Separação e fim de relação

Poemas neste tema

Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

No Mármore de Tua Bunda

No mármore de tua bunda gravei o meu epitáfio.
Agora que nos separamos, minha morte já não me pertence.
Tu a levaste contigo.
1 968
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Sujei o Teu Nome

Sujei o teu nome
para me libertar de ti
o sujo foi sombra
teu nome esqueci-o

O sujo era ferida
e eu falso cantava
Não reconheci a minha voz
Ai que deserta liberdade

Preso de novo
que rede tamanha
de laços e vozes
Um eco talvez
Um eco incessante
1 259
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Porque Não Soube Merecer a Glória, a Mais Suave

Porque não soube merecer a glória, a mais suave
de me deitar a teu lado
e que do sangue a palavra
abolisse a diferença entre o meu corpo e a minha voz
porque te perdi
não sei quem sou
563
Francisco Mallmann

Francisco Mallmann

I

trago-lhe boas notícias
finalmente será demolida
a parede e instalarão
para mim uma janela
nem posso acreditar
depois do tanto
que insisti
agora verei a ponte
agora verei o caminho
que fizeste ao fugir
fernando a vida é terrível
mas disseram-me que
às vezes se descansa eu
daqui mal posso esperar
756
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Meditação do Duque de Gandia Sobre a Morte de Isabel de Portugal

Nunca mais
A tua face será pura limpa e viva
Nem o teu andar como onda fugitiva
Se poderá nos passos do tempo tecer.
E nunca mais darei ao tempo a minha vida.

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.
A luz da tarde mostra-me os destroços
Do teu ser. Em breve a podridão
Beberá os teus olhos e os teus ossos
Tomando a tua mão na sua mão.

Nunca mais amarei quem não possa viver
Sempre,
Porque eu amei como se fossem eternos
A glória, a luz e o brilho do teu ser,
Amei-te em verdade e transparência
E nem sequer me resta a tua ausência,
És um rosto de nojo e negação
E eu fecho os olhos para não te ver.

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.
4 220
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Viii. Canção de Matar

Do dia nada sei

O teu amor em mim
Está como o gume
De uma faca nua
Ele me atravessa
E atravessa os dias
Ele me divide

Tudo o que em mim vive
Traz dentro uma faca
O teu amor em mim
Que por dentro me corta
Com uma faca limpa
Me libertarei
Do teu sangue que põe
Na minha alma nódoas

O teu amor em mim
De tudo me separa
No gume de uma faca
O meu viver se corta

Do dia nada sei
E a própria noite azul
Me fecha a sua porta
Do dia nada sei
Com uma faca limpa
Me libertarei.
2 478
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

De Um Amor Morto

De um amor morto fica
Um pesado tempo quotidiano
Onde os gestos se esbarram
Ao longo do ano

De um amor morto não fica
Nenhuma memória
O passado se rende
O presente o devora
E os navios do tempo
Agudos e lentos
O levam embora

Pois um amor morto não deixa
Em nós seu retrato
De infinita demora
É apenas um facto
Que a eternidade ignora
2 197
Susana Thénon

Susana Thénon

Poema

É inútil que a amada se arraste
em busca da mão que desenha sombras
sob sua pele.
É inútil que voe
perseguindo a nuvem de pedra que a feriu.
Em vão saltará de folha em folha
perguntando pelo rosto
que se afogou
no ar.
889
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Olha o teu leque esquecido!

Olha o teu leque esquecido!
Olha o teu cabelo solto!
Maria, toma sentido!
Maria, senão não volto!
1 372
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Puseste a mantilha negra

Puseste a mantilha negra
Que hás-de tirar ao voltar.
A que me puseste na alma
Não tiras. Mas deixa-a estar!
1 315
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

São já onze horas da noite.

São já onze horas da noite.
Porque te não vais deitar?
Se de nada serve ver-te,
Mais vale não te fitar.
1 546
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Esse frio cumprimento

Esse frio cumprimento
Tem ironia p’ra mim.
Porque é o mesmo movimento
Com que a gente diz que sim...
1 216
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Quando ela pôs o chapéu

Quando ela pôs o chapéu
Como se tudo acabasse,
Sofri de não haver véu
Que inda um pouco a demorasse.
2 664
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Entreguei-te o coração,

Entreguei-te o coração,
E que tratos tu lhe deste!
É talvez por estar estragado
Que ainda não mo devolveste...
1 586
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O malmequer que arrancaste

O malmequer que arrancaste
Deu-te nada no seu fim,
Mas o amor que me arrancaste,
Se deu nada, foi a mim.
1 396
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Deste-me um adeus antigo

Deste-me um adeus antigo
À maneira de eu não ser
Mais que o amigo do amigo
Que havias de poder ter.
850
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Teus olhos querem dizer

Teus olhos querem dizer
Aquilo que se não diz...
Tenho muito que fazer...
Que sejas muito feliz!
823
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O guardanapo dobrado

O guardanapo dobrado
Quer dizer que se não volta.
Tenho o coração atado:
Vê se a tua mão mo solta.
1 411
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O canário já não canta.

O canário já não canta.
Não canta o canário já.
Aquilo que em ti me encanta
Talvez não me encantará.
1 616
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Se te queres despedir

Se te queres despedir
Não te despidas de mim,
Que eu não posso consentir
Que tu me trates assim.
1 114
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

ENDINGS

Farewells, departures, goings - these are most sad:
They are endings, dissolutions; they drive sentiment mad.
Even the fall of priests, of tyrants, of slaves and of kings
Has the bitterness and the sadness of the finishing of things.
1 517
Thomas Brasch

Thomas Brasch

Canção

Chuva e nuvens ontem
Ninguém que permaneça
Eu não sou contra
Canto e bebo cerveja

Chora hoje e canta
Árvores cobrem a lua
Onde ninguém mais janta
Eu sempre acabo na rua

Folhas amanhã e trovões
Você terá me deixado
Eu louvarei os troncos
Das árvores a seu lado


(tradução de Ricardo Domeneck)
1 096
Nizâr Qabbânî

Nizâr Qabbânî

Depois de Roma ter ardido

Depois de Roma ter ardido
e de tu teres ardido com ela
não esperes de mim
que te escreva um poema para te chorar
eu não estou acostumado
a chorar pássaros mortos
(tradução de André Simões)
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Isabel Câmara

Isabel Câmara

Fim (13° volume)

Você me falou
que me mandasse porta afora
Eu vou
Vou com força total
esta porta não é metal
é o nosso mental
transparente
correndo da corrente
que pega gente exigente.
Vou enxugando a alma.
na palma que segura
a espada.
Vou pedindo calma.


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