Escritas

Morte

Poemas neste tema

José Afonso

José Afonso

Trovas antigas

O que mais me prende à vida
Não é amor de ninguém.
É que a morte de esquecida
Deixa o mal e leva o bem.

Olha a triste viuvinha
que anda na roca a fiar
É bem feito, é bem feito
que não tem com quem casar

Quem se vai casar ao longe
Ao perto tendo com quem
Alva flor da laranjeira
Não a dará a ninguém

No cimo daquela serra
Está um lenço de mil cores
Está dizendo Viva, Viva
Morra quem não tem amores

1 818
Natália Correia

Natália Correia

Do sentimento trágico da vida

Não há revolta no homem
que se revolta calçado.
O que nele se revolta
é apenas um bocado
que dentro fica agarrado
à tábua da teoria.

Aquilo que nele mente
e parte em filosofia
é porventura a semente
do fruto que nele nasce
e a sede não lhe alivia.

Revolta é ter-se nascido
sem descobrir o sentido
do que nos há-de matar.

Rebeldia é o que põe
na nossa mão um punhal
para vibrar naquela morte
que nos mata devagar.

E só depois de informado
só depois de esclarecido
rebelde nu e deitado
ironia de saber
o que só então se sabe
e não se pode contar.

2 878
Ana Hatherly

Ana Hatherly

FEIGENBAUM, SEIT WIE LANGE SCHON ISTS MIR

BEDEUTEND

Figueiraó árvore que irrompes da
tua securasuportando o penoso desdobrar de teus
ramosamaldiçoadaofereces ainda a doçura de teus frutosa sombra de
tuas
folhasa firmeza do teu apego à terra Ó dura
bruta formaheroína da escassezó teimosaque
insistes e insistese nos ensinasque a vida é feita
de incessantes mortese que a nóssuas futuras
vítimasnos aguardaa todo o momentoa derrocada do
templosem nenhum outro frutoalém da amarguraÓ
doçuraporque amargas tantoa nossa tentação de florirao
mesmo tempo sendo tudo e nada ?

1 253
Gilka Machado

Gilka Machado

Chuva de Cinzas

Chuva de Cinzas

Chuva de cinzas...Cai a tarde lá por fora
na estática mudez da Terra triste e viúva;
e, da tarde ao cair, sinto, minha alma, agora,
embuça-se na cisma e no torpor se enluva.

Hora crepuscular, hora de névoas, hora
em que de bem ignoto o humano ser enviúva;
e, enquanto em cinza todo o espaço se colora,
o tédio, em nós, é como uma cinérea chuva.

Hora crepuscular - concepção e agonia,
hora em que tudo sente uma incerteza imensa,
sem saber se desponta ou se fenece o dia;

hora em que a alma, a pensar na inconstância da sorte,
fica dentro de nós oscilando, suspensa
entre o ser e o não ser, entre a existência e a morte.
(Velha Poesia, Ed.Baptista de Souza, Rio, 18965, pag.15)

2 324
Gilson Nascimento

Gilson Nascimento

Rosa imortal

Minha mãe, pálida e fria
Mudez no gesto, na fala
Minha mãe que já não reza
Minha mãe de olhar apagado
De mãos álgida, inúteis
Não acenam.
Não abençoam.

Riso sem cor – desbotado
Palavra inerte – não soa
Lábios murchos – não se abrem
Flores que o vento da morte
Despetalando, esboroa

Mãe partindo às horas mortas
Do porto alvo da aurora
Nos braços da madrugada
Sem despedida, sem laivo
De beijo, de abraço ou riso.

Mãe – flor que não emurchece
Não cresta, não perde o brilh
Rosa orvalhada de prece
No jardim da alma do filho.

700
Giselda Medeiros

Giselda Medeiros

Antigênesis

E disse o homem:
"Faça-se a minha vontade!"
E poluiu as águas dos rios
e pôs veneno no caule das árvores
e pôs espelhos negros no fundo da alma
e pôs travancas no peito com chaves
e pôs muralhas no olhar das crianças
e pôs cimento no ventre da abelha
e pôs espadas na toca do amor
e pôs cortinas no altar da esperança
e pôs barragem na ilha da fé.
Depois de tudo isso
descansou nos braços da Morte.

1 098
Carlos Figueiredo

Carlos Figueiredo

Eu, da Morte, quase não morro

Eu, da Morte, quase não morro.
Morro mais de mim que morro dela.

E em cada encruzilhada que me tem acontecido
eu me tenho visto
escolher caminho sempre aquele que a ela
torna mais fácil o mister que tem comigo.

1 120
Carlos Figueiredo

Carlos Figueiredo

Estranha Desordem

Sou um jogo de espelhos
e a morte não irá interromper isso.
Apenas
o vinho poderá embaçar um pouco
todas as imagens.

Vivi uma vida estranha.

E haviam sempre uns olhares,
uns detalhes,
uma coisa que era realmente estranha.

Era tudo tão rápido, eu era tão pálido
e as pessoas viviam
dizendo
"você faz o que você quer"

E eu queria. Mas também com todas aquelas
lanchonetes
e ainda queriam que eu fosse desses
que entendem e vivem tudo isso
e moram em apartamentos
e vêem televisão e fumam cigarros.

(cont.)

Eu buscava uma luz,
o pé dentro do sapato,
tudo muito normal,
só que era mesmo, realmente, uma coisa estranha.

Eu era um triste, um simples
queria era pegar, tocar, mais
era tocar,um jeito,
Queria era que as coisas chegassem
com um barulho dágua
bem com um jeito
realmente não dá para explicar.

Depois, eu sei que tudo é muito resumível
e haviam sempre as coisas,
os números,
e as pessoas ficavam
olhando umas para as outras
explicando
como se somam as frações,

É claro que algo sempre escapava
e ficava vagando
pelo meio da sala,
desconfortável.

897
Alexandre S. Santos

Alexandre S. Santos

Hora Tardia

Não falta a cadência dos sentidos ignotos
perscrutando as incontáveis horas mortas
sobre o véu insondável do tempo esquecido.
Não resta a peripécia da mente excitada
gozando a possível resposta à esfinge famigerada.
Não importam os piscares vítreos dissimulando
os afagos, dando corda às batidas no peito.
Não há traços da saliva que silenciara
os poemas, mortos antes do parto.
Não mais o sentido dos corpos,
a ilusão do desejo incontido,
das mortes pequenas.
Não!
Findou a vida e transpus
o portal da morte, perguntando:
por que não aprendi a amar?

917
Alcides Villaça

Alcides Villaça

O aceno definitivo de Drummond

Farewell surge (e por que só agora?) como o aceno definitivo que nos faz Drummond, caminhante desencantado, antes de desaparecer atrás da última ladeira. O poeta sempre estimou figurar-se numa estrada, numa rua, num caminho, como um gauche paralisado pela pedra-enigma, ou disfarçado num mítico e desengonçado elefante de fabricação própria, ou como o filho que um pai virgiliano conduz pelo reino dos mortos, ou como o divagante desistido das ofertas miraculosas da máquina do mundo.
Este belo livro não pretende o tour de force expressivo dessa trajetória, nem traz a revelação essencial poupada para a hora extrema. Já nos anos 60, com a melancolia da maturidade e os primeiros desprendimentos da velhice, o poeta firmara certa indisposição para prosseguir na luta com as palavras. O último poema de Lição de Coisas (1962) _livro marcado pela revisitação dos temas e por algum experimentalismo formal_ fechava-se com este terceto, no qual Drummond se dirigia à sempre esquiva Forma de todas as formas, para assim resignar-se: E não encontrar-te é nenhum desgosto/ pois abarrotas o largo armazém do factível/ onde a realidade é maior do que a realidade (F).
De fato: no livro seguinte (Boitempo & A Falta Que Ama, 1968) e nos demais, Drummond já não se empenharia em debater-se nas contradições mais fundas do sujeito ou em tensionar ao máximo a linguagem; passou a alargar generosa e detalhadamente os quadros das antigas percepções de menino e adolescente e a tratar do amor, das pessoas e das circunstâncias com o descompromisso de quem mais avalia a cena do que quem nela atua.
Adeus discreto Farewell poderia lembrar de imediato a família dos Boitempo, mas agora todo memorialismo surge no registro grave de quem se dispõe à despedida definitiva, soturna e sem tragédia _como convém ao poeta de Claro Enigma, que ora reafirma, de modo irrecorrível, o postulado schopenhaueriano da unificação universal do sofrimento. Não, Farewell não tem nem terá buscado ter, como conjunto, a pegada dos grandes livros dos anos 40 e 50, quando o poeta nos desvelava, em cadências, imagens e reflexões de beleza inexcedida, os custos da hesitação individual entre buscar objetivamente pertencer ao mundo intimamente condenado ou deixar-se engolfar em treva própria, refratária à mundanidade _na atração alternada pelo mito íntimo e pela história, pelo lirismo e pelo argumento, pela metáfora e pelo conceito.
Mas a luz definitivamente crepuscular que este livro faz incidir sobre todos os momentos anteriores oferece-lhes uma nova perspectiva de interpretação, tanto quanto podem ser eles essenciais a quem busque interpretá-los. O sentido deste adeus é discreta mas cerimoniosamente remetido à significação integral da caminhada; é a face última, que encerra uma sucessão de personae figuradas pelo caminho: o menino furtivo e imaginoso do sobradão e dos campos de Itabira, o adolescente rebelde dos internatos, o boêmio gauche e modernista da conservadora Belo Horizonte, o burocrata federal fabricante de símbolos sociais insustentáveis, o amargo e introspectivo Orfeu na nova ordem mundial, fria e cinicamente pacificada, o memorialista-cronista que volta a ser menino no direito conquistado da velhice.
Em Farewell, o caminhante ao fim da linha carrega como relíquias algumas imagens obsessivas: as da múltipla Greta Garbo amada na tela, das pinturas dos grandes mestres, da senhorial e vasta casa paterna, das velhas e manipuladas fotografias, da aparição fantasmática da amada _o tesouro fragmentário que foi possível acumular em estoque que ora ao Nada se oferece: Quero a última ração do vácuo,/ a última danação, parágrafo penúltimo/ do estado _menos que isso_ de não ser. Despedindo-se, Drummond aciona seu materialismo derradeiro (até onde um grande poeta possa ser materialista) com a consciência de quem, havendo-se inaugurado como um gauche, sabe enfim que a melhor máscara tem pouca serventia diante da morte.
O leitor de Farewell transitará por poemas de valor desigual, mas haverá de se deter em muitos, como Unidade, A Casa do Tempo Perdido, A Ilusão do Migrante, Aparição Amorosa, Arte em Exposição, Bordão, Imagem, Terra, Memória, Invocação Irada, O Peso de Uma Casa _e em quantos mais recupere, pela linguagem lírica, a beleza construída e comungável. Linguagem lírica: esse discurso poético que pode revelar ao próprio criador uma imagem sua, logo reconhecida como a imagem de muitos.
O discurso poético de Drummond pautou-se quase sempre, e aqui também, por uma falsa antieconomia sintática, na qual os supostos acessórios tornam-se pontos decisivos para a cadeia substantiva das imagens.
A obsessão em voga pela síntese extrema, pelo mínimo de palavras, pela usura de nomes (curiosamente agenciada por quem prega as vantagens do consumo supérfluo), ignora que a relação de síntese poética que conta se dá entre as palavras materialmente apresentadas e o alcance da significação que irradiam.Por vezes, a verdade construída no plano artístico rende-se a outra, que nenhum homem pode construir.
A força particular de Farewell está em transcender, aqui e ali, o trunfo puramente estético do criador mais potente, para instalar-se no plano limiar da morte, de onde ilumina o já-perfeito. E o que ilumina? Alguns topoi da poesia drummondiana recebem, neste livro, a última demão de luz, antes da sombra final. O leitor reconhecerá essas derradeiras atualizações: a figura inaugural do gauche culmina na de O Malvindo; as origens familiares e provinciais reinterpretam-se em A Ilusão do Migrante, Imagem, Terra, Memória e O Peso de Uma Casa; todos os cabarés mineiros vingam-se da hipocrisia oficial em Cabaré Palácio; a condição de poeta-funcionário (magistralmente avaliada na crônica A Rotina e a Quimera, de Passeios na Ilha) sintetiza-se em Escravo em Papelópolis; a pequenez do indivíduo diante do mundo grande torna-se cósmica em Noite de Outubro; a especulação das palavras está em Verbos... E que mais? O fundamental: a revisitação e o adeus às instâncias maiores, o Amor e a Morte.
Qualquer impasse romântico desses dois temas fundadores está decididamente afastado por um Drummond que deseja Não mais o sonho, mas o sono limpo/ de todo excremento romântico.
Mas entre o desejar e o alcançar essa duvidosa paz sem nome, há que passar o poeta pela degradação da carne _o tema mais forte do livro. Aquele a quem já deprimia a ameaça das dentaduras duplas, na casa dos 50, vê agora o corpo descumprir os velhos pactos do desejo e arruinar-se na exalação da velhice, na envilecida carne sem defesa.
Ainda aqui, no entanto, a oscilação de base entre o idealismo e o realismo, marca de brasa dessa poesia, deixa um vestígio pungente: a ruína do corpo ainda está habitada, e de dentro sai a voz para o alto: Ó minhalma, dá o salto mortal e desaparece na bruma, sem pesar!/ Sem pesar de ter existido e não ter saboreado o inexistível./ Quem sabe um dia o alcançarás, alma conclusa?.
Vestígio apenas resistente, é certo; somam-se mais intensamente os momentos da plena escatologia, nos quais a ironia acusa seu poder de autoflagelação (aquela ferida que inflijo/ a cada hora, algoz/ do inocente que não sou?), o chamar pelo outro faz-se inócuo (Resposta nenhuma./ A casa do tempo perdido está coberta de hera/ pela metade; a outra metade são cinzas) e as experiências repetidas reciclam o mesmo absurdo (Como (...) suportar a semelhança das coisas ásperas/ de amanhã com as coisas ásperas de hoje?). A unidade do mundo enfim se confirma nessa fatalidade de existir que une flores, pedras e animais; entre estes, não nos consola sequer o privilégio de sofrer.
O sentimento amoroso dividiu-se, na formação do homem e na obra do poeta Drummond, entre a plenitude gozosa do prazer natural e o desejo do sublime, que aporta na melancolia. Referências um para o outro, o corpo que experimenta e o espírito que investiga contracenam duramente em toda a poesia drummondiana. Em Farewell, o drama ainda se reence
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Carlos Figueiredo

Carlos Figueiredo

Réquiem para Alfonso Dellelis

O sentido é simples. Querer dizer como era do teu olhar a
música, é dizer isso.

Na hora em que uns trabalhadores enterravam teu cadáver
era, tua, essa, a música que se ouvia.

Eles nos olhavam com olhar igual ao teu quando olhavas,
embora a quase todos isso passasse desapercebido.

No momento em que o caixão começou a descer, dentro da cova,
muitas pessoas choravam. Pensou-se até em um padre. Imagine!

De dentro do buraco, o coveiro, em um mirar ausente
de qualquer reverência - há um corpo a enterrar, eis tudo -
é que olha com expressão igual ao teu olhar quando
miravas.

Estavas era morto. Era isso que o teu olhar no dele nos
dizia.

E então, inexplicavelmente, pareceu que o instante
foi varado de luz, e que ali, afirmando apenas
que estavas morto e que isso era isso, enfim triunfavas.

Nota do Poema Réquiem para Alfonso Delellis

Líder (ou como ele dizia, "lide") sindical.Presidente do
Sindicato dos Metalúrgicos de S. Paulo, foi preso em
janeiro de 1964 distribuindo panfletos socialistas,
num quartel do exército. Por interferência direta
do Presidente João Goulart, foi solto em
fevereiro. Assim que saiu, procurou Luiz Carlos
Prestes, Presidente do Partido Comunista, ao qual
estava filiado, e lhe relatou o que vira, na prisão: Os
militares preparavam um golpe. E Prestes:"Isso é
impossível.O exército brasileiro é popular e
democrata". "Como? Por quê?",ele quis saber. "Eu sou
oficial do Exército Brasileiro.Eu sou popular e sou
democrata", declarou o Cavaleiro da Esperança.
Antes que findasse o mes de março, Dellelis embarcou em
um navio para ir exilar-se na URSS.

Voltou ao Brasil antes da anistia e começou tudo de
novo, clandestinamente. Sua existência foi toda
consumida nessa luta.

795
Angélica Torres Lima

Angélica Torres Lima

Dias contados

O poema da morte
é apenas um trovão
assustando a vida:
olhos se arregalando
estampidos nos ouvidos.
Melhor, talvez, chamar o medo
de expectativa
já que nessa estrada
não há outro desvio.

Dias contados.
Descontados os feriados
e dias profanos,
resta-me o dom de fabricar
o meu destino,
refazendo os planos
perdoando os erros
e os danos,
dando remo e rumo
às mãos
e ao pleno.

Contados os dias
em letras,
os números letais
se abrem
ao infinito.
Disfarço
a farsa, pondo fé
e desfaço, acho,
o carma da morte
no imposto da vida.

776
Wallace Stevens

Wallace Stevens

MONTANHA DE JULHO

Nós vivemos numa constelação
De retalho e retinir de sons,
E não num mundo uno, nas coisas ditas
Acuradamente em música ou fala,
Como em piano ou página de poesia -
pensadores sem pensamentos últimos
Num cosmos sempre e sempre incipiente,
Como, ao se subir uma montanha,
Vermont reúne seus vários pedaços.

(Tradução
de João Moura Jr. )

939
Álvares de Azevedo

Álvares de Azevedo

Malva-maçã

De teus seios tão mimosos
quem gozasse o talismã!
Quem ali deitasse a fronte
cheia de amoroso afã!
E quem nele respirasse
a tua malva-maçã!

Dá-me essa folha cheirosa
que treine no seio teu!
Dá-me a folha... hei de beijá-la
sedenta no lábio meu!
Não vês que o calor do seio
tua malva emurcheceu...

A pobrezinha em teu colo
tantos amores gozou,
viveu em tanto perfume
que de enlevos expirou!
Quem pudesse no teu seio
morrer como ela murchou!

Teu cabelo me inebria,
teu ardente olhar seduz;
a flor dos teus olhos negros
de tua alma raia à luz,
e sinto nos lábios teus
fogo do céu que transluz!

O teu seio que estremece
enlaguece-me de gozo.
Há um quê de tão suave
no colo voluptuoso,
que num trêmulo delíquio
faz-me sonhar venturoso!

Descansar nesses teus braços
fora angélica ventura:
fora morrer – nos teus lábios
aspirar tua alma pura!
Fora ser Deus dar-te um beijo
na divina formosura!

Mas o que eu peço, donzela,
meus amores, não é tanto!
Basta-me afolha do seio
para que eu viva no encanto,
e em noites enamoradas
eu verta amoroso pranto!

Oh! virgem dos meus amores,
dá-me essa folha singela!
Quero sentir teu perfume
nos doces aromas dela...
E nessa malva-maçã
sonhar teu seio, donzela!

Uma folha assim perdida
de um seio virgem no afã
acorda ignotas doçuras
com divino talismã!
Dá-me do seio esta folha
– a tua malva-maçã!

Quero apertá-la a meu peito
e beijá-la com ternura...
Dormir com ela nos lábios
desse aroma na frescura...
Beijando-a sonhar contigo
e desmaiar de ventura!

A folha que tens no seio
de joelhos pedirei...
Se posso viver sem ela
não o creio!... Oh, eu não sei!...
Dá-ma pelo amor de Deus,
que sem ela morrerei.

Pelas estrelas da noite,
pelas brisas da manhã,
por teus amores mais puros,
pelo amor de tua irmã,
dá-me essa folha cheirosa
– a tua malva-maçã!
1 944
Antônio Augusto de Mendonça

Antônio Augusto de Mendonça

Saudade no sepulcro

Sobre um sepulcro isolado
Roxa saudade vi eu;
Solitária vicejava
No chão frio em que nasceu;
Nunca saudade tão triste
Em sonhos me apareceu ...
Nunca!...
Senti então pelo rosto
Turva lágrima sentida
Deslizar.

Foi à hora do sol-posto.
Hora de muito cismar!
Quando o arcanjo da poesia
Harmoniza o céu com a terra
Na mesma melancolia...
Na mesma doce tristeza,
Que, às vezes, nos faz chorar,
E chorar a natureza
Ao lento morrer do dia!

Cheguei... beijei a saudade,
Que, assim, tão erma encontrei;
Com ela simpatizei;
Porque — da minha orfandade
Neste deserto profundo,
Pobre enjeitado do mundo,
Só com saudades me achei!

Estranha, viva agonia
Ressumbrava-lhe na cor;
Na muda expressão dizia
Tantas penas, tanta dor,
Que só no reino da morte
Duma lágrima podia
Ter nascido aquela flor...
A saudade!...
Emblema de muito amor!...

Poeta às dores afeito,
Tentei debalde arrancá-la,
Para no fundo do peito,
Como um tesouro, plantá-la.
Debalde! ... porque a infeliz
Tinha encravada, segura
No fundo da sepultura
A desgraçada raiz!

Ah! quem soubera o destino
Daquela flor merencória!
Quem a sua ignota história
Porventura escutará?
Quem?... se a flor misteriosa,
No seu recinto funéreo,
Muda, como o cemitério,
Para todos sempre está?

Quem sabe! ... talvez que à triste,
Que no sepulcro descansa,
Dentre as sombras do futuro
Lhe sorria uma esperança
Talvez!...

Quem adivinha se a brisa,
Que docemente a embalança,
Não lhe vai de amor falar?
Se o sol... se o sol ao deixá-la,
Não lhe deixa em despedida
Num raio um germe de vida,
Saudoso de a não levar?

Se ardente, extremoso afeto,
Se estremecida paixão
Que já no peito não cabe,
Por indizível feitiço,
Não lhe dá alento e viço
Com o sangue do coração?
Quem sabe!...

............................................

Sei que a mísera saudade,
Quando no feio horizonte
Feia surge a tempestade;
E da cúpula do céu
Nem sol, nem tímida estrela,
Através do espesso véu,
Despede um raio de luz;
Sei que a mísera saudade,
Porque o vento a não desfolhe,
Nem as pétalas lhe açoite,
Encosta-se — ou dia ou noite —
Nos braços de sua cruz.

825
Vittoria Colonna

Vittoria Colonna

QUANDO I GRAN LUME

Quando o grão lume surge lá no oriente,
que o negro manto desta noite afasta,
e sobre a terra o gelo se desgasta,
já dissolvido no seu raio ardente,

a antiga dor, que o sono gentilmente
me adormentara, acorda mais desgasta:
que quando aos outros o prazer se gasta
é que revive o meu mais docemente.

Assim me força uma inimiga sorte
às trevas procurar, fugir da luz,
odiar a vida e desejar a morte.

Que a um outro olhar scurece, ao meu reluz:
se fecho os olhos, abrem-se-me as portas
à dor profunda que a meu sol conduz.

1 513
Anderson Braga Horta

Anderson Braga Horta

Erotismo e Poesia

Neste breve discurso acerca de erotismo e poesia, desferiremos um vol doiseau sobre alguns dos mais notáveis acidentes eróticos da poesia brasileira, do Romantismo aos nossos dias. O assunto é saboroso, nossa poesia muito rica, talvez devesse eu ceder de pronto a voz aos poetas convocados, que têm muito a dizer; e muito mais poemas e poetas haveria, se espaço houvera. Mas como, afinal de contas, está comigo a palavra, não posso deixar de dizer alguma coisa própria a respeito, e é o que passo a fazer, contando com a paciência e boa vontade dos amigos.
De Eros, representaçao do Amor entre os gregos, desde o século VI a.C. cultuado principalmente como o deus da Paixão, vem erotismo. Significa paixão amorosa — o amor, não tanto no seu lado "cavalheiresco", platônico, dominante na poesia trovadoresca, por exemplo, mas antes no seu aspecto físico, sexual. A maior ou menor franqueza com que se pode, sem escândalo, falar do amor erótico, em literatura, varia de civilização para civilização; assim, obras que têm, em determinado país e tempo, serena posição nas letras, alhures ou em outra época poderão ser consideradas pornográficas. É como sói ser encarado no Ocidente o Kama-Sutra, antigo manual hindu de técnicas sexuais.
Mesmo em relação a obras da nossa cultura e do nosso tempo, é muita vez difícil a distinção entre arte e pornografia; e é verdade que a mesma obra pode agasalhar, lado a lado, ou misturados, imbricados, traços artísticos e traços pornográficos. Há de haver, sem embargo, meios ao alcance do leitor — e falo em leitor porque nos estamos cingindo à literatura, mais especificamente à poesia — para essa distinção. Tentando estabelecê-los, recorro a um breve discurso paralelo acerca do que chamo "a psicologia do palavrão".
Que vem a ser isto, um palavrão? Uma "palavra obscena ou grosseira", diz Mestre Aurélio, no seu dicionário. Mas, se temos duas palavras significando a mesma coisa, como, por que se há de associar a uma delas conotação de obscenidade, ou grosseria, e não à outra?
O que determina essa carga negativa, ou positiva, ou neutra, das palavras é a intenção. Deste modo, tem a língua, para significar os órgãos sexuais, palavras de uso restrito a meios técnicos ou científicos, e que podem ser fora daí empregadas sem susto, por serem meramente denotativas, eticamente neutras; palavras de uso familiar, carregadas de variável gama afetiva, que podemos dizer portadoras de conotação positiva; e palavras de baixo calão, que, além do significado, basicamente igual ao de suas irmãs retromencionadas, imantam-se de uma intenção negativa — de depreciação, achincalhe, deboche. Normalmente, estas últimas têm curso no escuso dos becos, em esconsos quartos ou frias salas, em meios onde os homens, vítimas da própria miséria, passam a ser uns para os outros não mais que objetos de egoístico prazer, ou sujo lucro. Por isto, não é necessariamente fruto de condenável preconceito a recusa de trânsito em níveis mais altos a certas palavras forjadas ou em curso naqueles meios; pois o que se recusa, ou deve recusar, nelas é a intenção que visa a diminuir o destinatário e que avilta o emitente. (Conseqüentemente, as palavras podem mudar de categoria, subir ou descer, degradar-se ou reabilitar-se, conforme o uso social que se lhes dê; e pode a mesma palavra pertencer a opostas categorias, em meios diversos.)
De modo semelhante, a qualificação de erótica ou pornográfica a obra literária depende do ponto de vista em que se coloque o autor (ou o leitor, o que relativiza ainda mais a questão). Transcrevo o que dizem a respeito Otto Maria Carpeaux e Sebastião Uchoa Leite, no verbete "erotismo" da Enciclopédia Mirador Internacional:
"A pornografia não provoca, em geral, questões de crítica literária; há, até, quem duvide se esses produtos pertencem à literatura em qualquer sentido da palavra. Essa dúvida atinge sobretudo as obras pornográficas que foram escritas com o único fim de estimular sensações sexuais. Mas em muitos casos a confecção de obras pornográficas serve para satisfazer os estímulos irrealizáveis dos próprios autores; trata-se, nesses casos, de fantasias de regressão infantil, de sonhos de poder sobre órgãos genitais alheios, que são o único tópico da pornografia ("pornotopia"). A exclusão de todos os outros motivos e a redução dos personagens a seus órgãos genitais são traços característicos da pornografia e indícios de que não se trata acaso de literatura propriamente dita."
Pornográfica é a obra em que se objetualiza o ser humano como pasto de paixões, reduzido o amor à bestialidade, isto é, à exacerbação e cega satisfação do instinto. E diria que a pornografia está para o erotismo assim como a prostituição está para o amor.
Não me lembra que escritor se perguntava, com real ou ficta perplexidade, por que não se dignavam os poetas de cantar os prazeres do paladar, como cantam os do amor. Sim, por que não merecerem algumas notas líricas as delícias do tutu com torresmo, o êxtase da feijoada completa, a ingenuidade da salada vegetal, os mistérios espirituais dos álcoois? (Estes até que não podem se queixar ... )
Poesia é transcendência. Por isto não canta o poeta o bom prato, a não ser no poema satírico. Por isto, ao cantar o amor, se não lhe despreza as materialidades, procura colher-lhe a volátil essência; nem é verdadeiramente poesia, senão torpe simulacro, essa, pseudo-erótica, incapaz de ultrapassar o descritivismo no âmbito da física sexual.
Uma e outra coisa existem e são necessárias. Só que não são, em si mesmas, objeto de poesia, como não o é o econômico, o técnico em geral. E, forçadas a um papel mais alto que o que lhes compete, tornam-se grotescas, ou obscenas.
Mas, esperem aí! — somos corpo e espírito, espírito e corpo. Quando sugiro espiritualização, não me entendam mal, não estou recusando o corpóreo. Nem me esqueço de que a poesia erótica ocidental tem raiz em seu livro sagrado — na Bíblia, no Velho Testamento, no Cântico dos Cânticos de Salomão. E como, nos seus cantares, se refere o rei poeta aos dotes da Sulamita? Em termos como estes, cuja sensualidade não elide a pureza:

"Quão belos são os teus pés
nas sandálias que trazes, ó filha de príncipe!
As colunas das tuas pernas são como anéis trabalhados por
mãos de artista.
o teu umbigo é uma taça arredondada,
que nunca está desprovida de vinho.
O teu ventre é como um monte de trigo
cercado de lírios.
Os teus dois seios são como dois filhinhos
gêmeos duma gazela.
O teu pescoço é como uma torre de marfim.
Os teus olhos são como as piscinas de Hesebon,
que estão situadas junto da porta de Bat-Rabim.
O teu nariz é como a torre do Líbano,
que olha para Damasco.
A tua cabeça levanta-se como o monte Carmelo;
os cabelos da tua cabeça são como a púrpura
um rei ficou preso às suas madeixas.
Quão formosa e encantadora és,
meu amor, minhas delícias!
A tua figura é semelhante a uma palmeira.
Eu disse. Subirei à palmeira,
e colherei os seus frutos.
Os teus seios serão, para mim, como cachos de uvas,
e o perfume da tua boca como o das maçãs."
Feito o intróito, cuja extensão espero me seja perdoada, passemos aos verdadeiros falantes desta jornada.
Álvares de Azevedo, um dos "gênios adolescentes" do nosso Romantismo, em cuja época se praticou pela primeira vez uma poesia caracterizadamente brasileira, morreu aos vinte anos, "sem na vida ter sentido nunca" — conforme se queixava no poema "Idéias Íntimas" — "na suave atração de um róseo corpo" os "olhos turvos se fechar de gozo". Não obstante, ou talvez por isso mesmo, sua lírica amorosa revela, no dizer de Antônio Soares Amora, erotismo tão explícito corno nunca antes, entre nós. É, pois, merecedor das honras da abertura. Leiam-se as estrofes iniciais de "Seio de Virgem":
"0 qu
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Natália Correia

Natália Correia

Véspera do Prodígio

Além do
sol, além do Sete-Estrelo
Uma última Tule me subentende.
O caminho pra mim não sei. Sabe-lo
Será ciência que a morrer se aprende?

Passo ou sou? Deuses, quem quebra o selo?
Quando entro em mim outrem me surpreende
Que um génio zombador tem por modelo.
Onde o esquivo lar desse duende?

Seja quem for o eu que em mim recluso
Alheio fado cumpre, é vácuo o uso
Que do Dom de pensar em vão fazemos.

Melhor é ir. Atravessar o muro,
Seguir na barca que passa o golfo escuro
E ao Grande Enigma abandonar os remos.
1 900
Luís António Cajazeira Ramos

Luís António Cajazeira Ramos

Memórias da Casa dos Mortos

Mais parece um túmulo esse meu corpo de pedra.
Túmulo de tantas sensações.
Pedra sem vida — pedra.

Mais parece um túmulo esse meu coração de pedra.
Túmulo de tantas paixões.
Pedra sem amor — pétrea.

Mais parece um túmulo esse meu espírito de pedra.
Túmulo de tantas idéias.
Pedra sem razão — petrificada.

Em visita a esse cemitério de jazigos e lápides,
levei uma pedrada,
e o único sangue possível foi
a palavra.

829
Luís Amaro

Luís Amaro

Intermédio

Alguém que se ignora
Passeia a sua mágua
Lá pela noite fora.

Já sem saber se existe,
Entre silêncio e treva,
Nem alegre nem triste,

Alguém que a própria sorte
Enjeita, vai absorto
Num sonho que é a morte
E é vida — sendo morto.

(In Antologia de Poetas Alentejanos,
de Orlando Neves)

929
Raimundo Bento Sotero

Raimundo Bento Sotero

Separação

Dá-me cedo, Senhor, humilde assento
Ao lado da que foi tão de repente,
Pois desde o dia em que se fez ausente
Que vivo entre um soluço e um Lamento.

Oh! Como dói, meu Deus, o sentimento
De perder quem a vida não consente
Que nem um só instante saia à mente,
Pois se eterniza cá no sofrimento!

Vou assim, por sol quente e noite fria,
Arrastando meu fardo de agonia
Como um doente já de "Sentinela".

Leva-me, Pai, também à tua presença.
A Morte para mim é recompensa:
Melhor morrer a viver longe Dela!

894
Daniel Faria

Daniel Faria

Deve ser o último tempo

Deve ser o último tempo
A chuva definitiva sobre o último animal nos pastos
O cadáver onde a aranha decide o círculo.
Deve ser o último degrau na escada de Jacob
E último sonho nele
Deve ser-lhe a última dor no quadril.
Deve ser o mendigo à minha porta
E a casa posta à venda.
Devo ser o chão que me recebe
E a árvore que me planta.
Em silêncio e devagar no escuro
Deve ser a véspera. Devo ser o sal
Voltado para trás.
Ou a pergunta na hora de partir.

de Explicação das Árvores e de Outros Animais(1998)
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Juscelino Vieira Mendes

Juscelino Vieira Mendes

Fim Natural

És o fim natural
Obrigatório
da pessoa humana.
Extingue-se-lhe
a personalidade,
a capacidade jurídica;
Transmite os seus direitos,
as suas obrigações
a seus sucessores
legais.
Estes seguram uma bandeira
que também um dia
será desfraldada
e novos sucessores virão,
porque és implacável...inexorável!
Não te importas com o tempo:
vivido
escolhido
sofrido.
És pura elegia...

888
Juscelino Vieira Mendes

Juscelino Vieira Mendes

Ato de Dormir

O dormir: ante-sala da morte
Suas semelhanças são próximas
Como o são as pessoas em suas idiossincrasias

Há um pressentir de que não vem cedo,
mas chega de repente, sutil e mansa:
horizontal, olhos cerrados, paradoxal

Um passar sem conhecimento
Incólume de governos todos
Inerte, inconsciente, após momentos de faina impetuosa

Suas semelhanças vão ao porvir
Emergem de um impulso originário
Há descanso, ou cansaço após a noite; após o dormir...

Para viver é preciso morrer...
Para morrer é necessário viver...
Para descansar é necessário dormir bem

Há simetria, pois...
há concatenação:
no alternar do dia e da noite...

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