, e perto
Dos águas, então quedas, do oceano,
Eu também o louvei sem ser um justo:
E meditei, e a mente extasiada
Deixei correr pela amplidão das ondas.
Como abraço materno era suave
A aragem fresca do cair das trevas.
Enquanto, envolta em glória, a clara Lua
Sumia em seu fulgor milhões d'estrelas.
Tudo calado estava: o mar somente
As harmonias da criação soltava,
Em seu rugido; e o ulmeiro do deserto
Se agitava, gemendo e murmurando.
Ante o sopro de oeste: ali dos olhos
O pranto me correu, sem que o sentisse.
E aos pés de Deus se derramou minha alma.
IX
Oh, que viesse o que não crê, comigo,
À vicejante Arrábida de noite,
E se assentasse aqui sobre estas fragas,
Escutando o sussurro incerto e triste
Das movediças ramas, que povoa
De saudade e de amor nocturna brisa;
Que visse a lua, o espaço opresso de astros,
E ouvisse o mar soando: – ele chorara,
Qual eu chorei, as lágrimas do gozo,
E, adorando o Senhor, detestaria
De uma ciência vã seu vão orgulho.
X
É aqui neste vale, ao qual não chega
Humana voz e o tumultuar das turbas,
Onde o nada da vida sonda livre
O coração, que busca ir abrigar-se
No futuro, e debaixo do amplo manto
Da piedade de Deus: aqui serena
Vem a imagem da campa, como a imagem
Da pátria ao desterrado; aqui, solene,
Brada a montanha, memorando a morte.
Essas penhas, que, lá no alto das serras
Nuas, crestadas, solitárias dormem,
Parecem imitar da sepultura
O aspecto melancólico e o repouso
Tão desejado do que em Deus confia.
Bem semelhante à paz. que se há sentado
Por séculos, ali, nas cordilheiras
É o silêncio do adro, onde reúnem
Os ciprestes e a Cruz, o Céu e a Terra.
Como tu vens cercado de esperança,
Para o inocente, ó plácido sepulcro!
Junto das tuas bordas pavorosas
O perverso recua horrorizado:
Após si volve os olhos; na existência
Deserto árido só descobre ao longe.
Onde a virtude não deixou um trilho.
Mas o justo, chegando à meta extrema,
Que separa de nós a eternidade,
Transpõe-na sem temor, e em Deus exulta..
O infeliz e o feliz lá dormem ambos,
Tranquilamente: e o trovador mesquinho,
Que peregrino vagueou na Terra,
Sem encontrar um coração ardente
Que o entendesse, a pátria de seus sonhos,
Ignota, por lá busca; e quando as eras
Vierem junto às cinzas colocar-lhe
Tardios louros, que escondera a inveja,
Ele não erguerá a mão mirrada,
Para os cingir na regelada fronte.
Justiça, glória, amor, saudade, tudo,
An pé da sepultura, é som perdido
De harpa eólia esquecida em brenha ou selva:
O despertar um pai, que saboreia
Entre os bruços da morte o extremo sono,
Já não é dado ao filial suspiro;
Em vão o amante, ali, da amada sua
De rosas sobre a c'roa debruçado,
Rega de amargo pranto as murchas flores
E a fria pedra: a pedra é sempre fria.
E para sempre as flores se murcharam.
XI
Belo ermo!, eu hei-de amar-te enquanto esta alma,
Aspirando o futuro além da vida
E um hálito dos Céus, gemer atada
À coluna do exílio, a que se chama
Em língua vil e mentirosa o mundo.
Eu hei-de amar-te, ó vale, como um filho
Dos sonhos meus. A imagem do deserto
Guardá-la-ei no coração, bem junto
Com minha fé, meu único tesouro.
Qual pomposo jardim de verme ilustre,
Chamado rei ou nobre, há-de contigo
Comparar-se, ó deserto? Aqui não cresce
Em vaso de alabastro a flor cativa,
Ou árvore educada por mão de homem,
Que lhe diga: «És escrava», e erga um ferro
E lhe decepe os troncos. Como é livre
A vaga do oceano, é livre no ermo
A bonina rasteira ou freixo altivo!
Não lhes diz: «Nasce aqui, ou lá não cresças».
Humana voz. Se baqueou o freixo,
Deus o mandou: se a flor pendida murcha,
É que o rocio não desceu de noite,
E da vida o Senhor lhe nega a vida.
Céu livre, Terra livre, e livre a mente,
Paz íntima, e saudade, mas saudade
Que não dói, que não mirra, e que consola,
São as riquezas do ermo, onde sorriem
Das procelas do mundo os que o deixaram.
XII
Ali naquela encosta, ontem de noite,
Alvejava por entre os medronheiros
Do solitário a habitação tranquila:
E eu vagueei por lá. Patente estava
O pobre albergue do eremita humilde,
Onde jazia o filho da esperança
Sob as asas de Deus, à luz dos astros,
Em leito, duro sim, não de remorsos.
Oh, com quanto sossego o bom do velho
Dormia! A leve aragem lhe ondeava
As raras cãs na fronte, onde se lia
A bela história de passados anos.
De alto choupo através passava um raio
Da Lua – astro de paz, astro que chama
Os olhos para o céu, e a Deus a mente -
E em luz pálida as faces !he banhava:
E talvez neste raio o Pai celeste
Da pátria eterna, lhe enviava a imagem,
Que o sorriso dus lábios lhe fugia,
Como se um sonho de ventura e glória
Na Terra de antemão o consolasse.
E eu comparei o solitário obscuro
Ao inquieto filho das cidades:
Comparei o deserto silencioso
Ao perpétuo ruído que sussurra
Pelos palácios do abastado e nobre,
Pelos paços dos reis; e condoí-me
Do cortesão soberbo, que só cura
De honras, haveres, glória, que se compram
Com maldições e perenal remorso.
Glória! A sua qual é? Pelas campinas,
Cobertas de cadáveres, regadas
De negro sangue, ele segou seus louros;
Louros que vão cingir-lhe a fronte altiva
Ao som do choro da viúva e do órfão;
Ou, dos sustos senhor, em seu delírio,
Os homens, seu irmãos, flagela e oprime.
Lá o filho do pó se julga um nume,
Porque a Terra o adorou; o desgraçado
Pensa, talvez, que o verme dos sepulcros
Nunca se há-de chegar para tragá-lo
Ao banquete da morte, imaginando
Que uma lájea de mármore, que esconde
O cadáver do grande, é mais durável
Do que esse chão sem inscrição, sem nome.
Por onde o opresso, o mísero, procura
O repouso, e se atira aos pés do trono
Do Omnipotente, a demandar justiça
Contra os fortes do mundo, os seus tiranos.
XIII
Ó cidade, cidade, que transbordas
De vícios, de paixões e de amarguras!
Tu lá estás, na tua pompa envolta,
Soberba prostituta, alardeando
Os teatros, e os paços, e o ruído
Das carroças dos nobres recamadas
De ouro e prata, e os prazeres de uma vida
Tempestuosa, e o tropear contínuo
Dos férvidos ginetes, que alevantam
O pó e o lodo cortesão das praças;
E as gerações corruptas de teus filhos
Lá se revolvem, qual montão de vermes
Sobre um cadáver pútrido! Cidade,
Branqueado sepulcro, que misturas
A opulência, a miséria, a dor e o gozo,
Honra e infâmia, pudor e impudícia
Céu e inferno, que és tu? Escárnio ou glória
Da humanidade? O que o souber que o diga!
Bem negra avulta aqui, na paz do vale,
A imagem desse povo, que reflui
Das moradas à rua, à praça, ao templo;
Que ri, e chora, folga, e geme, e morre,
Que adora Deus, e que o pragueja, e o teme;
Absurdo misto de baixeza extrema
E de extrema ousadia; vulto enorme,
Ora aos pés de um vil déspota estendido,
Ora surgindo, e arremessando ao nada
As memórias dos séculos que foram,
E depois sobre o nada adormecendo.
Vê-lo, rico de opróbrio, ir assentar-se
Em joelhos nos átrios dos tiranos.
Onde, entre o lampejar de armas de servos,
O servo popular adora um tigre ?
Esse tigre é o ídolo do povo!
Saudai-o; que ele o manda: abençoai-lhe
O férreo ceptro: ide folgar em roda
De cadafalsos, povoados sempre
De vítimas ilustres, cujo arranco
Seja como harmonia, que adormente
Em seus terrores o senhor das turbas.
Passai depois. Se a mão da Providência
Esmigalhou a fronte à tirania;
Se o déspota caiu, e está deitado
No lodaçal da sua infâmia, a turba
Lá vai buscar o ceptro dos terrores,
E diz: «É meu»; e assenta-se na praça,
E envolta em roto manto. e julga, e reina.
Se um ímpio, então, na afogueada boca
De vulcão popular sacode um facho,
Eis o incêndio que muge, e a lava sobe,
E referve, e trasborda, e se derrama
Pelas ruas além: clamor retumba
De anarquia impudente, e o brilho de armas
Pelo escuro transluz, como um presságio
De assolação, e se amontoam vagas
Desse mar d'abjecção, chamado o vulgo;
Desse vulgo, que ao som de infernais hinos
Cava fundo da Pátria a sepultura,
Onde, abraçando a glória do passado
E do futuro a última esperança,
As esmaga consigo, e ri morrendo.
Tal és, cidade, licenciosa ou serva!
Outros louvem teus paços sumptuosos,
Teu ouro, teu poder: sentina impura
De corrupções, teus não serão meus hinos!
XIV
Cantor da solidão, vim assentar-me
Junto do verde céspede do vale,
E a paz de Deus do mundo me consola.
Avulta aqui, e alveja entre o arvoredo,
Um pobre conventinho. Homem piedoso
O alevantou há séculos, passando,
Como orvalho do céu, por este sítio,
De virtudes depois tão rico e fértil.
Como um pai de seus filhos rodeado,
Pelos matos do outeiro o vão cercando
Os tugúrios de humildes eremitas,
Onde o cilício e a compunção apagam
Da lembrança de Deus passados erros
Do pecador, que reclinou a fronte
Penitente no pó. O sacerdote
Dos remorsos lhe ouviu as amarguras;
E perdoou-lhe, e consolou-o em nome
Do que expirando perdoava, o Justo,
Que entre os humanos não achou piedade.
XV
Religião! do mísero conforto,
Abrigo extremo de alma, que há mirrado
O longo agonizar de uma saudade.
Da desonra, do exílio, ou da injustiça,
Tu consolas aquele, que ouve o Verbo.
Que renovou o corrompido mundo,
E que mil povos pouco a pouco ouviram.
Nobre, plebeu, dominador, ou servo,
O rico, o pobre, o valoroso, o fraco,
Da desgraça no dia ajoelharam
No limiar do solitário templo.
Ao pé desse portal, que veste o musgo,
Encontrou-os chorando o sacerdote,
Que da serra descia à meia-noite,
Pelo sino das preces convocado:
Aí os viu ao despontar do dia,
Sob os raios do Sol, ainda chorando,
Passados meses, o burel grosseiro,
O leito de cortiça, e a fervorosa
E contínua oração foram cerrando
Nos corações dos míseros as chagas,
Que o mundo sabe abrir, mas que não cura.
Aqui, depois, qual hálito suave.
Da Primavera, lhes correu a vida,
Até sumir-se no adro do convento,
Debaixo de uma lájea tosca e humilde,
Sem nome, nem palavra, que recorde
O que a terra abrigou no sono extremo.
Eremitério antigo, oh, se pudesses
Dos anos que lá vão contar a história;
Se ora, à voz do cantor, possível fosse
Transudar desse chão, gelado e mudo,
O mudo pranto, em noites dolorosas,
Por náufragos do mundo derramado
Sobre ele, e aos pés da Cruz!... Se vós pudésseis,
Broncas pedras, falar, o que diríeis!
Quantos nomes mimosos da ventura,
Convertidos em fábula das gentes.
Despertariam o eco das montanhas,
Se aos negros troncos do sobreiro antigo
Mandasse o Eterno sussurrar a história
Dos que vieram desnudar-lhe o cepo,
Para um leito formar, onde velassem
Da mágoa, ou do remorso, as longas noites!
Aqui veio, talvez, buscar asilo
Um poderoso, outrora anjo da Terra,
Despenhado nas trevas do infortúnio;
Aqui gemeu, talvez, o amor traído,
Ou pela morte convertido em cancro
De infernal desespero; aqui soaram
Do arrependido os últimos gemidos,
Depois da vida derramada em gozos,
Depois do gozo convertido em tédio.
Mas quem foram? Nenhum, depondo em terra
Vestidura mortal, deixou vestígios
De seu breve passar. E isso que importa,
Se Deus o viu; se as lágrimas do triste
Ele contou, para as pagar com glória?
XVI
Ainda em curvo outeiro, ao fim da senda
Que serpeia do monte ao fundo vale,
Sobre o marco de pedra a cruz se eleva,
Como um farol de vida em mar de escolhos:
Ao cristão infeliz acolhe no ermo.
E consolando-o, diz-lhe: «A pátria tua
É lá no Céu: abraça-te comigo.»
Junto dela esses homens, que passaram
Acurvados na dor, as mãos ergueram
Para o Deus, que perdoa, e que é conforto
Dos que aos pés deste símbolo da esp'rança
Vêm derramar seu coração aflito:
É do deserto a história, a cruz e a campa;
E sobre tudo o mais pousa o silêncio.
XVII
Feliz da Terra, os monges não maldigas;
Do que em Deus confiou não escarneças:
Folgando segue a trilha, que há juncado,
Para teus pés, de flores a fortuna.
E sobre a morta crença em paz descansa.
Que mal te faz. Que gozo vai roubar-te
O que ensanguenta os pés no tojo agreste,
E sobre a fria pedra encosta a fronte?
Que mal te faz uma oração erguida,
Nas solidões, por voz sumida e frouxa,
E que, subindo aos Céus, só Deus escuta?
Oh, não insultes lágrimas alheias,
E deixa a fé ao que não tem mais nada!...
E se estes versos te contristam, rasga-os.
Teus menestréis te venderão seus hinos,
Nos banquetes opíparos, enquanto
O negro pão repartirá comigo,
Seu trovador, o pobre anacoreta,
Que não te inveja as ditas, como as c'roas
Do prazer ao cantor eu não invejo;
Tristes coroas, sob as quais às vezes
Está gravada uma inscrição d'infâmia.
Salve, ó vale do sul, saudoso e belo!
Salve, ó pátria da paz, deserto santo,
Onde não ruge a grande voz das turbas!
Solo sagrado a Deus, pudesse ao mundo
O poeta fugir, cingir-se ao ermo,
Qual ao freixo robusto a frágil hera,
E a romagem do túmulo cumprindo,
Só conhecer, ao despertar na morte,
Essa vida sem mal, sem dor, sem termo,
Que íntima voz contínuo nos promete
No trânsito chamado o viver do homem.
II
Suspira o vento no álamo frondoso;
As aves soltam matutino canto;
Late o lebréu na encosta, e o mar sussurra
Dos alcantis na base carcomida:
Eis o ruído de ermo! Ao longe o negro,
Insondado oceano, e o céu cerúleo
Se abraçam no horizonte. Imensa imagem
Da eternidade e do infinito, salve!
III
Oh, como surge majestosa e bela,
Com viço da criação, a natureza
No solitário vale! E o leve insecto
E a relva e os matos e a fragrância pura
Das boninas da encosta estão contando
Mil saudades de Deus, que os há lançado,
Com mão profusa, no regaço ameno
Da solidão, onde se esconde o justo.
E lá campeiam no alto das montanhas
Os escalvados píncaros, severos,
Quais guardadores de um lugar que é santo;
Atalaias que ao longe o mundo observam,
Cerrando até o mar o último abrigo
Da crença viva, da oração piedosa,
Que se ergue a Deus de lábios inocentes.
Sobre esta cena o sol verte em torrentes
Da manhã o fulgor; a brisa esvai-se
Pelos rosmaninhais, e inclina os topos
Do zimbro e alecrineiro, ao rés sentados
Desses tronos de fragas sobrepostas,
Que alpestres matas de medronhos vestem;
O rocio da noite à branca rosa
No seio derramou frescor suave,
E inda existência lhe dará um dia.
Formoso ermo do sul, outra vez, salve!
IV
Negro, estéril rochedo, que contrastas,
Na mudez tua, o plácido sussurro
Das árvores do vale, que vicejam
Ricas d'encantos, coa estação propícia;
Suavíssimo aroma, que, manando
Das variegadas flores, derramadas
Na sinuosa encosta da montanha,
Do altar da solidão subindo aos ores,
És digno incenso ao Criador erguido;
Livres aves, filhas da espessura,
Que só teceis da natureza as hinos,
O que crê, o cantor, que foi lançado,
Estranho no mundo, no bulício dele,
Vem saudar-vos, sentir um gozo puro,
Dus homens esquecer paixões e opróbio,
E ver, sem ver-lhe a luz prestar a crimes,
O Sol, e uma só vez puro saudar-lha.
Convosco eu sou maior; mais longe a mente
dos céus se imerge livre,
E se desprende de mortais memórias
Na solidão solene, onde, incessante,
Em cada pedra, em cada flor se escuta
Do Sempiterno a voz, e vê-se impressa
A dextra sua em multiforme quadro.
V
Escalvado penedo, que repousas
Lá no cimo do monte, ameaçando
Ruína ao roble secular da encosta,
Que sonolento move a coma estiva
Ante a aragem do mar, foste formoso;
Já te cobriram cespedes virentes;
Mus o tempo voou, e nele envolta
A formosura tua. Despedidos
Das negras nuvens o chuveiro espesso
E o granizo, que o solo fustigando
Tritura u tenra lanceolada relva,
Durante largos séculos, no Inverno,
Dos vendavais no dorso a ti desceram.
Qual amplexo brutal de ardos grosseiro,
Que, maculando virginal pureza.
Do pudor varre a auréola celeste,
E deixa, em vez de um serafim m Terra,
Queimada flor que devorou o raio.
VI
Caveira da montanha, ossada imensa,
É tua campa o Céu: sepulcro o vale
Um dia te será. Quando sentires
Rugir com som medonho a Terra ao longe,
Na expansão dos vulcões, e o mar, bramindo,
Lançar à praia vagalhões cruzados;
Tremer-te a larga base, e sacudir-te
De sobre si, o fundo deste vale
Te vai servir de túmulo; e os carvalhos
Do mundo primogénitos, e os sobros,
Arrastados por ti lá da colina,
Contigo hão-de jazer. De novo a terra
Te cobrirá o dorso sinuoso:
Outra vez sobre ti nascendo os lírios,
Do seu puro candor hão-de adornar-te;
E tu, ora medonho e nu e triste,
Ainda belo serás, vestido e alegre.
VII
Mais que o homem feliz! Quando eu no vale
Dos túmulos cair; quando uma pedra
Os ossos me esconder, se me for dada,
Não mais reviverei; não mais meus olhos
Verão, ao pôr-se, o Sol em dia estivo,
Se em turbilhões de púrpura, que ondeiam
Pelo extremo dos céus sobre o ocidente.
Vai provar que um Deus há o estranhos povos
E além das ondas trémulo sumir-se;
Nem, quando, lá do cimo das montanhas,
Com torrentes de luz inunda as veigas:
Não mais verei o refulgir da Lua
No irrequieto mar, na paz da noite,
Por horas em que vela o criminoso,
A quem íntima voz rouba o sossego.
E em que o justo descansa, ou, solitário,
Ergue ao Senhor um hino harmonioso.
VIII
Ontem, sentado num penhasco, e perto
Dos águas, então quedas, do oceano,
Eu também o louvei sem ser um justo:
E meditei, e a mente extasiada
Deixei correr pela amplidão das ondas.
Como abraço materno era suave
A aragem fresca do cair das trevas.
Enquanto, envolta em glória, a clara Lua
Sumia em seu fulgor milhões d'estrelas.
Tudo calado estava: o mar somente
As harmonias da criação soltava,
Em seu rugido; e o ulmeiro do deserto
Se agitava, gemendo e murmurando.
Ante o sopro de oeste: ali dos olhos
O pranto me correu, sem que o sentisse.
E aos pés de Deus se derramou minha alma.
IX
Oh, que viesse o que não crê, comigo,
À vicejante Arrábida de noite,
E se assentasse aqui sobre estas fragas,
Escutando o sussurro incerto e triste
Das movediças ramas, que povoa
De saudade e de amor nocturna brisa;
Que visse a lua, o espaço opresso de astros,
E ouvisse o mar soando: – ele chorara,
Qual eu chorei, as lágrimas do gozo,
E, adorando o Senhor, detestaria
De uma ciência vã seu vão orgulho.
X
É aqui neste vale, ao qual não chega
Humana voz e o tumultuar das turbas,
Onde o nada da vida sonda livre
O coração, que busca ir abrigar-se
No futuro, e debaixo do amplo manto
Da piedade de Deus: aqui serena
Vem a imagem da campa, como a imagem
Da pátria ao desterrado; aqui, solene,
Brada a montanha, memorando a morte.
Essas penhas, que, lá no alto das serras
Nuas, crestadas, solitárias dormem,
Parecem imitar da sepultura
O aspecto melancólico e o repouso
Tão desejado do que em Deus confia.
Bem semelhante à paz. que se há sentado
Por séculos, ali, nas cordilheiras
É o silêncio do adro, onde reúnem
Os ciprestes e a Cruz, o Céu e a Terra.
Como tu vens cercado de esperança,
Para o inocente, ó plácido sepulcro!
Junto das tuas bordas pavorosas
O perverso recua horrorizado:
Após si volve os olhos; na existência
Deserto árido só descobre ao longe.
Onde a virtude não deixou um trilho.
Mas o justo, chegando à meta extrema,
Que separa de nós a eternidade,
Transpõe-na sem temor, e em Deus exulta..
O infeliz e o feliz lá dormem ambos,
Tranquilamente: e o trovador mesquinho,
Que peregrino vagueou na Terra,
Sem encontrar um coração ardente
Que o entendesse, a pátria de seus sonhos,
Ignota, por lá busca; e quando as eras
Vierem junto às cinzas colocar-lhe
Tardios louros, que escondera a inveja,
Ele não erguerá a mão mirrada,
Para os cingir na regelada fronte.
Justiça, glória, amor, saudade, tudo,
An pé da sepultura, é som perdido
De harpa eólia esquecida em brenha ou selva:
O despertar um pai, que saboreia
Entre os bruços da morte o extremo sono,
Já não é dado ao filial suspiro;
Em vão o amante, ali, da amada sua
De rosas sobre a c'roa debruçado,
Rega de amargo pranto as murchas flores
E a fria pedra: a pedra é sempre fria.
E para sempre as flores se murcharam.
XI
Belo ermo!, eu hei-de amar-te enquanto esta alma,
Aspirando o futuro além da vida
E um hálito dos Céus, gemer atada
À coluna do exílio, a que se chama
Em língua vil e mentirosa o mundo.
Eu hei-de amar-te, ó vale, como um filho
Dos sonhos meus. A imagem do deserto
Guardá-la-ei no coração, bem junto
Com minha fé, meu único tesouro.
Qual pomposo jardim de verme ilustre,
Chamado rei ou nobre, há-de contigo
Comparar-se, ó deserto? Aqui não cresce
Em vaso de alabastro a flor cativa,
Ou árvore educada por mão de homem,
Que lhe diga: «És escrava», e erga um ferro
E lhe decepe os troncos. Como é livre
A vaga do oceano, é livre no ermo
A bonina rasteira ou freixo altivo!
Não lhes diz: «Nasce aqui, ou lá não cresças».
Humana voz. Se baqueou o freixo,
Deus o mandou: se a flor pendida murcha,
É que o rocio não desceu de noite,
E da vida o Senhor lhe nega a vida.
Céu livre, Terra livre, e livre a mente,
Paz íntima, e saudade, mas saudade
Que não dói, que não mirra, e que consola,
São as riquezas do ermo, onde sorriem
Das procelas do mundo os que o deixaram.
XII
Ali naquela encosta, ontem de noite,
Alvejava por entre os medronheiros
Do solitário a habitação tranquila:
E eu vagueei por lá. Patente estava
O pobre albergue do eremita humilde,
Onde jazia o filho da esperança
Sob as asas de Deus, à luz dos astros,
Em leito, duro sim, não de remorsos.
Oh, com quanto sossego o bom do velho
Dormia! A leve aragem lhe ondeava
As raras cãs na fronte, onde se lia
A bela história de passados anos.
De alto choupo através passava um raio
Da Lua – astro de paz, astro que chama
Os olhos para o céu, e a Deus a mente -
E em luz pálida as faces !he banhava:
E talvez neste raio o Pai celeste
Da pátria eterna, lhe enviava a imagem,
Que o sorriso dus lábios lhe fugia,
Como se um sonho de ventura e glória
Na Terra de antemão o consolasse.
E eu comparei o solitário obscuro
Ao inquieto filho das cidades:
Comparei o deserto silencioso
Ao perpétuo ruído que sussurra
Pelos palácios do abastado e nobre,
Pelos paços dos reis; e condoí-me
Do cortesão soberbo, que só cura
De honras, haveres, glória, que se compram
Com maldições e perenal remorso.
Glória! A sua qual é? Pelas campinas,
Cobertas de cadáveres, regadas
De negro sangue, ele segou seus louros;
Louros que vão cingir-lhe a fronte altiva
Ao som do choro da viúva e do órfão;
Ou, dos sustos senhor, em seu delírio,
Os homens, seu irmãos, flagela e oprime.
Lá o filho do pó se julga um nume,
Porque a Terra o adorou; o desgraçado
Pensa, talvez, que o verme dos sepulcros
Nunca se há-de chegar para tragá-lo
Ao banquete da morte, imaginando
Que uma lájea de mármore, que esconde
O cadáver do grande, é mais durável
Do que esse chão sem inscrição, sem nome.
Por onde o opresso, o mísero, procura
O repouso, e se atira aos pés do trono
Do Omnipotente, a demandar justiça
Contra os fortes do mundo, os seus tiranos.
XIII
Ó cidade, cidade, que transbordas
De vícios, de paixões e de amarguras!
Tu lá estás, na tua pompa envolta,
Soberba prostituta, alardeando
Os teatros, e os paços, e o ruído
Das carroças dos nobres recamadas
De ouro e prata, e os prazeres de uma vida
Tempestuosa, e o tropear contínuo
Dos férvidos ginetes, que alevantam
O pó e o lodo cortesão das praças;
E as gerações corruptas de teus filhos
Lá se revolvem, qual montão de vermes
Sobre um cadáver pútrido! Cidade,
Branqueado sepulcro, que misturas
A opulência, a miséria, a dor e o gozo,
Honra e infâmia, pudor e impudícia
Céu e inferno, que és tu? Escárnio ou glória
Da humanidade? O que o souber que o diga!
Bem negra avulta aqui, na paz do vale,
A imagem desse povo, que reflui
Das moradas à rua, à praça, ao templo;
Que ri, e chora, folga, e geme, e morre,
Que adora Deus, e que o pragueja, e o teme;
Absurdo misto de baixeza extrema
E de extrema ousadia; vulto enorme,
Ora aos pés de um vil déspota estendido,
Ora surgindo, e arremessando ao nada
As memórias dos séculos que foram,
E depois sobre o nada adormecendo.
Vê-lo, rico de opróbrio, ir assentar-se
Em joelhos nos átrios dos tiranos.
Onde, entre o lampejar de armas de servos,
O servo popular adora um tigre ?
Esse tigre é o ídolo do povo!
Saudai-o; que ele o manda: abençoai-lhe
O férreo ceptro: ide folgar em roda
De cadafalsos, povoados sempre
De vítimas ilustres, cujo arranco
Seja como harmonia, que adormente
Em seus terrores o senhor das turbas.
Passai depois. Se a mão da Providência
Esmigalhou a fronte à tirania;
Se o déspota caiu, e está deitado
No lodaçal da sua infâmia, a turba
Lá vai buscar o ceptro dos terrores,
E diz: «É meu»; e assenta-se na praça,
E envolta em roto manto. e julga, e reina.
Se um ímpio, então, na afogueada boca
De vulcão popular sacode um facho,
Eis o incêndio que muge, e a lava sobe,
E referve, e trasborda, e se derrama
Pelas ruas além: clamor retumba
De anarquia impudente, e o brilho de armas
Pelo escuro transluz, como um presságio
De assolação, e se amontoam vagas
Desse mar d'abjecção, chamado o vulgo;
Desse vulgo, que ao som de infernais hinos
Cava fundo da Pátria a sepultura,
Onde, abraçando a glória do passado
E do futuro a última esperança,
As esmaga consigo, e ri morrendo.
Tal és, cidade, licenciosa ou serva!
Outros louvem teus paços sumptuosos,
Teu ouro, teu poder: sentina impura
De corrupções, teus não serão meus hinos!
XIV
Cantor da solidão, vim assentar-me
Junto do verde céspede do vale,
E a paz de Deus do mundo me consola.
Avulta aqui, e alveja entre o arvoredo,
Um pobre conventinho. Homem piedoso
O alevantou há séculos, passando,
Como orvalho do céu, por este sítio,
De virtudes depois tão rico e fértil.
Como um pai de seus filhos rodeado,
Pelos matos do outeiro o vão cercando
Os tugúrios de humildes eremitas,
Onde o cilício e a compunção apagam
Da lembrança de Deus passados erros
Do pecador, que reclinou a fronte
Penitente no pó. O sacerdote
Dos remorsos lhe ouviu as amarguras;
E perdoou-lhe, e consolou-o em nome
Do que expirando perdoava, o Justo,
Que entre os humanos não achou piedade.
XV
Religião! do mísero conforto,
Abrigo extremo de alma, que há mirrado
O longo agonizar de uma saudade.
Da desonra, do exílio, ou da injustiça,
Tu consolas aquele, que ouve o Verbo.
Que renovou o corrompido mundo,
E que mil povos pouco a pouco ouviram.
Nobre, plebeu, dominador, ou servo,
O rico, o pobre, o valoroso, o fraco,
Da desgraça no dia ajoelharam
No limiar do solitário templo.
Ao pé desse portal, que veste o musgo,
Encontrou-os chorando o sacerdote,
Que da serra descia à meia-noite,
Pelo sino das preces convocado:
Aí os viu ao despontar do dia,
Sob os raios do Sol, ainda chorando,
Passados meses, o burel grosseiro,
O leito de cortiça, e a fervorosa
E contínua oração foram cerrando
Nos corações dos míseros as chagas,
Que o mundo sabe abrir, mas que não cura.
Aqui, depois, qual hálito suave.
Da Primavera, lhes correu a vida,
Até sumir-se no adro do convento,
Debaixo de uma lájea tosca e humilde,
Sem nome, nem palavra, que recorde
O que a terra abrigou no sono extremo.
Eremitério antigo, oh, se pudesses
Dos anos que lá vão contar a história;
Se ora, à voz do cantor, possível fosse
Transudar desse chão, gelado e mudo,
O mudo pranto, em noites dolorosas,
Por náufragos do mundo derramado
Sobre ele, e aos pés da Cruz!... Se vós pudésseis,
Broncas pedras, falar, o que diríeis!
Quantos nomes mimosos da ventura,
Convertidos em fábula das gentes.
Despertariam o eco das montanhas,
Se aos negros troncos do sobreiro antigo
Mandasse o Eterno sussurrar a história
Dos que vieram desnudar-lhe o cepo,
Para um leito formar, onde velassem
Da mágoa, ou do remorso, as longas noites!
Aqui veio, talvez, buscar asilo
Um poderoso, outrora anjo da Terra,
Despenhado nas trevas do infortúnio;
Aqui gemeu, talvez, o amor traído,
Ou pela morte convertido em cancro
De infernal desespero; aqui soaram
Do arrependido os últimos gemidos,
Depois da vida derramada em gozos,
Depois do gozo convertido em tédio.
Mas quem foram? Nenhum, depondo em terra
Vestidura mortal, deixou vestígios
De seu breve passar. E isso que importa,
Se Deus o viu; se as lágrimas do triste
Ele contou, para as pagar com glória?
XVI
Ainda em curvo outeiro, ao fim da senda
Que serpeia do monte ao fundo vale,
Sobre o marco de pedra a cruz se eleva,
Como um farol de vida em mar de escolhos:
Ao cristão infeliz acolhe no ermo.
E consolando-o, diz-lhe: «A pátria tua
É lá no Céu: abraça-te comigo.»
Junto dela esses homens, que passaram
Acurvados na dor, as mãos ergueram
Para o Deus, que perdoa, e que é conforto
Dos que aos pés deste símbolo da esp'rança
Vêm derramar seu coração aflito:
É do deserto a história, a cruz e a campa;
E sobre tudo o mais pousa o silêncio.
XVII
Feliz da Terra, os monges não maldigas;
Do que em Deus confiou não escarneças:
Folgando segue a trilha, que há juncado,
Para teus pés, de flores a fortuna.
E sobre a morta crença em paz descansa.
Que mal te faz. Que gozo vai roubar-te
O que ensanguenta os pés no tojo agreste,
E sobre a fria pedra encosta a fronte?
Que mal te faz uma oração erguida,
Nas solidões, por voz sumida e frouxa,
E que, subindo aos Céus, só Deus escuta?
Oh, não insultes lágrimas alheias,
E deixa a fé ao que não tem mais nada!...
E se estes versos te contristam, rasga-os.
Teus menestréis te venderão seus hinos,
Nos banquetes opíparos, enquanto
O negro pão repartirá comigo,
Seu trovador, o pobre anacoreta,
Que não te inveja as ditas, como as c'roas
Do prazer ao cantor eu não invejo;
Tristes coroas, sob as quais às vezes
Está gravada uma inscrição d'infâmia.
1 390
João Cabral de Melo Neto
A palavra seda
A atmosfera que te envolve
atinge tais atmosferas
que transforma muitas coisas
que te concernem, ou cercam.
E como as coisas, palavras
impossíveis de poema:
exemplo, a palavra ouro,
e até este poema, seda.
É certo que tua pessoa
não faz dormir, mas desperta;
nem é sedante, palavra
derivada da de seda.
E é certo que a superfície
de tua pessoa externa,
de tua pele e de tudo
isso que em ti se tateia,
nada tem da superfície
luxuosa, falsa, acadêmica,
de uma superfície quando
se diz que ela é “como seda”.
Mas em ti, em algum ponto,
talvez fora de ti mesma,
talvez mesmo no ambiente
que retesas quando chegas,
há algo de muscular,
de animal, carnal, pantera,
de felino, da substância
felina, ou sua maneira,
de animal, de animalmente,
de cru, de cruel, de crueza, que sob a palavra gasta
persiste na coisa seda.
(Quaderna, 1956-1959)
atinge tais atmosferas
que transforma muitas coisas
que te concernem, ou cercam.
E como as coisas, palavras
impossíveis de poema:
exemplo, a palavra ouro,
e até este poema, seda.
É certo que tua pessoa
não faz dormir, mas desperta;
nem é sedante, palavra
derivada da de seda.
E é certo que a superfície
de tua pessoa externa,
de tua pele e de tudo
isso que em ti se tateia,
nada tem da superfície
luxuosa, falsa, acadêmica,
de uma superfície quando
se diz que ela é “como seda”.
Mas em ti, em algum ponto,
talvez fora de ti mesma,
talvez mesmo no ambiente
que retesas quando chegas,
há algo de muscular,
de animal, carnal, pantera,
de felino, da substância
felina, ou sua maneira,
de animal, de animalmente,
de cru, de cruel, de crueza, que sob a palavra gasta
persiste na coisa seda.
(Quaderna, 1956-1959)
1 929
Murilo Mendes
Estudo Nº 6
Tua cabeça é uma dália gigante que se desfolha nos meus braços.
Nas tuas unhas se escondem algas vermelhas,
E da árvore de tuas pestanas
Nascem luzes atraídas pelas abelhas.
Caminharei esta manhã para teus seios:
Virei ciumento do orvalho da madrugada,
Do tecelão que tece o fio para teu vestido.
Virei, tendo aplacado uma a uma as estrelas,
E, depois de rolarmos pela escadaria de tapetes submarinos,
Voltaremos, deixando madréporas e conchas,
Obedecendo aos sinais precursores da morte,
Para a grande pedra que as idades balançam à beira-nuvem.
Nas tuas unhas se escondem algas vermelhas,
E da árvore de tuas pestanas
Nascem luzes atraídas pelas abelhas.
Caminharei esta manhã para teus seios:
Virei ciumento do orvalho da madrugada,
Do tecelão que tece o fio para teu vestido.
Virei, tendo aplacado uma a uma as estrelas,
E, depois de rolarmos pela escadaria de tapetes submarinos,
Voltaremos, deixando madréporas e conchas,
Obedecendo aos sinais precursores da morte,
Para a grande pedra que as idades balançam à beira-nuvem.
1 995
João Cabral de Melo Neto
Alguns Toureiros
Eu vi Manolo Gonzáles
e Pepe Luís, de Sevilha:
precisão doce de flor,
graciosa, porém precisa.
Vi também Julio Aparício,
de Madrid, como Parrita:
ciência fácil de flor,
espontânea, porém estrita.
Vi Miguel Báez, Litri,
dos confins da Andaluzia,
que cultiva uma outra flor:
angustiosa de explosiva.
E também Antonio Ordóñez,
que cultiva flor antiga:
perfume de renda velha,
de flor em livro dormida.
Mas eu vi Manuel Rodríguez,
Manolete, o mais deserto,
o toureiro mais agudo,
mais mineral e desperto,
o de nervos de madeira,
de punhos secos de fibra
o da figura de lenha
lenha seca de caatinga,
o que melhor calculava
o fluido aceiro da vida,
o que com mais precisão
roçava a morte em sua fímbria,
o que à tragédia deu número,
à vertigem, geometria
decimais à emoção
e ao susto, peso e medida.
e Pepe Luís, de Sevilha:
precisão doce de flor,
graciosa, porém precisa.
Vi também Julio Aparício,
de Madrid, como Parrita:
ciência fácil de flor,
espontânea, porém estrita.
Vi Miguel Báez, Litri,
dos confins da Andaluzia,
que cultiva uma outra flor:
angustiosa de explosiva.
E também Antonio Ordóñez,
que cultiva flor antiga:
perfume de renda velha,
de flor em livro dormida.
Mas eu vi Manuel Rodríguez,
Manolete, o mais deserto,
o toureiro mais agudo,
mais mineral e desperto,
o de nervos de madeira,
de punhos secos de fibra
o da figura de lenha
lenha seca de caatinga,
o que melhor calculava
o fluido aceiro da vida,
o que com mais precisão
roçava a morte em sua fímbria,
o que à tragédia deu número,
à vertigem, geometria
decimais à emoção
e ao susto, peso e medida.
1 748
João Cabral de Melo Neto
Uma Sevilhana pela Espanha
No sol de mar do céu de Cádiz,
mediterrâneo e classicista,
que dá às coisas mais terrosas
carne de estátua ou peixe, vítrea,
ela seguia carne
do campo de Sevilha:
carne de terra adentro,
carnal, jamais marisca
Durante essas ruas paris
de Barcelona, tão avenida,
entre uma gente meio londres
urbanizada em mansas filas,
chegava a desafio
seu caminhar sevilha:
que é levando a cabeça
em flor que fosse espiga.
Dentro da vida de Madrid,
onde Castela, monja e bispa,
alguma vez deixa-se rir,
deixa-se ser Andaluzia,
logo se descobria
seu ter-se, de Sevilha:
como, se o riso é claro,
há mais riso em quem ria.
através túneis de museus,
museus-mosteiros que amortiçam
a luz já velha, castelhana,
sobre obras mortas de fadiga,
tudo ela convertia
no museu de Sevilha:
museu entre jardins
e caules de água viva.
(Serial, 1959-1961)
mediterrâneo e classicista,
que dá às coisas mais terrosas
carne de estátua ou peixe, vítrea,
ela seguia carne
do campo de Sevilha:
carne de terra adentro,
carnal, jamais marisca
Durante essas ruas paris
de Barcelona, tão avenida,
entre uma gente meio londres
urbanizada em mansas filas,
chegava a desafio
seu caminhar sevilha:
que é levando a cabeça
em flor que fosse espiga.
Dentro da vida de Madrid,
onde Castela, monja e bispa,
alguma vez deixa-se rir,
deixa-se ser Andaluzia,
logo se descobria
seu ter-se, de Sevilha:
como, se o riso é claro,
há mais riso em quem ria.
através túneis de museus,
museus-mosteiros que amortiçam
a luz já velha, castelhana,
sobre obras mortas de fadiga,
tudo ela convertia
no museu de Sevilha:
museu entre jardins
e caules de água viva.
(Serial, 1959-1961)
1 175
João Cabral de Melo Neto
Escritos com o Corpo
I
Ela tem tal composição
e bem entramada sintaxe
que só se pode apreendê-la
em conjunto, nunca em detalhe.
Não se vê nenhum termo, nela,
em que a atenção mais se retarde,
e que, por mais significante,
possua, exclusivo, sua chave.
Nem é possível dividi-la,
como a uma sentença, em partes;
menos, do que nela é sentido,
se conseguir uma paráfrase.
E assim como, apenas completa,
ela é capaz de revelar-se,
apenas um corpo completo
tem, de apreendê-la, faculdade.
Apenas um corpo completo
e sem dividir-se em análise
será capaz do corpo a corpo
necessário a que, sem desfalque,
queira prender todos os temas
que pode haver no corpo frase:
que ela, ainda sem se decompor,
revela então, em intensidade.
II
De longe como Mondrians
em reproduções de revista
ela só mostra a indiferente
perfeição da geometria.
Porém de perto, o original
do que era antes correção fria,
sem que a câmara da distância
e suas lentes interfiram,
porém de perto, ao olho perto,
sem intermediárias retinas,
de perto, quando o olho é tato,
ao olho imediato em cima,
se descobre que existe nela
certa insuspeitada energia
que aparece nos Mondrians
se vistos na pintura viva.
E que porém um Mondrian
num ponto se diferencia:
em que nela essa vibração,
que era de longe impercebida,
pode abrir mão da cor acesa
sem que um Mondrian não vibra,
e vibrar com a textura em branco
da pele, ou da tela, sadia.
III
Quando vestido unicamente
com a macieza nua dela,
não apenas sente despido:
sim, de uma forma mais completa.
Então, de fato, está despido,
senão dessa roupa que é ela.
Mas essa roupa nunca veste:
despe de uma outra mais interna.
É que o corpo quando se veste
de ela roupa, da seda ela,
nunca sente mais definido
como com as roupas de regra.
Sente ainda mais que despido:
pois a pele dele, secreta,
logo se esgarça, e eis que ele assume
a pele dela, que ela empresta.
Mas também a pele emprestada
dura bem pouco enquanto véstia:
com pouco, ela toda também,
já se esgarça, se desespessa,
até acabar por nada ter
nem de epiderme nem de seda:
e tudo acabe confundido,
nudez comum, sem mais fronteira.
IV
Está, hoje que não está
numa memória mais de fora.
De fora: como se estivesse
num tipo externo de memória.
Numa memória para o corpo
externa ao corpo, como bolsa,
Que como bolsa, a certos gestos,
o corpo que a leva abalroa.
Memória exterior ao corpo
e não da que de dentro aflora;
E que, feita que é para o corpo,
carrega presenças corpóreas.
Pois nessa memória é que ela,
inesperada se incorpora:
na presença, coisa, volume,
imediata ao corpo, sólida,
e que ora é volume maciço,
entre os braços, neles envolta,
e que ora é volume vazio,
que envolve o corpo, ou o acoita:
como o de uma coisa maciça
que ao mesmo tempo fosse oca,
que o corpo teve, onde já esteve,
e onde o ter e o estar igual fora.
Ela tem tal composição
e bem entramada sintaxe
que só se pode apreendê-la
em conjunto, nunca em detalhe.
Não se vê nenhum termo, nela,
em que a atenção mais se retarde,
e que, por mais significante,
possua, exclusivo, sua chave.
Nem é possível dividi-la,
como a uma sentença, em partes;
menos, do que nela é sentido,
se conseguir uma paráfrase.
E assim como, apenas completa,
ela é capaz de revelar-se,
apenas um corpo completo
tem, de apreendê-la, faculdade.
Apenas um corpo completo
e sem dividir-se em análise
será capaz do corpo a corpo
necessário a que, sem desfalque,
queira prender todos os temas
que pode haver no corpo frase:
que ela, ainda sem se decompor,
revela então, em intensidade.
II
De longe como Mondrians
em reproduções de revista
ela só mostra a indiferente
perfeição da geometria.
Porém de perto, o original
do que era antes correção fria,
sem que a câmara da distância
e suas lentes interfiram,
porém de perto, ao olho perto,
sem intermediárias retinas,
de perto, quando o olho é tato,
ao olho imediato em cima,
se descobre que existe nela
certa insuspeitada energia
que aparece nos Mondrians
se vistos na pintura viva.
E que porém um Mondrian
num ponto se diferencia:
em que nela essa vibração,
que era de longe impercebida,
pode abrir mão da cor acesa
sem que um Mondrian não vibra,
e vibrar com a textura em branco
da pele, ou da tela, sadia.
III
Quando vestido unicamente
com a macieza nua dela,
não apenas sente despido:
sim, de uma forma mais completa.
Então, de fato, está despido,
senão dessa roupa que é ela.
Mas essa roupa nunca veste:
despe de uma outra mais interna.
É que o corpo quando se veste
de ela roupa, da seda ela,
nunca sente mais definido
como com as roupas de regra.
Sente ainda mais que despido:
pois a pele dele, secreta,
logo se esgarça, e eis que ele assume
a pele dela, que ela empresta.
Mas também a pele emprestada
dura bem pouco enquanto véstia:
com pouco, ela toda também,
já se esgarça, se desespessa,
até acabar por nada ter
nem de epiderme nem de seda:
e tudo acabe confundido,
nudez comum, sem mais fronteira.
IV
Está, hoje que não está
numa memória mais de fora.
De fora: como se estivesse
num tipo externo de memória.
Numa memória para o corpo
externa ao corpo, como bolsa,
Que como bolsa, a certos gestos,
o corpo que a leva abalroa.
Memória exterior ao corpo
e não da que de dentro aflora;
E que, feita que é para o corpo,
carrega presenças corpóreas.
Pois nessa memória é que ela,
inesperada se incorpora:
na presença, coisa, volume,
imediata ao corpo, sólida,
e que ora é volume maciço,
entre os braços, neles envolta,
e que ora é volume vazio,
que envolve o corpo, ou o acoita:
como o de uma coisa maciça
que ao mesmo tempo fosse oca,
que o corpo teve, onde já esteve,
e onde o ter e o estar igual fora.
1 564
Edmir Domingues
Corcel de espuma
Tordilhos, alazãos, cavalos baios
neste campo de mar nos são de espanto,
que é rosa a rosa, canto apenas canto,
e os cavalos são rendas, contemplai-os.
Jazem despertos, lúcidos lacaios
de vestes vagas cuidam no entretanto
do seu possível sono a bem de manto
para que os não de ventos e de raios.
Há cavalos vermelhos, mas não esses
porquanto quase azuis. Se os conhecesses –
não teria o meu reino e os meus cavalos.
Que ao fim seriam teus, que és feita em bruma,
esses que são de mim corcéis de espuma
de quem só sabe azul no contemplá-los.
neste campo de mar nos são de espanto,
que é rosa a rosa, canto apenas canto,
e os cavalos são rendas, contemplai-os.
Jazem despertos, lúcidos lacaios
de vestes vagas cuidam no entretanto
do seu possível sono a bem de manto
para que os não de ventos e de raios.
Há cavalos vermelhos, mas não esses
porquanto quase azuis. Se os conhecesses –
não teria o meu reino e os meus cavalos.
Que ao fim seriam teus, que és feita em bruma,
esses que são de mim corcéis de espuma
de quem só sabe azul no contemplá-los.
726
Edmir Domingues
A bailarina dos sapatinhos de Andersen
De rua ou palco em sombras surge a imagem
que à festa das imagens comparece,
ao passo que por trás aranha tece
a teia complemento a essa paisagem
distante. Após, nos fumos, aparece
vestindo a prata e o cinza o estranho pajem
que a nós nos pareceu quase selvagem
se os sapatos vermelhos oferece.
E houve dança e houve morte, e morte e dança!
Enfim uma apatia suave e mansa
resposta a impulso de invisíveis molas.
E nós que fomos olhos, nunca passos,
desfizemos calores e cansaços
nos leques vegetais das castanholas.
que à festa das imagens comparece,
ao passo que por trás aranha tece
a teia complemento a essa paisagem
distante. Após, nos fumos, aparece
vestindo a prata e o cinza o estranho pajem
que a nós nos pareceu quase selvagem
se os sapatos vermelhos oferece.
E houve dança e houve morte, e morte e dança!
Enfim uma apatia suave e mansa
resposta a impulso de invisíveis molas.
E nós que fomos olhos, nunca passos,
desfizemos calores e cansaços
nos leques vegetais das castanholas.
615
Edmir Domingues
Memória da ilha
A casa aberta ao sol, ao vento, e à voz do mar
um templo grego à luz, de luz sempre lavado,
no topo da falésia o milagre implantado,
San Michele de sempre, a de se ver e amar.
O Imperador recorda (ainda é sombra forte)
o tempo que passou, que não volta e é perdido
como se perde tudo ( o que foi bem vivido
e o que não se viveu), na dura lei da morte.
É o azul mais azul o azul da Gruta Azul.
O mar Tirreno em volta, os verdes da esmeralda
de onde começa e cresce a luminosa falda
da montanha Solaro, a direção: o sul.
Esse azul quase verde em torno, piso e teto,
é exata dimensão do gosto do Arquiteto.
Anacapri, 1984.
um templo grego à luz, de luz sempre lavado,
no topo da falésia o milagre implantado,
San Michele de sempre, a de se ver e amar.
O Imperador recorda (ainda é sombra forte)
o tempo que passou, que não volta e é perdido
como se perde tudo ( o que foi bem vivido
e o que não se viveu), na dura lei da morte.
É o azul mais azul o azul da Gruta Azul.
O mar Tirreno em volta, os verdes da esmeralda
de onde começa e cresce a luminosa falda
da montanha Solaro, a direção: o sul.
Esse azul quase verde em torno, piso e teto,
é exata dimensão do gosto do Arquiteto.
Anacapri, 1984.
757
Edmir Domingues
Cidade Submersa
CIDADE SUBMERSA
Acordo súbito, é tarde
e a surpresa me surpreende,
encheu-se-me de água o quarto
os livros bóiam no teto
grandes peixes taciturnos
espiam-me o sono imenso.
Desperto pondero os fatos
não sei por que não sei como
respiro não tendo guelras
no centro das águas mansas
e a vida se me parece
como antes naturalmente.
Mas o quarto submarino
nunca o vira nem soubera
e entanto as águas estavam
lá dentro literalmente.
Será que a guerra dos mundos
no meu sono começara?
ou que o degelo dos pólos
se fizera num momento?
Os russos e americanos
também contidos nas águas
será que enfim maldiriam
do tempo da guerra fria?
Fria mesmo era a água fria
que me estava enchendo o quarto.
Levanto-me e já percorro
a casa e a casa era toda
o aquário onde os bichos d'água
faziam do seu passeio.
Saio à rua e não há rua
que a cidade está submersa
e o longo painel das águas
se desenrola no tempo.
Ah que eu sempre suspeitara
que esta cidade tão plana
seria um dia contida
no dorso verde do mar.
que o mar guardava os seus mangues
como espias traiçoeiros
como cúmplices danados
mesmo no seio da incauta.
Percorro a cidade toda
cidade não há, se acaso
não se há de dizer cidade
das águas que a devoraram,
porém é um mundo de mágica
o aquário onde vejo e sinto
toda a fauna do mistério
desenvolvendo o seu jogo.
Eis que com pouco me encontro
no Parque Treze de Maio
ao lado do qual dormia
a sombra da Faculdade.
As antigas namoradas
travestidas de sereias
será que estão pela praça
com suas caudas de peixe?
Já percorro a praça toda
como em domingos antigos
mas o parque está deserto
ninguém que veja o meu passo.
Ninguém não, porque estão peixes
nadando tranqüilamente
iluminando o passeio
nessa luz difusa e vaga
que é sempre própria dos peixes.
Calamares cor de cinza
envolvem os seus tentáculos
como as estrelas do inferno
nos seios de bronze escuro
das estátuas no silêncio.
Será que apenas eu vivo
existo em toda a cidade?
Ou aquelas que eu buscara
estão vivendo do sono
porquanto é tarde da noite?
(Impossível ter certeza
se a vida nos nega sempre
certeza plena das coisas.)
Resta que eu viva pesquisa
nesta cidade afogada
num campo de mar - pai nosso
cruzado da reconquista.
Procuro o rio, ora o ri
é uma ficção tão somente
junto das formas estranhas
das pontes debaixo d água.
Arcos (as pontes) ligando
dois pontos mal divisados
neste instante em que eu os vejo
já me parecem mais belos
dessa beleza mais pura
que vem da inutilidade.
Mas sinto que sofro muito
sabendo o rio afogado,
e somente então percebo
o quanto amava esse rio
que amor só se sente pleno
depois do instante da perda.
Cruzo a ponte, na avenida
cefalópodes descansam
as suas formas fantásticas
a um passo do meio-fio.
Larvas, actinias, estrelas
do mar, no que fora terra,
emprestam a tudo o aspecto
de um quadro sobre a parede
Microplantas iluminam
com suas roupas de fósforo
os meus passos no passeio
de ver a cidade minha.
Percebe-se no ambiente
tão grandes luminescências
que eu na verdade suspeito
que os peixes que têm luz própria
subiram todos do abismo
para ver esta cidade
há tanto tempo famosa.
Na rua Nova lagostas
deslizam contornos vagos,
mexilhões no calçamento
enfeitam de novo brilho
o pouso onde os pés descansam,
sifonóforos, retidos,
têm espasmos de agonia
com seus tentáculos presos
nos fios da rede elétrica.
Busco o Pátio de São Pedro
para a surpresa feliz,
porque são peixes barrocos
os que em cardume se encontram
neste recinto sagrado,
respeitando a arquitetura
e o nosso próprio respeito.
E em tudo reina um silêncio
que talvez não seja unânime,
mas que é a realidade
para os ouvidos que tenho
mal refeitos da surpresa,
mas ah ouvidos escutam
um sino batendo ao longe
e uma canção se espalhando
pela espessura das águas.
Procuro seguir o rumo
da voz do sino e percebo
- milagre de São Francisco -
tocando o sino da Penha
tangido pelas correntes
marinhas, ou por si próprios,
lembrando que a fé subsiste
mesmo no íntimo das águas.
Oh bairro de São José
pedaço da minha infância,
das tuas ruas tão tristes
somente uma rua triste
entre as ruas da cidade
(a rua das Águas Verdes)
não hã de trocar de nome.
Nesta altura já percebo
toda a cidade submersa
pelo que já não me sobra
mais a razão de viver.
Subo à tona onde me ferem
as flechas da madrugada
que vem surgindo do mar.
Nem as copas das palmeiras
emergem do lençol d água
e apenas se vê no extremo
alguns dos montes de Olinda.
Respiro profundamente
o ar frio da manhã fria,
e como um peixe me afogo
no ar que agora me sufoca,
e morro dessa asfixia
na mansa luz da manhã.
Recife, janeiro de 1958.
Acordo súbito, é tarde
e a surpresa me surpreende,
encheu-se-me de água o quarto
os livros bóiam no teto
grandes peixes taciturnos
espiam-me o sono imenso.
Desperto pondero os fatos
não sei por que não sei como
respiro não tendo guelras
no centro das águas mansas
e a vida se me parece
como antes naturalmente.
Mas o quarto submarino
nunca o vira nem soubera
e entanto as águas estavam
lá dentro literalmente.
Será que a guerra dos mundos
no meu sono começara?
ou que o degelo dos pólos
se fizera num momento?
Os russos e americanos
também contidos nas águas
será que enfim maldiriam
do tempo da guerra fria?
Fria mesmo era a água fria
que me estava enchendo o quarto.
Levanto-me e já percorro
a casa e a casa era toda
o aquário onde os bichos d'água
faziam do seu passeio.
Saio à rua e não há rua
que a cidade está submersa
e o longo painel das águas
se desenrola no tempo.
Ah que eu sempre suspeitara
que esta cidade tão plana
seria um dia contida
no dorso verde do mar.
que o mar guardava os seus mangues
como espias traiçoeiros
como cúmplices danados
mesmo no seio da incauta.
Percorro a cidade toda
cidade não há, se acaso
não se há de dizer cidade
das águas que a devoraram,
porém é um mundo de mágica
o aquário onde vejo e sinto
toda a fauna do mistério
desenvolvendo o seu jogo.
Eis que com pouco me encontro
no Parque Treze de Maio
ao lado do qual dormia
a sombra da Faculdade.
As antigas namoradas
travestidas de sereias
será que estão pela praça
com suas caudas de peixe?
Já percorro a praça toda
como em domingos antigos
mas o parque está deserto
ninguém que veja o meu passo.
Ninguém não, porque estão peixes
nadando tranqüilamente
iluminando o passeio
nessa luz difusa e vaga
que é sempre própria dos peixes.
Calamares cor de cinza
envolvem os seus tentáculos
como as estrelas do inferno
nos seios de bronze escuro
das estátuas no silêncio.
Será que apenas eu vivo
existo em toda a cidade?
Ou aquelas que eu buscara
estão vivendo do sono
porquanto é tarde da noite?
(Impossível ter certeza
se a vida nos nega sempre
certeza plena das coisas.)
Resta que eu viva pesquisa
nesta cidade afogada
num campo de mar - pai nosso
cruzado da reconquista.
Procuro o rio, ora o ri
é uma ficção tão somente
junto das formas estranhas
das pontes debaixo d água.
Arcos (as pontes) ligando
dois pontos mal divisados
neste instante em que eu os vejo
já me parecem mais belos
dessa beleza mais pura
que vem da inutilidade.
Mas sinto que sofro muito
sabendo o rio afogado,
e somente então percebo
o quanto amava esse rio
que amor só se sente pleno
depois do instante da perda.
Cruzo a ponte, na avenida
cefalópodes descansam
as suas formas fantásticas
a um passo do meio-fio.
Larvas, actinias, estrelas
do mar, no que fora terra,
emprestam a tudo o aspecto
de um quadro sobre a parede
Microplantas iluminam
com suas roupas de fósforo
os meus passos no passeio
de ver a cidade minha.
Percebe-se no ambiente
tão grandes luminescências
que eu na verdade suspeito
que os peixes que têm luz própria
subiram todos do abismo
para ver esta cidade
há tanto tempo famosa.
Na rua Nova lagostas
deslizam contornos vagos,
mexilhões no calçamento
enfeitam de novo brilho
o pouso onde os pés descansam,
sifonóforos, retidos,
têm espasmos de agonia
com seus tentáculos presos
nos fios da rede elétrica.
Busco o Pátio de São Pedro
para a surpresa feliz,
porque são peixes barrocos
os que em cardume se encontram
neste recinto sagrado,
respeitando a arquitetura
e o nosso próprio respeito.
E em tudo reina um silêncio
que talvez não seja unânime,
mas que é a realidade
para os ouvidos que tenho
mal refeitos da surpresa,
mas ah ouvidos escutam
um sino batendo ao longe
e uma canção se espalhando
pela espessura das águas.
Procuro seguir o rumo
da voz do sino e percebo
- milagre de São Francisco -
tocando o sino da Penha
tangido pelas correntes
marinhas, ou por si próprios,
lembrando que a fé subsiste
mesmo no íntimo das águas.
Oh bairro de São José
pedaço da minha infância,
das tuas ruas tão tristes
somente uma rua triste
entre as ruas da cidade
(a rua das Águas Verdes)
não hã de trocar de nome.
Nesta altura já percebo
toda a cidade submersa
pelo que já não me sobra
mais a razão de viver.
Subo à tona onde me ferem
as flechas da madrugada
que vem surgindo do mar.
Nem as copas das palmeiras
emergem do lençol d água
e apenas se vê no extremo
alguns dos montes de Olinda.
Respiro profundamente
o ar frio da manhã fria,
e como um peixe me afogo
no ar que agora me sufoca,
e morro dessa asfixia
na mansa luz da manhã.
Recife, janeiro de 1958.
935
Edmir Domingues
A mascarada
Senhora, se do amor a mascarada
os olhos meus me cega e me angústia,
que sejam vossos olhos alegria
àqueles onde a mágoa está guardada
Que sejam como a luz da chama pura
do sol, que às vezes cega a vista humana,
mas que ê da mesma e sempre soberana
se a prefere ao sabor da noite escura.
Que sejam o horizonte manifesto
que a promessa de vida revigora,
expresso ou por um riso ou por um gesto
de natural calor, gentil senhora
Dizendo ao céu e ao mar e à chuva e ao vento
que todo mal de amor tem valimento .
os olhos meus me cega e me angústia,
que sejam vossos olhos alegria
àqueles onde a mágoa está guardada
Que sejam como a luz da chama pura
do sol, que às vezes cega a vista humana,
mas que ê da mesma e sempre soberana
se a prefere ao sabor da noite escura.
Que sejam o horizonte manifesto
que a promessa de vida revigora,
expresso ou por um riso ou por um gesto
de natural calor, gentil senhora
Dizendo ao céu e ao mar e à chuva e ao vento
que todo mal de amor tem valimento .
717
Edmir Domingues
Soneto de Arquiduques
Arquiduques de um reino soterrado
na planície de cal que nada altera,
bebamos essa luz de primavera
que desponta e que cresce a nosso lado.
Arquiduques sem fâmulos a espera,
sem a paz que respira o arquiducado,
residentes no sono prolongado
onde atua a mais lúcida atmosfera.
De um reino de glicínias arquiduques
não sorrimos às flores que são truques
de ébrios e maus prestidigitadores,
como as vossas, terrestres ou submersas,
nas terras e nas águas são diversas
das que estão sob a cal preciosas flores.
na planície de cal que nada altera,
bebamos essa luz de primavera
que desponta e que cresce a nosso lado.
Arquiduques sem fâmulos a espera,
sem a paz que respira o arquiducado,
residentes no sono prolongado
onde atua a mais lúcida atmosfera.
De um reino de glicínias arquiduques
não sorrimos às flores que são truques
de ébrios e maus prestidigitadores,
como as vossas, terrestres ou submersas,
nas terras e nas águas são diversas
das que estão sob a cal preciosas flores.
632
Edmir Domingues
Holograma
Contemplo-te de frente
e o faço firmemente.
E vejo a suavidade
da fronte - está defronte.
Contemplo os lagos vivos
de cor castanho escura
cercado como os lagos
por matas ciliares.
É a pequena colina
com duas cavidades
que trazem para o mundo
teu aroma interior
sabendo a juventude.
Sobre a boca de beijos.
Vejo também os montes
e o vale que os separa
cujos cumes exibem
como que rósea neve,
ao pé dessa planície
que conduz os meus olhos
para a floresta negra
de sombras insondáveis.
O todo monumento
é sustentado por
duas altas colunas
pousadas sobre o solo.
Onde as plantas semelham
como um quê de raízes.
Giro em torno de ti
como gira o Satélite
em volta do Planeta,
na direção contrária
ao rumo dos relógios.
Sigo vendo o milagre.
Bem mais da escura coma,
os braços dos abraços
caídos junto ao tronco,
exibindo no extremo
os dedos de carícias.
As colunas agora
observadas de lado,
têm a mesma beleza
já dantes constatada.
O giro continua
e uma nova paisagem
é então descortinada.
A coma desce em ondas
a base do pescoço.
Nova quase planície,
duas novas colinas,
outro vale, insondado.
O giro continua.
E agora é a paisagem
toda igual à segunda.
Resta o giro final,
confirmação da vista
antevista, no inicio.
O término da viagem
que se empreendeu à volta
da mulher desejada.
1991
e o faço firmemente.
E vejo a suavidade
da fronte - está defronte.
Contemplo os lagos vivos
de cor castanho escura
cercado como os lagos
por matas ciliares.
É a pequena colina
com duas cavidades
que trazem para o mundo
teu aroma interior
sabendo a juventude.
Sobre a boca de beijos.
Vejo também os montes
e o vale que os separa
cujos cumes exibem
como que rósea neve,
ao pé dessa planície
que conduz os meus olhos
para a floresta negra
de sombras insondáveis.
O todo monumento
é sustentado por
duas altas colunas
pousadas sobre o solo.
Onde as plantas semelham
como um quê de raízes.
Giro em torno de ti
como gira o Satélite
em volta do Planeta,
na direção contrária
ao rumo dos relógios.
Sigo vendo o milagre.
Bem mais da escura coma,
os braços dos abraços
caídos junto ao tronco,
exibindo no extremo
os dedos de carícias.
As colunas agora
observadas de lado,
têm a mesma beleza
já dantes constatada.
O giro continua
e uma nova paisagem
é então descortinada.
A coma desce em ondas
a base do pescoço.
Nova quase planície,
duas novas colinas,
outro vale, insondado.
O giro continua.
E agora é a paisagem
toda igual à segunda.
Resta o giro final,
confirmação da vista
antevista, no inicio.
O término da viagem
que se empreendeu à volta
da mulher desejada.
1991
367
Edmir Domingues
Soneto do amor imperfeito
Território de flores. Chão de plumas
o plano do lençol. A cachoeira
dos sedosos cabelos. Como a esteira
do barco do prazer. Penumbra. Algumas
murmurações, sussuros, numa feira
segunda. No país das grandes brumas.
O bom vinho de múltiplas espumas
e o amor do amor e a festa costumeira.
Não subimos o monte. Ao rés da terra
ficamos. Sob a paz. Não houve a guerra.
As legiões cansadas, fria a clava.
Mas houve Ela. E a carícia desmedida.
Cada instante mais bela. Colorida
na pintura dos beijos que eu lhe devo.
o plano do lençol. A cachoeira
dos sedosos cabelos. Como a esteira
do barco do prazer. Penumbra. Algumas
murmurações, sussuros, numa feira
segunda. No país das grandes brumas.
O bom vinho de múltiplas espumas
e o amor do amor e a festa costumeira.
Não subimos o monte. Ao rés da terra
ficamos. Sob a paz. Não houve a guerra.
As legiões cansadas, fria a clava.
Mas houve Ela. E a carícia desmedida.
Cada instante mais bela. Colorida
na pintura dos beijos que eu lhe devo.
679
Edmir Domingues
Oferta para a amiga estrangeira
Dar-te-ei a água morna destes mares,
o verde e o azul das ondas desatadas,
a doçura das canas orvalhadas,
praias como não há noutros lugares,
e estes rios de luzes, e os cantares
dos pássaros, soando nas quebradas,
os bosques de onde vem, nas madrugadas,
o terral, de fragrâncias singulares.
Terás o amor que damos por costume.
Quente e vivo, contendo o mesmo lume
da lua em chamas sobre antigas tabas.
É as primícias da terra generosa:
a açucena, o Jasmim, o cravo, a rosa,
mangas, cajás, cajus, limões, mangabas.
o verde e o azul das ondas desatadas,
a doçura das canas orvalhadas,
praias como não há noutros lugares,
e estes rios de luzes, e os cantares
dos pássaros, soando nas quebradas,
os bosques de onde vem, nas madrugadas,
o terral, de fragrâncias singulares.
Terás o amor que damos por costume.
Quente e vivo, contendo o mesmo lume
da lua em chamas sobre antigas tabas.
É as primícias da terra generosa:
a açucena, o Jasmim, o cravo, a rosa,
mangas, cajás, cajus, limões, mangabas.
581
Cesare Pavese
Tens sangue, tens fôlego
Tens sangue, tens fôlego.
Você é feita de carne,
e cabelos e olhares,
mesmo você. A terra e as plantas,
o céu de março e a luz
vibram, e a ti se assemelham -
o teu riso e o teu passo
como águas sussurram -
A tua ruga entre os olhos,
como nuvens recolhidas -
E o teu suave corpo,
como um gramado ao sol.
Tens sangue, tens fôlego.
Você vive sobre esta terra.
Conheces os sabores,
as estações, os despertares;
brincaste ao sol,
falaste conosco.
Água cristalina, desabrochar
da primavera, terra,
germinante silêncio,
brincaste, quando menina,
sob um céu diverso,
e tens nos olhos o silêncio
como uma nuvem, que flui
como um peixe das profundezas.
Ora ris e sussurras
sobre este silêncio.
Doce fruto que vives
sob o céu límpido,
que respira e vive
esta nossa estação,
em teu silêncio fechado
está a tua força. Como
uma erva viva no ar,
você estremece e ri,
mas você, você é a terra.
Você é raiz feroz.
Você é a terra que aguarda.
Você é feita de carne,
e cabelos e olhares,
mesmo você. A terra e as plantas,
o céu de março e a luz
vibram, e a ti se assemelham -
o teu riso e o teu passo
como águas sussurram -
A tua ruga entre os olhos,
como nuvens recolhidas -
E o teu suave corpo,
como um gramado ao sol.
Tens sangue, tens fôlego.
Você vive sobre esta terra.
Conheces os sabores,
as estações, os despertares;
brincaste ao sol,
falaste conosco.
Água cristalina, desabrochar
da primavera, terra,
germinante silêncio,
brincaste, quando menina,
sob um céu diverso,
e tens nos olhos o silêncio
como uma nuvem, que flui
como um peixe das profundezas.
Ora ris e sussurras
sobre este silêncio.
Doce fruto que vives
sob o céu límpido,
que respira e vive
esta nossa estação,
em teu silêncio fechado
está a tua força. Como
uma erva viva no ar,
você estremece e ri,
mas você, você é a terra.
Você é raiz feroz.
Você é a terra que aguarda.
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