Vida
Poemas neste tema
Helena Parente Cunha
Percurso
Corolas
malogradas
defluímos na caudal
margens opostas
compõem horizonte
concedido ao que vamos
e o que vamos?
remota a fonte
de onde emanamos omitidos
malogradas
defluímos na caudal
margens opostas
compõem horizonte
concedido ao que vamos
e o que vamos?
remota a fonte
de onde emanamos omitidos
1 248
1
Helena Parente Cunha
Condição
advindos
deslocamos formas
na voragem previsível
fugidos
deflagramos desejos
mas vulnerados votos
(ávida a vida)
movidos
somamos vendas
de vedados ápices
abolidos
desvinculamos nexo
em consentido fluir
(havida, a vida)
deslocamos formas
na voragem previsível
fugidos
deflagramos desejos
mas vulnerados votos
(ávida a vida)
movidos
somamos vendas
de vedados ápices
abolidos
desvinculamos nexo
em consentido fluir
(havida, a vida)
1 044
1
Chacal
Ponto de bala
os mortos tecem considerações
os tortos cozem quietos
as crianças brincam
e bordam desconsiderações
os tortos cozem quietos
as crianças brincam
e bordam desconsiderações
3 624
1
Giuseppe Ungaretti
Vigília
Uma noite inteira
atirado ao lado
de um camarada
massacrado
com a sua boca
desgrenhada
voltada à lua-cheia
com a congestão
das suas mãos
penetrada
no meu silêncio
escrevi
cartas plenas de amor
Nunca me senti
tão
preso à vida.
atirado ao lado
de um camarada
massacrado
com a sua boca
desgrenhada
voltada à lua-cheia
com a congestão
das suas mãos
penetrada
no meu silêncio
escrevi
cartas plenas de amor
Nunca me senti
tão
preso à vida.
2 234
1
Heinrich Heine
DER TOD
A Morte é a gélida noite,
A Vida o dia opressivo.
Escurece, tenho sono,
O dia cansou-me muito.
Onde me deito há uma árvore
Em que canta um rouxinol.
Só canta de puro amor.
Até em sonhos o escuto.
A Vida o dia opressivo.
Escurece, tenho sono,
O dia cansou-me muito.
Onde me deito há uma árvore
Em que canta um rouxinol.
Só canta de puro amor.
Até em sonhos o escuto.
2 535
1
Carlos Figueiredo
As estrelas brilham por amor
As estrelas brilham por amor,
como o mar, as crianças, a música,
como os homens quando são livres
como o mar, as crianças, a música,
como os homens quando são livres
995
1
Albano Dias Martins
Teus ombros
de iodo :
germinação carnívora
de água e fogo.
germinação carnívora
de água e fogo.
977
1
Fernando Pessoa
O que é vida e o que é morte
O que é vida e o que é morte
Ninguém sabe ou saberá
Aqui onde a vida e a sorte
Movem as coisas que há.
Mas, seja o que for o enigma
De haver qualquer coisa aqui,
Terá de mim próprio o estigma
Da sombra em que eu o vivi.
10/04/1934
Ninguém sabe ou saberá
Aqui onde a vida e a sorte
Movem as coisas que há.
Mas, seja o que for o enigma
De haver qualquer coisa aqui,
Terá de mim próprio o estigma
Da sombra em que eu o vivi.
10/04/1934
4 705
1
Fernando Pessoa
Dorme, criança, dorme,
Dorme, criança, dorme,
Dorme que eu velarei;
A vida é vaga e informe,
O que não há é rei.
Dorme, criança, dorme,
Que também dormirei.
Bem sei que há grandes sombras
Sobre áleas de esquecer,
Que há passos sobre alfombras
De quem não quer viver;
Mas deixa tudo às sombras,
Vive de não querer.
16/03/1934
Dorme que eu velarei;
A vida é vaga e informe,
O que não há é rei.
Dorme, criança, dorme,
Que também dormirei.
Bem sei que há grandes sombras
Sobre áleas de esquecer,
Que há passos sobre alfombras
De quem não quer viver;
Mas deixa tudo às sombras,
Vive de não querer.
16/03/1934
4 675
1
Fernando Pessoa
Cada dia sem gozo não foi teu
Cada dia sem gozo não foi teu
(Dia em que não gozaste não foi teu):
Foi só durares nele. Quanto vivas
Sem que o gozes, não vives.
Não pesa que amas, bebas ou sorrias:
Basta o reflexo do sol ido na água
De um charco, se te é grato.
Feliz o a quem, por ter em coisas mínimas
Seu prazer posto, nenhum dia nega
A natural ventura!
14/03/1933
(Dia em que não gozaste não foi teu):
Foi só durares nele. Quanto vivas
Sem que o gozes, não vives.
Não pesa que amas, bebas ou sorrias:
Basta o reflexo do sol ido na água
De um charco, se te é grato.
Feliz o a quem, por ter em coisas mínimas
Seu prazer posto, nenhum dia nega
A natural ventura!
14/03/1933
2 416
1
Fernando Pessoa
Tão cedo passa tudo quanto passa!
Tão cedo passa tudo quanto passa!
Morre tão jovem ante os deuses quanto
Morre! Tudo é tão pouco!
Nada se sabe, tudo se imagina.
Circunda-te de rosas, ama, bebe
E cala. O mais é nada.
03/11/1923
Morre tão jovem ante os deuses quanto
Morre! Tudo é tão pouco!
Nada se sabe, tudo se imagina.
Circunda-te de rosas, ama, bebe
E cala. O mais é nada.
03/11/1923
2 930
1
Rui Costa
breve ensaio sobre a potência 1
a luz é a metáfora do verbo,
a matéria escura. ilumina
as paredes da água, é como
um vidro com as imagens
do avesso. o animal furtivo
que instaura a violência,
a mãe ao redor do silêncio.
453
Herberto Helder
Poesia Mexicana do Ciclo Nauatle - Nascemos Para o Sono
Nascemos para o sono,
nascemos para o sonho.
Não foi para viver que viemos sobre a terra.
Breve apenas seremos erva que reverdece:
verdes os corações e as pétalas estendidas.
Porque o corpo é uma flor muito fresca e mortal.
nascemos para o sonho.
Não foi para viver que viemos sobre a terra.
Breve apenas seremos erva que reverdece:
verdes os corações e as pétalas estendidas.
Porque o corpo é uma flor muito fresca e mortal.
1 163
Herberto Helder
Ii J
Dias pensando-se uns aos outros na sua seda estendida,
inteligentes para dentro do que há nos dias:
faíscas do ar, o ar braço a braço,
e no meio dos braços, no mais compacto
da claridade e da carne: o sangue que entra e sai por um lento
canal negro.
inteligentes para dentro do que há nos dias:
faíscas do ar, o ar braço a braço,
e no meio dos braços, no mais compacto
da claridade e da carne: o sangue que entra e sai por um lento
canal negro.
1 165
Herberto Helder
5
^dentre os nomes mais internos o mais intenso de todos
a que dias mortais infunde vida
que indefensável coisa lhe promete
(mas no seu corpo nada se levanta
quando estremece ao ar da revoada)
que morte e vida troca ele em tudo
e a que obscura glória se refere?
a que dias mortais infunde vida
que indefensável coisa lhe promete
(mas no seu corpo nada se levanta
quando estremece ao ar da revoada)
que morte e vida troca ele em tudo
e a que obscura glória se refere?
1 017
Herberto Helder
16
queria fechar-se inteiro num poema
lavrado em língua ao mesmo tempo plana e plena
poema enfim onde coubessem os dez dedos
desde a roca ao fuso
para lá dentro ficar escrito direito e esquerdo
quero eu dizer: todo
vivo moribundo morto
a sombra dos elementos por cima
lavrado em língua ao mesmo tempo plana e plena
poema enfim onde coubessem os dez dedos
desde a roca ao fuso
para lá dentro ficar escrito direito e esquerdo
quero eu dizer: todo
vivo moribundo morto
a sombra dos elementos por cima
1 128
Herberto Helder
Vida Aguda Atenta a Tudo
vida aguda atenta a tudo
e contudo para acabar mais depressa no escuro
escrevo rescrevo
e enfim reluzo e desmorro
(finjo pensá-lo)
um pouco um pouco
acautela a tua dor que se não torne académica
e contudo para acabar mais depressa no escuro
escrevo rescrevo
e enfim reluzo e desmorro
(finjo pensá-lo)
um pouco um pouco
acautela a tua dor que se não torne académica
1 099
Herberto Helder
Alto Dia Que Me É Dedicado
alto dia que me é dedicado,
mais altas são as frutas se me atrevo a olhá-lo,
no tumulto da alfazema onde aos poucos enquanto morro,
do açafrão enquanto morro aos poucos,
e o oxigénio explode
mais altas são as frutas se me atrevo a olhá-lo,
no tumulto da alfazema onde aos poucos enquanto morro,
do açafrão enquanto morro aos poucos,
e o oxigénio explode
1 055
Herberto Helder
E Eu Que Não Sei Através de Que Verbo
e eu que não sei através de que verbo me arranquei ao fundo da placenta até à ferida entre as coxas maternas,
e roubei o oxigénio todo à minha volta próxima,
furiosamente,
eu que procuro corpo a corpo o nada disso tudo,
não sei nada,
digo: olhar a morte incalculável,
toda,
agora na hora próxima, súbito, atónito,
e agarrado a tudo
e roubei o oxigénio todo à minha volta próxima,
furiosamente,
eu que procuro corpo a corpo o nada disso tudo,
não sei nada,
digo: olhar a morte incalculável,
toda,
agora na hora próxima, súbito, atónito,
e agarrado a tudo
1 080
Herberto Helder
Saio Hoje Ao Mundo
saio hoje ao mundo,
cordão de sangue à volta do pescoço,
e tão sôfrego e delicado e furioso,
de um lado ou de outro para sempre num sufoco,
iminente para sempre
23.XI.2010 : 80 ANOS
cordão de sangue à volta do pescoço,
e tão sôfrego e delicado e furioso,
de um lado ou de outro para sempre num sufoco,
iminente para sempre
23.XI.2010 : 80 ANOS
1 058
Francesca Angiolillo
Problema existencial
Como esperar que você compreenda
o milagre da carne
abrindo espaço, fibra a fibra
a partir de meio centímetro de vida?
A vida,
meu filho,
é mesmo uma ferida.
(No flanco de um ciclo
ela se abre
para nos dar
e receber.)
Por que a caveira tem dente?
Mamãe, a caveira foi gente?
O olho da caveira, cadê?
A terra comeu.
A terra comeu.
A terra comeu.
o milagre da carne
abrindo espaço, fibra a fibra
a partir de meio centímetro de vida?
A vida,
meu filho,
é mesmo uma ferida.
(No flanco de um ciclo
ela se abre
para nos dar
e receber.)
Por que a caveira tem dente?
Mamãe, a caveira foi gente?
O olho da caveira, cadê?
A terra comeu.
A terra comeu.
A terra comeu.
654
Mário-Henrique Leiria
RIFÃO QUOTIDIANO
Uma nêspera
estava na cama
deitada
muito calada
a ver
o que acontecia
chegou a Velha
e disse
olha uma nêspera
e zás comeu-a
é o que acontece
às nêsperas
que ficam deitadas
caladas
a esperar
o que acontece
estava na cama
deitada
muito calada
a ver
o que acontecia
chegou a Velha
e disse
olha uma nêspera
e zás comeu-a
é o que acontece
às nêsperas
que ficam deitadas
caladas
a esperar
o que acontece
1 146
Sérgio Medeiros
O passeio dos bichos
– então o piolho se foi
saltando
– um sapo o engoliu
e se foi pulando
– uma cobra os etc.
e se foi coleando
– um falcão os etc.
e se foi voando
– até o final da viagem
ou do passeio…
saltando
– um sapo o engoliu
e se foi pulando
– uma cobra os etc.
e se foi coleando
– um falcão os etc.
e se foi voando
– até o final da viagem
ou do passeio…
631
Renato Rezende
Sopro
Este corpo onde agora moro
parece estar vivo, no entanto
o corpo está sempre morto.
O que é vivo é este sopro
que se sabe dentro do corpo.
parece estar vivo, no entanto
o corpo está sempre morto.
O que é vivo é este sopro
que se sabe dentro do corpo.
1 098
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