Sabedoria

Poemas neste tema

Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Vieira da Silva

Atenta antena
Athena
De olhos de coruja
Na obscura noite lúcida
1994
1 127
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Salgueiro Maia

Aquele que na hora da vitória
Respeitou o vencido

Aquele que deu tudo e não pediu a paga

Aquele que na hora da ganância
Perdeu o apetite

Aquele que amou os outros e por isso
Não colaborou com sua ignorância ou vício

Aquele que foi «Fiel à palavra dada à ideia tida»
Como antes dele mas também por ele
Pessoa disse
1 630
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Xvi. Há No Rei de Chipre

Há no rei de Chipre
Um certo mistério
Não só o ser grego
Sendo tão assírio
Mas certo sossego
E certo recuo
Entre duas guerras —
Seu corpo de espiga
Coluna de tréguas
Mora em certa pausa
Que nunca encontrei
— Clareza das ilhas
Que tanto busquei
1982
1 069
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Esteira E Cesto

No entrançar de cestos ou de esteira
Há um saber que vive e não desterra
Como se o tecedor a si próprio se tecesse
E não entrançasse unicamente esteira e cesto

Mas seu humano casamento com a terra
1 155
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

A Palavra

Heraclito de Epheso diz:

«O pior de todos os males seria
A morte da palavra»

Diz o provérbio do Malinké:

«Um homem pode enganar-se em sua parte de alimento
Mas não pode
Enganar-se na sua parte de palavra»
1 267
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Iii. Ausentes São Os Deuses Mas Presidem

Ausentes são os deuses mas presidem.
Nós habitamos nessa
Transparência ambígua.

Seu pensamento emerge quando tudo
De súbito se torna
Solenemente exacto.

O seu olhar ensina o nosso olhar:
Nossa atenção ao mundo
É o culto que pedem.
1 218
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Pompeia — Casa de Menandro

A serenidade de um verso latino
Claro e medido
Povoa o tempo de clepsidra — ou o escorrido
Tempo de areia fina

Paira — apesar da morte e da ruína —
Uma ciência tão atenta do vivido
Que a alegria do penúltimo momento
Ergue na jovem luz a sua taça

E toco na sombra uma frescura de vinha
1 049
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Ii. Escuta, Lídia, Como Os Dias Correm

Escuta, Lídia, como os dias correm
Fingidamente imóveis,
E à sombra de folhagens e palavras
Os deuses transparecem
Como para beber o sangue oculto
Que nos tornou atentos.
1 116
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Santa Clara de Assis

Eis aquela que parou em frente
Das altas noites puras e suspensas.

Eis aquela que soube na paisagem
Adivinhar a unidade prometida:
Coração atento ao rosto das imagens,
Face erguida,
Vontade transparente
Inteira onde os outros se dividem.
1 445
Adélia Prado

Adélia Prado

O Aproveitamento da Matéria

Só quem olha sem asco as próprias fezes,
só este é rei.
Só ele pode ordenar-te:
Poupa o cabrito e a grama,
não maltrates borboletas.
A humilhação quebra a espinha
de quem vai ao trono sem saber de si.
Agostinho, o santo, já disse:
Vim de um oco sangrento,
é entre fezes e urina
que nasci.
1 119
Adélia Prado

Adélia Prado

Esplendores

Toda compreensão é poesia,
clarão inaugural que névoa densa
faz parecer velados diamantes.
Em pequenos bocados,
como quem dá comida a criancinhas,
a beleza retém seu vórtice.
São águas de compaixão
e eu sobrevivo.
1 163
Adélia Prado

Adélia Prado

Oficina

Podem gritar
as cigarras
e as serras dos carpinteiros.
Nunca serão funestas,
fatiam a tarde
que continua inconsútil.
O mundo é ininteligível,
mas é bom.
1 083
Adélia Prado

Adélia Prado

A Vida Eterna

Meio século.
O peso desta palavra ia me deixar de cama.
Não vai mais. Aprendo sabedorias.
Os alquimistas não são contraventores,
cândidos, sim, às vezes, como os santos,
acreditando em pedra, em peixe de sonho,
em sinal escrito no céu.
Onde está Deus?
Abril renasce é do cosmos,
no mais perfeito silêncio.
É dentro e fora de mim.
1 238
Adélia Prado

Adélia Prado

A Menina E a Fruta

Um dia, apanhando goiabas com a menina,
ela abaixou o galho e disse pro ar
— inconsciente de que me ensinava —
‘goiaba é uma fruta abençoada’.
Seu movimento e rosto iluminados
agitaram no ar poeira e Espírito:
o Reino é dentro de nós,
Deus nos habita.
Não há como escapar à fome da alegria!
1 120
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Lembrete

Se procurar bem, você acaba encontrando
não a explicação (duvidosa) da vida,
mas a poesia (inexplicável) da vida.
3 138
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

História Natural

Cobras-cegas são notívagas.
O orangotango é profundamente solitário.
Macacos também preferem o isolamento.
Certas árvores só frutificam de 25 em 25 anos.
Andorinhas copulam no voo.
O mundo não é o que pensamos.
1 862
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Lição

Tarde, a vida me ensina
esta lição discreta:
a ode cristalina
é a que se faz sem poeta.
1 279
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Mestre

Arduíno Bolivar, o teu latim
não foi, não foi perdido para mim.
Muito aprendi contigo: a vida é um verso
sem sentido talvez, mas com que música!
1 356
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora da Coincidência

Escreve sobre paisagens de areia.
Conversa confiante com a pedra.
Solidária do sílex e dos campos
luminosos. Trabalha

nos flancos do mundo, na medula
obscura. Conhece os mínimos
movimentos, os íntimos
tecidos, a pupila,

o sexo da terra. Vibra
discreta e lancinante, espera
coincidir.
946
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Jardim Sol

A lucidez é uma música da água
a respiração compreende sem imagens

Estamos dentro do incessante enigma
Somos a claridade do enigma

A facilidade é um rio
e um silêncio animal

Luz fácil
luz feliz
sol sem ruído            jardim
sol

O caminho é uma pausa
o silêncio sem caminho
1 045
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Perfeito É Não Quebrar

Perfeito é não quebrar
A imaginária linha

Exacta é a recusa
E puro é o nojo.
2 217
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Serenamente Sem Tocar Nos Ecos

Serenamente sem tocar nos ecos
Ergue a tua voz
E conduz cada palavra
Pelo estreito caminho.

Vive com a memória exacta
De todos os desastres
Aos deuses não perdoes os naufrágios
Nem a divisão cruel dos teus membros.

No dia puro procura um rosto puro
Um rosto voluntário que apesar
Do tempo dos suplícios e dos nojos
Enfrente a imagem límpida do mar.
2 112
Nuno Júdice

Nuno Júdice

Enigma ornitológico

Um pássaro entrou numa nuvem.
Uma nuvem entrou num pássaro.
"Qual a verdade?", perguntou
o homem. "Está no pássaro? Ou
está numa nuvem?" E enquanto
o homem procurava a resposta,
o pássaro saiu da nuvem, fazendo
com que a verdade saísse do homem.


Nuno Júdice | "A Matéria do Poema" | Publicações Dom Quixote, 2008
1 285
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Um verso repete

Um verso repete
Uma brisa fresca,
O verão nas ervas,
E vazio sofre ao sol
O átrio abandonado.

Ou, no inverno, ao longe
Os cimos de neve,
À lareira toadas
Dos contos herdados,
E um verso a dizê-lo.

Os deuses concedem
Poucos mais prazeres
Que estes, que são nada.
Mas também concedem
Não querermos outros.
1 487