Arte
Poemas neste tema
Angela Santos
Signos
Emergem
em sobressalto do fundo,
onde quedos e adormecidos permanecem
subterrâneos seres
desnudos revelam-se à plena luz da poesia,
signos interpelando mudos
a chave nas palavras contida
olhos que em segredo incitam
ao gesto de abrir comportas à torrente do sentido
que se adivinha no rosto
sereno e impassível
das palavras que nos fitam.
em sobressalto do fundo,
onde quedos e adormecidos permanecem
subterrâneos seres
desnudos revelam-se à plena luz da poesia,
signos interpelando mudos
a chave nas palavras contida
olhos que em segredo incitam
ao gesto de abrir comportas à torrente do sentido
que se adivinha no rosto
sereno e impassível
das palavras que nos fitam.
1 040
Angela Santos
Às Vezes
Às
vezes
eu fico sentada à espera
joelhos bem rentes à boca
mergulhada não sei em que águas
levemente agitadas
E ali , assim fico parada
na imensidão do vazio
que me acolhe amigo
e me estende a mão
E fico à espera de alguma coisa
vaga ou difusa
como se eu fosse corpo em gestação
E o que chega vem
sem dizer que vem é um vago torpor
que se agarra à alma…
e tremula a mão cinzela a palavra
na página branca
que sempre a aguardara.
vezes
eu fico sentada à espera
joelhos bem rentes à boca
mergulhada não sei em que águas
levemente agitadas
E ali , assim fico parada
na imensidão do vazio
que me acolhe amigo
e me estende a mão
E fico à espera de alguma coisa
vaga ou difusa
como se eu fosse corpo em gestação
E o que chega vem
sem dizer que vem é um vago torpor
que se agarra à alma…
e tremula a mão cinzela a palavra
na página branca
que sempre a aguardara.
633
Angela Santos
No dia da morte
decretada de um Poeta
(18/10/85)
Hoje
é o dia decretado
para a morte
do poeta que não morre
corda, a mordaça da voz
sem sombra de silêncio.
Da terra que te abraça
sobe o grito renovado
terra irmã do teu corpo
na força e na cor
Cânticos de liberdade soam
na morte do poeta
que não morre…
E de negro se veste o espiritual
negras vozes o entoam
mas a vida fica perto
de quem morrendo não morre
por cantar liberdade.
(18/10/85)
Hoje
é o dia decretado
para a morte
do poeta que não morre
corda, a mordaça da voz
sem sombra de silêncio.
Da terra que te abraça
sobe o grito renovado
terra irmã do teu corpo
na força e na cor
Cânticos de liberdade soam
na morte do poeta
que não morre…
E de negro se veste o espiritual
negras vozes o entoam
mas a vida fica perto
de quem morrendo não morre
por cantar liberdade.
600
Angela Santos
Do Poeta
A
palavra do Poeta é um canto
arrancado à raiz do ser,
cifra encontrada
na opaca fundura do tempo
contínuo e sem medida…
Chão secreto é o ser do Poeta
onde o sentido germina
tempestade de clarões
que atravessa e torna prenhe
a palavra solta .. sibilina
Uma dor de punhais cresce
quando o silencio é rasgado
mas a alma do Poeta,
renascida a cada golpe fundo,
transfigurada revela
a própria dimensão
do mundo!
palavra do Poeta é um canto
arrancado à raiz do ser,
cifra encontrada
na opaca fundura do tempo
contínuo e sem medida…
Chão secreto é o ser do Poeta
onde o sentido germina
tempestade de clarões
que atravessa e torna prenhe
a palavra solta .. sibilina
Uma dor de punhais cresce
quando o silencio é rasgado
mas a alma do Poeta,
renascida a cada golpe fundo,
transfigurada revela
a própria dimensão
do mundo!
987
Angela Santos
Formas
Às
vezes eu penso
um quadro que inventasse
na orgia dos sentidos
na bebedeira de cores
e na forma instante
que o revelasse
Às vezes eu sinto
O inaudível choro de um instrumento
no sentido abraço que toca e arranca
a humana voz presa
a um violoncelo
Às vezes eu vejo
a forma incrustada numa pedra tosca
e desprender-se dela a estátua talhada
a forma acabada ..a mão e o cinzel.
vezes eu penso
um quadro que inventasse
na orgia dos sentidos
na bebedeira de cores
e na forma instante
que o revelasse
Às vezes eu sinto
O inaudível choro de um instrumento
no sentido abraço que toca e arranca
a humana voz presa
a um violoncelo
Às vezes eu vejo
a forma incrustada numa pedra tosca
e desprender-se dela a estátua talhada
a forma acabada ..a mão e o cinzel.
999
Hilda Hilst
X
Como se
fosse verdade encantações, poemas
Como se Aquele ouvisse arrebatado
Teus cantares de louca, as cantigas da pena.
Como se a cada noite de ti se despedisse
Com colibris na boca.
E candeias e frutos, como se fosses amante
E estivesses de luto, e Ele, o Pai
Te fizesse porisso adormecer...
(Como se se apiedasse porque humana
És apenas poeira,
E Ele o grande Tecelão da tua morte: a teia).
Como se
fosse vão te amar e por isso perfeito.
Amar o perecível, o nada, o pó, é sempre despedir-se.
E não é Ele, o Fazedor, o Artífice, o Cego
O Seguidor disso sem nome? ISSO...
O amor
e sua fome.
fosse verdade encantações, poemas
Como se Aquele ouvisse arrebatado
Teus cantares de louca, as cantigas da pena.
Como se a cada noite de ti se despedisse
Com colibris na boca.
E candeias e frutos, como se fosses amante
E estivesses de luto, e Ele, o Pai
Te fizesse porisso adormecer...
(Como se se apiedasse porque humana
És apenas poeira,
E Ele o grande Tecelão da tua morte: a teia).
Como se
fosse vão te amar e por isso perfeito.
Amar o perecível, o nada, o pó, é sempre despedir-se.
E não é Ele, o Fazedor, o Artífice, o Cego
O Seguidor disso sem nome? ISSO...
O amor
e sua fome.
1 583
Miriam Paglia Costa
Ad Perpetuam Rei
Memoriam
maus
versos e bons planos
faço isso há anos
é chumbo o alfabeto que aprendi
escrevo
tenho todos os dentes
peso até excessivo
adoeço raramente
nasci no brasil
logo, não existo
cólicas líricas seguidas de vômito
salário não paga minha fome
pedem pão, dou verbo
vergonha não rima nem resolve
às vezes desejo o terror
ilusão do justo restaurado
mas quem garante?
se o tapa é a lei da mão
instaura a selva
eu queria ser inocente
maus
versos e bons planos
faço isso há anos
é chumbo o alfabeto que aprendi
escrevo
tenho todos os dentes
peso até excessivo
adoeço raramente
nasci no brasil
logo, não existo
cólicas líricas seguidas de vômito
salário não paga minha fome
pedem pão, dou verbo
vergonha não rima nem resolve
às vezes desejo o terror
ilusão do justo restaurado
mas quem garante?
se o tapa é a lei da mão
instaura a selva
eu queria ser inocente
664
Miriam Paglia Costa
Iniciação à Leitura
meu
primeiro livro
O LIVRO DO BEBÊ
registra em letra de pai
às folhas tantas:
" com pouco menos de seis meses
arrancou a capa da história da raça humana"
a obra, que é de henry thomas
e comigo veio a lume em português
(assim se dizia em 1947)
começa: " foram necessários
quarenta milhões de anos
para que o macaco se transformasse
no homem-macaco"
se soma em soma
cada período aperfeiçoa a arte de matar
da pedrada ao aeroplano
hoje o livro está sem fim
(pouco sobrou do sucessivo manuseio)
nele é guerra mundial em pleno curso
ainda não explodiu a bomba atômica
impossível saber como termina
mas a primeira página também diz:
" o homem é uma criatura estúpida
e seu progresso tem sido muito lento"
graças a deus
o homem
(uma menina)
ainda não podia tudo
só a metáfora de estropiar a raça humana
primeiro livro
O LIVRO DO BEBÊ
registra em letra de pai
às folhas tantas:
" com pouco menos de seis meses
arrancou a capa da história da raça humana"
a obra, que é de henry thomas
e comigo veio a lume em português
(assim se dizia em 1947)
começa: " foram necessários
quarenta milhões de anos
para que o macaco se transformasse
no homem-macaco"
se soma em soma
cada período aperfeiçoa a arte de matar
da pedrada ao aeroplano
hoje o livro está sem fim
(pouco sobrou do sucessivo manuseio)
nele é guerra mundial em pleno curso
ainda não explodiu a bomba atômica
impossível saber como termina
mas a primeira página também diz:
" o homem é uma criatura estúpida
e seu progresso tem sido muito lento"
graças a deus
o homem
(uma menina)
ainda não podia tudo
só a metáfora de estropiar a raça humana
771
João Cabral de Melo Neto
Camarada diamante!
Não sou um diamante nato
nem consegui cristalizá-lo:
se ele te surge no que faço
será um diamante opaco
de quem por incapaz do vago
quer de toda forma evitá-lo,
senão com o melhor, o claro,
do diamante, com o impacto:
com a pedra, a aresta, com o aço
do diamante industrial, barato,
que incapaz de ser cristal raro
vale pelo que tem de cacto.
nem consegui cristalizá-lo:
se ele te surge no que faço
será um diamante opaco
de quem por incapaz do vago
quer de toda forma evitá-lo,
senão com o melhor, o claro,
do diamante, com o impacto:
com a pedra, a aresta, com o aço
do diamante industrial, barato,
que incapaz de ser cristal raro
vale pelo que tem de cacto.
3 952
Mauricio Segall
Poesia
Poesia
é feminino
poema não o é
quisera mais poesia
no universo do meu verso.
Mulher é feminino
macho não o é
quisera mais feminilidade
na minha vida masculina.
Ternura é feminino
masculino não o é
quisera mais doçura
no dia-a-dia com minha amiga.
Vida é feminino
morte também o é
vida só é vida
junto ao ventre de uma mulher
é feminino
poema não o é
quisera mais poesia
no universo do meu verso.
Mulher é feminino
macho não o é
quisera mais feminilidade
na minha vida masculina.
Ternura é feminino
masculino não o é
quisera mais doçura
no dia-a-dia com minha amiga.
Vida é feminino
morte também o é
vida só é vida
junto ao ventre de uma mulher
917
Ana Cristina Cesar
Deus na Antecâmera
Mereço(merecemos,
meretrizes)
Perdão(perdoai-nos, patres conscripti)
Socorro (correi, valei-nos, santos perdidos)
Eu quero me livrar desta poesia infecta
beijar mãos sem elos sem tinturas
consciências soltas pelos ventos
desatando o culto das antecedências
sem medo de dedos de dados de dúvidas
em prontidão sangüinária
(sangue e amor se aconchegando
horas atrás de hora)
Eu quero pensar ao apalpar
eu quero dizer ao conviver
eu quero parir ao repartir
Filho
Pai
E
Fogo
DE-LI-BE-RA-MEN-TE
abertos ao tudo inteiro
maiores que o todo nosso
em nós(com a gente) se dando
HOMEM: ACORDA!
meretrizes)
Perdão(perdoai-nos, patres conscripti)
Socorro (correi, valei-nos, santos perdidos)
Eu quero me livrar desta poesia infecta
beijar mãos sem elos sem tinturas
consciências soltas pelos ventos
desatando o culto das antecedências
sem medo de dedos de dados de dúvidas
em prontidão sangüinária
(sangue e amor se aconchegando
horas atrás de hora)
Eu quero pensar ao apalpar
eu quero dizer ao conviver
eu quero parir ao repartir
Filho
Pai
E
Fogo
DE-LI-BE-RA-MEN-TE
abertos ao tudo inteiro
maiores que o todo nosso
em nós(com a gente) se dando
HOMEM: ACORDA!
1 610
Ana Cristina Cesar
Psicografia
Também eu
saio á revelia
E procuro uma síntese nas demoras
Cato obsessões com fria têmpera e digo
Do coração: não soube e digo
Da palavra: não digo(não posso ainda acreditar
Na vida) e demito o verso como quem acena
E vivo como quem despede a raiva de Ter visto.
saio á revelia
E procuro uma síntese nas demoras
Cato obsessões com fria têmpera e digo
Do coração: não soube e digo
Da palavra: não digo(não posso ainda acreditar
Na vida) e demito o verso como quem acena
E vivo como quem despede a raiva de Ter visto.
3 543
Regina Souza Vieira
Autocrítica
Aqui,
a sós.
Entre mim e o sonho
De cantar-te,
A voz
De que disponho
Sem engenho e arte...
Fraca e mal nascida,
Nasce,
E nunca digo de nós,
Da vida.
Do Sol
Que prossigo,
Com palavras-não-gastas...
Nasce,
E fica-se (tece)
A tristeza mole da derrota
Pelo mal que digo,
(Canto!)
A certeza da vitória
Nesta rota...
Espanto sem história
Neste esforço
De cantar-te?
Se és tão simples água
Ou sol nas veias,
Simples olhar límpido
De criança perpétua
Sem a primeira mágoa?!
Simples leveza de amar-te,
Simples esperança simples,
Maré-cheia e horizonte,
Escorço de linhas
Com o SOL lá, PÃO e FONTE!...
ah! minhas palavras minhas!
a sós.
Entre mim e o sonho
De cantar-te,
A voz
De que disponho
Sem engenho e arte...
Fraca e mal nascida,
Nasce,
E nunca digo de nós,
Da vida.
Do Sol
Que prossigo,
Com palavras-não-gastas...
Nasce,
E fica-se (tece)
A tristeza mole da derrota
Pelo mal que digo,
(Canto!)
A certeza da vitória
Nesta rota...
Espanto sem história
Neste esforço
De cantar-te?
Se és tão simples água
Ou sol nas veias,
Simples olhar límpido
De criança perpétua
Sem a primeira mágoa?!
Simples leveza de amar-te,
Simples esperança simples,
Maré-cheia e horizonte,
Escorço de linhas
Com o SOL lá, PÃO e FONTE!...
ah! minhas palavras minhas!
891
Silvaney Paes
Desculpas
De uma
Flor do Lácio
Que de Bilac foi bela
De TI e de VÓS inculta era
Em meu poema feito de pressa.
De uma língua Linda e singela
Em que Camões, somente expressa.
Esplendida, bela, por mim impura.
Em meu poema feito de pressa
De muito ouvir a voz materna
Amou Drummond tão rude e bela
Mais que de mim desconhecida, fera.
Em um poema feito de pressa.
De esplendor e sepultura
Fui com Ti amada, injusta.
Mais não VÓS nega o amor e a ternura
Em meu poema feito de pressa
Flor do Lácio
Que de Bilac foi bela
De TI e de VÓS inculta era
Em meu poema feito de pressa.
De uma língua Linda e singela
Em que Camões, somente expressa.
Esplendida, bela, por mim impura.
Em meu poema feito de pressa
De muito ouvir a voz materna
Amou Drummond tão rude e bela
Mais que de mim desconhecida, fera.
Em um poema feito de pressa.
De esplendor e sepultura
Fui com Ti amada, injusta.
Mais não VÓS nega o amor e a ternura
Em meu poema feito de pressa
668
Almandrade
I
A
mão escuta
o papel
toca a letra
um corpo
vaza o desenho
a boca resume
o traço
pássaros
cachoeiras
um bordado
que imita
a virtude e a transparência
das águas.
mão escuta
o papel
toca a letra
um corpo
vaza o desenho
a boca resume
o traço
pássaros
cachoeiras
um bordado
que imita
a virtude e a transparência
das águas.
877
Silvaney Paes
Sega
Sega
Pela manhã
Menor que ti
Me viu o Sol
Não teus olhos
E se rasgou a poesia da Noite
Passada
Mais não finda
Viva ainda
Apenas não lida
Passou
Rugiu
Mais não se viu
Fugiu
E de ti
Poesia
Apenas cega
Esdrúxula
Sem métrica
Silêncio e vela
De nova era
Do nascer já cega
E pôr saber já negas
Esse amar barrela
E te fazes apenas.
Pela manhã
Menor que ti
Me viu o Sol
Não teus olhos
E se rasgou a poesia da Noite
Passada
Mais não finda
Viva ainda
Apenas não lida
Passou
Rugiu
Mais não se viu
Fugiu
E de ti
Poesia
Apenas cega
Esdrúxula
Sem métrica
Silêncio e vela
De nova era
Do nascer já cega
E pôr saber já negas
Esse amar barrela
E te fazes apenas.
959
André Aquino
Poemas Tristes
Às
vezes poemas querem dizer tanta coisa
Outras não dizem nada
Querem transformar letras mortas
Em vida animada
Decompor frases tortas
Em palavra certa ou errada
Poesias são restos de sentimento
Cacos de liberdade ou coisa parecida
Fragmentos de dor e pensamento
Centelhas de emoção que querem ganhar vida.
Poetas são eternos sofredores
Podem ser mentirosos ou fingidores
Uns falam de alegrias outros de amores
Alguns tentam transformar o que está invisível
Em algo que tenha cores
E podem trazer a tona às lágrimas represadas
Do que se julga um insensível
Poemas podem falar de tudo
Ensinar a um cego o que é vazio
Põe palavras na boca de um mudo
Sopra frases aos ouvidos de um surdo
Mas eu gosto de escrever poemas tristes
Cada verso é uma batida do meu coração
As palavras são como reflexos do meu olhar
São lugares onde me perco para poder achar
A dor de viver aflora nas frases desse poema emoção
Se alguém algum dia quiser saber por onde andei
Ou quem eu fui
Que leia os meus versos
Porque foi neles onde fui mais feliz onde mais amei
Nos meus versos sou mais do que poderia ser
Quero aqui para sempre poder viver.
Ser poeta é transformar a própria vida em poesia
Os dias são os versos
As horas são as frases
As palavras são o agora
Ser poeta é viver amando o que não pode ser amado
É sentir saudade de algo que ainda não aconteceu
É chorar até a ultima lágrima
É sorrir até o ultimo sorriso
Todos nós somos poetas
Porque todos nós amamos
Uma partícula de mim está dentro de você
Eu e você no mesmo coração...
vezes poemas querem dizer tanta coisa
Outras não dizem nada
Querem transformar letras mortas
Em vida animada
Decompor frases tortas
Em palavra certa ou errada
Poesias são restos de sentimento
Cacos de liberdade ou coisa parecida
Fragmentos de dor e pensamento
Centelhas de emoção que querem ganhar vida.
Poetas são eternos sofredores
Podem ser mentirosos ou fingidores
Uns falam de alegrias outros de amores
Alguns tentam transformar o que está invisível
Em algo que tenha cores
E podem trazer a tona às lágrimas represadas
Do que se julga um insensível
Poemas podem falar de tudo
Ensinar a um cego o que é vazio
Põe palavras na boca de um mudo
Sopra frases aos ouvidos de um surdo
Mas eu gosto de escrever poemas tristes
Cada verso é uma batida do meu coração
As palavras são como reflexos do meu olhar
São lugares onde me perco para poder achar
A dor de viver aflora nas frases desse poema emoção
Se alguém algum dia quiser saber por onde andei
Ou quem eu fui
Que leia os meus versos
Porque foi neles onde fui mais feliz onde mais amei
Nos meus versos sou mais do que poderia ser
Quero aqui para sempre poder viver.
Ser poeta é transformar a própria vida em poesia
Os dias são os versos
As horas são as frases
As palavras são o agora
Ser poeta é viver amando o que não pode ser amado
É sentir saudade de algo que ainda não aconteceu
É chorar até a ultima lágrima
É sorrir até o ultimo sorriso
Todos nós somos poetas
Porque todos nós amamos
Uma partícula de mim está dentro de você
Eu e você no mesmo coração...
806
Odete Silva
Vazio
Rasguei
livros envelhecidos pelos meus olhos
que nada me dizem de ti
Pintei quadros na parede do meu quarto
mas, não eras tu quem vi......
Percorri o rasto dos teus passos,
só minha sombra me seguiu
Nos lábios alimentei beijos com néctar de bem-querer
mas, a espera foi tão amarga......
quis amar-te sobre pétalas morenas,
no chão perfumado do teu corpo,
quando só ausência bateu á minha porta.
A noite veio vazia de ti,
vestida de fantasmas absortos
com as mãos petrificadas
pela solidão do dia.
livros envelhecidos pelos meus olhos
que nada me dizem de ti
Pintei quadros na parede do meu quarto
mas, não eras tu quem vi......
Percorri o rasto dos teus passos,
só minha sombra me seguiu
Nos lábios alimentei beijos com néctar de bem-querer
mas, a espera foi tão amarga......
quis amar-te sobre pétalas morenas,
no chão perfumado do teu corpo,
quando só ausência bateu á minha porta.
A noite veio vazia de ti,
vestida de fantasmas absortos
com as mãos petrificadas
pela solidão do dia.
629
Silvaney Paes
Contido
Algo ofendeu a vida.
A poesia,
Ou o sentimento
Nela Contida?
..................
A saudade ou a dor
Ofenderam a vida.
Viu ter Deus
Nelas contidas?
...................
Não sabes?
São teus os dois
E tudo
Nela contida.
...................
E das folhas?
Viste vida
Ou viste morte
Nela contidas?
.................
Algo ofendeu a vida
Foi a poesia
E o sentimento
Nela contida.
A poesia,
Ou o sentimento
Nela Contida?
..................
A saudade ou a dor
Ofenderam a vida.
Viu ter Deus
Nelas contidas?
...................
Não sabes?
São teus os dois
E tudo
Nela contida.
...................
E das folhas?
Viste vida
Ou viste morte
Nela contidas?
.................
Algo ofendeu a vida
Foi a poesia
E o sentimento
Nela contida.
701
Reinaldo Ferreira
Ela, a Poesia de hoje
Ela, a Poesia de hoje,
Como que foge
De si mesma e se dói
De ter sido algum dia
Meramente poesia.
Erra,
Solitária e solene,
Nos caminhos da terra,
E vitupera o céu
E o que ele encerra:
- Ah! morra! Ah! esqueça Orfeu!
Canta a grilheta, a enxada
E a madrugada
Dos dias que hão-de-vir,
E como frutos, cair
Em nossas mãos...
Fala no imperativo,
E tem por vocativo
- Irmão! Irmãos!
Mas longe,
E perto, porque em nós,
Onde uma fonte canta
Uma toada clara,
Um fauno sabe e ri,
Na pedra gasta e escura,
Um fim de riso
De ironia rara...
Como que foge
De si mesma e se dói
De ter sido algum dia
Meramente poesia.
Erra,
Solitária e solene,
Nos caminhos da terra,
E vitupera o céu
E o que ele encerra:
- Ah! morra! Ah! esqueça Orfeu!
Canta a grilheta, a enxada
E a madrugada
Dos dias que hão-de-vir,
E como frutos, cair
Em nossas mãos...
Fala no imperativo,
E tem por vocativo
- Irmão! Irmãos!
Mas longe,
E perto, porque em nós,
Onde uma fonte canta
Uma toada clara,
Um fauno sabe e ri,
Na pedra gasta e escura,
Um fim de riso
De ironia rara...
1 489
Reinaldo Ferreira
Nasci poeta abstruso
Nasci poeta abstruso.
Amo as palavras que estão
Entre o arcaico e o difuso
No cerne da indecisão.
Prefiro adrede e gomil.
Digo delíquo e fanal.
E só descrevo um funil
Em termos-vaso-de-graal.
Mas nesta minha importância,
Neste sol que me irradia,
Nem Deus preenche a distância
Que vai de mim à Poesia.
Amo as palavras que estão
Entre o arcaico e o difuso
No cerne da indecisão.
Prefiro adrede e gomil.
Digo delíquo e fanal.
E só descrevo um funil
Em termos-vaso-de-graal.
Mas nesta minha importância,
Neste sol que me irradia,
Nem Deus preenche a distância
Que vai de mim à Poesia.
1 835
Reinaldo Ferreira
No amplo e ermo degredo
No amplo e ermo degredo
Da Noite enorme incriada,
Acesso ao átrio do medo,
Reverso a negro do Nada.
Erra uma asa, partida,
Dum qualquer pássaro morto,
Que só porque erra tem vida
No mar do nada sem porto.
É quando passa e projecta
Na Sombra sombra erradia
Que nasce a mãe dum poeta
E se concebe a poesia.
Da Noite enorme incriada,
Acesso ao átrio do medo,
Reverso a negro do Nada.
Erra uma asa, partida,
Dum qualquer pássaro morto,
Que só porque erra tem vida
No mar do nada sem porto.
É quando passa e projecta
Na Sombra sombra erradia
Que nasce a mãe dum poeta
E se concebe a poesia.
1 881
Reinaldo Ferreira
Desde quando alguma vez anoiteceu
Desde quando alguma vez anoiteceu
E à angústia de que a terra se cobriu
Só pasmo nas esferas respondeu;
Desde quando alguma flor emurcheceu
E a criança que válida se ria
De repente calada apodreceu;
Desde quando a algum estio sucedeu
Um outro outono e a árvore se despiu
E a primeira cabeça encaneceu;
Desde quando alguma coisa que nasceu
Sem que o pedisse, sem remédio se degrada
E acaba, sob a terra que a comeu,
Dispersa entre os átomos dispersos,
Se acumula a tristeza deste dia
E a razão destes versos.
E à angústia de que a terra se cobriu
Só pasmo nas esferas respondeu;
Desde quando alguma flor emurcheceu
E a criança que válida se ria
De repente calada apodreceu;
Desde quando a algum estio sucedeu
Um outro outono e a árvore se despiu
E a primeira cabeça encaneceu;
Desde quando alguma coisa que nasceu
Sem que o pedisse, sem remédio se degrada
E acaba, sob a terra que a comeu,
Dispersa entre os átomos dispersos,
Se acumula a tristeza deste dia
E a razão destes versos.
1 806
Raimundo Fontenele
O Cavalo das Horas
era um cavalo negro sem tamanho
no prado sul do mundo onde corria
o sangue dos ginetes destroçados
era um cavalo grosso reluzente
varando espaços fortes velozmente
tangido a um prado e a outro sempre-sempre
era um cavalo branco frio mudo
em cujos olhos crianças se atiravam
na sela da manhã no chão no limbo
era um cavalo horáculo fogoso
sustentando o peito três medalhas
de heróis tombados sobre o véu do muro
era um cavalo azul de tanto medo
de patas farejando o firmamento
onde pessoas e prantos misturaram-se
era um cavalo verde só de sono
que carregava os tristes para um outro
campo de plantação devasso / puro
era um cavalo novo nova idade
secular instrumento da discórdia
que não subia ao céu nem ia à terra
no prado sul do mundo onde corria
o sangue dos ginetes destroçados
era um cavalo grosso reluzente
varando espaços fortes velozmente
tangido a um prado e a outro sempre-sempre
era um cavalo branco frio mudo
em cujos olhos crianças se atiravam
na sela da manhã no chão no limbo
era um cavalo horáculo fogoso
sustentando o peito três medalhas
de heróis tombados sobre o véu do muro
era um cavalo azul de tanto medo
de patas farejando o firmamento
onde pessoas e prantos misturaram-se
era um cavalo verde só de sono
que carregava os tristes para um outro
campo de plantação devasso / puro
era um cavalo novo nova idade
secular instrumento da discórdia
que não subia ao céu nem ia à terra
915
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