Sonhos e Imaginação

Poemas neste tema

Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Céu

À criança olha
Para o céu azul.
Levanta a mãozinha,
Quer tocar o céu.

Não sente a criança
Que o céu é ilusão:
Crê que o não alcança,
Quando o tem na mão.
1 042
Pablo Neruda

Pablo Neruda

LVI

Não achas que os dromedários
preservam lua em suas corcovas?

Não a semeiam nos desertos
com persistência clandestina?

E não estará emprestado o mar
por um curto tempo à terra?

Não teremos que devolvê-lo
com suas marés à lua?
1 173
Pablo Neruda

Pablo Neruda

LV

Por que não mandam as toupeiras
e as tartarugas à lua?

Os animais engenheiros
de cavidades e ranhuras

não poderiam tomar o encargo
destas longínquas inspeções?
965
Pablo Neruda

Pablo Neruda

XIII

É verdade que só na Austrália
há crocodilos voluptuosos?

Como repartem o sol
na laranjeira as laranjas?

Vinha de uma boca amarga
a dentadura do sal?

É verdade que voa de noite
sobre minha pátria um condor negro?
524
Pablo Neruda

Pablo Neruda

LVII

Não será bom proibir
os beijos interplanetários?

Por que não analisar as coisas
antes de habilitar planetas?

E por que não o ornitorrinco
com sua espacial indumentária?

As ferraduras não se fizeram
para cavalos da lua?
964
Pablo Neruda

Pablo Neruda

LIV

É verdade que as andorinhas
vão se estabelecer na lua?

Levarão a primavera
tirando-a das cornijas?

Se afastarão no outono
as andorinhas da lua?

Buscarão amostras de bismuto
a bicadas no céu?

E aos balcões voltarão
polvilhadas de cinza?
1 116
Pablo Neruda

Pablo Neruda

XII

Para quem sorri o arroz
com infinitos dentes brancos?

Por que nas épocas escuras
se escreve com tinta invisível?

Sabe a bela de Caracas
quantas faldas tem a rosa?

Por que me picam as pulgas
e os sargentos literários?
1 051
Pablo Neruda

Pablo Neruda

XI

Até quando falam os outros
se nós temos falado?

Que diria José Martí
do pedagogo Marinello?

Quantos anos tem novembro?

Que segue pagando o outono
com tanto dinheiro amarelo?

Como chamar esse coquetel
que mistura vodca com relâmpagos?
503
Pablo Neruda

Pablo Neruda

XLVIII

São os seios das sereias
os redondos caracóis?

Ou são ondas petrificadas
ou jogo imóvel da espuma?

Não se incendiou a pradaria
com os vagalumes selvagens?

Os cabeleireiros do outono
despentearam os crisântemos?
949
Pablo Neruda

Pablo Neruda

XXIX

Que distância em metros redondos
há entre o sol e as laranjas?

Quem desperta o sol quando dorme
sobre sua cama abrasadora?

Canta a terra como um grilo
entre a música celeste?

É mesmo ampla a tristeza
e tênue a melancolia?
1 004
Pablo Neruda

Pablo Neruda

VI

Por que o chapéu da noite
voa com tantos furos?

O que diz a velha cinza
quando caminha junto ao fogo?

Por que choram tanto as nuvens
e cada vez são mais alegres?

Para quem ardem os pistilos
do sol em sombra de eclipse?

Quantas abelhas tem o dia?
1 084
Pablo Neruda

Pablo Neruda

XXXII

Há algo mais tolo na vida
que chamar-se Pablo Neruda?

Há no céu da Colômbia
um colecionador de nuvens?

Por que sempre se fazem em Londres
os congressos de guarda-chuvas?

Sangue cor de amaranto
tinha a rainha de Sabá?

Quando Baudelaire chorava
chorava com lágrimas negras?
990
Pablo Neruda

Pablo Neruda

V

Que guardas sob tua corcova?
disse um camelo a uma tartaruga.

E a tartaruga perguntou:
Que conversas com as laranjas?

Tem mais folhas uma pereira
que Em Busca do Tempo Perdido?

Por que se suicidam as folhas
quando se sentem amarelas?
1 126
Pablo Neruda

Pablo Neruda

XIX

Contaram o ouro que tem
o território do milho?

Sabes que é verde ao meio-dia
a neblina na Patagônia?

Quem canta no fundo da água
na lagoa abandonada?

De que ri a melancia
quando a estão assassinando?
970
Pablo Neruda

Pablo Neruda

XVI

Trabalham o sal e o açúcar
construindo uma torre branca?

É verdade que no formigueiro
os sonhos são obrigatórios?

Sabes que meditações
rumina a terra no outono?

(Por que não dar uma medalha
à primeira folha de ouro?)
849
Pablo Neruda

Pablo Neruda

XXI

E quando se fundou a luz
isto sucedeu na Venezuela?

Onde está o centro do mar?
Por que ali não vão as ondas?

É certo que aquele meteoro
foi uma pomba de ametista?

Posso perguntar a meu livro
se é verdade que eu o escrevi?
1 211
Pablo Neruda

Pablo Neruda

XLIII

Quem era aquela que te amou
no sonho, quando dormias?

Onde vão as coisas do sonho?
Vão para o sonho dos outros?

E o pai que vive nos sonhos
volta a morrer quando despertas?

Florescem as plantas do sonho
e maduram seus graves frutos?
528
Pablo Neruda

Pablo Neruda

XIV

E que disseram os rubis
ante o jugo das granadas?

Mas por que não se convence
a quinta de ir depois da sexta?

Quem gritou de alegria
ao nascer a cor azul?

Por que se entristece a terra
quando aparecem as violetas?
1 004
Pablo Neruda

Pablo Neruda

IV

Quantas igrejas tem o céu?

Por que não ataca o tubarão
as impávidas sereias?

Conversa a fumaça com as nuvens?

É verdade que a esperança
se deve regar com orvalho?
1 007
Pablo Neruda

Pablo Neruda

XX

É verdade que o âmbar contém
as lágrimas das sereias?

Como se chama uma flor
que voa de pássaro em pássaro?

Não é melhor nunca que tarde?

E por que o queijo se dispôs
a exercer proezas na França?
991
Pablo Neruda

Pablo Neruda

I

Por que os imensos aviões
não passeiam com seus filhos?

Qual é o pássaro amarelo
que enche o ninho de limões?

Por que não ensinam a tirar
mel do sol aos helicópteros?

Onde deixou a lua cheia
seu noturno saco de farinha?
1 173
Pablo Neruda

Pablo Neruda

XXIII

Converte-se em peixe voador
se transmigra a borboleta?

Então não era verdade
que vivia Deus na lua?

De que cor é o olor
do pranto azul das violetas?

Quantas semanas tem um dia
e quantos anos tem um mês?
1 078
Pablo Neruda

Pablo Neruda

III

Me diga: a rosa está nua
ou só tem esse vestido?

Por que as árvores escondem
o esplendor de suas raízes?

Quem ouve os remorsos
do automóvel criminoso?

Há algo mais triste no mundo
que um trem imóvel na chuva?
659
Pablo Neruda

Pablo Neruda

XL

A quem o condor andrajoso
dá conta de seu encargo?

Como se chama a tristeza
numa ovelha solitária?

E que ocorre no pombal
se aprendem canto as pombas?

Se as moscas fabricam mel
ofenderão as abelhas?
1 043