Recomeço e Renascimento

Poemas neste tema

Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Maria Helena Vieira da Silva Ou o Itinerário Inelutável

Minúcia é o labirinto: muro por muro
Pedra contra pedra livro sobre livro
Rua após rua escada após escada
Se faz e se desfaz o labirinto
Palácio é o labirinto e nele
Se multiplicam as salas e cintilam
Os quartos de Babel roucos e vermelhos
Passado é o labirinto: seus jardins afloram
E do fundo da memória sobem as escadas
Encruzilhada é o labirinto e antro e gruta
Biblioteca rede inventário colmeia —
Itinerário é o labirinto
Como o subir dum astro inelutável —
Mas aquele que o percorre não encontra
Toiro nenhum solar nem sol nem lua
Mas só o vidro sucessivo do vazio
E um brilho de azulejos íman frio
Onde os espelhos devoram as imagens

Exauridos pelo labirinto caminhamos
Na minúcia da busca na atenção da busca
Na luz mutável: de quadrado em quadrado
Encontramos desvios redes e castelos
Torres de vidro corredores de espanto

Mas um dia emergiremos e as cidades
Da equidade mostrarão seu branco
Sua cal sua aurora seu prodígio
1 282
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Fechei À Chave

Fechei à chave todos os meus cavalos
A chave perdi-a no correr de um rio
Que me levou para o mar de longas crinas
Onde o caos recomeça — incorruptível
1 259
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Grécia 72

De novo os Persas recuarão para os confins do seu império
Afundados em distância confundidos com o vento
De novo o dia será liso sobre a orla do mar
Nada encobrirá a pura manhã da imanência
1 170
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Esgotei o Meu Mal, Agora

Queria tudo esquecer, tudo abandonar,
Caminhar pela noite fora
Num barco em pleno mar.

Mergulhar as mãos nas ondas escuras
Até que elas fossem essas mãos
Solitárias e puras
Que eu sonhei ter.
1 506
Adélia Prado

Adélia Prado

Mandala

Minha ficção maior é Jonathan,
mas, como é poética, existe
e porque existe me mata
e me faz renascer a cada ciclo
de paixão e de sonho.
1 075
Adélia Prado

Adélia Prado

A Profetisa Ana No Templo

As fainas da viuvez trabalham uma horta nova.
Quem me condenará por minhas vestes claras?
O recém-nascido vai precisar de faixas.
É um tal amor o que prepara os unguentos
que obriga a divindade a conceder-se.
Até que esmaeçam,
velo as coruscantes estrelas.
1 055
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Desabar

Desabava
Fugir não adianta     desabava
por toda parte     minas     torres
edif
ícios
princípios
l
e
i
s
muletas
desabando     nem gritar
dava tempo soterrados
novos desabamentos insistiam
sobre peitos em pó
desabadesabadesabadavam
As ruínas formaram
outra cidade em ordem definitiva.
1 582
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Um Rosto Emerge

Um rosto emerge
de obscura espiral
e é o espaço liberto
e é o rosto liberto.
993
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Ó Forma da Minha Forma

Ó forma da minha forma
ilumina estes flancos frios, esta mão crispada.
Que eu respire, túmulo, mas vivo.
Tanta espera vã,
tantos espelhos de máscaras.
Eis-me desconhecido e nu
para receber por rosto um sopro.
1 027
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Vazio,

Vazio,
pulsação de uma chama
desvanecida,
ressurgindo.
534
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Ao Vento Leve do Sol

Ao vento leve do sol
num verde e fresco entusiasmo
propagando o antes em nova agilidade
no esplendor da espiral levíssima.
999
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Sedentos de Repouso E do Início

Sedentos de repouso e do início
buscando a esperança nas vogais
outro sentido sentindo ao nível do ar
saboreando o simples na densidade límpida.
1 037
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Folhagem Abre-Se Entre As Mãos

A folhagem abre-se entre as mãos
como um centro solto onde se afunda
o que nunca surge
e surge então numa segunda origem.
1 008
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Quando Ao Sopro Esparso Iniciarmos

Quando ao sopro esparso iniciarmos
na brancura nua a veloz arquitectura
saberemos que a casa está intacta.
1 136
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Tudo Começa Aqui

Tudo começa aqui
no desamparo do horizonte nulo
aqui nasce o corpo no seu espaço virgem
de súbito uma espiral se ergue
ou quase o arco ainda entre o céu e o céu.
1 107
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Que Resta Recomeçar

O que resta         recomeçar

com uma pedra
494
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Tu Que Renasces do Abandono Magia Verde

Tu que renasces do abandono magia verde
magia da montanha e do lago soberbo
tu que renasces soberba do outono
com a música do campo e o vermelho

e o negro e o húmido clamor contido
dá-me o teu seio de consolação nobre
dá-me o teu coração os teus olhos o teu sonho
de quem não és nem podes ser amor de ser

amor no horizonte do teu ser
1 024
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Momento 1

O calor dum sopro
sobre as colheres limpas
a construção repetida de bocas díspares
sobre um grande lago quase inexistente
O recomeço é uma hora de simplicidade
extremamente ténue

De novo voltamos
a uma hora mais leve
a um cavalo que segue silencioso
na infinita lisura do momento
1 049
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Caminhando

Um passo largo
que me enche
de ar

uma certeza rápida
e fresca
sem memória

a face gasta
sob os pés

um solo de grãos onde trepida o branco
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Homem de Abril

a José Gomes Ferreira
Eis o homem de Abril.
Nasceu fraco e de pé.
De fraco, fez-se velho.
Fez-se velho a valer.

Sentou-se ao pé dum muro.
Atrás o sol nascia.
Uma rosa rompeu.
Era manhã. Bom dia!
1 028
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Se o Mar Entrar

Se o mar entrar em casa
com suas flores de som
inundar os tapetes
onde a cinza se instalou
com o tempo
e as minúcias do pó

O mar já está aberto
e voltado de borco
se o mar entrar
o chão já se rompeu
pelos buracos a cor
abre-se a floresta
é um tambor de paz
o dia fruto novo
504
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

De Escadas Insubmissas

De escadas insubmissas
de fechaduras alerta
de chaves submersas
e roucos subterrâneos
onde a esperança enlouqueceu
de notas dissonantes
dum grito de loucura
de toda a matéria escura
sufocada e contraída
nasce o grito claro
1 243
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Voz Inicial

Quem sou já não interessa
se o disse na certeza
que começa outro ser
617
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

E Só Então Saí Das Minhas Trevas

E só então saí das minhas trevas:
Abri as minhas mãos como folhagens,
Intacta a luz brotava das paisagens,
Mas na doçura fantástica das coisas
As minhas mãos queimavam-se e morriam.

Dia perfeito, inteiro e luminoso,
Dia presente como a morte — luz
Trespassando os meus olhos de cegueira.
Cada voz, cada gesto, cada imagem
Na exaltação do sol se consumia.
2 097