Amor
Poemas neste tema
Laís Corrêa de Araújo
Canção Banal
Ó pálida folha escrita
por minha letra assustada,
vá dizer ao meu amado
que dele não quero nada.
(Que eu dele não queria nada,
nem tampouco compaixão)
Que não se apague a face
que eu guardo no coração.
Que não me venha buscar,
me respeite essa distância,
me sinta sem me beijar.
Pois ai dele se não for,
como o deseja essa ânsia,
como o espera esse amor.
In: ARAÚJO, Laís Corrêa de. Caderno de poesia. Sel. e org. Affonso Ávila e Wilson de Figueiredo. Il. Washington Junior. Belo Horizonte: Santelmo Poesia, 1951
por minha letra assustada,
vá dizer ao meu amado
que dele não quero nada.
(Que eu dele não queria nada,
nem tampouco compaixão)
Que não se apague a face
que eu guardo no coração.
Que não me venha buscar,
me respeite essa distância,
me sinta sem me beijar.
Pois ai dele se não for,
como o deseja essa ânsia,
como o espera esse amor.
In: ARAÚJO, Laís Corrêa de. Caderno de poesia. Sel. e org. Affonso Ávila e Wilson de Figueiredo. Il. Washington Junior. Belo Horizonte: Santelmo Poesia, 1951
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1
Joaquim Manuel de Macedo
Pelo dinheiro um homem de juízo
(...)
Pelo dinheiro um homem de juízo
Sofre o diabo sem sentir abalo;
Vende afeições, aluga a consciência,
E até às vezes serve de cavalo.
Casa com a velha mais pateta e feia
Se um rico dote a bruxa lhe oferecer,
E até se curva, põe-se de gatinhas,
E faz das costas mesa de escrever.
(...)
Publicado no livro Teatro do Doutor Joaquim Manuel de Macedo (1863).
In: MACEDO, Joaquim Manuel de. Teatro completo. Apres. Orlando Miranda de Carvalho. Introd. Márcio Jabur Yunes. Rio de Janeiro: Serviço Nacional de Teatro, 1979. v.1, p.217. (Clássicos do teatro brasileiro, 3
Pelo dinheiro um homem de juízo
Sofre o diabo sem sentir abalo;
Vende afeições, aluga a consciência,
E até às vezes serve de cavalo.
Casa com a velha mais pateta e feia
Se um rico dote a bruxa lhe oferecer,
E até se curva, põe-se de gatinhas,
E faz das costas mesa de escrever.
(...)
Publicado no livro Teatro do Doutor Joaquim Manuel de Macedo (1863).
In: MACEDO, Joaquim Manuel de. Teatro completo. Apres. Orlando Miranda de Carvalho. Introd. Márcio Jabur Yunes. Rio de Janeiro: Serviço Nacional de Teatro, 1979. v.1, p.217. (Clássicos do teatro brasileiro, 3
1 913
1
Arnaldo Antunes
Dorme
PÁRA-RAIO, DORME
TEMPORAL, DORME
VAGA-LUME, DORME
ABAJUR, DORME
AMBULÂNCIA, DORME
CAMBURÃO, DORME
TRAVESSEIRO, DORME
MEU AMOR, DORME
LUIZ GONZAGA, DORME
LUZ DO SOL, DORME
SENTINELA, DORME
GENERAL, DORME
CARAVELA, DORME
CARNAVAL, DORME
CANDELÁRIA, DORME
CANDOMBLÉ, DORME
CAMBALHOTA, DORME
BAMBOLÊ, DORME
PENSAMENTO, DORME
SENSAÇÃO, DORME
AMANHÃ, DORME
In: Canções de ninar. Santo André: Cameratti, 1994
NOTA: Letra tirada do encarte que acompanha o C
TEMPORAL, DORME
VAGA-LUME, DORME
ABAJUR, DORME
AMBULÂNCIA, DORME
CAMBURÃO, DORME
TRAVESSEIRO, DORME
MEU AMOR, DORME
LUIZ GONZAGA, DORME
LUZ DO SOL, DORME
SENTINELA, DORME
GENERAL, DORME
CARAVELA, DORME
CARNAVAL, DORME
CANDELÁRIA, DORME
CANDOMBLÉ, DORME
CAMBALHOTA, DORME
BAMBOLÊ, DORME
PENSAMENTO, DORME
SENSAÇÃO, DORME
AMANHÃ, DORME
In: Canções de ninar. Santo André: Cameratti, 1994
NOTA: Letra tirada do encarte que acompanha o C
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1
Laís Corrêa de Araújo
Cinema
O peso quente do escuro,
a certeza de um braço amaciando
o encosto desconfortável,
a sensação de estar viva,
nos olhos, nos suspiros, nas mãos furiosas,
um gemido dilacerando
o seio imaculado do silêncio.
E o amor subiu escalando desejos,
exagerado como folhas de árvores,
e eu tive de despejá-lo em outra boca.
Depois uma bala de coco apagou
o gosto da violência na penumbra
e a luz me entregou a impressão
azul da derrota,
da pureza inútil das ruas desabitadas.
In: ARAÚJO, Laís Corrêa de. Caderno de poesia. Sel. e org. Affonso Ávila e Wilson de Figueiredo. Il. Washington Junior. Belo Horizonte: Santelmo Poesia, 1951
a certeza de um braço amaciando
o encosto desconfortável,
a sensação de estar viva,
nos olhos, nos suspiros, nas mãos furiosas,
um gemido dilacerando
o seio imaculado do silêncio.
E o amor subiu escalando desejos,
exagerado como folhas de árvores,
e eu tive de despejá-lo em outra boca.
Depois uma bala de coco apagou
o gosto da violência na penumbra
e a luz me entregou a impressão
azul da derrota,
da pureza inútil das ruas desabitadas.
In: ARAÚJO, Laís Corrêa de. Caderno de poesia. Sel. e org. Affonso Ávila e Wilson de Figueiredo. Il. Washington Junior. Belo Horizonte: Santelmo Poesia, 1951
1 084
1
Teófilo Dias
A Matilha
Pendente a língua rubra, os sentidos atentos,
Inquieta, rastejando os vestígios sangrentos,
A matilha feroz persegue enfurecida,
Alucinadamente, a presa malferida.
Um, afitando o olhar, sonda a escura folhagem;
Outro consulta o vento; outro sorve a bafagem,
O fresco, vivo odor, cálido, penetrante
Que, na rápida fuga, a vítima arquejante
Vai deixando no ar, pérfido e traiçoeiro;
Todos, num turbilhão fantástico, ligeiro,
Ora, em vórtice, aqui se agrupam, rodam, giram,
E, cheios de furor frenético respiram,
Ora, cegos de raiva, afastados, dispersos,
Arrojam-se a correr. Vão por trilhos diversos,
Esbraseando o olhar, dilatando as narinas.
Transpõem num momento os vales e as colinas,
Sobem aos alcantis, descem pelas encostas,
Recruzam-se febris em direções opostas,
Té que da presa, enfim, nos músculos cansados
Cravam com avidez os dentes afiados.
Não de outro modo, assim meus sôfregos desejos,
Em matilha voraz de alucinados beijos,
Percorrem-te o primor às langorosas linhas,
As curvas juvenis, onde a volúpia aninhas,
Frescas ondulações de formas florescentes
Que o teu contorno imprime às roupas eloquentes:
O dorso aveludado, elétrico, felino,
Que poreja um vapor aromático e fino;
O cabelo revolto em anéis perfumados;
Em fofos turbilhões, elásticos, pesados;
As fibrilhas sutis dos lindos braços brancos,
Feitos para apertar em nervosos arrancos;
A exata correção das azuladas veias,
Que palpitam, de fogo intumescidas, cheias,
— Tudo a matilha audaz perlustra, corre, aspira,
Sonda, esquadrinha, explora, e anelante respira,
Até que, finalmente, embriagada, louca,
Vai encontrar a presa, — o gozo — em tua boca.
Publicado no livro Fanfarras (1882). Poema integrante da série Flores Funestas.
In: DIAS, Teófilo. Poesias escolhidas. Sel. introd. e notas Antonio Candido. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 1960
Inquieta, rastejando os vestígios sangrentos,
A matilha feroz persegue enfurecida,
Alucinadamente, a presa malferida.
Um, afitando o olhar, sonda a escura folhagem;
Outro consulta o vento; outro sorve a bafagem,
O fresco, vivo odor, cálido, penetrante
Que, na rápida fuga, a vítima arquejante
Vai deixando no ar, pérfido e traiçoeiro;
Todos, num turbilhão fantástico, ligeiro,
Ora, em vórtice, aqui se agrupam, rodam, giram,
E, cheios de furor frenético respiram,
Ora, cegos de raiva, afastados, dispersos,
Arrojam-se a correr. Vão por trilhos diversos,
Esbraseando o olhar, dilatando as narinas.
Transpõem num momento os vales e as colinas,
Sobem aos alcantis, descem pelas encostas,
Recruzam-se febris em direções opostas,
Té que da presa, enfim, nos músculos cansados
Cravam com avidez os dentes afiados.
Não de outro modo, assim meus sôfregos desejos,
Em matilha voraz de alucinados beijos,
Percorrem-te o primor às langorosas linhas,
As curvas juvenis, onde a volúpia aninhas,
Frescas ondulações de formas florescentes
Que o teu contorno imprime às roupas eloquentes:
O dorso aveludado, elétrico, felino,
Que poreja um vapor aromático e fino;
O cabelo revolto em anéis perfumados;
Em fofos turbilhões, elásticos, pesados;
As fibrilhas sutis dos lindos braços brancos,
Feitos para apertar em nervosos arrancos;
A exata correção das azuladas veias,
Que palpitam, de fogo intumescidas, cheias,
— Tudo a matilha audaz perlustra, corre, aspira,
Sonda, esquadrinha, explora, e anelante respira,
Até que, finalmente, embriagada, louca,
Vai encontrar a presa, — o gozo — em tua boca.
Publicado no livro Fanfarras (1882). Poema integrante da série Flores Funestas.
In: DIAS, Teófilo. Poesias escolhidas. Sel. introd. e notas Antonio Candido. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 1960
3 217
1
Afonso Schmidt
Zingarella
Certa noite, na Itália, quando eu vinha
para meu quarto, achei-a junto à porta;
era tão bela, mas tão pobrezinha!
De sono e frio estava quase morta.
Ela, pálida e franzina,
eu, de sobretudo roto:
— Buona sera, signorina!
— Buona sera, giovanoto!
Ofereci-lhe o quarto de estudante,
de minha estreita cama fiz a sua,
e, enquanto ela dormia, palpitante,
eu vagava, sem teto, pela rua.
De manhã, voltando à casa,
perguntei o nome dela:
— Come ti chiami, ragazza?
— Io mi chiamo Zingarella.
Depois... Eu tinha vinte e três janeiros,
ela contava quinze primaveras.
Eram tão juntos nossos travesseiros...
Veio a paixão. Amamo-nos deveras...
Foi o quadro mais risonho
desta vida fugidia:
— Zingarella, sei mio sogno!
— E tu sei la vita mia!
Mas, um dia, ao voltar do meu estudo,
cheio de mágoas, de ânsias e de frio,
não encontrei seus olhos de veludo:
o quarto estava gélido e vazio.
Grito embalde o nome dela,
Numa tristeza infinita:
— Dove sei, o Zingarella?
— Dove sei, o mia vita?
E a minha vida prosseguiu inglória...
Fiz coisas de rapaz... Não me envergonho
de recordar ainda aquela história,
quase desvanecida como um sonho:
ela, pálida e franzina,
eu, de sobretudo roto...
— Buona sera, signorina!
— Buona sera, giovanoto!
Publicado no livro Janelas abertas (1911).
In: SCHMIDT, Afonso. Poesia. Ed. definitiva. São Paulo: Ed. Nacional, 194
para meu quarto, achei-a junto à porta;
era tão bela, mas tão pobrezinha!
De sono e frio estava quase morta.
Ela, pálida e franzina,
eu, de sobretudo roto:
— Buona sera, signorina!
— Buona sera, giovanoto!
Ofereci-lhe o quarto de estudante,
de minha estreita cama fiz a sua,
e, enquanto ela dormia, palpitante,
eu vagava, sem teto, pela rua.
De manhã, voltando à casa,
perguntei o nome dela:
— Come ti chiami, ragazza?
— Io mi chiamo Zingarella.
Depois... Eu tinha vinte e três janeiros,
ela contava quinze primaveras.
Eram tão juntos nossos travesseiros...
Veio a paixão. Amamo-nos deveras...
Foi o quadro mais risonho
desta vida fugidia:
— Zingarella, sei mio sogno!
— E tu sei la vita mia!
Mas, um dia, ao voltar do meu estudo,
cheio de mágoas, de ânsias e de frio,
não encontrei seus olhos de veludo:
o quarto estava gélido e vazio.
Grito embalde o nome dela,
Numa tristeza infinita:
— Dove sei, o Zingarella?
— Dove sei, o mia vita?
E a minha vida prosseguiu inglória...
Fiz coisas de rapaz... Não me envergonho
de recordar ainda aquela história,
quase desvanecida como um sonho:
ela, pálida e franzina,
eu, de sobretudo roto...
— Buona sera, signorina!
— Buona sera, giovanoto!
Publicado no livro Janelas abertas (1911).
In: SCHMIDT, Afonso. Poesia. Ed. definitiva. São Paulo: Ed. Nacional, 194
2 834
1
Gilka Machado
Pelo Telefone
Ignoro quem tu és,
de onde vens,
aonde irás;
amo-te pelo enigma pertinaz
que em ti me atrai e me intimida,
por essa música mendaz
de tua voz
que alvoroçou minha audição
e me vem desviando a vida
de seu destino de solidão.
Ignoro quem tu és,
de onde vens,
aonde irás...
Fala-me sempre,
mente mais;
não te posso exprimir o pavor que me invade,
as aflições que me consomem,
ao meditar na triste realidade
de que deve ser feita
essa tua alma de homem.
Ignoro quem tu és,
de onde vens,
aonde irás,
audaz
desconhecido;
tua palavra mente ao meu ouvido,
mas não mente essa voz que me treslouca!
— Ela é o amor que me chama por tua boca,
num apelo tristonho,
de saudade;
é a exortação do sonho
à minha rara sensibilidade.
Ignoro quem tu és,
de onde vens,
aonde irás:
amo a ilusão que tua voz me traz.
a falsidade em que procuro crer.
Fala-me sempre, mente mais,
que de mim só mereces tanto apreço,
ó nebuloso, porque desconheço
as humanas misérias de teu ser!
Mas nesta solidão a que me imponho,
quando quedo em silêncio
a te aguardar a voz,
como se torna teu enigma atroz,
que ânsia de estrangular este formoso sonho,
de transpor os espaços,
de bem te conhecer,
de me atirar depressa,
inteira,
nos teus braços,
de te possuir só para te esquecer!...
Publicado no livro Sublimação (1938).
In: MACHADO, Gilka. Poesias completas. Apres. Eros Volúsia Machado. Rio de Janeiro: L. Christiano: FUNARJ, 1991, P. 328-329
de onde vens,
aonde irás;
amo-te pelo enigma pertinaz
que em ti me atrai e me intimida,
por essa música mendaz
de tua voz
que alvoroçou minha audição
e me vem desviando a vida
de seu destino de solidão.
Ignoro quem tu és,
de onde vens,
aonde irás...
Fala-me sempre,
mente mais;
não te posso exprimir o pavor que me invade,
as aflições que me consomem,
ao meditar na triste realidade
de que deve ser feita
essa tua alma de homem.
Ignoro quem tu és,
de onde vens,
aonde irás,
audaz
desconhecido;
tua palavra mente ao meu ouvido,
mas não mente essa voz que me treslouca!
— Ela é o amor que me chama por tua boca,
num apelo tristonho,
de saudade;
é a exortação do sonho
à minha rara sensibilidade.
Ignoro quem tu és,
de onde vens,
aonde irás:
amo a ilusão que tua voz me traz.
a falsidade em que procuro crer.
Fala-me sempre, mente mais,
que de mim só mereces tanto apreço,
ó nebuloso, porque desconheço
as humanas misérias de teu ser!
Mas nesta solidão a que me imponho,
quando quedo em silêncio
a te aguardar a voz,
como se torna teu enigma atroz,
que ânsia de estrangular este formoso sonho,
de transpor os espaços,
de bem te conhecer,
de me atirar depressa,
inteira,
nos teus braços,
de te possuir só para te esquecer!...
Publicado no livro Sublimação (1938).
In: MACHADO, Gilka. Poesias completas. Apres. Eros Volúsia Machado. Rio de Janeiro: L. Christiano: FUNARJ, 1991, P. 328-329
2 108
1
Zuca Sardan
Os Deuses Eles Mesmos Morrem
Deprressa
Zorra Morrena
é breziza amar
mais ligeirras cas Walkyrias
ki galopam no Céu
danzando nossas horras
no Espresso de Saturno
si vom emborra
e non foltam
o brrezo da bassagem
nem brra reklamar .
Os Deuses eles mesmos morrem
mas os vermes soberranos
demorram roendo
roendo ...
Os vermes son klientes
o koveirro kafeton .
Só sobrram no vento
velhos trrapos
nossas almas pendurradas
no arrame farpado
do kintal sburrakado
do Palácio de Pluton .
In: SARDAN, Zuca. Osso do coração. Il. do autor. Campinas: Ed. da Unicamp, 1993. (Matéria de poesia)
Zorra Morrena
é breziza amar
mais ligeirras cas Walkyrias
ki galopam no Céu
danzando nossas horras
no Espresso de Saturno
si vom emborra
e non foltam
o brrezo da bassagem
nem brra reklamar .
Os Deuses eles mesmos morrem
mas os vermes soberranos
demorram roendo
roendo ...
Os vermes son klientes
o koveirro kafeton .
Só sobrram no vento
velhos trrapos
nossas almas pendurradas
no arrame farpado
do kintal sburrakado
do Palácio de Pluton .
In: SARDAN, Zuca. Osso do coração. Il. do autor. Campinas: Ed. da Unicamp, 1993. (Matéria de poesia)
1 514
1
Pedro Nava
Palíndromo do Amigo
"Amor a Roma"
Afonso Arinos de Melo Franco
Amora, roma:
Amor a Roma.
Amor, aroma:
Amor a Roma.
1964
In: BANDEIRA, Manuel. Antologia de poetas brasileiros bissextos contemporâneos. 2.ed. rev. e aum. Rio de Janeiro: Org. Simões, 1964. p.18
Afonso Arinos de Melo Franco
Amora, roma:
Amor a Roma.
Amor, aroma:
Amor a Roma.
1964
In: BANDEIRA, Manuel. Antologia de poetas brasileiros bissextos contemporâneos. 2.ed. rev. e aum. Rio de Janeiro: Org. Simões, 1964. p.18
1 723
1
Eudoro Augusto
Luna de Lupe
Quero mais não.
Estou meio over de emoção.
Estou sem aquilo que chamam estrutura
pra amortecer esta aflição,
esta fissura.
Meu corpo é um barco sonolento
e falta vento
pra me levar a outra ilha.
Outra razão, outro delírio,
outro luar de vampiro
à procura de um irmão.
Pode parar: a noite é escura.
Não quero o copo de água pura
que você bebe em minha turva solidão.
Quero mais não.
Hoje me sobra emoção.
Sobra verdade, falta força, sobra sangue.
Hoje eu vou dormir no mangue
que outros chamam coração.
Pode parar.
Virou bocejo, era tesão.
Você jamais deu boa vida ao meu desejo,
foi pouco sim pra muito não.
E agora chega.
Deixa rolar mas nunca esqueça
de virar minha cabeça:
eu amo sempre o lado errado da paixão.
In: AUGUSTO, Eudoro. O desejo e o deserto. São Paulo: Massao Ohno, 1989. Poema integrante da série Ventura
Estou meio over de emoção.
Estou sem aquilo que chamam estrutura
pra amortecer esta aflição,
esta fissura.
Meu corpo é um barco sonolento
e falta vento
pra me levar a outra ilha.
Outra razão, outro delírio,
outro luar de vampiro
à procura de um irmão.
Pode parar: a noite é escura.
Não quero o copo de água pura
que você bebe em minha turva solidão.
Quero mais não.
Hoje me sobra emoção.
Sobra verdade, falta força, sobra sangue.
Hoje eu vou dormir no mangue
que outros chamam coração.
Pode parar.
Virou bocejo, era tesão.
Você jamais deu boa vida ao meu desejo,
foi pouco sim pra muito não.
E agora chega.
Deixa rolar mas nunca esqueça
de virar minha cabeça:
eu amo sempre o lado errado da paixão.
In: AUGUSTO, Eudoro. O desejo e o deserto. São Paulo: Massao Ohno, 1989. Poema integrante da série Ventura
1 150
1
Capinan
Ponteio, 1967
Era um, era dois, era cem
era o mundo chegando e ninguém
que soubesse que eu sou violeiro
que me desse amor ou dinheiro
era um, era dois, era cem
e vieram pra me perguntar
ô você de onde vai, de onde vem
diga logo o que tem pra contar
parado no meio do mundo
pensei chegar meu momento
olhei pro mundo e nem via
nem sombra, nem sol, nem vento
quem me dera agora
eu tivesse a viola pra cantar, ponteio
(refrão)
Era um dia, era claro, quase meio
era um canto calado, sem ponteio
violência, viola, violeiro
era noite em redor, mundo inteiro
era um que jurou me quebrar
mas não me lembro de dor ou receio
só sabia das ondas do mar
jogaram a viola no mundo
mas fui lá no fundo buscar
se tomo a viola eu ponteio
meu canto não posso parar, não
(refrão)
Era um, era dois, era cem
era um dia, era claro, quase meio
encerrar meu canto já convém
prometendo um novo ponteio
certo dia que sei por inteiro
eu espero não vai demorar
este dia estou certo que vem
digo logo que vim pra buscar
correndo no meio do mundo
não deixo a viola de lado
vou ver o tempo mudado
e um novo lugar pra cantar
(refrão)
In: AGUIAR, Joaquim Alves de. Panorama da música popular brasileira. In: BRASIL: o trânsito da memória. Organização de Jorge Schwartz e Saúl Sosnowski. São Paulo: Edusp, 1994. p. 170-171
NOTA: Parceria com Edu Lob
era o mundo chegando e ninguém
que soubesse que eu sou violeiro
que me desse amor ou dinheiro
era um, era dois, era cem
e vieram pra me perguntar
ô você de onde vai, de onde vem
diga logo o que tem pra contar
parado no meio do mundo
pensei chegar meu momento
olhei pro mundo e nem via
nem sombra, nem sol, nem vento
quem me dera agora
eu tivesse a viola pra cantar, ponteio
(refrão)
Era um dia, era claro, quase meio
era um canto calado, sem ponteio
violência, viola, violeiro
era noite em redor, mundo inteiro
era um que jurou me quebrar
mas não me lembro de dor ou receio
só sabia das ondas do mar
jogaram a viola no mundo
mas fui lá no fundo buscar
se tomo a viola eu ponteio
meu canto não posso parar, não
(refrão)
Era um, era dois, era cem
era um dia, era claro, quase meio
encerrar meu canto já convém
prometendo um novo ponteio
certo dia que sei por inteiro
eu espero não vai demorar
este dia estou certo que vem
digo logo que vim pra buscar
correndo no meio do mundo
não deixo a viola de lado
vou ver o tempo mudado
e um novo lugar pra cantar
(refrão)
In: AGUIAR, Joaquim Alves de. Panorama da música popular brasileira. In: BRASIL: o trânsito da memória. Organização de Jorge Schwartz e Saúl Sosnowski. São Paulo: Edusp, 1994. p. 170-171
NOTA: Parceria com Edu Lob
1 988
1
Artur de Azevedo
Arrufos
Não há no mundo quem amantes visse
Que se quisessem como nos queremos;
Mas hoje uma questiúncula tivemos
Por um caprichosinho, uma tolice.
— Acabemos com isto! ela me disse,
E eu respondi-lhe assim: — Pois acabemos!
— E fiz o que se faz em tais extremos:
Peguei no meu chapéu com fanfarrice,
E, dando um gesto de desdém profundo,
Saí cantarolando. Está bem visto
Que a forma ali contradizia o fundo.
Ela escreveu. Voltei. Nem Jesus Cristo,
Nem minha Mãe, voltando agora ao mundo,
Foram capazes de acabar com isto!
In: AZEVEDO, Artur. Rimas. Recolhidas dos jornais, revistas e outras publicações por Xavier Pinheiro. Pref. Alexandre Cataldo. Rio de Janeiro: Cia Indl. Americana, 1909
Que se quisessem como nos queremos;
Mas hoje uma questiúncula tivemos
Por um caprichosinho, uma tolice.
— Acabemos com isto! ela me disse,
E eu respondi-lhe assim: — Pois acabemos!
— E fiz o que se faz em tais extremos:
Peguei no meu chapéu com fanfarrice,
E, dando um gesto de desdém profundo,
Saí cantarolando. Está bem visto
Que a forma ali contradizia o fundo.
Ela escreveu. Voltei. Nem Jesus Cristo,
Nem minha Mãe, voltando agora ao mundo,
Foram capazes de acabar com isto!
In: AZEVEDO, Artur. Rimas. Recolhidas dos jornais, revistas e outras publicações por Xavier Pinheiro. Pref. Alexandre Cataldo. Rio de Janeiro: Cia Indl. Americana, 1909
1 763
1
Martins Fontes
Otelo
Quem minha angústia suportar, prefira
a morte, redentora, à desventura
de não poder, nas vascas da loucura,
distinguir a verdade da mentira.
Infrene dúvida, implacável ira,
esta que me alucina e me tortura!
— Ter ciúmes da luz, formosa e pura,
do chão, da sombra e do ar que se respira!
Invejo a veste que te esconde! a espuma
que, beijando teu corpo, linha a linha,
toda do teu aroma se perfuma!
Amo! E o delírio desta dor mesquinha,
faz que eu deseje ser tu mesma, em suma,
para ter a certeza de que és minha!
Publicado no livro Verão (1917).
In: FONTES, Martins. Poesia. Org. Cassiano Ricardo. Rio de Janeiro: Agir, 1959. p.39-40. (Nossos clássicos, 40
a morte, redentora, à desventura
de não poder, nas vascas da loucura,
distinguir a verdade da mentira.
Infrene dúvida, implacável ira,
esta que me alucina e me tortura!
— Ter ciúmes da luz, formosa e pura,
do chão, da sombra e do ar que se respira!
Invejo a veste que te esconde! a espuma
que, beijando teu corpo, linha a linha,
toda do teu aroma se perfuma!
Amo! E o delírio desta dor mesquinha,
faz que eu deseje ser tu mesma, em suma,
para ter a certeza de que és minha!
Publicado no livro Verão (1917).
In: FONTES, Martins. Poesia. Org. Cassiano Ricardo. Rio de Janeiro: Agir, 1959. p.39-40. (Nossos clássicos, 40
2 078
1
Eudoro Augusto
Talvez em Outro Cinema
A Luciana
Subitamente no último verão,
bem no avesso do verão passado,
eu quis você. Estar em você. Amar você sobre todas
as coisas, sobre as cascas e os ossos
de um solitário momento,
belo e maldito como o último verão.
Depois todo aquele fogo cai no sono.
Faço passeios anestésicos pela região dos lagos,
pratico os mais orientais exercícios de paciência,
pela serra, pelo cerrado, mas é a mesma bruma.
a mesma espuma, névoa, nebulosa estação.
Sempre esperando a deixa pra entrar em cena
acendendo clift um ar de enigma cool,
entre bogart e brando,
ao riscar o fósforo e abrir teus olhos mansos
à beleza sem rastro de um novo cometa azul.
In: AUGUSTO, Eudoro. O desejo e o deserto. São Paulo: Massao Ohno, 1989. Poema integrante da série Ventura
Subitamente no último verão,
bem no avesso do verão passado,
eu quis você. Estar em você. Amar você sobre todas
as coisas, sobre as cascas e os ossos
de um solitário momento,
belo e maldito como o último verão.
Depois todo aquele fogo cai no sono.
Faço passeios anestésicos pela região dos lagos,
pratico os mais orientais exercícios de paciência,
pela serra, pelo cerrado, mas é a mesma bruma.
a mesma espuma, névoa, nebulosa estação.
Sempre esperando a deixa pra entrar em cena
acendendo clift um ar de enigma cool,
entre bogart e brando,
ao riscar o fósforo e abrir teus olhos mansos
à beleza sem rastro de um novo cometa azul.
In: AUGUSTO, Eudoro. O desejo e o deserto. São Paulo: Massao Ohno, 1989. Poema integrante da série Ventura
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1
Lila Ripoll
Ternura
Eu te amo com a ternura das mães
que embalam os filhos pequeninos.
E te amo sem desejos.
Perto de ti meus sentidos desaparecem.
Meu corpo tem castidades de santa e de menina.
Quando falas nenhuma sobra se interpõe entre nós dois
Fico presa à palavra de tua boca
e à palavra de teus olhos.
Nada existe fora de nós. Longe de nós...
Tu és o Princípio e o Fim. O Tempo e o Espaço
Cada palavra tua mais espiritualiza
o meu sentimento e a minha ternura.
Tenho vontade de que meus braços se transformem
num grande berço,
para embalar teu sono de homem triste.
Nenhuma estrela brilha mais clara que os teus olhos
na minha alma,
e que a tua palavra no meu coração.
Nenhum homem foi amado com tanta pureza sem pecado,
nem tanta adoração!
Nenhuma mulher vestiu de tanta castidade
seu corpo e sua alma,
para a tristeza de um amor que quer viver,
e quer morrer.
Publicado no livro Céu Vazio: poesia (1941).
In: RIPOLL, Lila. Ilha difícil: antologia poética. Sel. e apres. Maria da Glória Bordini. Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS, 1987. p.8
que embalam os filhos pequeninos.
E te amo sem desejos.
Perto de ti meus sentidos desaparecem.
Meu corpo tem castidades de santa e de menina.
Quando falas nenhuma sobra se interpõe entre nós dois
Fico presa à palavra de tua boca
e à palavra de teus olhos.
Nada existe fora de nós. Longe de nós...
Tu és o Princípio e o Fim. O Tempo e o Espaço
Cada palavra tua mais espiritualiza
o meu sentimento e a minha ternura.
Tenho vontade de que meus braços se transformem
num grande berço,
para embalar teu sono de homem triste.
Nenhuma estrela brilha mais clara que os teus olhos
na minha alma,
e que a tua palavra no meu coração.
Nenhum homem foi amado com tanta pureza sem pecado,
nem tanta adoração!
Nenhuma mulher vestiu de tanta castidade
seu corpo e sua alma,
para a tristeza de um amor que quer viver,
e quer morrer.
Publicado no livro Céu Vazio: poesia (1941).
In: RIPOLL, Lila. Ilha difícil: antologia poética. Sel. e apres. Maria da Glória Bordini. Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS, 1987. p.8
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1
Alberto da Costa e Silva
Soneto [Cerâmica e tear: as mãos trabalham
Cerâmica e tear: as mãos trabalham
e constroem o amor num fim de tarde,
como jarro de rústico gargalo
ou fino pano arcaico. Sobre o barro
põem desenhos mais jovens de suaves
moças dançando e restos de paisagens
da infância e da montanha: perfis núbios
sobre o vermelho poente desse jarro.
E a substância mais tímida do sonho,
nas mãos do artesão, faz de seu pranto
e cismas, riso e ardor, tecido raro
em que se borda uma novilha, bela
como o beijo em setembro, em que se fez
o amor com outro fio e um outro barro.
Publicado no livro O tecelão (1962).
In: SILVA, Alberto da Costa e. As linhas da mão. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Difel; Brasília: INL, 1978. p.4
e constroem o amor num fim de tarde,
como jarro de rústico gargalo
ou fino pano arcaico. Sobre o barro
põem desenhos mais jovens de suaves
moças dançando e restos de paisagens
da infância e da montanha: perfis núbios
sobre o vermelho poente desse jarro.
E a substância mais tímida do sonho,
nas mãos do artesão, faz de seu pranto
e cismas, riso e ardor, tecido raro
em que se borda uma novilha, bela
como o beijo em setembro, em que se fez
o amor com outro fio e um outro barro.
Publicado no livro O tecelão (1962).
In: SILVA, Alberto da Costa e. As linhas da mão. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Difel; Brasília: INL, 1978. p.4
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1
Odylo Costa Filho
Os Coelhinhos
Iam dois coelhinhos
andando apressados
para o Céu — com medo
de serem caçados.
E também com medo
de passarem fome.
Pois — quando não dorme —
o coelhinho come.
E ainda tinha os filhos
que a coelha esperava...
O Céu era longe
e a fome era brava.
Jesus riu, com pena:
fez brotar na Lua
— para eles — florestas
de cenoura crua.
In: COSTA, FILHO, Odylo. Os bichos no céu. Il. Nazareth Costa. 2.ed. Rio de Janeiro: Memórias Futuras, 1985. p.1
andando apressados
para o Céu — com medo
de serem caçados.
E também com medo
de passarem fome.
Pois — quando não dorme —
o coelhinho come.
E ainda tinha os filhos
que a coelha esperava...
O Céu era longe
e a fome era brava.
Jesus riu, com pena:
fez brotar na Lua
— para eles — florestas
de cenoura crua.
In: COSTA, FILHO, Odylo. Os bichos no céu. Il. Nazareth Costa. 2.ed. Rio de Janeiro: Memórias Futuras, 1985. p.1
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1
Claudio Willer
Mais uma Vez
mergulho no amor
com a cega convicção dos suicidas
penetro passo a passo
nesta região misteriosa
turva
opaca
aberta pelo encontro dos corpos
e sinto outra familiaridade nas coisas
esta calma permanência dos objetos
agora formas de lembrar-se
o mundo
que se reduz a traços da presença
a realidade
que fala ao transformar-se em memória
tudo é conivência e signo
o espaço uma extensão do gesto
as coisas
matéria de evocação
qualquer coisa treme dentro da noite
como se fosse um som de flauta
e a cidade se contorce e se retrai
MAIS UMA VEZ
ao abrir-se para este turbulento silêncio
de olhar frente ao olhar
pele contra pele
sexo sobre sexo
In: WILLER, Claudio. Jardins da provocação: poemas, 1976/1980. São Paulo: Massao Ohno: Roswitha Kempt, 1981
com a cega convicção dos suicidas
penetro passo a passo
nesta região misteriosa
turva
opaca
aberta pelo encontro dos corpos
e sinto outra familiaridade nas coisas
esta calma permanência dos objetos
agora formas de lembrar-se
o mundo
que se reduz a traços da presença
a realidade
que fala ao transformar-se em memória
tudo é conivência e signo
o espaço uma extensão do gesto
as coisas
matéria de evocação
qualquer coisa treme dentro da noite
como se fosse um som de flauta
e a cidade se contorce e se retrai
MAIS UMA VEZ
ao abrir-se para este turbulento silêncio
de olhar frente ao olhar
pele contra pele
sexo sobre sexo
In: WILLER, Claudio. Jardins da provocação: poemas, 1976/1980. São Paulo: Massao Ohno: Roswitha Kempt, 1981
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1
Hermes Fontes
Messianeida
São Francisco de Assis pregou aos pássaros,
e Santo Antônio aos peixes.
Mais corajoso do que São Francisco
e do que Santo Antônio,
Jesus pregou aos homens e às mulheres...
Perderam, todos eles, o seu tempo
e o seu sermão:
O mais sábio por certo,
o mais sábio de todos foi São João,
que pregou no deserto...
Publicado no livro A Fonte da Mata...: 1830 em 1930 (1930). Poema integrante da série A Fonte.
In: FONTES, Hermes. Poesias escolhidas. Sel. e pref. Oliveira e Silva. Rio de Janeiro: Epasa, 1944. p.332-333. (Coleção de lirismo brasileiro
e Santo Antônio aos peixes.
Mais corajoso do que São Francisco
e do que Santo Antônio,
Jesus pregou aos homens e às mulheres...
Perderam, todos eles, o seu tempo
e o seu sermão:
O mais sábio por certo,
o mais sábio de todos foi São João,
que pregou no deserto...
Publicado no livro A Fonte da Mata...: 1830 em 1930 (1930). Poema integrante da série A Fonte.
In: FONTES, Hermes. Poesias escolhidas. Sel. e pref. Oliveira e Silva. Rio de Janeiro: Epasa, 1944. p.332-333. (Coleção de lirismo brasileiro
1 876
1
Raul Pompéia
O Ventre
A atração sideral é uma forma do egoísmo. O equilíbrio
dos egoísmos, derivado em turbilhão, faz a ordem nas cousas.
Passa-se assim em presença do homem: a fúria sedenta das
raízes penetra a terra buscando alimento; na espessura, o
leão persegue o antílope; nas frondes, vingam os pomos
assassinando as flores. O egoísmo cobiça a destruição. A sede
inabrandável do mar tenta beber o rio, o rio pretende dar vazão
às nuvens, a nuvem ambiciona sorver o oceano. E vivem perpetuamente
as flores, e vivem os animais nas brenhas, e vive a floresta; o rio
corre sempre, a nuvem reaparece ainda. Esta luta de morte é o quadro
estupendo da vida na terra; como o equilíbrio das atrações ávidas
dos mundos, trégua forçada de ódios, apelida-se a paz dos céus.
A fome é a suprema doutrina. Consumir é a lei.
A chama devora e cintila; a terra devora e floresce; o tigre
devora e ama.
O abismo prenhe de auroras alimenta-se de séculos.
A ordem social também é o turbilhão perene ao redor de um centro.
Giram as instituições, gravitam as hipocrisias, passam os Estados,
bradam as cidades... O ventre, soberano como um deus, preside e
engorda.
Publicado no livro Canções sem Metro (1900). Poema integrante da série III - O Ventre.
In: POMPÉIA, Raul. Obras: canções sem metro. Org. Afrânio Coutinho. Assistência Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1982. v.4, p.71. (Vera Cruz, 324c
dos egoísmos, derivado em turbilhão, faz a ordem nas cousas.
Passa-se assim em presença do homem: a fúria sedenta das
raízes penetra a terra buscando alimento; na espessura, o
leão persegue o antílope; nas frondes, vingam os pomos
assassinando as flores. O egoísmo cobiça a destruição. A sede
inabrandável do mar tenta beber o rio, o rio pretende dar vazão
às nuvens, a nuvem ambiciona sorver o oceano. E vivem perpetuamente
as flores, e vivem os animais nas brenhas, e vive a floresta; o rio
corre sempre, a nuvem reaparece ainda. Esta luta de morte é o quadro
estupendo da vida na terra; como o equilíbrio das atrações ávidas
dos mundos, trégua forçada de ódios, apelida-se a paz dos céus.
A fome é a suprema doutrina. Consumir é a lei.
A chama devora e cintila; a terra devora e floresce; o tigre
devora e ama.
O abismo prenhe de auroras alimenta-se de séculos.
A ordem social também é o turbilhão perene ao redor de um centro.
Giram as instituições, gravitam as hipocrisias, passam os Estados,
bradam as cidades... O ventre, soberano como um deus, preside e
engorda.
Publicado no livro Canções sem Metro (1900). Poema integrante da série III - O Ventre.
In: POMPÉIA, Raul. Obras: canções sem metro. Org. Afrânio Coutinho. Assistência Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1982. v.4, p.71. (Vera Cruz, 324c
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1
D. Pedro II
Soneto
Segredo d'alma, da existência arcano,
Eterno amor num instante concebido,
Mal sem esperança, oculto a ente humano,
E nunca de quem fê-lo conhecido.
Ai! Perto dela desapercebido
Sempre a seu lado, e só, cruel engano,
Na terra gastarei meu ser insano
Nada ousando pedir e havendo tido!
Se Deus a fez tão doce e carinhosa,
Contudo anda inatenta e descuidosa
Do murmúrio de amor que a tem seguido.
Piamente ao cru dever sempre fiel
Dirá lendo a poesia, seu painel:
"Que mulher é?" Sem tê-lo compreendido.
In: D. PEDRO II. Poesias completas de D. Pedro II: originais e traduções, sonetos do exílio, autênticas e apócrifas. Prefácio de Medeiros e Albuquerque. Rio de Janeiro: Guanabara, 1932. Poema integrante da série Versões.
NOTA: Tradução do poema de Félix Anver
Eterno amor num instante concebido,
Mal sem esperança, oculto a ente humano,
E nunca de quem fê-lo conhecido.
Ai! Perto dela desapercebido
Sempre a seu lado, e só, cruel engano,
Na terra gastarei meu ser insano
Nada ousando pedir e havendo tido!
Se Deus a fez tão doce e carinhosa,
Contudo anda inatenta e descuidosa
Do murmúrio de amor que a tem seguido.
Piamente ao cru dever sempre fiel
Dirá lendo a poesia, seu painel:
"Que mulher é?" Sem tê-lo compreendido.
In: D. PEDRO II. Poesias completas de D. Pedro II: originais e traduções, sonetos do exílio, autênticas e apócrifas. Prefácio de Medeiros e Albuquerque. Rio de Janeiro: Guanabara, 1932. Poema integrante da série Versões.
NOTA: Tradução do poema de Félix Anver
2 239
1
Tasso da Silveira
Fronteira
Há o silêncio das estradas
e o silêncio das estrelas
e um canto de ave, tão branco,
tão branco, que se diria
também ser puro silêncio.
Não vem mensagem do vento,
nem ressonâncias longínquas
de passos passando em vão.
Há um porto de águas paradas
e um barco tão solitário,
que se esqueceu de existir.
Há uma lembrança do mundo
mas tão distante e suspensa...
Há uma saudade da vida
porém tão perdida e vaga,
e há a espera, a infinita espera,
a espera quase presença
da mão de puro mistério
que tomará minha mão
e me levará sonhando
para além deste silêncio,
para além desta aflição.
Publicado no livro Regresso à Origem (1960).
In: POETAS do modernismo: antologia crítica. Org. Leodegário A. Azevedo Filho. Brasília: INL, 1972. v.4, p.74. (Literatura brasileira, 9C
e o silêncio das estrelas
e um canto de ave, tão branco,
tão branco, que se diria
também ser puro silêncio.
Não vem mensagem do vento,
nem ressonâncias longínquas
de passos passando em vão.
Há um porto de águas paradas
e um barco tão solitário,
que se esqueceu de existir.
Há uma lembrança do mundo
mas tão distante e suspensa...
Há uma saudade da vida
porém tão perdida e vaga,
e há a espera, a infinita espera,
a espera quase presença
da mão de puro mistério
que tomará minha mão
e me levará sonhando
para além deste silêncio,
para além desta aflição.
Publicado no livro Regresso à Origem (1960).
In: POETAS do modernismo: antologia crítica. Org. Leodegário A. Azevedo Filho. Brasília: INL, 1972. v.4, p.74. (Literatura brasileira, 9C
1 642
1
Raimundo Correia
Chuva e Sol
Agrada à vista e à fantasia agrada
Ver-te, através do prisma de diamantes
Da chuva, assim ferida e atravessada
Do sol pelos venábulos radiantes...
Vais e molhas-te, embora os pés levantes:
– Par de pombos, que a ponta delicada
Dos bicos metem nágua e, doidejantes,
Bebem nos regos cheios da calçada...
Vais, e, apesar do guarda-chuva aberto,
Borrifando-te colmam-te as goteiras
De pérolas o manto mal coberto;
E estrelas mil cravejam-te, fagueiras,
Estrelas falsas, mas que assim de perto,
Rutilam tanto, como as verdadeiras...
Publicado no livro Versos e Versões (1887).
In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo: Ed. Nacional, 1948. v.1, p.109.
Ver-te, através do prisma de diamantes
Da chuva, assim ferida e atravessada
Do sol pelos venábulos radiantes...
Vais e molhas-te, embora os pés levantes:
– Par de pombos, que a ponta delicada
Dos bicos metem nágua e, doidejantes,
Bebem nos regos cheios da calçada...
Vais, e, apesar do guarda-chuva aberto,
Borrifando-te colmam-te as goteiras
De pérolas o manto mal coberto;
E estrelas mil cravejam-te, fagueiras,
Estrelas falsas, mas que assim de perto,
Rutilam tanto, como as verdadeiras...
Publicado no livro Versos e Versões (1887).
In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo: Ed. Nacional, 1948. v.1, p.109.
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Alphonsus de Guimaraens
LXXIV - A Cláudio Manuel da Costa
Às margens destas águas silenciosas,
Quantas vezes berçaste a alma dorida,
Esfolhando por elas, como rosas,
As suaves ilusões da tua vida!
Vias o doce olhar das amorosas
Refletido na linfa entristecida,
E, ao pôr do sol das vésperas lutuosas,
Erguer-se o vulto da mulher querida...
Se é tão dolente o Ribeirão do Carmo,
Onde com as mãos proféticas armaste
Os castelos de amor que ora desarmo!
O teu sonho deixaste-o nestas águas...
E hoje, revendo tudo que sonhaste,
Por elas também deixo as minhas mágoas.
Publicado no livro Pastoral aos crentes do amor e da morte: livro lírico do poeta Alphonsus de Guimaraens (1923). Poema integrante da série Os Sonetos.
In: GUIMARAENS, Alphonsus de. Obra completa. Organização de Alphonsus de Guimaraens Filho. Introdução de Eduardo Portella. Notas biográficas de João Alphonsus. Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1960. p. 285. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira, 20).
Quantas vezes berçaste a alma dorida,
Esfolhando por elas, como rosas,
As suaves ilusões da tua vida!
Vias o doce olhar das amorosas
Refletido na linfa entristecida,
E, ao pôr do sol das vésperas lutuosas,
Erguer-se o vulto da mulher querida...
Se é tão dolente o Ribeirão do Carmo,
Onde com as mãos proféticas armaste
Os castelos de amor que ora desarmo!
O teu sonho deixaste-o nestas águas...
E hoje, revendo tudo que sonhaste,
Por elas também deixo as minhas mágoas.
Publicado no livro Pastoral aos crentes do amor e da morte: livro lírico do poeta Alphonsus de Guimaraens (1923). Poema integrante da série Os Sonetos.
In: GUIMARAENS, Alphonsus de. Obra completa. Organização de Alphonsus de Guimaraens Filho. Introdução de Eduardo Portella. Notas biográficas de João Alphonsus. Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1960. p. 285. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira, 20).
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