Escritas

Identidade

Poemas neste tema

José Eduardo Mendes Camargo

José Eduardo Mendes Camargo

Da Vida

Na vida sou um guerreiro.
Entro na luta de alma e corpo inteiro.
Da vida, sou um filósofo.
Fascinam-me os mistérios da alma
e os caprichos do destino.
No amor, fui atleta, um fauno,
e hoje sou um poeta.

944
João Gulart de Souza Gomos

João Gulart de Souza Gomos

O Autor

João GOULART de Souza GOMES (01/05/65), nascido em Salvador, Bahia, é bacharel em Administração de Empresas, industriário, lida com comunicação empresarial. Presidente e fundador do Grupo Cultural Pórtico, tem promovido a publicação de inúmeros títulos de novos autores.
Como poeta, publicou os livros ANDA LUZ, TODO DESEJO, SOB A PELE e FRACTAIS, além de ter participado de dezenove antologias literárias, sendo quatro internacionais (EUA, Itália, Coréia do Sul e Espanha). Possui dezenove prêmios literários.
Lança, em março, A GREVE GERAL, peça teatral e MAIS FRACTAIS, hai-kais em diskete (Power Point). Os trabalhos apresentados abaixo fazem parte do seu novo livro de poesias CRIAÇÃO, ainda INÉDITO!

810
João Marcio Furtado Costa

João Marcio Furtado Costa

Pai

Pai

(10/95)
Júnior, foste batizado
e tomaste, então, o cuidado
de saber que é responsabilidade,
o ônus que tal fato atrai.

Mas não te fizeste de rogado
e cobriste de honra o legado
soubeste conservar vitalidade,
no nome que herdaste de teu pai.

Estudando comandaste os laços
e escolheste teu mote: a ciência,
que tratando com respeito e veemência
fizeste dela a luz dos nossos passos.

És tão honesto, sensível, versátil,
bem humorado, tenaz e amigo.
Felicidade não é utopia, não é volátil,
pois ela existe se estivermos contigo.

774
João Borges de Barros

João Borges de Barros

Soneto

Tão brilhante não é quando amanhece
Do Sol, vencendo névoas, a luz pura,
Dissipando do Inverno a estação dura,
A Primavera tanto não floresce:

Como a luz que as idéias enriquece,
Como a pomba que os frutos assegura,
Nesta, que do descuido a sombra escura
Removendo, Academia hoje aparece.

Nasce pois, brilha já e o tempo avaro
Do progresso feliz nunca te prive,
Como já cometeu, Liceu preclaro,

Um númen mais sublime hoje revive,
Do luso Jove enfim no régio amparo,
Abre flor, Sol renasce, Fênix vive.

1 059
João Bosco da Encarnação

João Bosco da Encarnação

O cavalo é Momento

O cavalo é Momento

O cavalo é Momento,
o cavaleiro é Eu.
Momento jamais se perdeu,
mas Eu tem seus tormentos!

Momento é tão leve
que Eu nunca se atreve
a frear seus galopes.

Não entende a Beleza,
porém, dessa Leveza,
que encanta, sendo golpes.

Momento, na sua destreza,
engana seu montador,
que sofre uma dor,
destruidora tristeza.

Essa dor, que a sente
na forma de um prazer,
e assim, sem se atrever.

A tentar frear Momento,
no próprio ausente
de si, seu leve tormento!"

894
Joaquim Cardozo

Joaquim Cardozo

O Espelho

O Espelho

Pisando na areia fina
Passaste de lado a lado,
Agora te vejo rindo
No espaço recuperado.

Marchaste, enfim, resoluta
sobre cascalho e restolhos,
Chegaste à fonte do vidro,
Nas águas banhaste os olhos.

Depois ficaste indecisa,
Quase inumana e confusa,
Moldando gestos dolentes
Na cera da luz difusa.

Cuidado! Há sempre um sorriso
De irrefletida maldade:
As coisas se estão reunindo
Por detrás da realidade.

Num brilho de claro céu
- Lampejo de meio-dia,
Unidos, iluminados
Orgulho e melancolia.

Neves do tempo dos anjos;
Véus de noivas e de monjas,
Bem tramados, bem tecidos
De renúncias e lisonjas.

Comparo, combino, arrisco,
Passagens procuro a êsmo
sobre o profundo intervalo
Que vai de mim a mim mesmo.

Lua cheia, emoldurada,
Semblante da claridade
Luzindo as asas de um vôo
Recluso na intimidade.

De diamante ou de prata?
Ou são cristais de adulárias?
-Este é o fiel da balança
Entre as paixões solitárias.

1 945
João Bosco da Encarnação

João Bosco da Encarnação

O poema!

O poema!

O poema!

O que aconteceu

que ninguém leu,

nem mesmo eu?

921
Jaime Gralheiro

Jaime Gralheiro

Fernão Mendes Pinto

Somos um povo de saltadores/poetas.
O salto/assalto é a nossa vocação.
De salto passámos as barreiras, as metas
Que vão desde as Berlengas, para além de Ceilão.

De salto vencemos Cabos,
Ultrapassámos Esperanças.
De salto perdemos Montes Pirinéus
E o alto mar!
De salto conquistámos Franças e Aranganças
E enfrentámos Deus
Com as mãos a abanar.

De salto voámos
Nas rotas do sonho.
De salto rastejámos
À procura do pão.
De salto chegamos,
De salto partimos os cornos
E ardemos nos fornos
Da Stª. Inquisição.

Foi o salto, o assalto,
Foi a estrada, o asfalto,
O carreiro, o mar alto
Que nos abriu a porta;

Foi o filho, foi a fome,
A mulher, o renome,
A vaidade dum "home";

Foi a nossa avó torta
Que não tinha na horta
Caldo para nos dar.

Foi o mar... Foi o mar...

Ai a cruz das caravelas,
Cruz da Stª. Inquisição,
Ai a cruz do Tormentório
Da pimenta e Mazagão.
Ai a cruz que nos puseram
Sexta-feira de paixão.
Ai a cruz que arrastamos
Mundo fora: este Calvário,
Sem Cirinéu nem sudário,
Que a ela nos deite a mão.

Ai a cruz! ai maldição!
Porque a terra nos negou
Um canto de amor e pão,
Eternamente metidos
Nesta vã "peregrinação"
Sempre atrás do vil metal,
Eu, Fernão Mendes Pinto,
Cheirando ao bagaço e ao tinto,
Eu é que sou
Portugal!

1 357
José de Anchieta

José de Anchieta

Ao Santíssimo Sacramento

Oh que pão, oh que comida,
Oh que divino manjar
Se nos dá no santo altar
Cada dia.

Filho da Virgem Maria
Que Deus Padre cá mandou
E por nós na cruz passou
Crua morte.

E para que nos conforte
Se deixou no Sacramento
Para dar-nos com aumento
Sua graça.

Esta divina fogaça
É manjar de lutadores,
Galardão de vencedores
Esforçados.

Deleite de enamorados
Que com o gosto deste pão
Deixem a deleitarão
Transitória.

Quem quiser haver vitória
Do falso contentamento,
Goste deste sacramento
Divinal.

Ele dá vida imortal,
Este mata toda fome,
Porque nele Deus é homem
Se contêm.

É fonte de todo bem
Da qual quem bem se embebeda
Não tenha medo de queda
Do pecado.

Oh! que divino bocado
Oue tem todos os sabores,
Vindes, pobres pecadores,
A comer.

Não tendes de que temer
Senão de vossos pecados;
Se forem bem confessados,
Isso basta.

Que este manjar tudo gasta,
Porque é fogo gastador,
Que com seu divino ardor
Tudo abrasa.

É pão dos filhos de casa
Com que sempre se sustentam
E virtudes acrescentam
De contino.

Todo al é desatino
Se não comer tal vianda,
Com que a alma sempre anda
Satisfeita.

Este manjar aproveita
Para vícios arrancar
E virtudes arraigar
Nas entranhas.

Suas graças são tamanhas,
Que se não podem contar,
Mas bem se podem gostar
De quem ama.

Sua graça se derrama
Nos devotos corações
E os enche de benções
Copiosas.

Oh que entranhas piedosas
De vosso divino amor!
Ó meu Deus e meu Senhor
Humanado!

Quem vos fez tão namorado
De quem tanto vos ofende?!
Quem vos ata, quem vos prende
Com tais nós?!

Por caber dentro de nós
Vos fazeis tão pequenino
Sem o vosso ser divino,
Se mudar.

Para vosso amor plantar
Dentro em nosso coração
Achastes tal invenção
De manjar,

Em o qual nosso padar
Acha gostos diferentes
Debaixo dos acidentes
Escondidos.

Uns são todos incendidos
Do fogo de vosso amor,
Outros cheios de temor
Filial,

Outros com o celestial
Lume deste sacramento
Alcançam conhecimento
De quem são,

Outros sentem compaixão
De seu Deus que tantas dores
Por nos dar estes sabores
Quis sofrer.

E desejam de morrer
Por amor de seu amado,
Vivendo sem ter cuidado
Desta vida.

Quem viu nunca tal comida
Que é o sumo de todo bem,
Ai de nós que nos detém
Que buscamos!

Como não nos enfrascamos
Nos deleites deste Pão
Com que o nosso coração
Tem fartura.

Se buscarmos formosura
Nele está toda metida,
Se queremos achar vida,
Esta é.

Aqui se refina a fé,
Pois debaixo do que vemos,
Estar Deus e homem cremos
Sem mudança.

Acrescenta-se a esperança,
Pois na terra nos é dado
Quanto lá nos céus guardado
Nos está.

A claridade que lá
Há de ser aperfeiçoada,
Deste pão é confirmada
Em pureza.

Dele nasce a fortaleza,
Ele dá perseverança,
Pão da bem-aventurança,
Pão de glória.

Deixado para memória
Da morte do Redentor,
Testemunho de Seu amor
Verdadeiro.

Oh mansíssimo Cordeiro,
Oh menino de Belém,
Oh Jesus todo meu Bem,
Meu Amor.

Meu Esposo, meu Senhor,
Meu amigo, meu irmão,
Centro do meu coração,
Deus e Pai.

Pois com entranhas de Mai
Quereis de mim ser comido,
Roubai todo meu sentido
Para vós

Com o sangue que derramasses,
Com a vida que perdesses,
Com a morte que quisesses
Padecer.

Morra eu, por que viver
Vós possais dentro de mim;
Ganha-me, pois me perdi
Em amar-me.

Pois que para incorporar-me
E mudar-me em vós de todo,
Com um tão divino modo
Me mudais.

Quando na minha alma entrais
É dela fazeis sacrário,
De vós mesmo é relicário
Que vos guarda.

Enquanto a presença tarda
De vosso divino rosto,
O saboroso e doce gosto
Deste pão

Seja minha refeição
E todo o meu apetite,
Seja gracioso convite
De minha alma.

Ar fresco de minha calma,
Fogo de minha frieza,
Fonte viva de limpeza,
Doce beijo.

Mitigador do desejo
Com que a vós suspiro, e gemo,
Esperança do que temo
De perder.

Pois não vivo sem comer,
Como a vós, em vós vivendo,
Vivo em vós, a vós comendo,
Doce amor.

Comendo de tal penhor,
Nela tenha minha parte,
E depois de vós me farte
Com vos ver.

Amém.

2 200
Hélder Muteia

Hélder Muteia

Presença

Sou dos que ainda estão presentes
e bebem do amor a única ausência.

Quantos pedaços de mentiras
retenho na viscosidade do meu cuspo?

Quantas verdades apaixonadas
reclamam ansiosas o esperma das palavras?

Nenhumas, talvez, nenhumas...
escravizo o silêncio
e faço dele o meu mensageiro.

Estou presente em tudo ou mais
e aí onde me procurarem
será a minha próxima ausência.

1 304
Truck Tumleh

Truck Tumleh

Poeta

Eu sou o poeta...
Talvez diferente de muitos
Já conhecido por você,
Mas eu sou poeta...
Aquele que não fala ou fala...
Aquele que não olha ou olha...

É eu sou poeta...
No centro olhando os cantos
Em um dos cantos
Vendo o centro
E os outros cantos.

Felizmente eu sou poeta....
Não me cobre por isto.

Nasce uma flor...Nasce um pássaro...
Nasce uma criança...
E tudo surge:
A água, o vento e o poeta...
Eu sou a poesia

859
Lucila Issa

Lucila Issa

Prisma de Momentos

floresta escura
imensidão fechada
onde tudo começa
e tudo acaba
luz acende
e logo apaga
me vejo
não reconheço
fantasia nasce e morre
coração bate
e logo se acalma

701
Gregório de Matos

Gregório de Matos

Ao Braço do Mesmo Menino Jesus Quando Appareceo

O todo sem a parte não é todo,
A parte sem o todo não é parte,
Mas se a parte o faz todo, sendo parte,
Não se diga, que é parte, sendo todo.

Em todo o Sacramento está Deus todo,
E todo assiste inteiro em qualquer parte,
E feito em partes todo em toda a parte,
Em qualquer parte sempre fica o todo.

O braço de Jesus não seja parte,
Pois que feito Jesus em partes todo,
Assiste cada parte em sua parte.

Não se sabendo parte deste todo,
Um braço, que lhe acharam, sendo parte,
Nos disse as partes todas deste todo.

1 845
Anderson Guerra

Anderson Guerra

Conjunto Vazio

Será que um dia
vou poder estar
entre vocês, meus amigos,
sem explicar a que vim e
porque vivo?

Verei a interrogação
no campo morto
e sem tempo das línguas caducas?

Vivo e permaneço inquieto.

Não fosse a Providência
quem seria meu sofrimento?

Porque padeceria de angústia
se com sangue
eu limpasse a consciência?

Maldita interrogação!

795
Goulart Gomes

Goulart Gomes

Algaravia

o que se sabe de mim
é que roubo palavras ao vento
roubo horas ao tempo
e imagens à película:
sou um ladrão de cutículas
redentor de movimentos
coleciono momentos
em pequeninas partículas;
assalto estórias perdidas
e o que não sei, invento —
quixote e moinhos de vento
habitam-me alternados

caminheiro de atalhos
ignoro as desditas
e é o que basta dizer:
que componho versos sem métrica
e desconheço estilos
falo do que não entendo
e calo o que não consinto
aborreço o meu dia
e alimento a gaveta
de papéis escrevinhados
de outra tanta algaravia
que nos despe de encantos
e reclama melodia
noutro tempo, outro canto
e outro tanto se cria
ao falar velhas palavras

tédio... é meio-dia
quando os ponteiros se encontram
e príncipes desencantam
de coaxos já cansados
por beijos de lindas donzelas
... mas isto é já outro caso
(também de amor, mas sonhado)
que não nos compete falar.

tédio... é meia-noite
e lobisomens se encantam
de uivos agoniados
por pragas e maldições;
e a lua vai se deitar
em leitos de outros ladrões

1 026
Gabriel Archanjo de Mendonça

Gabriel Archanjo de Mendonça

Aclive

A montanha
é um convite obstinado
da consciência.
A antevisão da posse
compensa os sobressaltos
da escalada.
Oh, a vertigem do inusitado.
Os pés se ferem
na ferrugem de agulhas
regeladas.
Avalanchas de pranto
rolando estrepitosamente
entulham gargantas
escancaradas.

796
Ana Garrett

Ana Garrett

Quem se esconde

Quem se esconde em meus
versos inacabados,
sou eu...

E nasceu uma flor
duma terra de cem anos.
Sem regá-la, cuidá-la, nasceu.

E as minhas sílabas continuam
no caule verde
dessas flores,
interditas a leituras ao amanhecer.

Quem se olha, assim, como vós,
uma para o outro, em contínuo desejo?
Quais avencas debruçando-se
para um último beijo.

E eu no meio,
sempre toda a vida no meio e permaneço,
escondida nas raízes,
num eterno e agitado sossego

805
Ana Garrett

Ana Garrett

Entre o ser ou o não ser

Entre o ser ou o não ser
escolho o ter
medo de te ver assim,
num sossego pálido
e tranquilo demais.

De entre todas as armas
escolho aquelas,
lindas rosas amarelas,
pintadas timidamente
nos teus imponentes vitrais.

860
Guy Corrêa

Guy Corrêa

Um País

Havia um povo
com uma dor embutida.
E um pintor, com uma tela menor.
- Como vou pintar o eco dessa gente? -
indagou-se

Sentou-se diante do teorema
e fez-se concentração,
misturando a tinta
para o lacrimejar de seus pincéis

Os dias e os anos se descoloriam
e a obra continuava inacabada
Mas ainda resistiam
um artista - hoje aos fiapos -
e uma nação descompassada
em busca de seu tom.

791
Flávio Villa-Lobos

Flávio Villa-Lobos

Delírio

Na penumbra,
uma indefinível alegoria
salta na trêmula paisagem
e principia uma estranha
dança noturna.

Passos silenciosos
movem-se elásticos
em meio à névoa úmida
- vôos espetaculares
sem música.

Gestos grandiosos,
o corpo envolto em mímica
revela o deslumbramento
solitário e, ao mesmo tempo,
mágico e absoluto.

Instante único,
encontro de almas gêmeas,
o toque ímpar no extraordinário...
Fuga da realidade
em pleno sol da meia-noite.

846
Francisco Carvalho

Francisco Carvalho

Lavoura

As minhas mãos

já foram robustas

já plantaram

sementes de milho

nas terras dos filisteus

hoje só semeiam

as lavouras do adeus.

2 188
Flávio Sátiro Fernandes

Flávio Sátiro Fernandes

Rei do mar

Mar.
Mar de areia.
Areia do mar.
Sereia do mar.
Dois seres
na areia do mar.
(Ou no mar de areia?)
Sou eu a amar
a sereia do mar.
Serei rei do mar.

1 057
Flávio Sátiro Fernandes

Flávio Sátiro Fernandes

O aprendiz de sapateiro

Bate o prego no salto,
o prego salta,
o martelo na sola,
o martelo ao sol,
a faca afiada a chiar na sola,
a forma, a sovela, a linha escassa.

Não passe o sapateiro
além do chinelo.

Sola, meia-sola, salto,
brocha, alicate, prego, brocha,
a palmilha pisando firme
no compasso do martelo.

Sola, meia-sola, sapato, salto,
salto para a morte.

1 816
Frederico Barbosa

Frederico Barbosa

Como quem lê

Virar a chave,como quem lê uma página:abrir por dentro,libertar-se sendo.Como quem se envolve na personagem,lento.

Descobrir o além do sonho,o impensado, o certo,o mais que imaginado.O que os olhos buscam cobrirno sonho.

Ver em você, minha cara,minha cara interpretada:metade minha, metade clara.

Poema em espanhol
1 325