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Poemas neste tema

João Quental

João Quental

Cartas

Para Alejandra Pizarnick

1.
Tua rosa é rosa.
A nossa, quem poderá dizer?
Não é o problema: são as palavras.

2.
Algumas palavras são tão preciosas
como distinguir nosso nome
entre duas pessoas que murmuram.

3.
Frio é o lugar onde se forma o pensamento.
Entre gestos elementares, um jardim inacessível.
Frias eram as horas.

4.
É triste possuir um corpo e não possuí-lo.
Nevoada, triste quando você sorri.
E quando não.

5.
quando a noite estiver em minha memória
minha memória será noite]

6.
Uma mulher de noites.
Flutuar e escolher. Exí1io estranho.

7.
Golpeando à esmo - inadequada enquanto música.

(1987)

701
Jonas da Silva

Jonas da Silva

Coração

Meu coração é um velho alpendre em cuja
Sombra se escuta pela noite morta
o som de um passo e o gonzo de uma porta
Que a umidade dos tempos enferruja.

Quem vai passando pela estrada torta
Que leva ao alpendre, dessa estrada fuja!
Lá só se encontra a fúnebre coruja
E a Dor, que a prece ao caminhando exorta.

Se um dia abrindo o casarão sombrio
Um abrigo buscasses contra o frio
E entrasses, doce criatura langue,

Fugirias tremente vendo a um lado
A Crença morta, o Sonho estrangulado
E o cadáver do Amor banhado em sangue!

1 730
Ferro do Lago

Ferro do Lago

Canção Pagã

Os meus olhos caíram
sobre o teu corpo
numa bênção pagã
ungida de desejos.

O meu coração pulsa
no seio das montanhas.
Arde em chamas o gelo
dos círculos polares.

Hirtas, as árvores
despiram-se das folhas,
que o vento varreu
com meus cinco sentidos.

Lateja o meu sangue
nas veias dos regatos.
O sol cobriu o rosto
com o sudário dos nimbos.

No lago plúmbeo
bóia o teu corpo,
bóia entre espumas.

863
Francisco Miguel de Moura

Francisco Miguel de Moura

Ter-e-sina

Há Roma, Paris e Bagdá
com sonhos que não sei
com céus que me escaparam
pelos pés.
Você conheço de pele
de manha
de manhãs desfeitas
de sol e chuva meio a meio
de ponte anoitecer
de rua e rio e rima.
Só você com seus ares
de mulher que ensina
a vida, o ventre
e o tonel.

Teresina conheço de antros
de antes.
Bagdá é um sonho
não vou lá.
Meu sonho em que sonho
de acordo
é você.

957
José Lannes

José Lannes

Canção do Juramento

Fiz um dia um juramento
de nunca mais te querer;
de nem sequer um momento
outra vez teu pensamento
no coração acolher...
Era firme o juramento
de nunca mais te querer.

Mas apenas o fizera
mal de meus olhos! — te vi;
e como se nada houvera,
nem ainda te esquecera
o juramento esqueci ...
E mesmo do que fizera
duvidei, quando te vi.

O resultado estou vendo,
estou vendo, mas... em vão:
que sem remédio sofrendo
e sangue e fel escorrendo
tenho agora o coração.
Mas quem, amor, em te vendo
também não jurara em vão?

1 006
Francisco Mangabeira

Francisco Mangabeira

Regina

Em alegrias fortes prorrompa
Nervosamente meu coração,
Que se celebra, com toda a pompa,
Um desvairado festim pagão.

Corra um delírio pelo Universo,
Que nem um homem pense sequer,
E ocupe o loiro sólio do Verso
A Imagem Branca duma Mulher!

A um riso dela, deixem os filhos
Mortas nas chamas as próprias mães,
E aos seus Pés tremam fracos, sem brilhos,
Os astros, como se fossem cães!

Lancem blasfêmias todas as bocas,
Os ares sejam um escarcéu,
As aves fiquem mortas ou loucas,
E as nuvens todas ardam no céu!

Raios e roncos de trovoadas
Venham o espaço negro ferir...
E, entre essas raivas desordenadas,
Ela, no sólio, branca, a sorrir.

Para de beijos encher o Ardente
Corpo da minha Deusa Pagã,
Eu quereria ser Deus clemente,
E choraria não ser Satã.

De almas sangrentas e cancerosas
Se erija um trono descomunal,
Onde ela se erga, nas Mãos Formosas
Sustendo um rubro, quente punhal.

Soluce o vento pelos espaços,
O oceano ferva cheio de dor,
E esmague peitos, crânios e braços
Seu Grande Carro Triunfador.

Quando Esse Carro Sombrio e Horrendo
Por sobre o sangue morno passar,
Cantarei sendo Satã — e sendo
Deus, pelas trevas irei chorar.

Depois os corpos estreitamente
Unamos, deles fazendo um só.
E então o Carro furiosamente
Os pise, unindo-os no mesmo pó.

976
Fontoura Xavier

Fontoura Xavier

Pomo do Mal

Dimanam do teu corpo as grandes digitales,
Os filtros da lascívia e o sensualismo bruto!
Tudo que em ti revive é torpe e dissoluto,
Tu és a encarnação da síntese dos males.

No entanto, toda a vez que o seio te perscruto,
A transbordar de amor como o prazer de um cálix
Assalta-me um desejo, ó glória das Onfales!
— Morder-te o coração como se morde um fruto!

Então, se dentro dele um mal que à dor excite
Conténs de mais que o pomo estéril do Asfaltite,
Eu beberia a dor nos estos do delírio!...

E podias-me ouvir, excêntrico, medonho,
Como um canto de morte ao ritmo dum sonho,
O poema da carne a dobres de martírio!...

1 208
Everaldo Moreira Verás

Everaldo Moreira Verás

Descer

A noite foi toda de desordem.
Tu sangravas o suor sedento
que vinha das entranhas de mim.
E a boca engolia o beijo
como se isso fosse o último adeus.
Os seios ardiam (pudins de morango)
e eu os devorei ansiosamente homem
temendo chegar a madrugada.
Percorri teu corpo quase em chamas
minha cabeça parecia um rolo compressor.
E fui descendo
descendo
descendo
até enlouquecer na entrada daquele túnel vivo.

Nunca, nunca um homem desceu tanto!

788
Carlos D’Alge

Carlos D’Alge

Re-invenção do Corpo

O corpo perdido precisa ser re-inventado
para que de se possa fazer o instrumento
com que cantar no ermo já instaurado.
Quem sabe se uma lira, qual o pastor antigo
que do osso da coxa, do que restou do filho amado,
fez o objeto para celebrar o corpo imolado.

O corpo não é apenas a carícia que afaga,
a amena enseada, o útero procurado, a quieta rua,
o repouso consentido, a desbravada plaga.
O corpo se transforma às vezes em fino aço,
em lâmina que fere sem deixar traço,
em riso que se esconde e se insinua,

O corpo é um ser em constante mutação,
zéfiro, borrasca, tempestade, cantochão.
O corpo perdido entre algas e brumas,
entre sinuosas, ínvias e obscuras fragas,
precisa ser re-criado entre paredes seladas
que abafem segredos, murmúrios e escumas.

Talvez fazer da costela mais saliente
um arco com que brandir o travo violino
ou a possível lira e escondê-la no cimo
da árvore onde repousa o corpo fremente.
Corpo ser móbil, móvel e serpentário,
úmido, fugidio, escampado sacrário.

348
Cândido Rolim

Cândido Rolim

Resíduos

a lágrima é um ápice
a réstia um âmbito

a morte é um ritmo
o corpo uma oferenda

o beijo é uma núpcia
efêmera

909
Ciro Costa

Ciro Costa

Pai João

Do taquaral à sombra, em solitária furna,
Para onde, com tristeza, o olhar, curioso, alongo,
Sonha o negro, talvez, na solidão noturna,
Com os límpidos areais das solidões do Congo...

Ouve-lhe a noite a voz nostálgica e soturna,
Num suspiro de amor, num murmurejo longo...
E o rouco, surdo som, zumbindo na cafurna,
É o urucungo a gemer na cadência do jongo...

Bendito sejas tu, a quem, certo, devemos
A grandeza real de tudo quanto temos!
Sonha em paz! Sê feliz! E que eu fique de joelhos,

Sob o fúlgido céu, a relembrar, magoado,
Que os frutos do café são glóbulos vermelhos
Do sangue que escorreu do negro escravizado!

1 922
Carlyle Martins

Carlyle Martins

A Ninfa

No bosque silencioso em que se inflama
o alto sol e onde as árvores em torno
Se condensam, formando implexa rama,
Passa um corpo de Ninfa, esbelto e morno.

É noite. Um luar de opala se derrama...
Nas clareiras, a Ninfa, — excelso adorno — ,
Teme um Sátiro audaz, de olhar em chama,
Que a persegue dos lagos no contorno.

Corre a Ninfa sutil no ermo do bosque
Através da intrincada ramaria,
Embora o mato às pernas se lhe enrosque,

Fugindo ao capro, célere recua:
— Do olhar mostrando a fulva pedraria
E o sereno esplendor da carne nua.

1 994
Beni Carvalho

Beni Carvalho

Magdá (Um quadro de Tiziano)

Colo desnudo em flor, lábio entreaberto em prece,
olhos, no alto, exorando o perdão de seu crime,
Magdalena, a ofegar, toda em febre aparece...
E o almo encanto da Vida e do Pecado exprime.

Perscruta o coração, que o Amor, voraz, oprime;
Sente-lhe a luta, e a dor que, dentro da alma, cresce...
E, a cada pulsação que lhe o peito oprime,
Os delírios sensuais, em prantos, amortece.

Em fogo o olhar, tremendo a voz, a mente em brasas,
Desnastrado o cabelo em ondas de veludos,
Demanda o Azul, assim, nessas formosas asas...

Enquanto, aos céus, contrita, a suplicar, exangue,
Mostra os duros punhais dos seios pontiagudos,
Ainda quentes de amor, ainda rubros de sangue!

924
Walter Queiroz

Walter Queiroz

Formação

Nem pétala nem pano
corpo
embora rosa
breve
sopro
resiste à cruz
e vive
nem posse nem plano
sonho
embora sombra
queda
o caos
evola em verde
canta
nem arma nem arte
sentido
embora pasmo
amplo
e alvo
inventa a ponte
passa
nem torna nem tarda
noturna
embora estrela
nova
dalva
assume a cruz
e sangra
nem luto nem lírio
cicatriz
embora marca
funda
e grave
explode em grito
batalha

817
Cláudio Alex

Cláudio Alex

Não, amor

Não, amor
eu não quero roubar você de você.
Eu quero é te amar sem limites
quero é chegar ao fundo do teu coração.
Me ame como você o sente. Pode vir se entregar
sem medo de errar. Deixa eu ser como sou
eu também não tenho duvidas que te amo.

Eu amo você do jeito que é
continue sendo assim.
Nada é a toa.
Quero, sim desejá-la
quero lutar por ti.
Quero ser o que sou
e muito mais prá você.
Sou assim mesmo.
Meio maluco e de repente
quero tudo. Quero muito.
E quero mais, muito mais
eu entrei em contato
com teu coração.

Eu amo você.
foi o mesmo que
se nos tivéssemos feito amor.
Alias, nos fizemos.
Gostei do teu beijo. Da tua pele.
Da tua boca. Do teu corpo.
De passar as mãos nas tuas coxas.
Gostei de te amar.
Quero fartar você de desejo.
Quero fartar o teu desejo.

Não, eu te respeito, muito.
Não, sou egoísta não.
Pelo contrario.
às vezes exercito o desejo de sê-lo.
Por achar que deva me amar.
Mas, não, no fundo eu sou só compreensão.

Eu te amo como você é
e nossa relação é uma relação
baseada na verdade.
Seja como você é, fala o que
sente e como sente.
Não quero muda-la
Amo-te demais para isso.

Mas por favor, deixa-me te amar.
E não me restrinja dentro de ti.
Quando sentir amor por mim
venha para mim.
Quando me quiser, me tenha.
Não importa o que eu fale
as palavras são tolas
para explicar o que eu sinto.

Me tenha sempre.
Eu sou teu namorado,
não terminamos nada.
O amor é eterno
e ele é que existe.

896
Ymah Théres

Ymah Théres

Sonata

Ao Poeta Francisco Carvalho

O corpo - presilha verde
na rede da vida imersa
pouco a pouco se dissipa
dos loucos búzios, dos mares.

Vira um lago, uma enseada
em que os espelhos transmigram
o corpo - corpo bebido
de veneno, morte lenta.

O corpo - metade breve
de arlequinadas memórias
nos mastros ocres da angústia
na devassa de ilusão.

Irmão vencido na guerra
das horas por sobre as horas
dos anos idos, dos vindos
o corpo - flor decepada.

Da haste, um relógio-pênsil
que se alteia e se debruça
nos movediços da argila
o corpo - ferida aberta.

Bola de neve que o tempo
brinca brinca de escurar
jasmim que perde seu viço
o corpo - luz que se apaga.

Dos imos do coração
uma canção que trescala
o corpo, breve que passa
no arranho da solidão.

864
Ymah Théres

Ymah Théres

Estudos

I

Vosso o ventre, vossa a mesa,
vossa a escolha e o meu amor.
Vossos todos os perfumes
que vos dei - bandeja em flor.
Vosso o riso e vossa a hora
de meu gosto e meu penhor.
Vossas, neves que já tive,
vossos, beijos, meu senhor.

Que andarilhos sonhos gastos
vos visitam, de onde vou:
minha busca, meu silêncio,
meu olhar de solidão,
minha sede de água pura,
minha mão em vossa mão.

II

Escorre do meu ventre a lassidão do viver. (não foi ontem nem hoje: é de sempre o cansaço de estar ausente do rumo dos faróis). Escorre, como uma lava, e faz sulcos no rosto e nas mãos: migalhas mortas de uma fome velha, de brinquedos esfarinhados no fundo do baú. No entanto, como acender as lanternas, na noite soturna, que alimentem, de secreto abismo, rosas temporãs?

908
Américo Facó

Américo Facó

Os Sátiros

De corpos nus, por entre a espessa mata, o bando
Dos Sátiros se interna em constante procura:
Ora um se adianta, além, na intrincada espessura,
E ora outro mais se afasta — olhos fitos, buscando...

Esse, que tem no lábio o rubescente e brando
E esplêndido frescor de uma fruta madura,
Abre o lábio a sorrir... Vendo aquele a frescura
De uma corrente, bebe a água que vai rolando...

Soa ao longe um rumor! o ardente bando, à espreita,
Aquieta-se. E por fim, loiras, nuas, aflantes;
Vêm as Ninfas, a rir, descuidosas, sem vê-los...

E os Sátiros, que à sombra esperavam na estreita
Passagem, de repente erguem-se, — e os mais amantes
As prendem, lhes cingindo a cintura e os cabelos...

1 330
Tristão da Cunha

Tristão da Cunha

Itervm

Há muito tempo já que eu vou perdendo
Os sonhos, um a um, pelo caminho:
— Sangue dum anho ingênuo, cor de arminho,
De calvário em calvário perecendo...

No alto dum monte, a luz que eu ia vendo,
Diante de mim cantando como um ninho,
Fria beijou-me o rubro desalinho,
E atrás de mim no escuro foi descendo.

Hoje os olhos se voltam como preces
Para as memórias, em que há luas mortas,
E tu, morta, que morta não pareces!

Sobre esta alma de dúvida e agonias
Caia a luz desses olhos, dessas portas
Onde esperam o sol as almas frias...

922
Vera Romariz

Vera Romariz

Sem Óculos

Na cama te quero
sem óculos
esquadro e régua
sem limites nas dobras
dos lençóis
mais moderno
selvagem
das entradas e bandeiras
petróleo sem surpresas
ciências plataformas
correntes colossais

Na cama te faço
objeto de pesquisa
sem financiamento
externo
materialista dialético
de roucas práxis
rituais
diabólico jeito de ser Deus
sem cruz
cruzando corpos desiguais

Na cama te quero
vivendo papéis profanos
motor ligado
jato de gás em fogo
fósforo que vira tocha
no sair da caixa
e incendeia jardins, plantas, flores
canaviais

1 218
Valeria Braga

Valeria Braga

Poema

Poema

Imprimo no poema as minhas letras tatuadas,
letras vadias,
andarilhas,
ciganas sem baralhos.
Imprimo a letra da poesia por dentro do ventre
e dentro das gavetas, à chave.
Do poema, apenas imploro um olhar cheio de desejo,
que já sou lua
ou nem sei quem sou.
Pássaro colorido o poema que voa
por sobre os céus da minha cabeça,
por sobre o céu da minha boca.
E lá vou eu, mastigando as letras,
mastigando a palavra que nunca te disse,
passando a língua molhada em cada verso
de amor ou tristeza,
engolindo cada sílaba
como se sorve bebida, homem,
flor ou criança.
Bandida, a poesia
que dorme e acorda morta de sono
e não me deixa dormir
e não me deixa viver
e não me deixa.
Vem o poema e aperta o gatilho
e me fere no peito e me mata,
e me deixa mais tonta,
mais louca que sou.
E te aceito assim, te quero assim,
poema de todas as formas
como bicho, vida, sol e chão.

934
Salette Tavares

Salette Tavares

Espelho Cego

Eu leio o meu destino nos jornais.
Eu vejo os Signos do Domingo nos chifres do Carneiro
e creio
no regaço em que me leva algum planeta
a jogar no firmamento.

Osíres, ou sol da noite, ou estrela da terra
a vida é essa
que se esculpe na alma do poeta,
em ronde bosse,
em corpo inteiro...
e as mãos cegas
são só para saber mais devagar.
Minha cintura dorida
adeus supremo sem beijo
enche-me o peito de fome
geme silêncio o desejo.
Espreme-me frutas os braços
bebem-se vinho de março
grandes belos cabelos
com o vento no regaço
Alvorecer de um segredo
boca que a fruta pede
mar de ouro generoso
onde o meu barco se perde.

1 734
Tatiana Ramminger

Tatiana Ramminger

Só o olhar do outro

Só o olhar do outro

Só o olhar do outro
para delinear
este meu corpo tão sem limites
tão esparramado...
Preso na inconstância do fogo
Descendo cachoeiras
Brotando da terra
Perdido no infinito do céu...

1 245
José Carlos Souza Santos

José Carlos Souza Santos

As Canções de Amor

Poema I

Amor,
porque te consigo imaginar
o gosto da boca,
a força dos braços,
o calor do corpo,

porque te consigo imaginar
a luz do olhar
o pulsar do peito
o faminto desejo

me dou,
em tremor profundo,
ainda que me desmanche
inteira
em seiva, gemidos, sussurros,
me tornando dessa maneira
em alguns versos do nosso
livro ...

Poema II

Em minhas mãos,
entregaste o corpo alvo
e nu ,
de incenso e mirra esquecido,
permitindo tatuar o vale
com a lava do vulcão
amanhecido
juntos, derramados os pudores em
branda taça,
um torpor de vinhos nos cimos
duros, debruçado o grito em tua âncora,
meu espanto findo

Iniciando escrever o livro
transfiro em ti a minha força, vinda
do vermelho das ameixas
roxas,
quando teu corpo sobre o meu
derramado, calar a sede da serpente
hirta.

Na página primeira escrita
à memória do milenar gozo
no alvo corpo a escorrida lava
desmente a aridez da futura estrada.

Poema III

Porque te amo
me divido, e em mim se multiplica
o que antes sem saber
subtraído me havia.
Do cântaro no peito ressecado
renasceu a flor que não morrera,
pois que estava em nós, e não
sabíamos
pois que nos lambera, e não
sentíamos.
O teu rosto desconhecido perpetua a
chama , que no peito ainda ardia.

Porque te amo
louco me derramo, corajoso e vasto
entre as lavas do teu vulcão em
chamas,
e nos teus olhos me revejo
cálice, âmbula, patena e sacrário
inteira catedral de êxtase erguida

Nos teus braços
do cansaço me exilo,
ao longe numa curva do caminho,
vejo
o meu retrato de ontens pendurado,
do riso frouxo que da boca se me
expande,

o silêncio pleno de vidraças que se
abrem.
Em tua boca, gestamos nosso
vinho
no seio túmido, a flor que
embriaga,
em nosso gozo,
um poema de Hilda Hilst.

Poema IV

À sombra do pessegueiro,
aconchegada no meu peito
em silêncio, a solidão
urdia o caminho dos nossos passos
nos mails tímidos, travados
na virtual estrada descoberta

Tomei para mim o teu ardor
de fome de ontens tecida,
tomei toda a febre das tuas dores,
tomei-a em júbilo até o apagar
das tuas cinzas, de nomes esquecidas

Passo a passo ensaiei, cingir
em grilhões a desesperança
e nos dividimos para sermos únicos

Poema V - O Recado

Estarei ausente da tua ceia, mas deixo o pão em beijo transformado,
e mesmo que as minhas bússolas,
navegassem rotas,
encontrariam a sombra do
pessegueiro azul em teu corpo
refletido.

Dos astrolábios tantos
que nos guiaram os passos
de quilhas, conveses e tombadilhos
que nos encheram os sonhos,
estarei na milenar memória das tuas
mãos
na hora de cortares o pão,
e no cálice ausente, de vinhos e
ontens sorvido

Espera-me amor!
abre a janela e me deixa ver refletida
a tua luz.
A estrela que me guia os passos
enlouquecida de sombras,
haverá de reconhecer o teu sinal
e o advento estará em nossas mãos,
... lúdicas mãos,
de amanhãs tecida.

Poema VI

Chove lá fora,
na minha janela
a chuva insiste em dizer
que por um momento,
me exilei de você

Caiu a linha,
lá fora é noite fria
e sem estrelas onde vê-la

Nesse instante
carrego a solidão do mundo

lembro do teu riso
ao dizer-me manco
e lembro do teu pranto
ao incomentar a renda preta

Ainda chove lá fora
pe é estranho... não somos os
dois a sentir o frio.

Poema VII

Tens no seio nu
o segredo das minhas algemas
e do incansável galopar do meu
corcel
na busca embriagada do teu mel,
porque não me basta
a memória escrita do teu rosto,
nem me alcança
as janelas abertas
onde derramamos nossa solidão, e
ainda que por mil anos
galope a crina azul do meu cavalo,
o meu segredo
inatingível em tuas mãos,
escutará somente o arpejo
de correntes,
desandadas em tua busca.

Poema VIII

Porque me sabe a boca
o teu gosto, por dentro e fora
revelado,
em nuvens meus sentidos
se desfaz, enquanto sacralizo o vinho
amanhecido na tua concha pérola

Porque te descobri me deixei ficar
nas tuas ilhas, conquistado,
e me fiz pescador , dos teus silêncios,
dos frêmitos esquecidos
no tremor da carne nua, e
porque me sabe a boca o teu gosto,
te faço um poema com o sabor da lava
escorrida no meu peito.

Sinto o grito do vulcão
em minha língua enternecido,
e o rio desaflito em plena noite derramado
nas correntezas do prazer e da poesia

Me toma, conquistado por querer,
me leva, e me perde no teu canto,
deixe que sepulte o meu inferno
e esqueça a ira dos mares navegados,
renasça em mim o brilho do anjo e do demônio
igualmente opostos na carne da mesma carne,
me faça em carneiro e lã, ou musgo em cama macia,
me deite, me nine, ordene,
me ame, me ame, me ame.

994