Saudade e Ausência

Poemas neste tema

Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Em Nome

Em nome da tua ausência
Construí com loucura uma grande casa branca
E ao longo das paredes te chorei
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Nunca Mais

Nunca mais
Caminharás nos caminhos naturais.

Nunca mais te poderás sentir
Invulnerável, real e densa —
Para sempre está perdido
O que mais do que tudo procuraste
A plenitude de cada presença.

E será sempre o mesmo sonho, a mesma ausência.
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Horizonte Vazio

Horizonte vazio em que nada resta
Dessa fabulosa festa
Que um dia te iluminou.

As tuas linhas outrora foram fundas e vastas,
Mas hoje estão vazias e gastas
E foi o meu desejo que as gastou.

Era do pinhal verde que descia
A noite bailando em silenciosos passos,
E naquele pedaço de mar ao longe ardia
O chamamento infinito dos espaços.

Nos areais cantava a claridade,
E cada pinheiro continha
No irreprimível subir da sua linha
A explicação de toda a heroicidade.

Horizonte vazio, esqueleto do meu sonho,
Árvore morta sem fruto,
Em teu redor deponho
A solidão, o caos e o luto.
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Neste Dia de Mar E Nevoeiro

Neste dia de mar e nevoeiro
É tão próximo o teu rosto.

São os longos horizontes
Os ritmos soltos dos ventos
E aquelas aves
Que desde o princípio das estações
Fizeram ninhos e emigraram
Para que num dia inverso tu as visses.

Aquelas aves que tinham
Uma memória eterna do teu rosto
E voam sempre dentro do teu sonho
Como se o teu olhar as sustentasse.
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

A Casa

A casa que eu amei foi destroçada
A morte caminha no sossego do jardim
A vida sussurrada na folhagem
Subitamente quebrou-se não é minha
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Gesto

Eu em tudo Te vi amanhecer
Mas nenhuma presença Te cumpriu,
Só me ficou o gesto que subiu
Às mais longínquas fontes do meu ser.
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Duas horas te esperei/Dois anos te esperaria

Duas horas te esperei
Dois anos te esperaria.
Dize: devo esperar mais?
Ou não vens porque inda é dia?
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Tenho vontade de ver-te

Tenho vontade de ver-te
Mas não sei como acertar.
Passeias onde não ando,
Andas sem eu te encontrar.
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Florbela Espanca

Florbela Espanca

Que Diferença!...

Quando passas a meu lado,
E que olhas para mim,
Tornas-te da cor da rosa,
E eu da cor do jasmim.

Vê tu que expressões dif’rentes
Da nossa mesma ansiedade:
A cor da rosa é despeito,
A palidez é saudade!
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Daniel Faria

Daniel Faria

Estranho é o sono que não te devolve.

Estranho é o sono que não te devolve.
Como é estrangeiro o sossego
de quem não espera recado.
Essa sombra como é a alma
de quem já só por dentro se ilumina
e surpreende
e por fora é
apenas peso de ser tarde.Como é
amargo não poder guardar-te
em chão mais próximo do coração.

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Ana Paula Ribeiro Tavares

Ana Paula Ribeiro Tavares

Quantas coisas do amor

Quantas coisas do amor
P"ra ti guardei
Coisas simples como estar à espera
Manter o pão quente
Deixar o vinho abrir-se
Em mil sabores
Guardei-me das tentações
das sombras do desejo
das vozes
dos segredos

seria muito pedir-te
que me veles o sono
só mais uma vez.

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Eunice Arruda

Eunice Arruda

Cimento Armado

O cotidiano basta
calçadas
asfaltos
desafogam o coração

Depois há a noite
A noite é mãe de
afagar cabelos onde
seus dedos são constante ausência

Sim
o cotidiano basta
não tem importância
o que
não tenho


In: ARRUDA, Eunice. Invenções do desespero. São Paulo: Ed. da autora, 1973
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Laís Corrêa de Araújo

Laís Corrêa de Araújo

Adeus

É assim que eu te digo adeus:
como uma menina que mora na beira
da estrada e abana a mão para o trem.

Apenas te vi.
E te digo adeus porque não
apanho rosas.


In: ARAÚJO, Laís Corrêa de. Caderno de poesia. Sel. e org. Affonso Ávila e Wilson de Figueiredo. Il. Washington Junior. Belo Horizonte: Santelmo Poesia, 1951
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Paulo Leminski

Paulo Leminski

KAI

Mínimo templo
para um deus pequeno,
aqui vos guarda,
em vez da dor que peno,
meu extremo anjo de vanguarda.

De que máscara
se gaba sua lástima,
de que vaga
se vangloria sua história,
saiba quem saiba.

A mim me basta
a sombra que se deixa,
o corpo que se afasta.

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Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Cabedelo

Viagem à roda do mundo
Numa casquinha de noz:
Estive em Cabedelo.
O macaco me ofereceu cocos.
Ó maninha, ó maninha,
Tu não estavas comigo!...

— Estavas?...

1928
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Dorothy Parker

Dorothy Parker

Ser mulher

Por que será que quando estou em Roma
daria tudo para estar em casa na redoma
mas se estou na minha terra americana
minha alma deseja a cidade italiana?

E quando com você, meu amor, meu remédio,
fico espetacularmente cheia de tédio
Mas se você se levantar e me deixar
Grito para você voltar?



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Lya Luft

Lya Luft

Estranho também esse amor

Estranho também esse amor,
com hora marcada para a mutilação
da morte, o minuto acertado,
e o fim consultando o relógio
para nos golpear.

Estranho esse amor de agora,
com meu amado atrás de um espelho baço
onde às vezes penso divisar seu vulto
como num aquário.
Enrolado em silêncio,
mais que nunca o meu amor comanda a minha vida.

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Mariazinha Congílio

Mariazinha Congílio

Cinzas do Viver

O tempo
parado
Espera o instante esquecido
A mão inutilmente estendida
O amor perdido
A carícia ausente.

Proprietário das omissões
Suave e tranquilamente
O tempo colhe cinzas do viver

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Ednólia Fontenele

Ednólia Fontenele

O Rio Deságua em Mim

O rio deságua em mim!
algum braço do Parnaíba
prende minha intenção de viver longe.
Estou aqui
mas permaneço lá,
suando com o calor
de suas tardes quentes
que se afogam nas águas do mar.
O RIO PARNAÍBA DESÁGUA EM MIM

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Sérgio Milliet

Sérgio Milliet

Genebra

Longe dos olhos perto do coração
A nostalgia cresce como meu bigode.

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Luís Marcelino

Luís Marcelino

Sol Português

Tardes frias
Noites quentes
Ondas do mar turbulentas
Tantos dias
Sempre ausentes
Histórias de vida cinzentas

Luzes caladas
Estrelas sem vida
Num acordar tempestade
Bocas beijadas
Noite perdida
Neste mar sem idade

Os ventos do norte
Voaram p’ra sul
E eu aqui já nascido
Pintei a minha sorte
No ouro sobre azul
Deste mundo fingido.

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H. Masuda Goga

H. Masuda Goga

Primavera

Um bem-te-vi na árvore,
canta e canta sem descanso:
outro canto ao longe.

Por sobre o gramado,
as borboletas em bando,
um caixão chegando...

Inúmeras flores
nos túmulos de finados
— na alma só saudade...

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Helena Parente Cunha

Helena Parente Cunha

Anel de Vidro

sob os arcos das arcadas
ocultei o meu anel
o anel que não te dei

sob o arco do arco-íris
armei a rede encantada
para o meu sono de vidro

por sobre as cordas em arco
recordei remotos tons
refleti perdidos fios

acordo sem meu anel
ecoei na última cor
me arqueio quebrado vidro

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Helena Parente Cunha

Helena Parente Cunha

Tempo

fronteira no tempo
me rompo entre dois prantos

antes de outrora
era meu pai

além de após
o mesmo ai

entre
antes
e depois
sem agora de meu pai

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