Serenidade e Paz Interior

Poemas neste tema

Renato Rezende

Renato Rezende

Dentro do Mar

Dentro do mar
nós quatro
em silêncio

Onda vem e vai
dentro do mar
em silêncio

Um vem e vai
dentro do mar
em silêncio

Nós quatro
cada um quatro
cada quatro mil

em silêncio
lavando nossos passados
dentro do mar

infinito --
e o céu infinito


Cidade dos Arrecifes (Recife), 16 de novembro 1994
961
Fernando Guimarães

Fernando Guimarães

Poema

Vem esconder dentro de mim,
onde o teu ser a medo principia,
a longa curva sem rosto ou fim
de uma harmonia

que não escutes mas
fique suspensa como uma fonte:
— desenho nu feito das
linhas da tarde e do horizonte…
849
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Fuga

a melhor parte foi
baixar as
cortinas
estofar a campainha
com trapos
colocar o telefone
na
geladeira
e ir pra cama
por 3 ou 4
dias.

e a segunda melhor
parte
foi que
ninguém em momento algum
sentiu a minha
falta.
1 168
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Tema e Voltas

Mas para quê
Tanto sofrimento,
Se nos céus há o lento
Deslizar da noite?

Mas para quê
Tanto sofrimento,
Se lá fora o vento
É um canto da noite?

Mas para quê
Tanto sofrimento,
Se agora, ao relento.
Cheira a flor da noite?

Mas para quê
Tanto sofrimento,
Se o meu pensamento
É livre na noite?
1 181
Marina Colasanti

Marina Colasanti

Sistema solar

No prato oval
três peras
e o friso azul
barrado de dourado.
Quietude posta à mesa.
Lá fora a escuridão
feita de chuva.
Aqui três sóis
servidos no jantar
1 020
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Concerto de Dvorák

Soava na tela aquele concerto de celo de Dvorák:
eu via as imagens da orquestra
e as mãos e o rosto do possesso Misha Misky abraçado ao instrumento
engalfinhado numa amorosa luta com o sublime.
Lá fora
a intriga nos palácios,
as buzinas e os insultos,
a traição, a espera, o luto.
Aqui
a perfeição preenchendo a sala
num momento de paz absoluta.
717
José Saramago

José Saramago

Invenção de Marte

Madrugadas de prata sobre campos
De nunca vistas ervas, onde o vento
Passa de largo e manso, num silêncio
De esmeraldas eternas. Movimento
De bailado ou de luz purificada,
Lentos canais de Marte que eu invento
Na minha humana fala condenada.
1 056
José Saramago

José Saramago

E Se Vier

E se vier que traga o coração
No seu lugar de paz. Amor diremos,
Que outro nome melhor se não descobre.
Só a vida não diz quanto sabemos.
960
José Saramago

José Saramago

Manhã

Altos os troncos, e no alto os cantos:
A hora da manhã, a nós nascida,
Cobre de verde e azul o gesto simples
Com que me dás, serena, a tua vida.
Confiança das mãos, dos olhos calmos,
Donde a sombra das mágoas e dos prantos
Como a noite do bosque se retira:
Altos os troncos, e no alto os cantos.
1 111
José Saramago

José Saramago

O Beijo

Hoje, não sei porquê, o vento teve um grande gesto de renúncia, e as árvores aceitaram a imobilidade.
No entanto (e é bem que assim seja) uma viola organiza obstinadamente o espaço da solidão.
Ficamos sabendo que as flores se alimentam na fértil humidade.
É essa a verdade da saliva.
1 200
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Quero

Nos teus quartos forrados de luar
Onde nenhum dos meus gestos faz barulho
Voltar.
E sentar-me um instante
Na beira da janela contra os astros
E olhando para dentro contemplar-te,
Tu dormindo antes de jamais teres acordado,
Tu como um rio adormecido e doce
Seguindo a voz do vento e a voz do mar
Subindo as escadas que sobem pelo ar.
1 561
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Naquele Tempo

Sob o caramanchão de glicínia lilás
As abelhas e eu
Tontas de perfume

Lá no alto as abelhas
Doiradas e pequenas
Não se ocupavam de mim
Iam de flor em flor
E cá em baixo eu
Sentada no banco de azulejos
Entre penumbra e luz
Flor e perfume
Tão ávida como as abelhas
Abril de 98
1 542
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

As Minhas Mãos Mantêm As Estrelas

Seguro a minha alma para que se não quebre
A melodia que vai de flor em flor,
Arranco o mar do mar e ponho-o em mim
E o bater do meu coração sustenta o ritmo das coisas.
1 785
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Quando Morreste de Repente Arrastando Contigo Para a Morte a Minha Infância

Morreste sozinho
Entre pinhais rios e campos
Como um homem do paleolítico no rasto da caça
Morreste em agonia
Inteiro e sereno e de bem com as coisas
Tinhas olhado com alegria a claridade da manhã de Dezembro
A terra era justa
O solo germinava
Foste velado primeiro na cabana do pescador
Depois na casa
Dormias na justiça terrestre
Na pura fidelidade à imanência
À tua maneira
911
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

1. a Respiração Dos Deuses É Um Silêncio Nu

A respiração dos deuses é um silêncio nu
E uma nudez mais aguda poisada sobre as coisas
2

Aqui minha alma se suspende
Como tocando a substância pressentida
3

Eis o centro do mundo seu umbigo
A exacta proporção de presença e vazio
1 107
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Goesa

Tudo era atravessado por um rio de memórias
E brisas subtis e lentas se cruzavam
E enquanto lá fora baloiçavam
Os grandes leques verdes das palmeiras
Uma rapariga descalça como bailarina sagrada
Atravessou o quarto leve e lenta
Num silêncio de guitarra dedilhada
999
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Inocência E Possibilidade

As imagens eram próximas
como coladas sobre os olhos
o que nos dava um rosto justo e liso;
os gestos circulavam sem choque nem ruído
as estrelas eram maduras como frutos
e os homens eram bons sem dar por isso
Granja 31 de Agosto 1943
1 122
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

O Poema E a Casa

Paramos devagar entre paredes brancas
Entre mobílias escuras e as janelas verdes
Um longo instante paramos em frente
Das mil luzes e mil estátuas do poente
1 152
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Xvi. Há No Rei de Chipre

Há no rei de Chipre
Um certo mistério
Não só o ser grego
Sendo tão assírio
Mas certo sossego
E certo recuo
Entre duas guerras —
Seu corpo de espiga
Coluna de tréguas
Mora em certa pausa
Que nunca encontrei
— Clareza das ilhas
Que tanto busquei
1982
1 070
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

V. Faz da Tua Vida Em Frente À Luz

Faz da tua vida em frente à luz
Um lúcido terraço exacto e branco,
Docemente cortado
Pelo rio das noites.

Alheio o passo em tão perdida estrada
Vive, sem seres ele, o teu destino.
Inflexível assiste
À tua própria ausência.
1 106
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

A Luz E a Casa

Em redor da luz
Com sombras e brancos
A casa se procura

Minhas mãos quase tocam
O brando respirar
Da sua atenção pura
1 252
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Retrato de Mulher

Algo de cereal e de campestre
Algo de simples em sua claridade
Algo sorri em sua austeridade
1 636
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Iv. Falamos Junto À Luz. Lá Fora a Noite

Falamos junto à luz. Lá fora a noite
Imóvel brilha sobre o mar parado.
À sombra das palavras o teu rosto
Em mim se inscreve como se durasse.
1 285
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

As Cigarras

Com o fogo do céu a calma cai
No muro branco as sombras são direitas
A luz persegue cada coisa até
Ao mais extremo limite do visível
Ouvem-se mais as cigarras do que o mar
1 153