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Poemas neste tema

Antunes da Silva

Antunes da Silva

Passsei o Tejo à Noitinha

Passei o Tejo à noitinha
e vi o Tejo calado,
trago um barco de papel
pró deitar no mar salgado.
Quando o barco se romper
deito no Tejo uma estrela
e a estrela branca lá fica
e nunca mais torno a vê-la...
Dizem os homens e mulheres
que nas águas deste Tejo
barra fora lá seguiram
camponeses do Alentejo
que nesse tempo sentiram
o que era a triste vida
feita de nada de nada
e por demais permitida...

Falam os homens mais velhos
que neste rio -ó desgraça! -
partiu barco e partiu povo
rumo a Timor e Mombaça
passando pelo mar alto
pró Bié e Tarrafal,
gente de boa presença
que nunca a ninguém fez mal!

Diziam os homens mais velhos
com espanto e em segredo,
que nas águas do rio Tejo
partiu gente pro degredo:
Timor, Bié, Tarrafal,
no tempo do salazar
as barcas seguiam cheias
a navegar, a navegar,
com homens em cativeiro,
Timor, Bié, Tarrafal,
e regressavam com ferro,
coco, amendoim e sisal...

Passo o Tejo à noitinha
e já ninguém me faz mal!

907
Antônio Wilson da Silva

Antônio Wilson da Silva

Poemando

Fazer poema é gostoso
É um decifrar de sentimentos
É desabafar consigo mesmo
É relembrar belos momentos

Fazer poema é uma dádiva
inspiração que vai e vem
É ver a vida sempre bela
É amar à distância um alguém

Fazer poema é viver
É ter alma e corpo entrelaçados
É estar em paz consigo mesmo
É amar o próximo e ser amado

Fazer poema às vezes também é sofrer
É sentir solidão, é suplício e chorar
É sufocar no peito a saudade de alguém
É suplantar a tristeza e viver para amar.

858
Antônio Massa

Antônio Massa

Instruções para se Encerar um Homem

É necessário que o homem
- aquele desnecessário infeliz -
seja varrido
cuidadosamente
dos pés a cabeça
e lhe sejam guardados
seu egoísmo
orgulho
cinismo
apanhados no caminho
numa caixa acima de sua nuca

deve-se então ir ao cume
e encerá-lo
da cabeça à barriga,
começando no seu bom senso
e seguindo pela sua astúcia
no estômago
deve-se erguer a esperança
a qual você encontrará sendo digerida
pelo racionalismo natural, porém idiota.
prosseguir até os pés
encerando muito bem sua humildade
encontrada nos joelhos
espera-se que seque
e segue-se polindo
dos pés à cabeça
todo o homem
ao chegar ao topo,
deve-se abrir a caixa
e sujar o homem com seu
conteúdo
é quando
depois de ofuscada a cera
teremos um homem
perfeito

851
António Quadros

António Quadros

Ode ao Cristo

das Janelas Verdes

Quem te pintou triste e secreto,
Ó Cristo de olhar vendado,
Ó Cristo misterioso,
Abandonado
No Museu das Janelas Verdes,
Quem te pintou saudoso,
Talvez do Céu, talvez do Homem,
Talvez da criação antes da prova,
Quem te pintou assim, sereno e encoberto,
Imagem nova
Que um povo a ti votado
Um dia descobriu?
Ninguém conhece o mestre que te viu
Enigmático, silencioso,
Um Deus, dir-se-ia, envergonhado,
Mais que humilhado,
Vexado
Porque a palavra se cumpriu,
Porque na hora precisa
Os seus irmãos eleitos
O julgaram,
O feriram,
O mataram
E porque ao longo deste tempo interminável,
Após a crucifixão,
Após a ressurreição
O julgamento prossegue,
A tortura, o crime,
A traição,
O deicídio constantemente perpetrado
Ao sabor da existência quotidiana.
Ninguém conhece o pintor, o iniciado,
O sabedor do mistério
Que é o longo movimento necessário
Do nosso universo imaginário,
Onde tudo é signo e símbolo,
Onde o olhar de Jesus, encoberto,
Ensina a suprema perfeição
De um Deus capaz de amar
E de chorar,
De um Deus assassinado capaz de ressurgir
E de voltar
Sem parábolas, sem cifras, sem véus
Na plenitude da final revelação.

Ah, não, bizantinos sonhadores,
Não estetas da Itália,
Da França,
Mestres da Flandria,
Da fria Inglaterra,
Da férrea Germânia,
Não pintores da Espanha,
Vossa não podia ser a exata imagem
Que um português criou e jaz sepulta
No Museu das janelas Verdes, em Lisboa!
De Ti, sábio Jesus,
Promotor do movimento necessário,
Homem secreto do futuro cumprido,
De Ti fizeram um diáfano celeste
De ouro ornado e neste mundo perdido,
Um reflexo do maravilhoso céu sonhado,
Entre nós caído
Para que místicamente o contemplássemos...
De Ti fizeram um Orfeu ou um Apolo,
Querendo idealizar-te à helênica medida,
A finita estrutura
Do sedutor, estético humanismo...
De Ti fizeram um racional justiceiro,
Um implacável profeta, um missionário
Da Lei divina,
Um Rei,
Um General,
Um Papa,
De Ti fizeram ainda um comerciante de almas
Demasiado carnal,
Demasiado terreno em cenas burguesas,
Em habituais paisagens holandesas,
De Ti fizeram um transcendente imperador
Que pela vontade e nela inteligência
Os homens foi capaz, de dominar...
De Ti fizeram um humano angustiado,
Primeiro Ator do teatro do mundo,
Aflito protagonisa de tragédia...
Mas Tu não choras, ó Cristo,
Pelo Teu padecimento,
Não sais fora de Ti em esgares de sofrimento,
Não és o magro asceta castelhano,
O torturado místico envolto em sombras,
O cadaveroso deformado!

Sofres, sereno,
Sofres, saudoso,
Sofres, sábio e santo
Mas não por Ti,
Se sofres é por nós, sempre e hoje,
Nos no longo, interminável tempo,
Nós em guerras, em doenças, em horrores,
Nós, infiéis de geração em geração,
Nós perdidos,
Nós esquecidos,
Nós, livres, libertos, todavia,
Senhores da invocação, da decisão,
Senhores da graça luminosa
Ou do erro gasto e repetido.
Sofres secreto
E o teu olhar de fogo ficará oculto
Até que à pureza humana o possas desvelar.
Este é o povo das grandes, longas quedas
E também das grandes, fundas intuições,
Este é o povo que em Cristo vê o Messias revelado
E também o Messias encoberto de porvir,
Este é o povo que ama o Deus menino
Porque até na maturidade do Cristo renascido
Descobre a virtualidade infinita, irrevelada,
O imenso Ser, para lá de toda a imagem,
O Espírito sem limites que a infância anuncia
E que jamais, num conceito, num olhar,
Jamais numa verdade humana se detém.
Ó Cristo de olhar vendado,
Ó Cristo misterioso,
Abandonado
No Museu das Janelas Verdes,
Ó Cristo encoberto e final,
Vem,
Traz até nós o que ainda não somos,
Ensina-nos a sermos o para que nos criastes,
Em nome do nosso apelo,
Em nome do nosso sonho,
Em nome do nosso almejar-te e conceber-te
Tu e Outro,
Patente e todavia encoberto
Como no Ecce Homo das Janelas Verdes,
Em nome do desejo de total superação
Que subsiste no coração de todos os humanos,
De todos sem exceção,
Vem
E consagra a matéria deste mundo,
O que em nós pesa e obsta
A luz imensa do Teu Espírito,
Que todos pressentimos,
Todos sem exceção,
Ainda quando três vezes Te negamos.

Ó Cristo próximo e distante,
Ó Cristo saudoso,
Misterioso,
Vem...
Conhecemos a dor,
Tarda-nos o amor,
Vem conosco no termos merecido
O império de paz que no mundo cindido
Entre gente próxima edificamos,
Vem conosco no olharmos ao espelho dos teus olhos desvelados.
A nossa clara imagem descoberta,
Vem conosco, Irmão,
Na alegria de cantar aos quatro ventos,
Nos cinco continentes, nas terras e nos céus,
Ecce Homo! Enfim, enfim, o Homem!

1 155
Antônio Massa

Antônio Massa

Revelação

Uma única testemunha;
emulsão chapeada
isolada no escuro
por quem me viu

A luztestemunha e tudo

fotografado
em sais de prata
banhados por breu
em busca
eu
do meu
reflexo

E quantos vi?
Papéis futilgráficos
retidos ao lixo,
e meus nitratos
sedentos de informação

A luz
cisão do meu ser,
das cópias negativas

di vi di da s

em minha dor

941
Antônio Massa

Antônio Massa

Prelúdio às Faces do Poema

Eis que de repente
as marcas da vida sumiram
e restou apenas a paisagem mais pura
de tão pura
assustou
mas a ela me entreguei
e pude ver os espelhos
assim como em um parque
onde nos vemos
em todas
as formas
e todas
são tantas
que não nos descobrimos
mas sim nos perdemos...

... em nós mesmos

669
Antônio Massa

Antônio Massa

Firma Reconhecida

Eu nasci
Está no papel

Eleitor
Está no papel

Identidade
Duas vias
Ambas no papel

Minha vida
Plastificada
Minha pessoa
Resumida a 3x4
Minha revolta
Autenticada

6.586.598-71
Está no papel

Está tudo no papel
e em todos os papéis
homens carimbados
buscando papel de gente

972
Alfredo José Assunção

Alfredo José Assunção

Querer

Quero me ser , não me deixam.Quero te ter , não me deixo.Às vezes até querer quero ,sem saber poder querer.

Querer te ser pra me conquistar.Querer te ser pra me aconselhara então aprender a me serpara saber me deixar te ter.

846
Adailton Medeiros

Adailton Medeiros

Auto-retrato

Diante do espelho grande do tempo
sinto asco
tenho ódio
descubro que não sou mais menino
Aos 50 anos (hoje — 16 / 7 / 88 (câncer) sábado — e sempre
com medo olhando para trás e para os lados)
questiono-me (lagarto sem rabo):
— como deve ser bom
nascer crescer envelhecer e morrer

Diante do espelho grande na porta
(o nascido no jirau: meu nobre catre) choro-me:
feto asno velhote pétreo ser incomunicável
sem qualquer detalhe que eu goste
(Um espermatozóide feio e raquítico)

Como nas cartas do tarô onde me leio
— eis-me aqui espelho grande quebrado ao meio

881
Amílcar Dória

Amílcar Dória

Eu vou contar a história de uma lida

1.
Eu vou contar a história de uma lida
como quem narra a dor de uma saudade,
pois de saudade ela se faz, embora
ninguém saudade sinta de quem vive.

Que não se estranhe a minha narrativa.
Nada no mundo mais pode espantar.
Quando é o estranho ser que se retrata,
ainda mais estranha é a batalha.

O homem a que refiro ainda existe,
melhor talvez dizer sempre existiu
e entre nós habita igual ao vento

que ocorre em toda parte, onipresente,
e agita folhas, mexe com sentidos
onde o homem vai buscar a sua origem.

822
Amílcar Dória

Amílcar Dória

Onde o homem vai buscar a sua origem?

2.
Onde o homem vai buscar a sua origem?
Nas entranhas do solo, nas sementes
das plantas ou no cio dos animais
ou mesmo em pétreos corpos silenciosos?

No caso o homem a que se trata
nasceu de sua própria incoerência:
quando sentiu em si a consciência
de que era gente quase perde o tino.

Pois se indagou em sua mente aflita:
eu sou sozinho ou todo o universo
é parte do meu ser, ou é o inverso?

Donde saí, de que remoto esconso
de lápides fatais me originei?
Então adormeceu em fundo sono.

808
Adailton Medeiros

Adailton Medeiros

Exílio dele nas Urubuguáias

exilAdo nas urubuguáias
boi serapião do buriti
corre nos cerrAdos e grotões
tal marruá de tamAnca e reza

andarilho sem odres de couro
um patori desaplumbeAdo
na travessia das grAndes estórias
construindo em sete mil dias Dios

um antropomOrfa como
o veAdo do mistéRio
de gelos e vinhos tintos

ou o carCará castrAdo
vindo dos salEs noturnos
furnicAdo de marinhas

893
Américo Gomes

Américo Gomes

Cibertolo

Eu ja fui um internauta
Som de modem, som de flauta
Cibernauta digital

Surfava toda a Web
Mails mandava, vocaltec
minha serva, listserv

Era minha companheira
por entre roteadores

Mas o teclado era frio
Eu era peixe sem rio, sem açude, sem maré

Voltei a sair à rua
Abracar a noite nua
As madrugadas sem fim

Cebertolo, cibernada
Mais vale um boa amada
No gibabaite da rede

Não essa de navegar
A rede de balançar
No singelo vai e vem

E quem quiser internet
Ficar inerme internado
Pelas redes virtuais

Fique aí, não diga nada
Pois nessa rede safada
Embora Gates agite
Não arrumei namorada
Fiquei na superestrada
E uma baita tendinite

789
Américo Gomes

Américo Gomes

Beira Molhada

Tu és muito sem vergonha
Claudete,
Fostes comunista, atéia
E agora, charlatã?

Dissestes mil vezes rindo
Que teu sorriso tão lindo
Era de prazer, de sonho

E agora, nem me liga
Teus ideais, tua briga
Era fumaça no céu

Quem virá te socorrer
Quando um dia renascer
Essa vontade serena

Que cresce, reina, governa
A rebelião eterna
Quanto mais me passam a perna
Mas eu fico corajoso

E mais o meu sonho aumenta
Se agiganta à minha frente
O desejo de lutar
A minha gente inda sonha
E tu Claudete, medonha
Foge do teu pesadelo.

823
Amílcar Dória

Amílcar Dória

Então adormeceu em fundo sono

3.
Então adormeceu em fundo sono.
Mas quando despertou não era outro.
Continuava o mesmo, um ser tristonho
a se indagar do seu tristonho encanto.

Ergueu-se dos recantos da caverna
à luz das tochas vivas da agonia.
E pronto retomou a sua angústia
de se indagar da própria procedência.

Por que sou eu quem sou? - ele dizia.
Por que me deram mãos e um coração
que se perturba a cada vez que o dia

noite se torna, e a noite, madrugada,
enquanto os gatos no telhado miam?
Não sei se o gato tem a ver comigo.

894
Antonio Ferreira dos Santos Júnior

Antonio Ferreira dos Santos Júnior

Poema das Vinte Horas

Vinte horas...
E te quedas jogado no meio da estrada,
Livre do corpo
Morto.

Vinte horas...
A lua estática e longíqua
As estrelas, os brilhos, os sonhos
E te quedas alí
No meio da estrada...
Morto.

Vinte horas, vinte minutos
Vinte séculos
Eternidade.

Não verás mais o sol
Ou já chegaste ao centro dele?
Mas teu corpo jogado
No meio da estrada...
Morto.

Vinte horas....
Vinte amigos, vinte irmãs, vinte mães,
Vinte santos, vinte vidas, vinte mortos,
Vinte, vinte, vinte...

E no meio da estrada
Jogado o corpo morto.
E tua memória nas memórias dos que ficam.
Um momento às vinte horas
E trocaste teu corpo morto
Pela eternidade de tua alma?
Ou lembranças nos homens que ficam?

Dos que fica à espera...
À espera apenas
De suas próprias vinte horas!

913
Antonio Ferreira dos Santos Júnior

Antonio Ferreira dos Santos Júnior

Nem é esta a mesma rua que passo

Nem é esta a mesma rua que passo
A mesma rua por onde passava.
Nem é o mesmo eu que carrego
O antigo eu que antes carregava.

A rua é a mesma, eu sei...
Mesmas árvores ( só que mais frondosas )
Mesmas pedras ( só que mais usadas )
Mesma distância entre uma e outra calçada.

O que está comigo parece o mesmo eu...
Mesma ânsia de viver, mesmas dores,
Mesmos sonhos de criança, ardores,
Mesmo jovem que caminhava em ilusão,
Mesmo deslumbramento imaginoso em solidão.

Mas sinto como uma pressão no sangue
Que nem é a mesma rua que agora passo
E nem é o mesmo quem que hoje comigo carrego,
Os de outrora....

Aconteceram tantas quedas, tantos silêncios
E o vento...

728
Marcial

Marcial

VI, 8 - A SEVERO

Pretores dois, e mais tribunos quatro,
Advogados sete, e poetas dez,
Todos à mão da filha se fizeram
De certo velho. E ele ao pregoeiro
Eulogo foi que a mão da jovem deu.
Não foi, Severo, sábia a decisão?

497
Giuseppe Ungaretti

Giuseppe Ungaretti

À MEMÓRIA DE

Chamava-se
Maomé Cheabe
Descendente
dos emires dos nómadas
suicida
porque não tinha já
pátria

Amou a França
e mudou de nome

Foi Marcel
mas não era francês
e não sabia já
viver
na tenda dos seus
onde se escuta a cantilena
do Corão
saboreando um café

E não sabia soltar
o canto
do seu abandono

Acompanhei-o
junto com a patroa do hotel
onde habitávamos
em Paris
no nº 5 da Rue des Carmes
murcha viela em descida

Repousa
no cemitério de Ivry
subúrbio que parece
sempre em dia
de uma
feira levantada.

E talvez eu só
ainda saiba
que viveu.

1 548
Marcial

Marcial

VII, 30 - CONTRA CÉLIA

Aos Partos, aos Germanos, dás-te, Célia, aos Dácios,
Nem aos de Capadócia ou de Cilícia negas
O que buscar-te vem do Egipto os cobridores,
Ou, pelo Mar Vermelho, os negros indianos
As ancas não recuas ante o circunciso
Hebreu, e mesmo o Alano em seu cavalo sármata
Te pára à porta. Ob, como sendo tu Romana,
Só de Romanos paus te não agradas nunca?

601
Antônio Brasileiro

Antônio Brasileiro

Estudo 11

Os homens me fizeram assim.
Assim permaneço, assim,
uma constante negação de mim dentro de mim.

Jamais eu fui eu mesmo, eu mesmo,
porque foram os homens que me fizeram,
sempre foram os homens que me fizeram.

Eu sou assim, negando-me negando-me,
— outro irão eu alimentando-se de mim —
porque jamais Eu Mesmo teria sido assim.

Os homens me fizeram o que eu não seria
se eu fosse eu próprio.
Mas sou assim.

Milhões de vozes falam milhões de olhos vêem
milhões de braços clamam milhões de lábios tremem
milhões de peitos sofrem milhões de vozes

calam dentro de mim.
— Outro não eu alimenta-se de mim —
Eu lutarei eu lutarei eu lutarei eu lutarei.

921
Antônio Brasileiro

Antônio Brasileiro

Mágoa

1.
Fiz-me embrulho para presente
para ofertar-me aos amigos.

(Sempre fui o mesmo homem:
papel de seda, uma fita.)

2.
Amei tanto, tanto mesmo:
só me chamaram poeta.

Sorri tanto, e só sabiam
que eu tinha dentes bonitos.

3.
Guardei-me um dia no mar
chorei ondas pela praia.

Em mim nasceu uma flor
porque sempre fui jardim.

1 026
Antonio Machado

Antonio Machado

PARÁBOLAS

VI

O Deus que todos levamos,
o Deus que todos fazemos,
o Deus que todos buscamos
e que nunca encontraremos:
três deuses e três pessoas
do único Deus verdadeiro.

1 541
Cruz e Sousa

Cruz e Sousa

A UMA ATRIZ

trechos do
poema O Botão de Rosa

Era um botão feliz,
Cuia roseira, impávida,
Ébria de aromas bons, ébria de orgulhos - ávida
De completa fragrância,
Palpitava com ânsia
Desde a própria raiz.

Tardes formosíssimas,
Ó grande livro aberto aos geniais artistas,
Como tanto alargais as crenças panteístas,
Como tanto esplendeis e como sois riquíssimas.

O cérebro em nevrose,
No pasmo que precede a augusta apoteose
De uma excelsa visão perfeitamente bela,
De uma excelsa visão em límpidos docéis,
Exaltava o acabado artístico da Tela
E o gosto dos pincéis.

A arte especialmente, esse prodígio, atriz,
Como o botão de rosa
Tão meigo e tão feliz,
Pode ser arrojada e brutalmente, ao pego,
Na treva silenciosa,
Onde o espírito vai, atordoado e cego,
Cair, entre soluços,
Como um colosso ideal tombado ao chão de bruços,
Ou pode equilibrar-se em admirável base
Estética e profunda,
Assim, bem como o outro, à mais radiosa altura.

Deves sondá-la bem nesta segunda fase.
Precisas para isso uma alma mais fecunda.
Precisas de sentir a artística loucura...

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