Morte
Poemas neste tema
Silvino Pirauá de Lima
Necrológio de Francisco Romano
Na era 91
No centro paraibano,
Dentro do termo de Patos,
Em março do dito ano,
No primeiro desse mês
Morreu Francisco Romano.
Ele, antes de morrer,
Tinha em casa destinado
De ir buscar uma imagem
Com quem tinha se pegado,
Mas antes dessa viagem.
Primeiro foi ao roçado.
Pegou o chapéu, saiu
Com uma faca na mão
E uma foice no ombro,
Foi tapar um boqueirão,
Embora fosse domingo,
Mas havia precisão.
Justamente foi o tempo
De a hora lhe ser chegada...
Romano dentro da roça,
Morreu de morte apressada:
Apagou-se aquele esprito,
Seu corpo virou em nada.
Foi num dia de domingo
Esse caso acontecido...
Nesse dia, às quatro horas,
Foi Jesus Cristo servido:
Duma morte violenta
Romano foi falecido.
De bruço caiu em terra
Com a tal faca na mão,
A outra mão sobre o peito,
Em riba do coração,
A foice do outro lado,
Bem junto dele, no chão.
Nesse entre, um filho dele,
Tendo de ir ao roçado,
Pra dar água a uns animais,
Por seu mano ter mandado,
Chegou, foi vendo o cadave
No chão, morto, istoporado.
O menino, quando viu,
Ficou cheio de agonia
De ver seu querido pai
Se acabar naquele dia...
Foi levar a notiça à mãe,
Coitada, que não sabia!
Choroso voltou pra trás
Do caso que aconteceu,
Foi chegando e foi dizendo:
- "Ruim notiça trago eu!
Minha mãe, meus irmãozinho,
Meu querido pai morreu!"
Em casa o choro foi tanto
Que fez um grande alarido,
A mulher correu pra roça,
À procura do marido,
Não morreu de sentimento
Porque Deus não foi servido.
Atrás da pobre mulher
O povo todo seguiu...
Quando ela viu o cadave
Por cima dele caiu,
A prece que fez ao céu
Parece que Deus ouviu.
Voltaram tristes pra casa,
O choro ninguém continha,
Romano veio numa rede,
A mulher em braços vinha,
Mandaram comprar mortalha
Na rua, de noitezinha.
Eu senti a morte dele,
Que ninguém não esperava!
Quando me veio a notiça
Que Romano morto estava,
Logo me veio à lembrança
O tempo em que nós cantava.
Conheço, desde esse dia,
Cantador entusiasmado...
Todo mundo quer cantar,
Cada qual dá seu recado
Porque quem se respeitava
Ja está em cinzas tornado!
No centro paraibano,
Dentro do termo de Patos,
Em março do dito ano,
No primeiro desse mês
Morreu Francisco Romano.
Ele, antes de morrer,
Tinha em casa destinado
De ir buscar uma imagem
Com quem tinha se pegado,
Mas antes dessa viagem.
Primeiro foi ao roçado.
Pegou o chapéu, saiu
Com uma faca na mão
E uma foice no ombro,
Foi tapar um boqueirão,
Embora fosse domingo,
Mas havia precisão.
Justamente foi o tempo
De a hora lhe ser chegada...
Romano dentro da roça,
Morreu de morte apressada:
Apagou-se aquele esprito,
Seu corpo virou em nada.
Foi num dia de domingo
Esse caso acontecido...
Nesse dia, às quatro horas,
Foi Jesus Cristo servido:
Duma morte violenta
Romano foi falecido.
De bruço caiu em terra
Com a tal faca na mão,
A outra mão sobre o peito,
Em riba do coração,
A foice do outro lado,
Bem junto dele, no chão.
Nesse entre, um filho dele,
Tendo de ir ao roçado,
Pra dar água a uns animais,
Por seu mano ter mandado,
Chegou, foi vendo o cadave
No chão, morto, istoporado.
O menino, quando viu,
Ficou cheio de agonia
De ver seu querido pai
Se acabar naquele dia...
Foi levar a notiça à mãe,
Coitada, que não sabia!
Choroso voltou pra trás
Do caso que aconteceu,
Foi chegando e foi dizendo:
- "Ruim notiça trago eu!
Minha mãe, meus irmãozinho,
Meu querido pai morreu!"
Em casa o choro foi tanto
Que fez um grande alarido,
A mulher correu pra roça,
À procura do marido,
Não morreu de sentimento
Porque Deus não foi servido.
Atrás da pobre mulher
O povo todo seguiu...
Quando ela viu o cadave
Por cima dele caiu,
A prece que fez ao céu
Parece que Deus ouviu.
Voltaram tristes pra casa,
O choro ninguém continha,
Romano veio numa rede,
A mulher em braços vinha,
Mandaram comprar mortalha
Na rua, de noitezinha.
Eu senti a morte dele,
Que ninguém não esperava!
Quando me veio a notiça
Que Romano morto estava,
Logo me veio à lembrança
O tempo em que nós cantava.
Conheço, desde esse dia,
Cantador entusiasmado...
Todo mundo quer cantar,
Cada qual dá seu recado
Porque quem se respeitava
Ja está em cinzas tornado!
1 262
Pedro Luís Pereira de Sousa
Terribilis Dea
Quando ela apareceu no escuro do horizonte,
O cabelo revolto... a palidez na fronte...
Aos ventos sacudindo o rubro pavilhão,
Resplendente de sol, de sangue fumegante,
O raio iluminou a terra... nesse instante
Frenética e viril ergueu-se uma nação!
Quem era? De onde vinha aquela grande imagem,
Que turbara do céu a límpida miragem,
E de luto cobrira a senda do porvir?
De que abismo saiu?... do túmulo? do inferno?
Pode o anjo do mal desafiar o Eterno?
Da fria sepultura o espectro ressurgir?
Deixai que se levante a grande divindade!...
Seu templo é a terra e o mar; seu culto — a mortandade:
Enche-lhe o peito largo o sopro das paixões...
É a mulher fantasma! uma visão de Dante...
Dos campos de batalha a hórrida bacante,
Que mergulha no sangue e ri das maldições!
A deusa do sepulcral A pálida rainha!
A morte é a sua vida. Impávida caminha,
Ora grande, ora vil, nas trevas ou na luz;
A corte que a rodeia é lúgubre corte;
Tem gala e traja luto: é o séquito da morte,
A miséria que chora, a glória que seduz.
Desde que o mal nasceu, nasceu aquele espectro;
De raios coroou-se! Ao peso de seu ceptro,
A terra tem arfado em transes infernais!...
Do mundo as gerações têm visto em toda idade,
Sinistra, aparecer aquela divindade,
Celebrando no sangue as grandes saturnais.
No seu olhar de fogo há raios de loucura...
Tem cantos de prazer! Tem risos de amargura
Muda sempre de céu, de rumo, de farol!
Aqui — pede ao direito a voz forte e serena;
Ali — ruge feroz, feroz como uma hiena...
Assassina na treva ou mata à luz do sol!...
Levanta o gládio nu em nome da verdade,
Acorda em fúria acesa à voz da liberdade...
E no punho viril derrete-lhe o grilhão!
Como é bela! ... Depois... sem fé, sem heroísmo,
Despedaça a justiça e atira com cinismo
A virgem liberdade aos braços da opressão!
É uma deusa fatal! Quer sangue e atira flores!
Abraça, prende, esmaga os seus adoradores,
Embriaga-os de glória e os cerca de esplendor;
E esses loucos, depois de feitos de gigantes,
A túnica lhe beijam, ardentes, delirantes,
E morrem a seus pés, na febre desse amor.
quando Átila — o monstro, o tigre-cavaleiro,
Espumando, a correr, calcava o mundo inteiro,
A deusa o acompanhava, e ria-se... a cruel!
Tinha a face vermelha, ardia de coragem,
Dava beijos de amor na fronte do selvagem,
Enterrando o aguilhão no flanco do corcel!
Era ela que em Roma erguia-se funesta,
O ídolo do povo em sempiterna festa!
O amor de Cipião, de César, de Pompeu!
Vergava com seu braço o braço do destino,
Prendeu nações e reis ao monte Palatino,
E em doida bacanal depois desfaleceu.
Foi de Carlos o grande a excelsa companheira
Deu-lhe o trono de bronze, a espada aventureira,
E o globo imperial... e glórias... e troféus;
Quando, no escuro val, Rolando, moribundo,
Embocava a trombeta a despertar o mundo,
Erguia o colo a deusa além dos Pireneus!...
Seguiu Napoleão da França até o Egito,
Nos mares, no deserto, e em busca do infinito,
Das terras do Evangelho às terras do Corã...
Dos delírios da Europa aos sonhos do Oriente.
Teve medo, afinal, daquela febre ardente...
Lá no meio do mar prendeu esse Titã.
Ela estava a sorrir, serena e triunfante,
Aos pés de Farragut, o intrépido almirante,
Lá no tope do mastro, enquanto o monitor
Em doidas convulsões, das túmidas entranhas
Vomitava metralha a derribar montanhas,
E do mundo arrancava um grito de terror.
Ela estava também — espectro pavoroso —
Do Amazonas a bordo, ao lado de Barroso,
De pólvora cercada, em pé, sobre o convés...
Quando, à voz do valente, o monstro foi bufando,
Calados os canhões, navios esmagando,
A deusa varonil de amor caiu-lhe aos pés!
Salve, da guerra deusa, arcanjo da batalha!
Que voas no vapor, que ruges na metralha,
Que cantas do combate aos infernais clarões!
Quando arrancas do bronze os cânticos malditos,
O céu é fogo e aço; o ar — pólvora e gritos. . .
E ferve e corre o sangue em quentes borbotões!
Salve, tu! que nos deste o sonho da vingança,
O gládio da justiça o raio da esperança,
E da glória cruenta o mágico esplendor!
É para te saudar que brame a artilharia,
E que repete ao longe a voz da ventania
Das trombetas da morte o hórrido clangor!
Quando ela apareceu no escuro do horizonte,
O cabelo revolto... a palidez na fronte. .
Aos ventos sacudindo o rubro pavilhão,
Resplandente de sol, de sangue fumegante,
O raio iluminou a terra ... nesse instante
Frenética e viril ergueu-se uma nação!
O cabelo revolto... a palidez na fronte...
Aos ventos sacudindo o rubro pavilhão,
Resplendente de sol, de sangue fumegante,
O raio iluminou a terra... nesse instante
Frenética e viril ergueu-se uma nação!
Quem era? De onde vinha aquela grande imagem,
Que turbara do céu a límpida miragem,
E de luto cobrira a senda do porvir?
De que abismo saiu?... do túmulo? do inferno?
Pode o anjo do mal desafiar o Eterno?
Da fria sepultura o espectro ressurgir?
Deixai que se levante a grande divindade!...
Seu templo é a terra e o mar; seu culto — a mortandade:
Enche-lhe o peito largo o sopro das paixões...
É a mulher fantasma! uma visão de Dante...
Dos campos de batalha a hórrida bacante,
Que mergulha no sangue e ri das maldições!
A deusa do sepulcral A pálida rainha!
A morte é a sua vida. Impávida caminha,
Ora grande, ora vil, nas trevas ou na luz;
A corte que a rodeia é lúgubre corte;
Tem gala e traja luto: é o séquito da morte,
A miséria que chora, a glória que seduz.
Desde que o mal nasceu, nasceu aquele espectro;
De raios coroou-se! Ao peso de seu ceptro,
A terra tem arfado em transes infernais!...
Do mundo as gerações têm visto em toda idade,
Sinistra, aparecer aquela divindade,
Celebrando no sangue as grandes saturnais.
No seu olhar de fogo há raios de loucura...
Tem cantos de prazer! Tem risos de amargura
Muda sempre de céu, de rumo, de farol!
Aqui — pede ao direito a voz forte e serena;
Ali — ruge feroz, feroz como uma hiena...
Assassina na treva ou mata à luz do sol!...
Levanta o gládio nu em nome da verdade,
Acorda em fúria acesa à voz da liberdade...
E no punho viril derrete-lhe o grilhão!
Como é bela! ... Depois... sem fé, sem heroísmo,
Despedaça a justiça e atira com cinismo
A virgem liberdade aos braços da opressão!
É uma deusa fatal! Quer sangue e atira flores!
Abraça, prende, esmaga os seus adoradores,
Embriaga-os de glória e os cerca de esplendor;
E esses loucos, depois de feitos de gigantes,
A túnica lhe beijam, ardentes, delirantes,
E morrem a seus pés, na febre desse amor.
quando Átila — o monstro, o tigre-cavaleiro,
Espumando, a correr, calcava o mundo inteiro,
A deusa o acompanhava, e ria-se... a cruel!
Tinha a face vermelha, ardia de coragem,
Dava beijos de amor na fronte do selvagem,
Enterrando o aguilhão no flanco do corcel!
Era ela que em Roma erguia-se funesta,
O ídolo do povo em sempiterna festa!
O amor de Cipião, de César, de Pompeu!
Vergava com seu braço o braço do destino,
Prendeu nações e reis ao monte Palatino,
E em doida bacanal depois desfaleceu.
Foi de Carlos o grande a excelsa companheira
Deu-lhe o trono de bronze, a espada aventureira,
E o globo imperial... e glórias... e troféus;
Quando, no escuro val, Rolando, moribundo,
Embocava a trombeta a despertar o mundo,
Erguia o colo a deusa além dos Pireneus!...
Seguiu Napoleão da França até o Egito,
Nos mares, no deserto, e em busca do infinito,
Das terras do Evangelho às terras do Corã...
Dos delírios da Europa aos sonhos do Oriente.
Teve medo, afinal, daquela febre ardente...
Lá no meio do mar prendeu esse Titã.
Ela estava a sorrir, serena e triunfante,
Aos pés de Farragut, o intrépido almirante,
Lá no tope do mastro, enquanto o monitor
Em doidas convulsões, das túmidas entranhas
Vomitava metralha a derribar montanhas,
E do mundo arrancava um grito de terror.
Ela estava também — espectro pavoroso —
Do Amazonas a bordo, ao lado de Barroso,
De pólvora cercada, em pé, sobre o convés...
Quando, à voz do valente, o monstro foi bufando,
Calados os canhões, navios esmagando,
A deusa varonil de amor caiu-lhe aos pés!
Salve, da guerra deusa, arcanjo da batalha!
Que voas no vapor, que ruges na metralha,
Que cantas do combate aos infernais clarões!
Quando arrancas do bronze os cânticos malditos,
O céu é fogo e aço; o ar — pólvora e gritos. . .
E ferve e corre o sangue em quentes borbotões!
Salve, tu! que nos deste o sonho da vingança,
O gládio da justiça o raio da esperança,
E da glória cruenta o mágico esplendor!
É para te saudar que brame a artilharia,
E que repete ao longe a voz da ventania
Das trombetas da morte o hórrido clangor!
Quando ela apareceu no escuro do horizonte,
O cabelo revolto... a palidez na fronte. .
Aos ventos sacudindo o rubro pavilhão,
Resplandente de sol, de sangue fumegante,
O raio iluminou a terra ... nesse instante
Frenética e viril ergueu-se uma nação!
1 712
Oliveira Roma
Ciência Humana
Sentindo quanto ardor um visionário sente,
Sonhando uma verdade ideal mas fugidia,
Segue o Homem, a lutar, por essa estranha via
Que liga o berço ansioso ao túmulo silente.
Perscruta, indaga, inquire e, dolorosamente,
Vacila a cada passo, e vaga em fantasia,
Pois a meta final é como a orla sombria
Do horizonte, que foge, inconstante, da gente.
Um momento parece alcançar o que quer;
Logo, porém, resvala, impróvido e impotente,
Num engano grosseiro e insólito qualquer.
E nessas mutações os dias se consomem...
Na dúvida consiste, inevitavelmente,
O resumo total de toda a ciência do Homem!
Sonhando uma verdade ideal mas fugidia,
Segue o Homem, a lutar, por essa estranha via
Que liga o berço ansioso ao túmulo silente.
Perscruta, indaga, inquire e, dolorosamente,
Vacila a cada passo, e vaga em fantasia,
Pois a meta final é como a orla sombria
Do horizonte, que foge, inconstante, da gente.
Um momento parece alcançar o que quer;
Logo, porém, resvala, impróvido e impotente,
Num engano grosseiro e insólito qualquer.
E nessas mutações os dias se consomem...
Na dúvida consiste, inevitavelmente,
O resumo total de toda a ciência do Homem!
732
Ona Gaia
O Sentido do Amor
Devir Louco
Que me desculpem os seus exacerbados paladinos, mas o devir louco é o reino das paixões. E a paixão? oh! a paixão, o que é isto caro leitor? É bem possível que você tenha a sua opinião. Apesar disso, permita que eu externe a minha. Bem, antes de mais nada a coloquemos no seu devido lugar, ou seja, dentro do corpo. Afinal, toda e qualquer paixão emana do corpo e o corpo é a sua fonte primeira e última. No corpo, a paixão é uma das nossas emoções, como o medo, o susto, a alegria, a coragem e etc. Inclusive, delas, é a principal, posto ser através da paixão que os animais suprem suas necessidades básicas, como a alimentação e o acasalamento. Decididamente, por ser uma emoção básica em qualquer animal, a paixão não é uma conquista da civilização ou da cultura. A paixão, sem dúvida, não é uma invenção humana.
Os seres humanos, entretanto, incorporaram as diversas paixões possíveis, isto é, as emoções, aos seus códigos, símbolos e condutas culturais. Entre os procedimentos necessários da paixão, decodificados e incorporados nas manifestações culturais, um dos mais antigos é a postura de caçador. Esta veio a ser a base modeladora de muitos mitos e ritos ao longo dos 100 mil anos de existência do Homo sapiens sapiens. No bojo dessa postura caçadora veio a paixão pela guerra.
Como condição necessária da vida animal, as emoções evocam situações restritivas uma vez que as necessidades são necessárias apenas enquanto o prazer é ausente. Se há falta, há necessidade e a sua satisfação é o seu limite. Além da necessidade há outra coisa, mas não mais o domínio da emoção. Há sentimento. Porém, a satisfação de uma paixão é o fim e início de outra falta. O ciclo gira em torno da necessidade, da falta e da satisfação, que neste caso, é sempre provisória: mais cedo ou mais tarde o caçador deverá sair à campo atrás de mais caça. E a satisfação, então passageira, não será nada mais ou nada menos do que o retorno da superação de uma necessidade insistindo em voltar. O retorno da necessidade através da permanência da falta, aflora assim que o desejo é satisfeito.
Não há como escapar disso amigo. Se a paixão é uma emoção necessária, sua satisfação deverá ser permanentemente ratificada. Neste caso, enquanto expressão básica da vida animal, a paixão existe porque existe a fome e a reprodução, que garantem a sobrevivência das espécies. Portanto, a paixão está presente no ser humano, assim como está presente nos animais selvagens, sejam mamíferos, répteis ou aves, porque é um instinto básico da luta pela sobrevivência. A paixão, quem diria, hem? é uma emoção demasiada animal!
A guerra só é possível quando existe a paixão por uma causa, na qual a luta pela sobrevivência, traduzida como necessidade de conquista, é um poderoso argumento de convencimento. Entretanto, se é necessidade, isto é, se a paixão é da conta dos instintos e, obviamente, do corpo, então seus parâmetros emocionais estão diretamente relacionados aos ciclos vitais. Ciclos esses que se colocam entre o nascimento e a morte. Em síntese, entre o prazer da vida (o prazer do ganho) e a dor da morte ( dor da perda).
Enquanto substrato de emoções tão díspares, como aquelas que se manifestam no prazer ou na dor, a paixão se manifesta positiva ou negativamente, dependendo do nível da falta a ser satisfeita. Em nome da satisfação da necessidade ausente, a luta e a morte são perfeitamente justificáveis.
Ah, a morte! Limite de toda e qualquer necessidade: a morte de um em prol da permanência de outro; o caçador mata a caça para permanecer vivo; para suprir uma falta só identificável na sua necessidade particular; identidade que só enxerga a si mesmo, acabando por excluir tudo o que é diferente, externo ou estranho. Porém, a natureza caçadora desconhece que ninguém abate uma presa impunemente. Todos os atos efetivados, unicamente, com a emoção da conquista, compromete os corpos envolvidos para sempre. Portanto, a conquista do outro ou do mundo, para a glória do ego, compromete o eu, o outro e ou o mundo, numa mesma miragem sem cor.
Como a paixão se manifesta no corpo, para o corpo e pela química do corpo, que segundo alguns até pode ser identificada e quantificada, ele é a sua catedral. Por isso que a morte desde o início, foi uma questão importante para a consciência. Uma vez que todo esforço visava a manutenção do corpo, como a sua ruína poderia ser tão inexorável, irrevogável, inevitável e improrrogável? Não, não poderia. A morte não era o limite do corpo e, com isto, descobriram a alma, coisa cuja estrutura invisível, sobrevivia além da carne. Opa, incrível! para espanto de alguns, logo descobriram que a alma também apresentava necessidades a serem satisfeitas. Daí inventaram a religião e, as suas manifestações, que desde sempre, foram expressadas através da paixão. Trágica paixão.
As necessidades da alma seriam carências muito profundas que, por sua vez, no extremo oposto, estavam na essência da vida. Por isto o homem inventou este artifício chamado religião, decidido a suprir a maior de todas as faltas, a da vida depois da morte. Visando preencher suas bases: falta, identidade, necessidade e exclusão; desviaram todos os recursos excedentes - aqueles os quais ficaram além das necessidades, quando foram produzidos ao longo do desenvolvimento das civilizações urbanas -, para um corpo invisível, intangível e cujas necessidades e faltas, de fato, ninguém sabia dizer ao certo quais eram. E muitos, em nome disto, se desviaram da natureza e do próprio corpo, porque quiseram acreditar que a vida, a eterna, não era física, porém incorpórea; incomensurável e perfeita mas no entanto, absolutamente fora deste mundo.
Projetada para o espaço inatingível, a paixão criou deuses, santos e até homens coroados por espíritos sobrenaturais, que se apropriando de necessidades divinas impossíveis, justificaram conquistas, massacres, extermínios e a exploração de uns poucos sobre a maioria. E o poder de alguns homens ser mais especial que dos demais mortais, encontrava justificativa por estes se nomearem os representantes, na Terra, das necessidades espirituais segundo as quais eles deveriam suprir.
Está claro que a paixão é eminentemente masculina. Afinal ela não foi aperfeiçoada pelo caçador e pelo guerreiro? Então!?!.. Nada de ilusão, óbvio que ela também está presente na mulher. Aliás, a eminência masculina da paixão no ser humano não se manifesta, forçosamente, do mesmo modo como nos demais representantes do reino animal. É mais que sabido, que entre os leões, por exemplo, são as fêmeas que caçam. Entretanto, cada animal é um animal e embora a paixão se manifeste em todos, foram os homens, através da caça e da guerra, que lapidaram e legaram às civilizações, a atitude apaixonada. A paixão, na mulher, veio a ser reconhecida apenas quando a alma foi descoberta. E o ingresso delas nos rituais até então masculinos, de iniciação espiritual, veio a ser tardio.
Entre as paixões que se manifestam na mulher, a especial, é a que diz respeito à reprodução. Por conta disto a paixão, na mulher, é mais objetivamente (efetivamente) agradável do que no homem. Ou seja, a mulher sente no corpo a satisfação da necessidade reprodutora. Através do sexo, a mulher tem no prazer, algo muito mais objetivo que o homem. Nele, as paixões da caça, guerra e religião, tornam-no mais subjetivo, muito mais estratégico. Na mulher não. Seu corpo físico é um campo de emoções poderosas, pois dele emanam sensações orgânicas, muito mais ricas do que nos homens. Mas ela também está entre o prazer e a dor e nela isto é muito mais bem percebido, visto não adiantar a satisfação de certas faltas, mesmo na fartura haverá a menstruação e senão, a dor do parto.
Na base da nossa atual civilização, entre as paixões, aquelas que foram consideradas as mais importantes de todas, são as da alma. E com um significado trágico: na Idade Média isto se tornou mais claro, ao interpretarem
Que me desculpem os seus exacerbados paladinos, mas o devir louco é o reino das paixões. E a paixão? oh! a paixão, o que é isto caro leitor? É bem possível que você tenha a sua opinião. Apesar disso, permita que eu externe a minha. Bem, antes de mais nada a coloquemos no seu devido lugar, ou seja, dentro do corpo. Afinal, toda e qualquer paixão emana do corpo e o corpo é a sua fonte primeira e última. No corpo, a paixão é uma das nossas emoções, como o medo, o susto, a alegria, a coragem e etc. Inclusive, delas, é a principal, posto ser através da paixão que os animais suprem suas necessidades básicas, como a alimentação e o acasalamento. Decididamente, por ser uma emoção básica em qualquer animal, a paixão não é uma conquista da civilização ou da cultura. A paixão, sem dúvida, não é uma invenção humana.
Os seres humanos, entretanto, incorporaram as diversas paixões possíveis, isto é, as emoções, aos seus códigos, símbolos e condutas culturais. Entre os procedimentos necessários da paixão, decodificados e incorporados nas manifestações culturais, um dos mais antigos é a postura de caçador. Esta veio a ser a base modeladora de muitos mitos e ritos ao longo dos 100 mil anos de existência do Homo sapiens sapiens. No bojo dessa postura caçadora veio a paixão pela guerra.
Como condição necessária da vida animal, as emoções evocam situações restritivas uma vez que as necessidades são necessárias apenas enquanto o prazer é ausente. Se há falta, há necessidade e a sua satisfação é o seu limite. Além da necessidade há outra coisa, mas não mais o domínio da emoção. Há sentimento. Porém, a satisfação de uma paixão é o fim e início de outra falta. O ciclo gira em torno da necessidade, da falta e da satisfação, que neste caso, é sempre provisória: mais cedo ou mais tarde o caçador deverá sair à campo atrás de mais caça. E a satisfação, então passageira, não será nada mais ou nada menos do que o retorno da superação de uma necessidade insistindo em voltar. O retorno da necessidade através da permanência da falta, aflora assim que o desejo é satisfeito.
Não há como escapar disso amigo. Se a paixão é uma emoção necessária, sua satisfação deverá ser permanentemente ratificada. Neste caso, enquanto expressão básica da vida animal, a paixão existe porque existe a fome e a reprodução, que garantem a sobrevivência das espécies. Portanto, a paixão está presente no ser humano, assim como está presente nos animais selvagens, sejam mamíferos, répteis ou aves, porque é um instinto básico da luta pela sobrevivência. A paixão, quem diria, hem? é uma emoção demasiada animal!
A guerra só é possível quando existe a paixão por uma causa, na qual a luta pela sobrevivência, traduzida como necessidade de conquista, é um poderoso argumento de convencimento. Entretanto, se é necessidade, isto é, se a paixão é da conta dos instintos e, obviamente, do corpo, então seus parâmetros emocionais estão diretamente relacionados aos ciclos vitais. Ciclos esses que se colocam entre o nascimento e a morte. Em síntese, entre o prazer da vida (o prazer do ganho) e a dor da morte ( dor da perda).
Enquanto substrato de emoções tão díspares, como aquelas que se manifestam no prazer ou na dor, a paixão se manifesta positiva ou negativamente, dependendo do nível da falta a ser satisfeita. Em nome da satisfação da necessidade ausente, a luta e a morte são perfeitamente justificáveis.
Ah, a morte! Limite de toda e qualquer necessidade: a morte de um em prol da permanência de outro; o caçador mata a caça para permanecer vivo; para suprir uma falta só identificável na sua necessidade particular; identidade que só enxerga a si mesmo, acabando por excluir tudo o que é diferente, externo ou estranho. Porém, a natureza caçadora desconhece que ninguém abate uma presa impunemente. Todos os atos efetivados, unicamente, com a emoção da conquista, compromete os corpos envolvidos para sempre. Portanto, a conquista do outro ou do mundo, para a glória do ego, compromete o eu, o outro e ou o mundo, numa mesma miragem sem cor.
Como a paixão se manifesta no corpo, para o corpo e pela química do corpo, que segundo alguns até pode ser identificada e quantificada, ele é a sua catedral. Por isso que a morte desde o início, foi uma questão importante para a consciência. Uma vez que todo esforço visava a manutenção do corpo, como a sua ruína poderia ser tão inexorável, irrevogável, inevitável e improrrogável? Não, não poderia. A morte não era o limite do corpo e, com isto, descobriram a alma, coisa cuja estrutura invisível, sobrevivia além da carne. Opa, incrível! para espanto de alguns, logo descobriram que a alma também apresentava necessidades a serem satisfeitas. Daí inventaram a religião e, as suas manifestações, que desde sempre, foram expressadas através da paixão. Trágica paixão.
As necessidades da alma seriam carências muito profundas que, por sua vez, no extremo oposto, estavam na essência da vida. Por isto o homem inventou este artifício chamado religião, decidido a suprir a maior de todas as faltas, a da vida depois da morte. Visando preencher suas bases: falta, identidade, necessidade e exclusão; desviaram todos os recursos excedentes - aqueles os quais ficaram além das necessidades, quando foram produzidos ao longo do desenvolvimento das civilizações urbanas -, para um corpo invisível, intangível e cujas necessidades e faltas, de fato, ninguém sabia dizer ao certo quais eram. E muitos, em nome disto, se desviaram da natureza e do próprio corpo, porque quiseram acreditar que a vida, a eterna, não era física, porém incorpórea; incomensurável e perfeita mas no entanto, absolutamente fora deste mundo.
Projetada para o espaço inatingível, a paixão criou deuses, santos e até homens coroados por espíritos sobrenaturais, que se apropriando de necessidades divinas impossíveis, justificaram conquistas, massacres, extermínios e a exploração de uns poucos sobre a maioria. E o poder de alguns homens ser mais especial que dos demais mortais, encontrava justificativa por estes se nomearem os representantes, na Terra, das necessidades espirituais segundo as quais eles deveriam suprir.
Está claro que a paixão é eminentemente masculina. Afinal ela não foi aperfeiçoada pelo caçador e pelo guerreiro? Então!?!.. Nada de ilusão, óbvio que ela também está presente na mulher. Aliás, a eminência masculina da paixão no ser humano não se manifesta, forçosamente, do mesmo modo como nos demais representantes do reino animal. É mais que sabido, que entre os leões, por exemplo, são as fêmeas que caçam. Entretanto, cada animal é um animal e embora a paixão se manifeste em todos, foram os homens, através da caça e da guerra, que lapidaram e legaram às civilizações, a atitude apaixonada. A paixão, na mulher, veio a ser reconhecida apenas quando a alma foi descoberta. E o ingresso delas nos rituais até então masculinos, de iniciação espiritual, veio a ser tardio.
Entre as paixões que se manifestam na mulher, a especial, é a que diz respeito à reprodução. Por conta disto a paixão, na mulher, é mais objetivamente (efetivamente) agradável do que no homem. Ou seja, a mulher sente no corpo a satisfação da necessidade reprodutora. Através do sexo, a mulher tem no prazer, algo muito mais objetivo que o homem. Nele, as paixões da caça, guerra e religião, tornam-no mais subjetivo, muito mais estratégico. Na mulher não. Seu corpo físico é um campo de emoções poderosas, pois dele emanam sensações orgânicas, muito mais ricas do que nos homens. Mas ela também está entre o prazer e a dor e nela isto é muito mais bem percebido, visto não adiantar a satisfação de certas faltas, mesmo na fartura haverá a menstruação e senão, a dor do parto.
Na base da nossa atual civilização, entre as paixões, aquelas que foram consideradas as mais importantes de todas, são as da alma. E com um significado trágico: na Idade Média isto se tornou mais claro, ao interpretarem
682
Otacílio de Azevedo
Morria o Sol no Ocaso
Morria o sol no ocaso e o olhar de minha amada
qual rubro sol distante, a rutilar, morria...
Gemia o seu soluço errando pela estrada
e errando pela estrada eu, mísero, gemia!
Perdia o sol tombando, a clara luz doirada
e o vulto dela, ao longe, aos poucos, se perdia.
Fugia o meu olhar no curso da jornada
e o seu magoado olhar tristíssimo fugia...
O sol tombou no poente em nuvens de oiro e arminha,
e Cleonice, chorando, à curva do meu caminho,
entre as sombras da noite, exânime tombou...
Entanto, o mesmo sol que desmaiara outrora,
vem todas as manhãs ao despontar da aurora,
só ela, nunca mais, oh! nunca mais voltou!
qual rubro sol distante, a rutilar, morria...
Gemia o seu soluço errando pela estrada
e errando pela estrada eu, mísero, gemia!
Perdia o sol tombando, a clara luz doirada
e o vulto dela, ao longe, aos poucos, se perdia.
Fugia o meu olhar no curso da jornada
e o seu magoado olhar tristíssimo fugia...
O sol tombou no poente em nuvens de oiro e arminha,
e Cleonice, chorando, à curva do meu caminho,
entre as sombras da noite, exânime tombou...
Entanto, o mesmo sol que desmaiara outrora,
vem todas as manhãs ao despontar da aurora,
só ela, nunca mais, oh! nunca mais voltou!
1 181
Miguel Russowsky
Noturno nº 2
Anseios de verão... Noite clara, sem bruma.
A lua argêntea adorna uma paisagem maga.
A flor perfuma... A lua brilha... O vento vaga
como doce carícia angelical de pluma.
As nuvens pelo céu — enfermeiras de espuma —
se prpõe a curar qualquer dorida chaga.
No silêncio dormita um repouso de saga.
A lua brilha... O vento vaga... A flor perfuma...
Uma fada de azul — fugitiva de lenda —
escreve em cada rosa uma nova armadilha.
Cupido ergue na sombra o seu punhal de renda.
Com preguiça o relógio esquece e compartilha...
Diana vai marcando um nome em cada agenda:
A flor perfuma... O vento vaga... A lua brilha...
A lua argêntea adorna uma paisagem maga.
A flor perfuma... A lua brilha... O vento vaga
como doce carícia angelical de pluma.
As nuvens pelo céu — enfermeiras de espuma —
se prpõe a curar qualquer dorida chaga.
No silêncio dormita um repouso de saga.
A lua brilha... O vento vaga... A flor perfuma...
Uma fada de azul — fugitiva de lenda —
escreve em cada rosa uma nova armadilha.
Cupido ergue na sombra o seu punhal de renda.
Com preguiça o relógio esquece e compartilha...
Diana vai marcando um nome em cada agenda:
A flor perfuma... O vento vaga... A lua brilha...
1 032
Menezes y Morais
Memórias (Caminhos de Estrelas)
Vênus incendiava teus cabelos naquela noite
em q caminhávamos refletidos nas águas
margens assassinadas do rio poti
e no mangal
eu viajei na constelação dos teus olhos
e te dizia
a vida vai além daquilo q a gente imagina
e a liberdade pode estar ali
na próxima esquina
e sobre os trilhos noturnos
convergendo olhares favelados
com a tua mão esquerda dentro da minha direita
sentimos o fogo estrelar daquela noite azul
no céu de teresina
e o vento soprou leve
sussurrando em tua boca
entre o rio e a cidade existe um caminho
onde o tempo cicatriza toda dor
em q caminhávamos refletidos nas águas
margens assassinadas do rio poti
e no mangal
eu viajei na constelação dos teus olhos
e te dizia
a vida vai além daquilo q a gente imagina
e a liberdade pode estar ali
na próxima esquina
e sobre os trilhos noturnos
convergendo olhares favelados
com a tua mão esquerda dentro da minha direita
sentimos o fogo estrelar daquela noite azul
no céu de teresina
e o vento soprou leve
sussurrando em tua boca
entre o rio e a cidade existe um caminho
onde o tempo cicatriza toda dor
809
Marcelo Perrone
Serás feliz
Far-te-ei muito feliz.Te darei tudo o que precisares.
Aguçarei meu faro para saciar tuas necessidades.antes que tu possas notá-las.
Saciarei tua fome com frutosda minha horta de amor que regasdiariamente com teu olhar.
Encherei nosso quarto de flores todas as noitesSó para ver-te saindo do banheiro de camisolaE quando fores deitar-te tomarás cuidado para não amarrotar as rosas.
Não morrerei por ti...Morrerei contigo.Assim abraçadinho.Pois não deixareinem a morte machucar-te.
Para minha namorada Heloisa Ballura Castelo Branco.
A serem divulgadas no Jornal de Poesia
-Sem Data-
Aguçarei meu faro para saciar tuas necessidades.antes que tu possas notá-las.
Saciarei tua fome com frutosda minha horta de amor que regasdiariamente com teu olhar.
Encherei nosso quarto de flores todas as noitesSó para ver-te saindo do banheiro de camisolaE quando fores deitar-te tomarás cuidado para não amarrotar as rosas.
Não morrerei por ti...Morrerei contigo.Assim abraçadinho.Pois não deixareinem a morte machucar-te.
Para minha namorada Heloisa Ballura Castelo Branco.
A serem divulgadas no Jornal de Poesia
-Sem Data-
965
Marcelo Reis
Entorpecer
Entorpecer
Vida, se tu pudesses ser bebericada
Em xícaras de fumaça,
Lá estaria eu, entorpecido
Pelas nuvens do mesmo líquido
Eu poderia voar até o teu colo
Até o teu beijo e até o teu olhar
E penetrar no manto da noite
Para te encarar verdadeiramente
Vida, te quis face a face
E para isso dancei uma valsa,
Uma valsa com a Morte
A doce, inofensiva e serena Morte
Tão fácil de se apaixonar, apaixonou-se
O que me restou foi levá-la para a cama
Lavar-lhe o corpo, oferecer-lhe um pouco de meu amor
E por fim molhar-lhe as pálpebras cansadas
Agora, Vida, que sucumbi a Morte de paixão,
Te quero imensa e fanaticamente
Cubra-me todas as pequenas noites frias
E me liberte nas grandes noites quentes
Ao comando de teus arcanjos
Estou submetido
E de ti, tenho certeza,
As cores todas se alimentam
Vida, se tu pudesses ser bebericada
Em xícaras de fumaça,
Lá estaria eu, entorpecido
Pelas nuvens do mesmo líquido
Eu poderia voar até o teu colo
Até o teu beijo e até o teu olhar
E penetrar no manto da noite
Para te encarar verdadeiramente
Vida, te quis face a face
E para isso dancei uma valsa,
Uma valsa com a Morte
A doce, inofensiva e serena Morte
Tão fácil de se apaixonar, apaixonou-se
O que me restou foi levá-la para a cama
Lavar-lhe o corpo, oferecer-lhe um pouco de meu amor
E por fim molhar-lhe as pálpebras cansadas
Agora, Vida, que sucumbi a Morte de paixão,
Te quero imensa e fanaticamente
Cubra-me todas as pequenas noites frias
E me liberte nas grandes noites quentes
Ao comando de teus arcanjos
Estou submetido
E de ti, tenho certeza,
As cores todas se alimentam
1 061
Matheus Tonello
Eclipse Solar
Foi num dia límpido de verão
Que tudo chegou ao seu fim
Tendo o Sol como testemunha
Você disse: -Eu não te quero pra mim!
Neste dia, as pombas não voaram para o sul
O vento parou de soprar ao norte
O dia perdeu todo seu encanto
Para mim, só restou a morte.
O Sol neste dia se escondeu por completo
E logo cessou de brilhar
Se escondeu por trás da formosa Lua
E em prantos, pôs-se inteiramente a chorar!
Que tudo chegou ao seu fim
Tendo o Sol como testemunha
Você disse: -Eu não te quero pra mim!
Neste dia, as pombas não voaram para o sul
O vento parou de soprar ao norte
O dia perdeu todo seu encanto
Para mim, só restou a morte.
O Sol neste dia se escondeu por completo
E logo cessou de brilhar
Se escondeu por trás da formosa Lua
E em prantos, pôs-se inteiramente a chorar!
1 249
Manuel Sobrinho
Meu Sabiá
Subindo os alcantis, galgando o azul, varria
O áureo clarão da aurora as sombras no Nascente.
Sustenidos, bemóis, pelo festivo ambiente
Vibrava o passaredo, hinos entoando ao dia.
Vencendo pouco a pouco a tristeza e a apatia
Em que a envolvera a treva, inexoravelmente,
A natureza enfim livre e resplandecente,
Com régia majestade e intrepidez se erguia.
Tudo acordava e ria um rio amável, tudo!
Só na estreita gaiola, impassível e mudo,
Dir-se-ia meu sabiá num pensamento absorto...
É que — maldade humana! — o pobre passarinho,
De saudades, talvez, do profanado ninho,
Perdera a voz, que eu tanto ouvira... — Estava morto!
O áureo clarão da aurora as sombras no Nascente.
Sustenidos, bemóis, pelo festivo ambiente
Vibrava o passaredo, hinos entoando ao dia.
Vencendo pouco a pouco a tristeza e a apatia
Em que a envolvera a treva, inexoravelmente,
A natureza enfim livre e resplandecente,
Com régia majestade e intrepidez se erguia.
Tudo acordava e ria um rio amável, tudo!
Só na estreita gaiola, impassível e mudo,
Dir-se-ia meu sabiá num pensamento absorto...
É que — maldade humana! — o pobre passarinho,
De saudades, talvez, do profanado ninho,
Perdera a voz, que eu tanto ouvira... — Estava morto!
603
Gerardo Mello Mourão
Vem, formosa mulher, camélia pálida
Vem, formosa mulher, camélia pálida
que banharam de luz as alvoradas
tu que ousaste com teus olhos verdes conhecer
a margem do caminho
quem sabe tu de torna-volta
Maria Helena do pais de Eleusis
do anjo da morte houveras aprendido
o mapa do sepulcro
o equador guardado e a latitude
onde a sibila dorme e a palavra
do sortilégio e da ressurreição:
os deuses a conhecem
e Lázaro acordou à sua sílaba
vinho da uva, água da fonte, luz da estrela
emanação do amor ela se diz
ao ouvido dos mortos
e eles estremecem
desatados da morte e do silêncio.
Não a ouviste talvez em tua morte tu
maestra del amor y de la muerte?
Sábio de lembrar-me de seus olhos
dela — sábia do amor, sábia da morte
sobre as areias do coração
não desmanchou a lágrima
a planta de seu pé:
e nesse rastro vamos
e uma noite qualquer é sua voz
o pomo do mistério partido em nossas mãos
o oráculo.
Madame Sosostris, Eliot, T. S. Eliot, o Major seu Né das Águas Belas
eram de profissão adivinhões:
ela era de profissão a minha amante
aprendiz na oficina de seus olhos
o oráculo da morta nos espanta
e quem se nós clamássemos nos ouviria mais que ela?
e atrás de seu caminho de mãos dadas
vai nosso amor mais forte do que a morte.
No solo las estrellas tienen el pulso del zenith
Léa
nas mãos dadas apertamos a estrela
e a minha profissão é o teu amor
e a tua profissão é o meu afago
pousa o dedo no lábios da cigana
e surge
musa única musa vera
única mais bela — morena e magnífica —
sobre o dorso dos ventos que deitam o canavial
sobre o lombo das novghas matinais em que te ensaias
para a doce viagem nos meus ombros
à ilha de cravo e mel
daquela estrela.
que banharam de luz as alvoradas
tu que ousaste com teus olhos verdes conhecer
a margem do caminho
quem sabe tu de torna-volta
Maria Helena do pais de Eleusis
do anjo da morte houveras aprendido
o mapa do sepulcro
o equador guardado e a latitude
onde a sibila dorme e a palavra
do sortilégio e da ressurreição:
os deuses a conhecem
e Lázaro acordou à sua sílaba
vinho da uva, água da fonte, luz da estrela
emanação do amor ela se diz
ao ouvido dos mortos
e eles estremecem
desatados da morte e do silêncio.
Não a ouviste talvez em tua morte tu
maestra del amor y de la muerte?
Sábio de lembrar-me de seus olhos
dela — sábia do amor, sábia da morte
sobre as areias do coração
não desmanchou a lágrima
a planta de seu pé:
e nesse rastro vamos
e uma noite qualquer é sua voz
o pomo do mistério partido em nossas mãos
o oráculo.
Madame Sosostris, Eliot, T. S. Eliot, o Major seu Né das Águas Belas
eram de profissão adivinhões:
ela era de profissão a minha amante
aprendiz na oficina de seus olhos
o oráculo da morta nos espanta
e quem se nós clamássemos nos ouviria mais que ela?
e atrás de seu caminho de mãos dadas
vai nosso amor mais forte do que a morte.
No solo las estrellas tienen el pulso del zenith
Léa
nas mãos dadas apertamos a estrela
e a minha profissão é o teu amor
e a tua profissão é o meu afago
pousa o dedo no lábios da cigana
e surge
musa única musa vera
única mais bela — morena e magnífica —
sobre o dorso dos ventos que deitam o canavial
sobre o lombo das novghas matinais em que te ensaias
para a doce viagem nos meus ombros
à ilha de cravo e mel
daquela estrela.
1 384
Gerardo Mello Mourão
Naquela tarde entre o cognac e o bourbon de New
Naquela tarde entre o cognac e o bourbon de New
Orleans conversávamos sobre Francisco
ancorado — doce e inquieto bergantim
ancorado em seu bar de São Paulo e de repente
o ar de seus pulmões arrendondou as velas e nas nuvens
pelas nuvens aos olhos
de Menelaus Gordon derelicto e Helena
Finamore — enfim o amor — aportou em New Orleans
com suas velas pandas de brisas fervorosas — Francisco
Francisco Luís de Almeida Salles:
Alexandre Mourão adornava o mar com seus clavinotes
ela com seus cabelos ao vento e seus seios dourados
sobre as águas verdes:
— Anne — je disais — Anne de Lille — e os marinheiros
à estrela perigosa de seus olhos
ensinavam a rota à nau de Helena
e o caminho do amor é o caminho da morte
e o caminho da morte é o caminho da vida
e o caminho da vida é teu caminho
pois, quem provou de tua boca e não morreu?
e eu
provei de tua boca e vivo dela
vivo da morte
e Helena
nutre de sua vida sua morte
e a vida
é a semente da morte — e a morte
é a flor da vida:
foge
Helena Finamore
de New Orleans
rumo à constelação das rosas e ao riso matinal
de Anne de Lille e suas
tangerinas verdes —
enquanto
pasta Menelaus a própria lágrima e a própria língua
e esta
é a derelição de Menelaus Gordon
não poder a morte
pois não pode a vida
e Helena pode o mar
e pode Anne de Lille abrir a rosa
da boca lancinada à flecha de Eros
e Francisco Luís pode a perpétua partida
no perpétuo porto
pois assim te encontramos, Apolo,
acenando sempre e não partindo nunca
e não chegando nunca e em teu rastro
é a partitura de teu tom
e ao tom de Apolo
venho cantando e quanto canto — canto
e começo a morrer
— e desde longe
venho cantando
e desde longe
começando a morrer
e da incessante morte
vai crescendo o caule
da vida imarcessível — e aqui
a flor do anacoluto
promete às folhas verdes
a maçã de teu rosto:
guardo na boca o fruto
desse riso
e o sumo
dessa lágrima :
— o adolescente
mordeu teu nome um dia
e é dele
nestes lábios maduros
maduro o canto à tua clave
clave de lua e lambda e Léa
e si lá sol fá mi ré dó
redor
dos arredores do crepúsculo
véspera de Vênus — e teu corpo irrompe
desde um monte de pétalas — pois assim
te quero — mera rosa —
na véspera do amor
e és tu a noite
e és tu a madrugada e o canto do galo e o meio-dia e
são a noite a madrugada o canto do galo e o meio-dia
e as vésperas o tempo de meu canto e minha duração:
por isso ensino às ondas
e às serras do país
o tom de Apolo
— e os vales ecoantes
repetem para sempre a melodia e um dia
há de voltar a clave de teu nome
à minha sepultura — e a flor
na flor de minha boca há de achar sua terra:
— sempreviva — dirão os ventos da província
pois não morrem, Apolo, os que aprenderam
a lira,
e a noite e a madrugada e as vésperas
vão florescendo
no eterno calendário onde sucedem
as três cordas da lira de teu nome
entre as moiras Léa
entre as musas Léa
entre os anjos Léa
entre Anne de Lille e Helena Finamore
enfim o amor
exala o testamento:
e vivo herdei a morte
e vou da morte
herdar a vida.
Pois conheci Menelaus Gordon e Paris Alexander
e Francisco Luís e Alexandre Mourão
e fui colhendo os inventários e os botins
uma palmeira em Delos
uma palavra em Delphos
e uma noite contigo
— e estas
foram minhas heranças, Apolo,
e uma viola serrana e dela guardo
a serenata e a serra
e dessa noite um beijo:
pois herdeiro de um beijo
beijo a flor
cata casta cata
Léa
pende dos lábios
teu espólio, Apolo,
a sesmaria que me deste — suas eiras e jeiras
as ribeiras verdes sob o céu
a cabra montês e os cavalos ruivos e as éguas ruivas:
pois entre os cavalos ruivos e as éguas ruivas e as
ribeiras verdes
passeio a peripécia da tristeza
peri
patética
e a cada passo invento a morte e sou
minha própria invenção
e inventei este deus e este país,
ao inventar, Apolo, o rastro
de teus pés no chão de Orfeu — o rastro
de tua flecha pelo céu e o rastro
de tua voz nos presságios da noite
no bóreas entre as folhas
na sonora fonte:
e quando mais ninguém
cantarei eu ainda os sagrados eólios
ao ouvido da ninfa
e à virilha da fêmea
Pois bem que estremeces, amore mio, quando
canta o galo encarnado à madrugada
de tuas coxas:
venho
do sono
— e uma vez
montei de um salto a égua malhada
e despertei
retinindo as esporas
no barro da alpendrada reiúna:
Helena se apeara da garupa
e os touros e os vaqueiros e os garrotes
dilatavam as narinas e urravam
e escarvavam o chão
e as orquídeas
abriam as vaginas lascivas
e os lábios abertos e as narinas tersas
esse cheiro de cio ao vento sertanejo
eras tu que chegavas
pois sempre chegas quando chega o canto
pois sempre chegas quando chega o amor
pois sempre chegas quando chega Apolo
Eleu
theria.
Orleans conversávamos sobre Francisco
ancorado — doce e inquieto bergantim
ancorado em seu bar de São Paulo e de repente
o ar de seus pulmões arrendondou as velas e nas nuvens
pelas nuvens aos olhos
de Menelaus Gordon derelicto e Helena
Finamore — enfim o amor — aportou em New Orleans
com suas velas pandas de brisas fervorosas — Francisco
Francisco Luís de Almeida Salles:
Alexandre Mourão adornava o mar com seus clavinotes
ela com seus cabelos ao vento e seus seios dourados
sobre as águas verdes:
— Anne — je disais — Anne de Lille — e os marinheiros
à estrela perigosa de seus olhos
ensinavam a rota à nau de Helena
e o caminho do amor é o caminho da morte
e o caminho da morte é o caminho da vida
e o caminho da vida é teu caminho
pois, quem provou de tua boca e não morreu?
e eu
provei de tua boca e vivo dela
vivo da morte
e Helena
nutre de sua vida sua morte
e a vida
é a semente da morte — e a morte
é a flor da vida:
foge
Helena Finamore
de New Orleans
rumo à constelação das rosas e ao riso matinal
de Anne de Lille e suas
tangerinas verdes —
enquanto
pasta Menelaus a própria lágrima e a própria língua
e esta
é a derelição de Menelaus Gordon
não poder a morte
pois não pode a vida
e Helena pode o mar
e pode Anne de Lille abrir a rosa
da boca lancinada à flecha de Eros
e Francisco Luís pode a perpétua partida
no perpétuo porto
pois assim te encontramos, Apolo,
acenando sempre e não partindo nunca
e não chegando nunca e em teu rastro
é a partitura de teu tom
e ao tom de Apolo
venho cantando e quanto canto — canto
e começo a morrer
— e desde longe
venho cantando
e desde longe
começando a morrer
e da incessante morte
vai crescendo o caule
da vida imarcessível — e aqui
a flor do anacoluto
promete às folhas verdes
a maçã de teu rosto:
guardo na boca o fruto
desse riso
e o sumo
dessa lágrima :
— o adolescente
mordeu teu nome um dia
e é dele
nestes lábios maduros
maduro o canto à tua clave
clave de lua e lambda e Léa
e si lá sol fá mi ré dó
redor
dos arredores do crepúsculo
véspera de Vênus — e teu corpo irrompe
desde um monte de pétalas — pois assim
te quero — mera rosa —
na véspera do amor
e és tu a noite
e és tu a madrugada e o canto do galo e o meio-dia e
são a noite a madrugada o canto do galo e o meio-dia
e as vésperas o tempo de meu canto e minha duração:
por isso ensino às ondas
e às serras do país
o tom de Apolo
— e os vales ecoantes
repetem para sempre a melodia e um dia
há de voltar a clave de teu nome
à minha sepultura — e a flor
na flor de minha boca há de achar sua terra:
— sempreviva — dirão os ventos da província
pois não morrem, Apolo, os que aprenderam
a lira,
e a noite e a madrugada e as vésperas
vão florescendo
no eterno calendário onde sucedem
as três cordas da lira de teu nome
entre as moiras Léa
entre as musas Léa
entre os anjos Léa
entre Anne de Lille e Helena Finamore
enfim o amor
exala o testamento:
e vivo herdei a morte
e vou da morte
herdar a vida.
Pois conheci Menelaus Gordon e Paris Alexander
e Francisco Luís e Alexandre Mourão
e fui colhendo os inventários e os botins
uma palmeira em Delos
uma palavra em Delphos
e uma noite contigo
— e estas
foram minhas heranças, Apolo,
e uma viola serrana e dela guardo
a serenata e a serra
e dessa noite um beijo:
pois herdeiro de um beijo
beijo a flor
cata casta cata
Léa
pende dos lábios
teu espólio, Apolo,
a sesmaria que me deste — suas eiras e jeiras
as ribeiras verdes sob o céu
a cabra montês e os cavalos ruivos e as éguas ruivas:
pois entre os cavalos ruivos e as éguas ruivas e as
ribeiras verdes
passeio a peripécia da tristeza
peri
patética
e a cada passo invento a morte e sou
minha própria invenção
e inventei este deus e este país,
ao inventar, Apolo, o rastro
de teus pés no chão de Orfeu — o rastro
de tua flecha pelo céu e o rastro
de tua voz nos presságios da noite
no bóreas entre as folhas
na sonora fonte:
e quando mais ninguém
cantarei eu ainda os sagrados eólios
ao ouvido da ninfa
e à virilha da fêmea
Pois bem que estremeces, amore mio, quando
canta o galo encarnado à madrugada
de tuas coxas:
venho
do sono
— e uma vez
montei de um salto a égua malhada
e despertei
retinindo as esporas
no barro da alpendrada reiúna:
Helena se apeara da garupa
e os touros e os vaqueiros e os garrotes
dilatavam as narinas e urravam
e escarvavam o chão
e as orquídeas
abriam as vaginas lascivas
e os lábios abertos e as narinas tersas
esse cheiro de cio ao vento sertanejo
eras tu que chegavas
pois sempre chegas quando chega o canto
pois sempre chegas quando chega o amor
pois sempre chegas quando chega Apolo
Eleu
theria.
1 038
Gerardo Mello Mourão
Coronel, estou vendo neste momento
Coronel, estou vendo neste momento os
cabras sangrarem o Padre Joaquim Mourão, daqui lá umas duzentas léguas,
no Maranhão"
e a vidente negra levou a mão ao velho seio onde mamaram
os filhos dos Mourões
e caiu com os olhos fulgurantes;
o Coronel mandou encher de paçoca os alforjes de couro
e encher de água da serra a borracha de sola
no arção da sela o terçado de cabo de ouro
na carona de vaqueta bordada sob os coxonilhos
cinqüenta contos de réis
o rifle na lua da sela
a matolagem e os capangas fiéis
quinze dias depois tirava o chapéu de couro e dobrava o joelho
diante da sepultura do Padre Mourão:
de duzentas léguas o sangue esguichara sobre
os olhos da vidente que lhe dera o seio
e os cabras no caminho de volta retiravam
sob o suadouro das cangalhas a manta
de carne de sol e enquanto
mastigavam os nacos sapecados na cachaça inflamada nos pratos de balança das
bodegas da estrada
ruminavam a morte;
e as veredas se enchiam de cruzes
e ao sacrifício dos padres inocentes
a bravura dos Mourões se celebrava
in illo tempore
e ungidos de Deus vamos morrendo
e flagelos de Deus vamos matando.
O mulato Tobias Barreto escrevia cartas em alemão ao filósofo alemão Emanuel Kant
e escreveu também a Monsenhor Gadelha Mourão, deputado
do Império e doutor de Roma:
"os padres deste país nem latim sabem mais, pois, como Vossa Reverendíssima,
aprendem é a mandar matar"
os assassinos do Padre Joaquim, de fato, estavam mortos
cum Christo erant
e o Monsenhor tirou uma edição de seu jornal político em São Luís do Maranhão,
toda em latim e remeteu ao prodigioso mulato
e veio a carta pedindo perdão:
"nunca li, Monsenhor, latim tão puro"
e uma nova edição explicava:
o latim era péssimo e cheio de eiva e fora escrito apenas para colher o elogio do sr.
Tobias Barreto e provar que ele, sim, não sabia latim:
Tobias fuit cum Christo: causa mortis — raiva apoplética contra
Monsenhor Mourão — testemunha Cynobelino.
Sabedora da morte, soberana da vida
a raça dos Mourões preparava o chão
e duro e puro
o espaço do cristal se construía
na clavina dos fortes e no sarcasmo dos sábios
in illo tempore.
cabras sangrarem o Padre Joaquim Mourão, daqui lá umas duzentas léguas,
no Maranhão"
e a vidente negra levou a mão ao velho seio onde mamaram
os filhos dos Mourões
e caiu com os olhos fulgurantes;
o Coronel mandou encher de paçoca os alforjes de couro
e encher de água da serra a borracha de sola
no arção da sela o terçado de cabo de ouro
na carona de vaqueta bordada sob os coxonilhos
cinqüenta contos de réis
o rifle na lua da sela
a matolagem e os capangas fiéis
quinze dias depois tirava o chapéu de couro e dobrava o joelho
diante da sepultura do Padre Mourão:
de duzentas léguas o sangue esguichara sobre
os olhos da vidente que lhe dera o seio
e os cabras no caminho de volta retiravam
sob o suadouro das cangalhas a manta
de carne de sol e enquanto
mastigavam os nacos sapecados na cachaça inflamada nos pratos de balança das
bodegas da estrada
ruminavam a morte;
e as veredas se enchiam de cruzes
e ao sacrifício dos padres inocentes
a bravura dos Mourões se celebrava
in illo tempore
e ungidos de Deus vamos morrendo
e flagelos de Deus vamos matando.
O mulato Tobias Barreto escrevia cartas em alemão ao filósofo alemão Emanuel Kant
e escreveu também a Monsenhor Gadelha Mourão, deputado
do Império e doutor de Roma:
"os padres deste país nem latim sabem mais, pois, como Vossa Reverendíssima,
aprendem é a mandar matar"
os assassinos do Padre Joaquim, de fato, estavam mortos
cum Christo erant
e o Monsenhor tirou uma edição de seu jornal político em São Luís do Maranhão,
toda em latim e remeteu ao prodigioso mulato
e veio a carta pedindo perdão:
"nunca li, Monsenhor, latim tão puro"
e uma nova edição explicava:
o latim era péssimo e cheio de eiva e fora escrito apenas para colher o elogio do sr.
Tobias Barreto e provar que ele, sim, não sabia latim:
Tobias fuit cum Christo: causa mortis — raiva apoplética contra
Monsenhor Mourão — testemunha Cynobelino.
Sabedora da morte, soberana da vida
a raça dos Mourões preparava o chão
e duro e puro
o espaço do cristal se construía
na clavina dos fortes e no sarcasmo dos sábios
in illo tempore.
679
Moreira Campos
Antecipação
Este fim de tarde,
estes túmulos,
a visita aos meus.
Esta solidão,
o silêncio dos meus próprios passos
entre carrapichos,
que se grudaram às minhas calças.
O apito longo da velha máquina
(perto é a oficina da Estrada de Ferro)
vem de longe,
tem tons de queixa e modulações de chamado.
Dominam-me a renúncia
e um desejo de antecipação.
estes túmulos,
a visita aos meus.
Esta solidão,
o silêncio dos meus próprios passos
entre carrapichos,
que se grudaram às minhas calças.
O apito longo da velha máquina
(perto é a oficina da Estrada de Ferro)
vem de longe,
tem tons de queixa e modulações de chamado.
Dominam-me a renúncia
e um desejo de antecipação.
1 098
Mário Donizete Massari
Trilogia
nascimento
— nasceu nas horas
que precedem
a fome
vida
— cresceu com fome
morte
— morreu de fome
— nasceu nas horas
que precedem
a fome
vida
— cresceu com fome
morte
— morreu de fome
742
Mário Donizete Massari
Viver e morrer
Viver por viver,
não é viver.
Viver é viver
viver a vida
sem ver,
o que se pode ver.
Viver e morrer
que um dia há de ser,
— mas nunca morrer sem viver
não é viver.
Viver é viver
viver a vida
sem ver,
o que se pode ver.
Viver e morrer
que um dia há de ser,
— mas nunca morrer sem viver
459
Mário Donizete Massari
Sinos
Os sinos batem
e bate em meu peito
uma dor profunda
Outrora, este sinos
me pareciam amigos
anunciando com a morte
o nascimento do mundo
Mas hoje, eles batem
E a minha dor é profunda
a dor de perder,
parte do meu mundo.
e bate em meu peito
uma dor profunda
Outrora, este sinos
me pareciam amigos
anunciando com a morte
o nascimento do mundo
Mas hoje, eles batem
E a minha dor é profunda
a dor de perder,
parte do meu mundo.
839
Mário Donizete Massari
Alicerce
Nas bases fortificadas
de cada coração
nos gestos trabalhados
de cada ato.
Nas avenidas iluminadas
no pátio das universidades
nos pensamentos obscenos
que ora nos invadem.
Nos gritos abafados
na noite
nos movimentos especulativos
da morte.
Nas rondas soturnas das estrelas, a nos
[seguir
ESTÁ O ALICERCE DO PROJETO
[QUE É A VIDA
de cada coração
nos gestos trabalhados
de cada ato.
Nas avenidas iluminadas
no pátio das universidades
nos pensamentos obscenos
que ora nos invadem.
Nos gritos abafados
na noite
nos movimentos especulativos
da morte.
Nas rondas soturnas das estrelas, a nos
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ESTÁ O ALICERCE DO PROJETO
[QUE É A VIDA
887
Marta Gonçalves
O vento nas Folhas
Converso com o tamarindo e escuto
o vento nas folhas.
A palavra cobre a terra, cobre
as mãos inquietas. A idade é remota.
Longe ficaram as sementes.
A idade cega os olhos e invade a morte.
Não tenho o sono do limbo. O muro nasce
a erva no pôr-do-sol. A árvore vem do tempo
das águas e traz a maresia dos cardumes.
O silêncio das nascentes guarda a lonjura
da canção. O mesmo silêncio no verde pinheiro.
O verso perdeu o sol. Quero falar da criança
da rosa do último adeus da velha casa.
Sombras habitam o âmago do texto.
Converso com o tamarindo a história da alma.
A alma se esqueceu das estrelas. O medo
das confissões e o desespero da fala abrigam
um século de vida nos dedos nodosos de sonhos.
o vento nas folhas.
A palavra cobre a terra, cobre
as mãos inquietas. A idade é remota.
Longe ficaram as sementes.
A idade cega os olhos e invade a morte.
Não tenho o sono do limbo. O muro nasce
a erva no pôr-do-sol. A árvore vem do tempo
das águas e traz a maresia dos cardumes.
O silêncio das nascentes guarda a lonjura
da canção. O mesmo silêncio no verde pinheiro.
O verso perdeu o sol. Quero falar da criança
da rosa do último adeus da velha casa.
Sombras habitam o âmago do texto.
Converso com o tamarindo a história da alma.
A alma se esqueceu das estrelas. O medo
das confissões e o desespero da fala abrigam
um século de vida nos dedos nodosos de sonhos.
997
Marta Gonçalves
Sutilezas
Brinco com seus lábios
já ausentes de meus olhos.
Imagino o relógio de sol
marcando peles brancas.
Lembranças envolvem sutilezas
que suas mãos ofereciam.
Doçuras carregam água de geleiras
e em cada verso que te oferto vejo
minha morte.
já ausentes de meus olhos.
Imagino o relógio de sol
marcando peles brancas.
Lembranças envolvem sutilezas
que suas mãos ofereciam.
Doçuras carregam água de geleiras
e em cada verso que te oferto vejo
minha morte.
940
Marcelo Almeida de Oliveira
Anti- homem
Mentira, mentira, mentira,
mentira que nos faz humanos,
panos no corpo, amor na cabeça,
certeza de tudo, menos da morte;
mentira, filha e mãe da razão,
convença-me de que não somos apenas macacos carecas.
mentira que nos faz humanos,
panos no corpo, amor na cabeça,
certeza de tudo, menos da morte;
mentira, filha e mãe da razão,
convença-me de que não somos apenas macacos carecas.
961
Mário Hélio
34-IV(Vegeptil)
lâmina de carne
carne de aço
expássaro vidrarte
rasga esse deus
tira a tua parte
o mundo é teu
a morte é uma arte
domina a dor
sereia de corpo na mão
centauro de nuvens azuis
braços nas mãos
lábios no fóssil
seios de vidro
musicacústica
baobás barrocos
vegetanimal
almas de metal
armas de ar puro
bizâncio lustral
cavaleiro eleito
nas mãos o cavalo
traga esse deus
arte da arte
a morte é uma parte
o mundo é teu
carne de aço
expássaro vidrarte
rasga esse deus
tira a tua parte
o mundo é teu
a morte é uma arte
domina a dor
sereia de corpo na mão
centauro de nuvens azuis
braços nas mãos
lábios no fóssil
seios de vidro
musicacústica
baobás barrocos
vegetanimal
almas de metal
armas de ar puro
bizâncio lustral
cavaleiro eleito
nas mãos o cavalo
traga esse deus
arte da arte
a morte é uma parte
o mundo é teu
731
Mário Hélio
35-V-(Esparsa)
desculpa meu edgar poe
mas talvez a tua dor
não tenha sensibilizado os nossos corações
meu caro edgar
mas ensinam muito
a quem tem mente e a quem não tem também
é pela sede de alguma coisa a mais
que buscamos refúgio no verso
só por isso
meu raro edgar
é para regar as nossas almas
para preencher velhos esparsos
somos os que pintam a morte
o medo de muitos
a dor de muitos
tamanhos
confusos horários
daqui à tua terra
à eternidade
até a eternidade
espero que não haja barreiras
desculpe meu claro edgar
mas esqueci que se eu errasse o caminho
só ouviria um longínquo pavoroso
silêncio
não despertem quem pensa
mas talvez a tua dor
não tenha sensibilizado os nossos corações
meu caro edgar
mas ensinam muito
a quem tem mente e a quem não tem também
é pela sede de alguma coisa a mais
que buscamos refúgio no verso
só por isso
meu raro edgar
é para regar as nossas almas
para preencher velhos esparsos
somos os que pintam a morte
o medo de muitos
a dor de muitos
tamanhos
confusos horários
daqui à tua terra
à eternidade
até a eternidade
espero que não haja barreiras
desculpe meu claro edgar
mas esqueci que se eu errasse o caminho
só ouviria um longínquo pavoroso
silêncio
não despertem quem pensa
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