Sexualidade
Poemas neste tema
António Botto
Se duvidas que teu corpo
Se duvidas que teu corpo
Possa estremecer comigo –
E sentir
O mesmo amplexo carnal,
– desnuda-o inteiramente,
Deixa-o cair nos meus braços,
E não me fales,
Não digas seja o que for,
Porque o silêncio das almas
Dá mais liberdade
às coisas do amor.
Se o que vês no meu olhar
Ainda é pouco
Para te dar a certeza
Deste desejo sentido,
Pede-me a vida,
Leva-me tudo que eu tenha –
Se tanto for necessário
Para ser compreendido.
Possa estremecer comigo –
E sentir
O mesmo amplexo carnal,
– desnuda-o inteiramente,
Deixa-o cair nos meus braços,
E não me fales,
Não digas seja o que for,
Porque o silêncio das almas
Dá mais liberdade
às coisas do amor.
Se o que vês no meu olhar
Ainda é pouco
Para te dar a certeza
Deste desejo sentido,
Pede-me a vida,
Leva-me tudo que eu tenha –
Se tanto for necessário
Para ser compreendido.
2 873
4
Maria Teresa Horta
Os anjos do corpo – IV
Meu infatigavel
anjo,
da guarda de meu corpo
São os anjos quem
guardam
os orgasmos
Pastores
Dos rebanhos
– dos ardores
Dos odores do corpo
Hei-de confessar-te
um dia
o meu desejo:
um anjo
que me acaricie devagar o clitóris
as pernas entreabertas
ao meu beijo
Quantas vezes te digo
que te dispo
e depois te lambo
primeiros as asas
e o pénis
e em seguida: o ânus
E o anjo
debaixo
ficou a acariciar o pénis
do anjo que voava
por cima
de manso procurando
o fundo
da vagina
Sou eu que te transformo
de prazer
em anjo do orgasmo
infatigável
suco
da língua
Naquilo que te faço
Com o teu clitóris
de ouro,
és o anjo
mamilos à flor da pele
que tapas com as asas
Os anjos descobrem
a vulva
no mesmo instante
em que sabem
do pénis:
com
as pernas ligeiramente
abertas
e desviando as asas
Despir os anjos
um por um
passando-lhes a língua...
lentamente,
pelo sal do pénis
Sorvendo-lhes em seguida
os sucos da vagina
Penteio com os dedos
os cabelos
deste arcanjo
respirando baixo
o interior macio
das suas pernas
o púbis
deste anjo
O sabor do esperma
dos anjos que imaginam
a-mar
as águas
uterinas
Lambe-me devagar
o céu da boca
como se a voasses
É um púbis de anjo
com pequenas asas
sob:
sobre a doce matiz
matriz
do clitóris
Viro-te anjo
debaixo do meu corpo
cubro-te:
voando – vogando
pelo nada
o teu pénis
direito
no meu púbis
e mais abaixo
a tua vagina alada
Adormeço de ventre
em tuas
asas
deitada ao comprido
no espaço
das tuas pernas
pernas
Cisterna
posta à beira
da sede dos teus braços
Primeiro roço-te
as asas
suspensas pelos teus ombros
imaginando apenas
aquilo que depois
mergulho
e faço:
Traz o anjo
o arrepio
ao corpo todo
um aperto nos
seios
e na vagina
Uma febre incerta
que vagueia
nas asas, nas coxas
e nas veias
Tinha um corpo de
lua
pelo lado da cor e do frio
em desiquilibrio no fio da faca
do orgasmo
O teu corpo,
neste envolvimento
de voo
e de vulva
Meu amor que mergulhas
de vertigem:
Anjo expectante
da vagina
A mistura de mim
com o teu corpo
asas pequenas que estremecem
debaixo do desejo
Não tens noção
de quanto é corpo o corpo
nem desejo
Anjo
Voando sobre
o que é baixo
Sob
Voando sob
o que é por baixo
Tocar-te apenas com
a língua
a cabeça do pénis
como se devagar
lambesse
o meu clitóris
até sentir o orgasmo
trepar-me pelas pernas
Bebem os anjos
a saliva
dos anjos
Pela taça
– exposta –
da vagina
São rarissimas as
asas
que não partem dos seios
a florir nos
ombros
Como um manso púbis
com os seios veios
de sombra
Quando
o clitóris toca
o clitóris dos anjos...
Lambe-me as asas
– disse o anjo
ao anjo mais perto...
dos seus pulsos
anjo,
da guarda de meu corpo
São os anjos quem
guardam
os orgasmos
Pastores
Dos rebanhos
– dos ardores
Dos odores do corpo
Hei-de confessar-te
um dia
o meu desejo:
um anjo
que me acaricie devagar o clitóris
as pernas entreabertas
ao meu beijo
Quantas vezes te digo
que te dispo
e depois te lambo
primeiros as asas
e o pénis
e em seguida: o ânus
E o anjo
debaixo
ficou a acariciar o pénis
do anjo que voava
por cima
de manso procurando
o fundo
da vagina
Sou eu que te transformo
de prazer
em anjo do orgasmo
infatigável
suco
da língua
Naquilo que te faço
Com o teu clitóris
de ouro,
és o anjo
mamilos à flor da pele
que tapas com as asas
Os anjos descobrem
a vulva
no mesmo instante
em que sabem
do pénis:
com
as pernas ligeiramente
abertas
e desviando as asas
Despir os anjos
um por um
passando-lhes a língua...
lentamente,
pelo sal do pénis
Sorvendo-lhes em seguida
os sucos da vagina
Penteio com os dedos
os cabelos
deste arcanjo
respirando baixo
o interior macio
das suas pernas
o púbis
deste anjo
O sabor do esperma
dos anjos que imaginam
a-mar
as águas
uterinas
Lambe-me devagar
o céu da boca
como se a voasses
É um púbis de anjo
com pequenas asas
sob:
sobre a doce matiz
matriz
do clitóris
Viro-te anjo
debaixo do meu corpo
cubro-te:
voando – vogando
pelo nada
o teu pénis
direito
no meu púbis
e mais abaixo
a tua vagina alada
Adormeço de ventre
em tuas
asas
deitada ao comprido
no espaço
das tuas pernas
pernas
Cisterna
posta à beira
da sede dos teus braços
Primeiro roço-te
as asas
suspensas pelos teus ombros
imaginando apenas
aquilo que depois
mergulho
e faço:
Traz o anjo
o arrepio
ao corpo todo
um aperto nos
seios
e na vagina
Uma febre incerta
que vagueia
nas asas, nas coxas
e nas veias
Tinha um corpo de
lua
pelo lado da cor e do frio
em desiquilibrio no fio da faca
do orgasmo
O teu corpo,
neste envolvimento
de voo
e de vulva
Meu amor que mergulhas
de vertigem:
Anjo expectante
da vagina
A mistura de mim
com o teu corpo
asas pequenas que estremecem
debaixo do desejo
Não tens noção
de quanto é corpo o corpo
nem desejo
Anjo
Voando sobre
o que é baixo
Sob
Voando sob
o que é por baixo
Tocar-te apenas com
a língua
a cabeça do pénis
como se devagar
lambesse
o meu clitóris
até sentir o orgasmo
trepar-me pelas pernas
Bebem os anjos
a saliva
dos anjos
Pela taça
– exposta –
da vagina
São rarissimas as
asas
que não partem dos seios
a florir nos
ombros
Como um manso púbis
com os seios veios
de sombra
Quando
o clitóris toca
o clitóris dos anjos...
Lambe-me as asas
– disse o anjo
ao anjo mais perto...
dos seus pulsos
5 396
4
Paulo Leminski
já me matei faz muito tempo
já me matei faz muito tempo
me matei quando o tempo era escasso
e o que havia entre o tempo e o espaço
era o de sempre
nunca mesmo o sempre passo
morrer faz bem à vista e ao baço
melhora o ritmo do pulso
e clareia a alma
morrer de vez em quando
é a única coisa que me acalma
me matei quando o tempo era escasso
e o que havia entre o tempo e o espaço
era o de sempre
nunca mesmo o sempre passo
morrer faz bem à vista e ao baço
melhora o ritmo do pulso
e clareia a alma
morrer de vez em quando
é a única coisa que me acalma
2 425
3
Cruz e Sousa
Dança do ventre
Torva, febril, torcicolosamente,
numa espiral de elétricos volteios,
na cabeça, nos olhos e nos seios
fluíam-lhe os venenos da serpente.
Ah! que agonia tenebrosa e ardente!
que convulsões, que lúbricos anseios,
quanta volúpia e quantos bamboleios,
que brusco e horrível sensualismo quente.
O ventre, em pinchos, empinava todo
como réptil abjecto sobre o lodo,
espolinhando e retorcido em fúria.
Era a dança macabra e multiforme
de um verme estranho, colossal, enorme,
do demônio sangrento da luxúria!
.
.
.
numa espiral de elétricos volteios,
na cabeça, nos olhos e nos seios
fluíam-lhe os venenos da serpente.
Ah! que agonia tenebrosa e ardente!
que convulsões, que lúbricos anseios,
quanta volúpia e quantos bamboleios,
que brusco e horrível sensualismo quente.
O ventre, em pinchos, empinava todo
como réptil abjecto sobre o lodo,
espolinhando e retorcido em fúria.
Era a dança macabra e multiforme
de um verme estranho, colossal, enorme,
do demônio sangrento da luxúria!
.
.
.
6 387
3
Florbela Espanca
Outonal
Caem as folhas mortas sobre o lago;
Na penumbra outonal, não sei quem tece
As rendas do silêncio... Olha, anoitece!
– Brumas longínquas do País do Vago...
Veludos a ondear... Mistério mago...
Encantamento... A hora que não esquece,
A luz que a pouco e pouco desfalece,
Que lança em mim a bênção dum afago...
Outono dos crepúsculos doirados,
De púrpuras, damascos e brocados!
– Vestes a terra inteira de esplendor!
Outono das tardinhas silenciosas,
Das magníficas noites voluptuosas
Em que eu soluço a delirar de amor...
Na penumbra outonal, não sei quem tece
As rendas do silêncio... Olha, anoitece!
– Brumas longínquas do País do Vago...
Veludos a ondear... Mistério mago...
Encantamento... A hora que não esquece,
A luz que a pouco e pouco desfalece,
Que lança em mim a bênção dum afago...
Outono dos crepúsculos doirados,
De púrpuras, damascos e brocados!
– Vestes a terra inteira de esplendor!
Outono das tardinhas silenciosas,
Das magníficas noites voluptuosas
Em que eu soluço a delirar de amor...
4 198
3
Charles Baudelaire
A SERPENTE QUE DANÇA
Em teu corpo, lânguida amante,
Me apraz contemplar,
Como um tecido vacilante,
A pele a faiscar.
Em tua fluida cabeleira
De ácidos perfumes,
Onde olorosa e aventureira
De azulados gumes,
Como um navio que amanhece
Mal desponta o vento,
Minha alma em sonho se oferece
Rumo ao firmamento
Teus olhos que jamais traduzem
Rancor ou doçura,
São jóias frias onde luzem
O ouro e a gema impura.
Ao ver-te a cadência indolente,
Bela de exaustão,
Dir-se-á que dança uma serpente
No alto de um bastão.
Ébria de preguiça infinita,
A fronte de infanta
Se inclina vagarosa e imita
A de uma elefanta.
E teu corpo pende e se aguça
Como escuna esguia,
Que às praias toca e se debruça
Sobre a espuma fria.
Qual uma inflada vaga oriunda
Dos gelos frementes,
Quando a água em tua boca inunda
A arcada dos dentes
Bebo de um vinho que me infunde
Amargura e calma,
Um líquido céu que se difunde
Astros em minha alma!
Me apraz contemplar,
Como um tecido vacilante,
A pele a faiscar.
Em tua fluida cabeleira
De ácidos perfumes,
Onde olorosa e aventureira
De azulados gumes,
Como um navio que amanhece
Mal desponta o vento,
Minha alma em sonho se oferece
Rumo ao firmamento
Teus olhos que jamais traduzem
Rancor ou doçura,
São jóias frias onde luzem
O ouro e a gema impura.
Ao ver-te a cadência indolente,
Bela de exaustão,
Dir-se-á que dança uma serpente
No alto de um bastão.
Ébria de preguiça infinita,
A fronte de infanta
Se inclina vagarosa e imita
A de uma elefanta.
E teu corpo pende e se aguça
Como escuna esguia,
Que às praias toca e se debruça
Sobre a espuma fria.
Qual uma inflada vaga oriunda
Dos gelos frementes,
Quando a água em tua boca inunda
A arcada dos dentes
Bebo de um vinho que me infunde
Amargura e calma,
Um líquido céu que se difunde
Astros em minha alma!
6 137
3
Maria Teresa Horta
Gozo
Desvia o mar a rota
do calor
e cede a areia ao peso
desta rocha
Que ao corpo grosso
do sol
do meu corpo
abro-lhe baixo a fenda de uma porta
e logo o ventre se curva
e adormece
e logo as mãos se fecham
e encaminham
e logo a boca rasga
e entontece
nos meus flancos
a faca e a frescura
daquilo que se abre e desfalece
enquanto tece o espasmo o seu disfarce
e uso do gozo
a sua melhor parte
do calor
e cede a areia ao peso
desta rocha
Que ao corpo grosso
do sol
do meu corpo
abro-lhe baixo a fenda de uma porta
e logo o ventre se curva
e adormece
e logo as mãos se fecham
e encaminham
e logo a boca rasga
e entontece
nos meus flancos
a faca e a frescura
daquilo que se abre e desfalece
enquanto tece o espasmo o seu disfarce
e uso do gozo
a sua melhor parte
5 801
3
Ana Mafalda Leite
Caixinha de música
impregno-me em ti como um perfume
como quem veste a pele de odores ou a alma de
cetins
quero que me enlaces ou me enfaixes de muitos
laços
abraços fitas ou fios transparentes
em celofane brilhando uma prenda
uma menina te traz vestida de lumes
incandescendo incandescente
te quer embrulhada em véus de seda e brocado
encantada a serpente a flauta o mago
senhor toca
e quando me toca
o corpo eu abro
caixinha de música
dentro
com bailarina que dança
como quem veste a pele de odores ou a alma de
cetins
quero que me enlaces ou me enfaixes de muitos
laços
abraços fitas ou fios transparentes
em celofane brilhando uma prenda
uma menina te traz vestida de lumes
incandescendo incandescente
te quer embrulhada em véus de seda e brocado
encantada a serpente a flauta o mago
senhor toca
e quando me toca
o corpo eu abro
caixinha de música
dentro
com bailarina que dança
1 784
3
Ferreira Gullar
Definição da Moça
Como defini-la
Quando está vestida
Se ela me desbunda
Como se despida?
Como defini-la
Quando está desnuda
Se ela é viagem
Como toda nuvem?
Como desnudá-la
quando está vestida
se está mais despida
do que quando nua?
Como possuí-la
Quando está desnuda
Se ela toda é chuva?
Se ela toda é vulva?
Quando está vestida
Se ela me desbunda
Como se despida?
Como defini-la
Quando está desnuda
Se ela é viagem
Como toda nuvem?
Como desnudá-la
quando está vestida
se está mais despida
do que quando nua?
Como possuí-la
Quando está desnuda
Se ela toda é chuva?
Se ela toda é vulva?
2 986
3
Costa Alegre
Visão
Vi-te passar, longe de mim, distante,
Como uma estátua de ébano ambulante;
Ias de luto, doce, tutinegra,
E o teu aspecto pesaroso e triste
Prendeu minha alma, sedutora negra;
Depois, cativa de invisível laço,
(o teu encanto, a que ninguém resiste)
Foi-te seguindo o pequenino passo
Até que o vulto gracioso e lindo
Desapareceu, longe de mim, distante,
Como uma estátua de ébano ambulante.
Como uma estátua de ébano ambulante;
Ias de luto, doce, tutinegra,
E o teu aspecto pesaroso e triste
Prendeu minha alma, sedutora negra;
Depois, cativa de invisível laço,
(o teu encanto, a que ninguém resiste)
Foi-te seguindo o pequenino passo
Até que o vulto gracioso e lindo
Desapareceu, longe de mim, distante,
Como uma estátua de ébano ambulante.
4 952
3
António Ramos Rosa
Tu Pensas que os Cardeais
Tu pensas
que os cardeais
não se masturbam,
que não vêem
as telenovelas,
que vêem, quando muito, os filmes de Bergman
e o Evangelho segundo São Mateus de Pasolini.
Não, eles nunca lêem os livros pornográficos
e nunca pensaram em ter amantes.
Eles não conhecem o turbilhão das visões
das figuras eróticas,
eles lêem os exercícios espirituais
de Santo Inácio
e têm o odor da santidade
e irão para o céu porque nunca pecaram,
nunca acariciaram um pénis,
nunca o desejaram túmido e ardente
na sua boca casta.
Ah os cardeais como são exemplares
mesmo quando os espelhos os perseguem
com os membros e órgãos de mulheres
na fulguração da nudez liquida e candente!
Todavia eu conheço a obstinada chama
do desejo,
a sua glauca ondulação,
os seus olhos deslumbrados pela oceânica
vertigem
de um corpo embriagado pela sua simetria
e pela volúvel coerência
dos seus astros dispersos.
Não, eu não creio na inocência imaculada
dos solenes cardeais.
Eu sei que a sua carne é a mesma argila
incandescente e turva
de que o meu corpo frágil é composto.
Eles conhecem o sofrimento de ser duplos,
o vazio do desejo,
a violência nua das imagens monstruosas,
a adolescência do fogo nos labirintos negros.
Mas eu sei que os cardeais não gritam,
nem levantam a voz,
nem atravessam a fronteira do pudor
e adormecem ao rumor das orações.
É esta imagem que eu quero conservar
na religiosa monotonia do meu sono.
que os cardeais
não se masturbam,
que não vêem
as telenovelas,
que vêem, quando muito, os filmes de Bergman
e o Evangelho segundo São Mateus de Pasolini.
Não, eles nunca lêem os livros pornográficos
e nunca pensaram em ter amantes.
Eles não conhecem o turbilhão das visões
das figuras eróticas,
eles lêem os exercícios espirituais
de Santo Inácio
e têm o odor da santidade
e irão para o céu porque nunca pecaram,
nunca acariciaram um pénis,
nunca o desejaram túmido e ardente
na sua boca casta.
Ah os cardeais como são exemplares
mesmo quando os espelhos os perseguem
com os membros e órgãos de mulheres
na fulguração da nudez liquida e candente!
Todavia eu conheço a obstinada chama
do desejo,
a sua glauca ondulação,
os seus olhos deslumbrados pela oceânica
vertigem
de um corpo embriagado pela sua simetria
e pela volúvel coerência
dos seus astros dispersos.
Não, eu não creio na inocência imaculada
dos solenes cardeais.
Eu sei que a sua carne é a mesma argila
incandescente e turva
de que o meu corpo frágil é composto.
Eles conhecem o sofrimento de ser duplos,
o vazio do desejo,
a violência nua das imagens monstruosas,
a adolescência do fogo nos labirintos negros.
Mas eu sei que os cardeais não gritam,
nem levantam a voz,
nem atravessam a fronteira do pudor
e adormecem ao rumor das orações.
É esta imagem que eu quero conservar
na religiosa monotonia do meu sono.
5 071
3
Camilo Pessanha
Ó Madalena, ó cabelos de rastos
...e lhe regou de lágrimas os pés,
e os enxugava com os cabelos da sua cabeça.
Evangelho de S. Lucas.
Ó Madalena, ó cabelos de rastos,
Lírio poluído, branca flor inútil,
Meu coração, velha moeda fútil,
E sem relevo, os caracteres gastos,
De resignar-se torpemente dúctil,
Desespero, nudez de seios castos,
Quem também fosse, ó cabelos de rastos,
Ensangüentado, enxovalhado, inútil,
Dentro do peito, abominável cômico!
Morrer tranqüilo, - o fastio da cama.
Ó redenção do mármore anatômico,
Amargura, nudez de seios castos,
Sangrar, poluir-se, ir de rastos na lama,
Ó Madalena, ó cabelos de rastos!
e os enxugava com os cabelos da sua cabeça.
Evangelho de S. Lucas.
Ó Madalena, ó cabelos de rastos,
Lírio poluído, branca flor inútil,
Meu coração, velha moeda fútil,
E sem relevo, os caracteres gastos,
De resignar-se torpemente dúctil,
Desespero, nudez de seios castos,
Quem também fosse, ó cabelos de rastos,
Ensangüentado, enxovalhado, inútil,
Dentro do peito, abominável cômico!
Morrer tranqüilo, - o fastio da cama.
Ó redenção do mármore anatômico,
Amargura, nudez de seios castos,
Sangrar, poluir-se, ir de rastos na lama,
Ó Madalena, ó cabelos de rastos!
4 255
3
Castro Alves
Maria
ONDE VAIS à tardezinha,
Mucama tão bonitinha,
Morena flor do sertão?
A grama um beijo te furta
Por baixo da saia curta,
Que a perna te esconde em vão...
Mimosa flor das escravas!
O bando das rolas bravas
Voou com medo de ti!...
Levas hoje algum segredo...
Pois te voltaste com medo
Ao grito do bem-te-vi!
Serão amores deveras?
Ah! Quem dessas primaveras
Pudesse a flor apanhar!
E contigo, ao tom daragem,
Sonhar na rede selvagem...
À sombra do azul palmar!
Bem feliz quem na viola
Te ouvisse a moda espanhola
Da lua ao frouxo clarão...
Com a luz dos astros — por círios,
Por leito — um leito de lírios...
E por tenda — a solidão!
Mucama tão bonitinha,
Morena flor do sertão?
A grama um beijo te furta
Por baixo da saia curta,
Que a perna te esconde em vão...
Mimosa flor das escravas!
O bando das rolas bravas
Voou com medo de ti!...
Levas hoje algum segredo...
Pois te voltaste com medo
Ao grito do bem-te-vi!
Serão amores deveras?
Ah! Quem dessas primaveras
Pudesse a flor apanhar!
E contigo, ao tom daragem,
Sonhar na rede selvagem...
À sombra do azul palmar!
Bem feliz quem na viola
Te ouvisse a moda espanhola
Da lua ao frouxo clarão...
Com a luz dos astros — por círios,
Por leito — um leito de lírios...
E por tenda — a solidão!
6 749
3
Maria Teresa Horta
Gozo XII
São tuas as pálpebras
dos meus dias
tal como a laranja do lago
estagnado
é a lua do lago ao meio dia
quando o sol dos ombros está
rasgado
São teus os cílios
que as noites utilizam
é tua a saliva dos meus
braços
é teu o cacto que no ventre
incerto
debruça levar os seus
orgasmos
Não tenho mais que te dizer
das coisas
que tudo o mais te faço eu
deitada
enquanto sentes que o teu corpo
cresce
por dentro do mundo
na minha mão fechada
dos meus dias
tal como a laranja do lago
estagnado
é a lua do lago ao meio dia
quando o sol dos ombros está
rasgado
São teus os cílios
que as noites utilizam
é tua a saliva dos meus
braços
é teu o cacto que no ventre
incerto
debruça levar os seus
orgasmos
Não tenho mais que te dizer
das coisas
que tudo o mais te faço eu
deitada
enquanto sentes que o teu corpo
cresce
por dentro do mundo
na minha mão fechada
3 564
3
Maria Teresa Horta
Os anjos
Os anjos descobrem
a vulva
no mesmo instante
em que sabem
do pénis:
com
as pernas ligeiramente
abertas
e desviando as asas
São raríssimas as
asas
que não partem dos seios
a florir nos
ombros
Como um manso púbis
com os seus veios
de sombra
E o anjo
debaixo
ficou a acariciar o pénis
do anjo que voava
por cima
de manso procurando
o fundo
da vagina
a vulva
no mesmo instante
em que sabem
do pénis:
com
as pernas ligeiramente
abertas
e desviando as asas
São raríssimas as
asas
que não partem dos seios
a florir nos
ombros
Como um manso púbis
com os seus veios
de sombra
E o anjo
debaixo
ficou a acariciar o pénis
do anjo que voava
por cima
de manso procurando
o fundo
da vagina
4 574
3
Augusto dos Anjos
Volúpia imortal
Cuidas que o genesíaco prazer,
Fome do átomo e eurítmico transporte
De todas as moléculas, aborte
Na hora em que a nossa carne apodrecer?!
Não! Essa luz radial, em que arde o Ser,
Para a perpetuação da Espécie forte,
Tragicamente, ainda depois da morte,
Dentro dos ossos, continua a arder!
Surdos destarte a apóstrofes e brados,
Os nossos esqueletos descamados,
Em convulsivas contorções sensuais,
Haurindo o gás sulfídrico das covas,
Com essa volúpia das ossadas novas
Hão de ainda se apertar cada vez mais!
Fome do átomo e eurítmico transporte
De todas as moléculas, aborte
Na hora em que a nossa carne apodrecer?!
Não! Essa luz radial, em que arde o Ser,
Para a perpetuação da Espécie forte,
Tragicamente, ainda depois da morte,
Dentro dos ossos, continua a arder!
Surdos destarte a apóstrofes e brados,
Os nossos esqueletos descamados,
Em convulsivas contorções sensuais,
Haurindo o gás sulfídrico das covas,
Com essa volúpia das ossadas novas
Hão de ainda se apertar cada vez mais!
3 067
3
Ademir Antônio Bacca
Das paixões
a nudez do teu corpo
é idéia que vaga solta
no campo da fantasia,
abre portas,
resuscita sonhos
e incendeia
as minhas emoções.
é idéia que vaga solta
no campo da fantasia,
abre portas,
resuscita sonhos
e incendeia
as minhas emoções.
1 404
3
Florbela Espanca
O Meu Soneto
Em atitudes e em ritmos fleumáticos,
Erguendo as mãos em gestos recolhidos,
Todos os brocados fúlgidos, hieráticos,
Em ti andam bailando os meus sentidos...
E os meus olhos serenos, enigmáticos,
Meninos que na estrada andam perdidos,
Dolorosos, tristíssimos, extáticos,
São letras de poemas nunca lidos...
As magnólias abertas dos meus dedos
São mistérios, são filtros, são enredos
Que pecados d’amor trazem de rastos...
E a minha boca, a rútila manhã,
Na Via Láctea, lírica, pagã,
A rir desfolha as pétalas dos astros!...
Erguendo as mãos em gestos recolhidos,
Todos os brocados fúlgidos, hieráticos,
Em ti andam bailando os meus sentidos...
E os meus olhos serenos, enigmáticos,
Meninos que na estrada andam perdidos,
Dolorosos, tristíssimos, extáticos,
São letras de poemas nunca lidos...
As magnólias abertas dos meus dedos
São mistérios, são filtros, são enredos
Que pecados d’amor trazem de rastos...
E a minha boca, a rútila manhã,
Na Via Láctea, lírica, pagã,
A rir desfolha as pétalas dos astros!...
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Idea Vilariño
Já não tenho
Já não tenho
já não quero
mais ter perguntas.
Já não tenho
já não quero
ter mais respostas.
Teria que me sentar num banquinho
e esperar que termine.
já não quero
mais ter perguntas.
Já não tenho
já não quero
ter mais respostas.
Teria que me sentar num banquinho
e esperar que termine.
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Domingos Caldas Barbosa
Doçura de Amor
Cuidei que o gosto de Amor
Sempre o mesmo gosto fosse,
Mas um Amor Brasileiro
Eu não sei porque é mais doce.
Gentes, como isto
Cá é temperado,
Que sempre o favor
Me sabe a salgado:
Nós lá no Brasil
A nossa ternura
A açúcar nos sabe,
Tem muita doçura,
Oh! se tem! tem.
Tem um mel mui saboroso
É bem bom, é bem gostoso.
As ternuras desta terra
Sabem sempre a pão e queijo,
Não são como no Brasil
Que até é doce o desejo.
Gentes, etc.
Ah nhanhá venha escutar
Amor puro e verdadeiro,
Com preguiçosa doçura
Que é Amor de Brasileiro.
Gentes, etc.
Os respeitos cá do Reino
Dão a Amor muita nobreza,
Porém tiram-lhe a doçura
Que lhe deu a Natureza.
Gentes, etc.
Quanto a gente tem nhanhá
Que lhe seja bem fiel,
É como no Reino dizem
Caiu a sopa no mel.
Gentes, etc.
Se tu queres qu'eu te adore
À Brasileira hei de amar-te,
Eu sou teu, e tu és minha,
Não há mais tir-te nem guar-te.
Gentes, etc.
Publicado no livro Viola de Lereno: coleção das suas cantigas, oferecidas aos seus amigos (1826).
In: BARBOSA, Caldas. Viola de Lereno. Pref. Francisco de Assis Barbosa. Rio de Janeiro: INL, 1944. 2v. (Biblioteca popular brasileira, 14, 15)
NOTA: Nhanhá: tratamento dado às meninas e às moças pelos escravos. Sem tir-te nem guar-te: sem aviso prévio, sem cerimôni
Sempre o mesmo gosto fosse,
Mas um Amor Brasileiro
Eu não sei porque é mais doce.
Gentes, como isto
Cá é temperado,
Que sempre o favor
Me sabe a salgado:
Nós lá no Brasil
A nossa ternura
A açúcar nos sabe,
Tem muita doçura,
Oh! se tem! tem.
Tem um mel mui saboroso
É bem bom, é bem gostoso.
As ternuras desta terra
Sabem sempre a pão e queijo,
Não são como no Brasil
Que até é doce o desejo.
Gentes, etc.
Ah nhanhá venha escutar
Amor puro e verdadeiro,
Com preguiçosa doçura
Que é Amor de Brasileiro.
Gentes, etc.
Os respeitos cá do Reino
Dão a Amor muita nobreza,
Porém tiram-lhe a doçura
Que lhe deu a Natureza.
Gentes, etc.
Quanto a gente tem nhanhá
Que lhe seja bem fiel,
É como no Reino dizem
Caiu a sopa no mel.
Gentes, etc.
Se tu queres qu'eu te adore
À Brasileira hei de amar-te,
Eu sou teu, e tu és minha,
Não há mais tir-te nem guar-te.
Gentes, etc.
Publicado no livro Viola de Lereno: coleção das suas cantigas, oferecidas aos seus amigos (1826).
In: BARBOSA, Caldas. Viola de Lereno. Pref. Francisco de Assis Barbosa. Rio de Janeiro: INL, 1944. 2v. (Biblioteca popular brasileira, 14, 15)
NOTA: Nhanhá: tratamento dado às meninas e às moças pelos escravos. Sem tir-te nem guar-te: sem aviso prévio, sem cerimôni
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Alex Polari
Sobre Nossas Companheiras nos Amarem
Elas compõem um imenso partido
de elos partidos, correntes quebradas
partidas sustadas, idas sem volta.
Elas estão presas a uma liberdade forçada
e às vezes retornam a esses muros
quando as luzes da cidade
apenas se extinguem.
Cada uma delas traz em si uma marca:
o conhecimento que o espelho não reflete
o amor semiclandestino do corpo que não sua
o gemido da carícia que se esconde.
Cada uma delas traz em si um medo
de grade que fraciona os orgasmos
do cadeado que divide as sensações
do outro que floresce no próprio luto
daquele que espreita no antigo leito
do reverso da moeda da própria sorte.
Cada uma delas conhece uma dúvida:
da vida anterior que não se repete
do teor imprimido aos novos passos
da espera que continua sendo essencial.
Elas têm dúvidas sobre a liturgia
dos corpos sacramentados pelos anos
das penas excessivas com que os tribunais
condenam nossas ereções inúteis
das garantias necessárias por uma dedicação difícil.
Elas têm toda a razão em suprir a carência
de sexo e de projetos
mas sabem no fundo
que o maior sentimento possível
mora numa enxovia
sombria e úmida.
In: ALVERGA, Alex Polari de. Inventário de cicatrizes. Apres. Carlos Henrique de Escobar. 3.ed. São Paulo: Teatro Ruth Escobar; Rio de Janeiro: Comitê Brasileiro pela Anistia, s.d
de elos partidos, correntes quebradas
partidas sustadas, idas sem volta.
Elas estão presas a uma liberdade forçada
e às vezes retornam a esses muros
quando as luzes da cidade
apenas se extinguem.
Cada uma delas traz em si uma marca:
o conhecimento que o espelho não reflete
o amor semiclandestino do corpo que não sua
o gemido da carícia que se esconde.
Cada uma delas traz em si um medo
de grade que fraciona os orgasmos
do cadeado que divide as sensações
do outro que floresce no próprio luto
daquele que espreita no antigo leito
do reverso da moeda da própria sorte.
Cada uma delas conhece uma dúvida:
da vida anterior que não se repete
do teor imprimido aos novos passos
da espera que continua sendo essencial.
Elas têm dúvidas sobre a liturgia
dos corpos sacramentados pelos anos
das penas excessivas com que os tribunais
condenam nossas ereções inúteis
das garantias necessárias por uma dedicação difícil.
Elas têm toda a razão em suprir a carência
de sexo e de projetos
mas sabem no fundo
que o maior sentimento possível
mora numa enxovia
sombria e úmida.
In: ALVERGA, Alex Polari de. Inventário de cicatrizes. Apres. Carlos Henrique de Escobar. 3.ed. São Paulo: Teatro Ruth Escobar; Rio de Janeiro: Comitê Brasileiro pela Anistia, s.d
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Alberto da Costa e Silva
O Riso de Vera
Raso mar
frente ao céu,
menor
do que
em cada coisa o seu
voto de ausência.
E além
do arco do espaço,
tudo se concentra
na sombra
em que me finda
o dia.
Enquanto em ti
se abrem
as flores enserenadas
e a luz
ressaca
nos postigos.
In: SILVA, Alberto da Costa e. As linhas da mão. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Difel; Brasília: INL, 1978. Poema integrante da série As Linhas da Mão.
frente ao céu,
menor
do que
em cada coisa o seu
voto de ausência.
E além
do arco do espaço,
tudo se concentra
na sombra
em que me finda
o dia.
Enquanto em ti
se abrem
as flores enserenadas
e a luz
ressaca
nos postigos.
In: SILVA, Alberto da Costa e. As linhas da mão. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Difel; Brasília: INL, 1978. Poema integrante da série As Linhas da Mão.
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Afrânio Peixoto
Seu Colar de Pérolas
No céu do seu colo
As estrelas fazem ronda,
Adorando o rosto...
In: PEIXOTO, Afrânio. Miçangas: poesia e folclore. São Paulo: Ed. Nacional, 1931. p. 24
As estrelas fazem ronda,
Adorando o rosto...
In: PEIXOTO, Afrânio. Miçangas: poesia e folclore. São Paulo: Ed. Nacional, 1931. p. 24
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Laís Corrêa de Araújo
Ato de Contrição
Não me arrependo de meus erros:
nada mais que sofrimento e vida.
Não me arrependo de meus beijos:
deixaram um pouco de mim
em muitas bocas.
Não me arrependo de meus pensamentos:
eram belos como mulheres nuas.
Perdoai, Senhor, se alguma vez
não fui eu mesma.
In: ARAÚJO, Laís Corrêa de. Caderno de poesia. Sel. e org. Affonso Ávila e Wilson de Figueiredo. Il. Washington Junior. Belo Horizonte: Santelmo Poesia, 1951
nada mais que sofrimento e vida.
Não me arrependo de meus beijos:
deixaram um pouco de mim
em muitas bocas.
Não me arrependo de meus pensamentos:
eram belos como mulheres nuas.
Perdoai, Senhor, se alguma vez
não fui eu mesma.
In: ARAÚJO, Laís Corrêa de. Caderno de poesia. Sel. e org. Affonso Ávila e Wilson de Figueiredo. Il. Washington Junior. Belo Horizonte: Santelmo Poesia, 1951
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