Angústia

Poemas neste tema

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

D'outra vida mais bela

D'outra vida mais bela
A esperança já desesperada,
A gélida e constante aspiração.
1 237
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Afastai-vos de mim, outrora horror

Afastai-vos de mim, outrora horror
De mim pensado, e um grato sono pesa
Já sobre o que me sinto. Como quando
A fadiga, em princípio de dormirmos,
Se torna um prazer vago e um começo
Do sono em que a percamos, assim pouco
A pouco um múrmuro cessar da mente
Me inebria de sombras e me esquece
De mim, e me anoitece lentamente.
1 220
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

WOE SUPREME

A friend said once to me: «All that thou writest,
Surely 'tis fancy, and pretence, and feigned;
Surely the moaning wherewith thou affrightest
The healthy mind is preconceived and strained!

´ln all the songs and tales that thou indictest
Why's there no word that is not hard or pained?
Why in good things and true thou not delightest,
But even in youth by thee joys are disdained?»

Because, dear friend, thought to be mad is sweet
Sometimes, and though at others nameless woe,
Yet never human pain the pain can meet

Of the mad brain that doth its madness know;
Because my science learn'd has made complete
The knowledge of an ill that cannot go.
1 346
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

É abismadamente curioso

É abismadamente curioso
E transcendentemente negro e fundo
Ver os seres, os entes a mover-se
A rir a (...), a falar, a (...)
Na luz e no calor; e neles todos
Um mistério que torna tudo negro
E faz a vida horror incompreendido.

Uma noite de Tudo que é um Nada
Um abismo de Nada que é um Tudo.
1 603
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

A clareza falsa, rígida, não-lar dos hospitais

A clareza falsa, rígida, não-lar dos hospitais
A alegria humana, vivaz, sobre o caso da vizinha
Da mãe inconsolável a que o filho morreu há um ano

Trapos somos, trapos amamos, trapos agimos —
Que trapo tudo que é este mundo!
1 350
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

ODE MARCIAL [a]

ODE MARCIAL

Clarins na noite,
Clarins na noite,
Clarins subitamente distintos na noite...

(É de cavalgada, de cavalgada, de cavalgada o ruído longínquo?)

O que é [que] estremece de diverso pela erva e nas almas?
O que é que se vai alterar e já lá longe se altera —
Na distância, no futuro, na angústia — não se sabe onde — ?

Clarins na noite,
Clarins... na noite,
Clari-i-i-i-ins.....

É de cavalgada,
É de cavalgada, de cavalgada,
É de cavalgada, de cavalgada, de cavalgada
O ruído, ruído, ruído agora já nítido.

Vejo-as no coração e no horror que há em mim:
Valquírias, bruxas, amazonas do assombro...
São um grande sonho — mistério de sombras pegadas que mexe na noite.
Vêm em cavalgada, e a terra estremece duas vezes,
E o coração como a terra estremece duas vezes também.

Vêm do fundo do mundo,
Vêm do abismo das coisas,
Vêm de onde partem as leis que governam tudo;
Vêm de onde a injustiça derrama-se sobre os seres,
Vêm de onde se vê que é inútil amar e querer,
E só a guerra e o mal são o dentro e fora do mundo.

Hela-hô-hôôô...helahô-hôôôôô.......
1 206
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

ASPIRATION

Joyless seeing me to be
Mother Nature asked of me:
        «What desirest thou?
Whence comes this thy misery?
Whence the sadness on thy brow?
        Tell me what thy wish is.»

- «To give it thou art powerless.
Something lovelier than love,
Bluer than the sky above,
Truer than the truth we have
Something better than the grave,
Aught that in the soul has root,
Something that no mistress' kiss
Nor mother's love can substitute.
But I, dreaming, do pollute
With my dream its object's day.»

In the silence absolute
Of my soul I hear it say:

´'Love can make me but to weep,
        Glory maketh me but pine.
        Give the world with my keep,
        And still nothing will be mine.'»

- «But what feelest thou in thee?»

- «Hope and misery the first,
Then despair and misery.

´Oh, it is a desire, a thirst
The limits of my soul to burst,
To spring outside my consciousness,
        I know not how nor why;
A wish with moonlight wings to fly
Past the high walls of distress.
Lifting my most daring flight
Up, far up, beyond all night,
More than eagles fly in air
Would I in that atmosphere.

«Something more near to me in space
        Than my body is. In fine
Something than myself more mine.
Something (in what words to trace
Its nature?) nearer in its bliss
To me than my own consciousness.
The Something I desire is this.
It is further than far away
And yet (its nature how to find?)
        Closer to me than my mind,
        Nearer to me than to-day.»
1 370
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Horror! Conhecer intimamente

Horror! Conhecer intimamente
O transcendente horror dum corpo humano!
Sentir o mistério doutra vida
Tão intimamente perto... quase nosso
E como que carnalizar em hórrida
Intranscendência o mistério em si.
1 718
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Não poder Tarde

Não poder Tarde
Adivinhar (...) o teu segredo
E o teu mistério ilúcido ignorar
E o que tens que (...) esta emoção
Encontrar   (...)    e o sentido,
Vaga desesperança quase amarga,
Da sensação que dás. Dás-me um aumento
Da muda comoção indefinida
Que sonha dentro em mim, uma ânsia como
Que um esquecer de mal lembradas cousas,
Ou de esquecidas vago relembrar,
Intensas, rumorosas, torturadas,
Mágoas de quem (a) existir se sente,
Inconsolável desesperação,
Vazia plenitude do sofrer.
1 137
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Seja: / Já que este audaz e imenso pensamento

Seja:
Já que este audaz e imenso pensamento
Me desliga de tudo e me faz negro
Estranho e alheio à existência humana,
O riso, o pranto, o amor,
Visto que tudo me é estranho e outro
E eu isolado estou, já que não sei
Onde a causa ou a essência disto tudo,
Já que conheço que essa íntima essência
Foge do nosso sentimento e que eu
Não a posso odiar, amar, sentir-me
Para com ela,
Odeie o que odiar eu possa, odeie
Este universo todo, de que sou
Isolado, arrancado, desligado,
Com que doridamente coexisto
Sem o compreender nem conceber
Nem amar. Suba a ele o meu ódio.
Sóis, estrelas, natureza inteira
Sou vosso inimigo d’alma todo
(...) o meu ódio todo contra vós.

Só de o dizer sinto-me mais frio e negro
Na consciência de mim. Se ainda nutro
Resto ou lembrança de alegria ou dor
Renego-a e tomo sobre mim o luto
Do      [...]     ódio infinito
Ao universo inteiro.
                               Para quê
Nascer homem,     (...)
(...)        em mim
Os meios e (...) de sentir (
Cérebro e coração e sangue e vida (
E achar-me longe, negramente longe
Do sentimento?
784
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

E deito um cigarro meio fumado fora

E deito um cigarro meio fumado fora
Para irremediavelmente acender um novo cigarro

Impaciente até à angústia,
Como quem espera numa estação dos arredores
O comboio que há-de trazer ah tão talvez, quem talvez venha
1 716
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Entre o sossego e o arvoredo,

Entre o sossego e o arvoredo,
Entre a clareira e a solidão,
Meu devaneio passa a medo
Levando-me a alma pela mão.
É tarde já, e ainda é cedo.

[...]
2 088
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Roçou-me

Roçou-me
O [...] pelo rosto o manto seu
E o seu manto é de Mal e Escuridão.
Coroou-me rei e a coroa que me deu
É um sinal de servidão.
1 347
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Never have I so deeply felt my exclusion from mankind.

Never have I so deeply felt my exclusion from mankind.
To one side the sane, to the other side the lame and the halt and the blind;
To one side the healthy, the good, the strong, those in life's prime,
To the other side the slaves of genius, of madness, of crime.
Build prisons and hospitals and Bedlams. To one side the glad,
To the other side the sickly, the stupid, the ill and the mad.

At no time have I felt so deep the gulf between me and men.
Is it idiocy, madness or crime, or genius - or what is this pain?
I have felt it to-day with full truth and have felt to remember it well:
I am one thrown aside ‑ a torturer and tortured in my being's hell;
Yet I asked not to live, nor had choice of my living's rotten worth,
I had no power on my life, nor am I guilty of my birth.

So I shall sing my song without hope, cheerless and forlorn,
That men may learn - at least they may laugh - to what some hearts are born;
Song all mystery, all symbols, contradictions in ignoble dance,
But that this is madness complete not the smallest ignorance;
Song all of tortures of soul, of a being's human abysm
And never a doubt but this is but raving egotism;
Song of evil, song of hate, song of revolt, song of love
Of Nature, of Mother Nature, the earth at my feet and the sky above;
Song of the hatred of customs, of creeds, of conventions, of institutions
Song of madness unpondering to human prostitutions;
Song of one that better were dead, song of one set aside,
Song of one that hell and earth conspired and combined to deride.

Peace! let the sane be set on that side and the mad on this side.
1 421
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

(Depois do amor — na treva)

Eis-me enfim só, oh desejado horror
Eis-me enfim ante ti, oh Universo!
Eis-me aqui, lama e (...) mistério,
Excluído de ti, o eterno expulso
Que não pedia a vida. Eis-me aqui.

Pudesse eu pôr no seu desmedimento
O ódio (...)       e afrontar-vos
Com a expressão desse ódio, oh silêncios,
Oh noites ao pensar! eu morreria
De haver interpretado em tanto horror
Um mor horror que interpretar não pode
O que há-de ser palavra ou pensamento.
Eis-me aqui, oh abismo explicado!
Eis-me aqui o maior dos seres todos,
Quebrando aos pés do pensamento forte
A cruz de Cristo e as fórmulas mortais
[...]
Eis-me aqui!
O que há para mim senão vacuidade
No mundo (...), o que me destinastes?
O vazio? O silêncio? A escuridão?
Desses-me o instinto deles, não a plena
Torturação da luz.
1 253
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Aos homens tu produzes palidezes

Aos homens tu produzes palidezes
Da sensação não tristes sempre, a alguns
Um mais acentuado sentimento
De tristeza; mas em mim, ah tarde! trazes,
Em mim m'acordas e m'intensificas
Meu desolado e vago natural.
Qu'importa? Tudo é o mesmo. A mim, quer seja
Manhã inda d'orvalho arrepiada,
Dia, ligeiro em sol, pesado em nuvens
Ou tarde (...)
Ou noite misteriosa e (...)
Tudo, se nele penso, só me amarga
E me angustia.

Tenho no sangue o enigma do universo
E o seu pavor que outros não conhecem
E alguns talvez, mas não profundamente.
Só a mim me foi dado sentir sempre.
E se às vezes pareço indiferente
E em mim mesmo calmo, é apenas
O excesso da dor e do horror
Cuja constante (...) me dói.
821
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

IN THE STREET

I pass before the windows lit
        With inward, curtained light,
And in the houses I see flit
Now and again shadows that hit
        The curtain's yellowed white.
Others a little gleam but show:
Inside, the people chat, I know.

And I feel cold and feel alone,
        Not that I no one have,
But - ah that dreams should ne’er be done! -
That among many I am one,
        As among flowers a grave;
One, and more lonely than can be
Imagined conceivably.

If l were born not to aspire
        Beyond the life that lead
These people whom life cannot tire,
Who chat and slumber by the fire
        Contentedly indeed,
Behind those curtains, by that light
That to the street is somewhat bright;

Could I no more aspire than these,
        Were all my wishes bound
In family or social ease,
In worldly, usual jollities
        Or children playing round,
Happy were I but to have then
The usual life of usual men.

But oh! I have within my heart
        Things that cannot keep still -
A mystic and delirious smart
That doth a restlessness impart,
        An ache, a woe, an ill;
I wearied Sysyphus I groan
Against the world's ironic stone.

I, the eternally excluded
        From socialness and mirth,
The aching heart whose mind has brooded
Till thought turned raving mad hath flooded
        The soul that gave it birth ­-
I weep to know I have in me
Aught at once joy and misery.

And cold before the normal, cold
        And fear‑struck I remain,
As one old, formidably old,
Who doth portentous secrets hold
        That he cannot explain
But which the world's show doth suggest
Unto his mind that knows not rest.

How good after dinner to chat
        And sit in half a sleep,
Without a duty‑sense to strike flat
All ease, all cosiness to abate
        An aspiration deep;
To have an ease no pains do throng
Nor felt as an ease that is wrong.

A home, a rest, a child, a wife ­-
        None of these are for me
Who wish for aught beyond this life
With an incessant inner strife
        That knows not victory.
Ay me! and none to comprehend
This wish that doth all things transcend.

Some in some theatre are away
        Or other place of joy
And keep, for ever glad and gay,
The hounds of thought and care at bay
        That cannot laugh or toy:
These are awaited in some homes,
A faint light from their windows comes.

A cosiness these homes must steep
        In something like a slumber,
And in that surface‑living deep
'Tis hard to know that hearts do keep.
        ......
Yet these are normal; I that sigh
And dread their living - what am I?

Oh joy! oh height of happiness!
        To wish no more than life,
To feel of pleasure, of distress,
A normal more, a normal less,
        By friend or child or wife!
None of these for my soul can be
For more than madness is in me.

I weep sad tears - oh, not to live
        As these in human joy!
Oh, that I could as much believe
As sense and custom joint can give
        Which living cannot cloy!
Man's happiness is poor, I know,
But true - a thing all unlike woe.

Sometimes I dream that I might sit
        By my own fire, and quiet
Might see my wife and children flit
Half in a sleep and not a whit
        In one of dreamy riot;
And I might noble be and pure
In mind, not stupid or obscure.

Sometimes I dream one of these homes
        Secluded socially
One for the many thousand tomes
Of life might keep my heart that roams
        Weak, desolate and free;
That quiet haply might console
My aching heart, my pining soul.

But as the thought of such a glad
        Existence simple here,
As if the thing a venom had
I shiver, tremble and grow sad
        As with a mystic fear;
I dread to think my life might pass
Like that of men, as is and was.

I dread to think of a life sweet
        By family and friends.
Mine eyes the finite that they meet
Abhor - the houses and the street.
        And all things that have ends.
I know not to what I aspire,
Yet know this I cannot desire.

So always incompatible
        And by the usual cold,
I go about, my own deep hell,
Hearing to toll in me the bell
        That tells me I grow old,
Yet this in such an accent strange
lt bears the mystery of Change.

And so - alas! must e'er I be
A stranger everywhere;
The leper in his leprosy
In his exclusion nears not me
        Who cannot living bear:
The world my home, my brother men
Are prisons, chains that bind and pen.

I pass. The windows are behind,
        And I forget their peace,
But tremble yet at what my mind
Conceives and feels; and in the wind
        I wander without cease,
Glad yet sad in me to perceive
Something none other can conceive.
1 473
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

FAUSTO: É isto amor? Só isto! Sinto como

FAUSTO: (vindo de casa [...])
É isto amor? Só isto! Sinto como
O cérebro oscilante, um gozo
Mas o coração pesado, frio, e mudo.
Sinto ânsias, desejos
Mas não com meu ser todo. Alguma cousa
No íntimo meu, alguma coisa ali,
Fria, pesada, muda permanece.

Para isto deixei eu a vida antiga
Que já bem não concebo, parecendo
Vaga já.
Já não sinto a agonia muda e funda
Mas uma menos funda e dolorosa
Mas mais terrível raiva e (...)
De movimentos íntimos, desejos
Que são como rancores.
Um cansaço violento e desmedido
De existir e sentir-me aqui e um ódio
Nascido disto vago e horroroso
A tudo e todos por não saber
A causa exacta de tudo.
819
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Sonhos dentro de sonhos,

Sonhos dentro de sonhos,
Involuções do sonhar,
Os pensamentos são medonhos
Quando se querem aprofundar;
E os corações ficam tristonhos, tristonhos
Quando se sentem sentir pensar.

ilusões dentro d'ilusões
Atormentando o descrer;
Descrenças e crenças são ambas visões
São ambas sonhar, são ambas crer.
1 386
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Diálogo na treva?

Cresce em mim uma onda de agonia
E de calado horror que surge e salta
Pelas cavernas fundas da minha alma
E em fissuras ocultas do meu ser
Aponta-as aparecendo, uma onda turva
Duma maré silenciosa e escura
Que cresce e ocupa-me e me afoga em mim.
Quero fugir-lhe e soerguer-me, abrir
Um voo e ela sobe-me, silente,
Em     (...)  naufragadora.
Cresce em mim e eu transido desse horror
Vejo sempre mais perto do que cria
Sempre em remotas dobras elevando-se
Das solidões do meu ser e cada vez
Mais dentro em mim.

Sois um desejo, uma ânsia, uma agonia?
O que quereis, que me impelis subindo
Não sei para que horror velando um fim?
Para que sou eu vosso? Aonde levais
Esta alma que só sabe resistir? Ergueis-me
Em guerra contra o ser, e eu odeio
O que vejo em minha frente, O Imediato.
Por isso, oh mares, sóis, estrelas, ventos,
Oh enigmas parados numa vida
De enigmas cheia desprendidamente,
Eu dou-vos vida só para odiar-vos,
Eu não sou vosso. Deste dia avante
Sou o inimigo de ser, sou o hórrido,
(...)
O crime eterno de não ter razão
De existir e fitar-me. Digo adeus
A tudo que se pode amar ou crer,
A tudo que na terra vive ou dorme.
Cousas com um sol exterior vão [...]
Eu faço-vos escuras do meu ódio.
Caia uma treva imensa na minh’alma
Para com tudo, seja eu a noite,
Esquecendo-se em ser.
                                      Sobe,
Avassala-me, túrbida corrente,
Mas tu e eu em ti. Ciência,
Eu substituo-vos a escuridão
Da essência do meu ser e vosso ser.
1 291
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

INACTION

A thousand hearts are labouring for the good
Of poor mankind ill-civilized and chill;
A thousand minds are making war to ill
With thought or feeling ponderate or rude.

And I alone, as if not understood
By me the suffering that the sense doth fill,
Am sunk in an abeyance deep of will
In a wild, crazy somnolence of mood.

Thus show I mute and cold to misery
Yet not suspected thoughts like dim clouds float,
The presages of horrors, in my mind.

Thus am I miserable and my soul in me,
A skilful helmsman in a helmless boat,
Is like one loving beauty yet born blind.
1 312
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

(Antes do monólogo da treva)

(...) e alucinadas pré-sensações
Impelem-me, desvairam-me, ocupam
Tumultuariamente e ardentemente
O doloroso vácuo do meu ser.
Incapaz de pensar, apenas sinto
Um atropelamento do sentir
E confusões confusas, explosão
De tendências, desejos, ânsias, sonhos
Desatenuadamente dolorosos.
813
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

A vida é má e o pensamento é mau,

A vida é má e o pensamento é mau,
Mas eu temo com mudo e íntimo horror
A morte, pois concebo-lhe como essência,
Olhando-a do movimento e (...) da vida,
Uma monotonia não sei qual,
Cujo pressentimento desvaria
O meu incoerente pensamento.

Essa monotonia que me nasce
Da incompreensão, de nela suspeitar
Diferença suprema do viver,
Pavoroso contrário do bulício
E movimentação da vida vã
Que inda assim entretém meus olhos tristes;
Essa ideia de (...) monotonia —
Imovidamente concebi-a —
Faz-me o horror elevar-se até loucura
Conscientemente, pavorosamente.
E eu sinto um arrepio de pavor,
Em torno meu o mundo oscila, o ser
Oscila, e a consciência de sentir
Desfaz-se em sensações de pensamento
E distúrbios obscuros de ideação,
Embebidos num sonho de sentir
E sonhado sentimento de sonhar.
Horror supremo! E não poder gritar
A Deus — que Deus não há — pedindo alívio!
A alma em mim se ironiza, só pensando
Na de pedir ridícula vaidade,
Interrupção da determinação
E férrea lei do mundo.

Górgias, antigo Górgias, que dizias
Que se alguém algum dia compreendesse,
Atingisse a verdade, não podia
Comunicá-la aos outros — já entendo
O teu profundo e certo pensamento
Que ora não compreendia. Tenho em mim
A verdade sentida e compreendida,
Mas fechada em si mesma, que não posso
Nem pensá-la. Senti-la ninguém pode.

Cada homem tem em si — eu chego a crer
E tu Platão sonhaste-o — a verdade,
Sem consciência de a possuir.
Pois o inanalisado sentimento
E inanalisável, de viver,
De existir, da existência, e do existente
Não tem em si verdade? Pois o Ser
Mesmo na inconsciência não é Ser...
Mas inconsciência como? Nada sei.
Eu quero desdobrar em conhecidos
A unidade da verdade que eu
Possuo dentro em mim e certa sinto,
E ela não pode assim ser desdobrada.
Negro horror d'alma! Ah como estou só!
No isolamento negro de quem pensa
E além naquele de quem sabe
E nada dizer pode!
Como eu desejaria bem cerrar
Os olhos — sem morrer, sem descansar,
Nem sei como — ao mistério e à verdade,
E a mim mesmo — e não deixar de ser.
Morrer talvez, morrer, mas sem na morte
Encontrar o mistério face a face.
Só, tão só! Olho em torno e vejo o riso,
As lágrimas (...) e não percebo
Qual a essência e (...) disso tudo.
Sinto-me alheio pelo pensamento,
Pela compreensão e incompreensão.
Ando como num sonho. Compungido
Pelo terror da morte inevitável
E pelo mal da vida que me faz
Sentir, por existir, aquele horror
Atormentado sempre.
Objectos mudos
Que pareceis sorrir-me horridamente
Só com essa existência e estar-ali,
Odeio-vos de horror. Eu quereria
(Ah pudesse eu dizê-lo — não o sei)
Nem viver nem morrer — não sei o quê,
Nem sentir nem ficar sem sentimento...
Nada sei... Serão frases o que digo
Ou verdades? Não sei... eu nada sei...
Não posso mais, não posso, suportar
Esta tortura intensa - o interrogar
Das existências que me cercam... Vamos,
Abramos a janela... Tarde, tarde...
E tarde... Eu outrora amava a tarde
Com seu silêncio suave e incompleto
Sentido além
Da base consciente do meu ser...
Hoje... não mais, não mais me voltarão
As inocências e ignorâncias suaves
Que me tornavam a alma transparente...
Nunca mais, nunca mais eu te verei
Como te vi, oh sol da tarde, nunca,
Nem tu, monte solene de verdura,
Nem as cores do poente desmaiando
Num respirar silente. E eu não poder
Chorar a vossa perda (que eu perdi-vos),
Mas nem as lágrimas poder achar
Por amargas que fossem — com que outrora
Eu me lembrava que vos deixaria.

Nem em vós o mistério me abandona,
Nem a vossa beleza em mim ignora
Que vós, da beleza a própria essência,
Inomináveis são! E mais sublime
Apenas o mistério em vós; e não
Como nas cousas simples horroroso...
Nas cousas[?] que em meu quarto contemplando
Me horrorizo... Estremeço, como sinto
Atrás de mim o mistério! Já não ouso
Voltar-me e ver... E ver! Delírio insano...
Ver? A que loucura, a que delírio
A sensação aguda do mistério
Me leva... Nunca mais eu terei paz...

Céus, montes pedir-vos não poder
Que entorneis na minha alma esse segredo
Que vos faz existir e eu sentir-vos!
Não poder oração de arte negra
(Puerilidades não! para quê citá-las?)
Provocar a verdade a que se mostre...
Se mostre como? Oh, minha alma amarga,
Cheia de fel, e eu não poder chorar!
Quem sente chora, mas quem pensa não.
Eu, cujo amargor e desventura
Vem de pensar, onde buscaria lágrimas
Se elas para o pensar não foram dadas?
Já nem sequer poder dizer-vos: Vinde,
Lágrimas, vinde! Nem sequer pensar
Que a chorar-vos ainda chegarei!

(Cai de joelhos ante a janela, a cabeça sobre os braços, olhando distraidamente para longe)
945
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

(after running away. (He never loves))

(after running away. (He never loves))

Não sei viver! nem fui para viver
Destinado; porquê então a vaga
Aspiração que tenho?
1 129