Política e Poder
Poemas neste tema
José Miguel Silva
Catorze
A alma dum rapaz é naturalmente
fascista. Não se deixa levar
pelo brado da justiça. Conhece bem
as pedras e a força que as anima.
Sabe a que distância um insulto fere bem.
Não precisa de estudar o ADN, a lei
do mais feroz. Esmurra quem lhe foge,
conjuga sempre os verbos no presente,
acende numa sarça o cigarro inicial.
fascista. Não se deixa levar
pelo brado da justiça. Conhece bem
as pedras e a força que as anima.
Sabe a que distância um insulto fere bem.
Não precisa de estudar o ADN, a lei
do mais feroz. Esmurra quem lhe foge,
conjuga sempre os verbos no presente,
acende numa sarça o cigarro inicial.
969
Fernando Pessoa
É a espada, vejam bem
É a espada, vejam bem
Que ao mal e ao crime conduz;
A espada tem uma coroa
E a coroa tem uma cruz.
Que ao mal e ao crime conduz;
A espada tem uma coroa
E a coroa tem uma cruz.
1 668
Fernando Pessoa
N'um mar de mijo havia um penico sem tampa
N'um mar de mijo havia um penico sem tampa
Mesmo tapado tinha o que contém: só trampa.
D'um malídoro vento ele boia ao sabor
Que em si tem incerteza;
Eis o símbolo (deixo o detalhe ao leitor)
Da monarquia portuguesa.
Mesmo tapado tinha o que contém: só trampa.
D'um malídoro vento ele boia ao sabor
Que em si tem incerteza;
Eis o símbolo (deixo o detalhe ao leitor)
Da monarquia portuguesa.
1 164
Fernando Pessoa
Para adorar a beleza
Para adorar a beleza
E a liberdade amar
Fez Deus Portugal tão belo,
Pôs-nos Deus à beira-mar
(Só aprendemos a sonhar).
Sofra um só deve ser pública
Toda a dor (...) da opressão
Vamos, morte (?] ou república,
Suprimir [?] a revolução.
E a liberdade amar
Fez Deus Portugal tão belo,
Pôs-nos Deus à beira-mar
(Só aprendemos a sonhar).
Sofra um só deve ser pública
Toda a dor (...) da opressão
Vamos, morte (?] ou república,
Suprimir [?] a revolução.
1 197
Fernando Pessoa
EPIGRAMS- VI
Pius, of pious anger full,
In's bull makes priests and men of bias
Spy us. Although Pius is pious,
His bull (if that's a bull) 's a bull.
In's bull makes priests and men of bias
Spy us. Although Pius is pious,
His bull (if that's a bull) 's a bull.
1 167
Fernando Pessoa
GOD'S EPITAPH
Here lies a tyrant whom some called a devil,
Snake-like his folds around our life he curled;
He's dead now, and the world hath no more evil,
Because there is no longer any world.
Snake-like his folds around our life he curled;
He's dead now, and the world hath no more evil,
Because there is no longer any world.
838
Fernando Pessoa
Saudação a todos quantos querem ser felizes:
Saudação a todos quantos querem ser felizes:
Saúde e estupidez!
Isto de ter nervos
Ou de ter inteligência
Ou até de julgar que se tem uma coisa ou outra
Há-de acabar um dia...
Há-de acabar com certeza
Se os governos autoritários continuarem.
Saúde e estupidez!
Isto de ter nervos
Ou de ter inteligência
Ou até de julgar que se tem uma coisa ou outra
Há-de acabar um dia...
Há-de acabar com certeza
Se os governos autoritários continuarem.
1 202
Fernando Pessoa
EPIGRAMS - III
If rank [?] the guinea‑stamp but be,
Why, to this one thing may be said:
That 'tis only midst men we see
A guinea‑stamp on head [?]
Why, to this one thing may be said:
That 'tis only midst men we see
A guinea‑stamp on head [?]
892
Fernando Pessoa
BEIJA-MÃO
Então dizem que o Barão
Que ocupa o lugar cruel
De chefe da situação
Beijou ao Ramiro o anel…
Foi para levar a cabo
Tudo a bem.
Que ocupa o lugar cruel
De chefe da situação
Beijou ao Ramiro o anel…
Foi para levar a cabo
Tudo a bem.
1 263
Fernando Pessoa
Quando os povos da Dalmácia
Quando os povos da Dalmácia
Fizeram guerra aos da Grécia
Saiu muita gente sécia
Da casa do rei da Trácia.
Houve disto grande falácia,
Lá para as bandas da Fenícia,
Porém temendo malícia,
De gente tão pouco sócia,
Lá se foram para a Beócia
Para se curar da icterícia.
Fizeram guerra aos da Grécia
Saiu muita gente sécia
Da casa do rei da Trácia.
Houve disto grande falácia,
Lá para as bandas da Fenícia,
Porém temendo malícia,
De gente tão pouco sócia,
Lá se foram para a Beócia
Para se curar da icterícia.
777
Fernando Pessoa
O papagaio do paço
O papagaio do paço
Não falava — assobiava.
Sabia bem que a verdade
Não é coisa de palavra.
Não falava — assobiava.
Sabia bem que a verdade
Não é coisa de palavra.
2 247
Fernando Pessoa
MANIFESTO DE ÁLVARO DE CAMPOS
MANIFESTO DE ÁLVARO DE CAMPOS
Ora porra!
Nem o rei chegou, nem o Afonso Costa morreu quando caiu do
carro abaixo!
E ficou tudo na mesma, tendo a mais só os alemães a menos...
E para isto se fundou Portugal!
Ora porra!
Nem o rei chegou, nem o Afonso Costa morreu quando caiu do
carro abaixo!
E ficou tudo na mesma, tendo a mais só os alemães a menos...
E para isto se fundou Portugal!
1 739
Fernando Pessoa
Outrora
Outrora
No crepúsculo do Império,
Eu, Julião o Apóstata, mandei
Os templos dos meus Deuses reerguer.
Não é era minha a Hora.
Tua era, ó Cristo, e (…)
No crepúsculo do Império,
Eu, Julião o Apóstata, mandei
Os templos dos meus Deuses reerguer.
Não é era minha a Hora.
Tua era, ó Cristo, e (…)
1 997
Heiner Müller
A sós com estes corpos
Governos utopias
Cresce a grama
Entre os trilhos
As palavras apodrecem
No papel
Os olhos das mulheres
Ficam frios
Adeus amanhã
STATUS QUO
:
ALLEIN MIT DIESEN LEIBERN
Staaten Utopien
Gras wächst
Auf den Gleisen
Die Wörter verfaulen
Auf den Papier
Die Augen der Frauen
Werden kälter
Abschied von morgen
STATUS QUO
767
Kenneth Rexroth
Perdidos Etc.
Os expatriados dos anos
Vinte e seu líder Pound
Foram aqueles que, em tempos de
Revolta mundial, não acharam nada
Melhor pra combater
Que a lei seca.
LOST ETC.
The expatriates of the
Twenties and their leader Pound
Were those who, in an age of
World revolt, found nothing more
Important to revolt against
Than the Eighteenth Amendment.
Vinte e seu líder Pound
Foram aqueles que, em tempos de
Revolta mundial, não acharam nada
Melhor pra combater
Que a lei seca.
LOST ETC.
The expatriates of the
Twenties and their leader Pound
Were those who, in an age of
World revolt, found nothing more
Important to revolt against
Than the Eighteenth Amendment.
971
Kenneth Rexroth
Num Cemitério Militar
Estranho, quando vier a Washington
Diga a eles que aqui deitados
Aguardamos suas ordens.
c/ Simônides
ON A MILITARY GRAVEYARD
Stranger, when you come to Washington
Tell them that we lie here
Obedient to their orders.
after Simonides
592
Paulo Colina
Pressentimento
Maio,
treze,
mil oitocentos e oitenta e oito,
me soam como um sussurro cósmico.
A noite sobressaltada
por sirenes me sacode.
Reviro os bolsos à procura do passe
que me permite, São Paulo, cruzar ruas
em latente paz.
A Princesa esqueceu-se de assinar
nossas carteiras de trabalho.
Desconfio, sim, que Palmares vivo
é necessário.
treze,
mil oitocentos e oitenta e oito,
me soam como um sussurro cósmico.
A noite sobressaltada
por sirenes me sacode.
Reviro os bolsos à procura do passe
que me permite, São Paulo, cruzar ruas
em latente paz.
A Princesa esqueceu-se de assinar
nossas carteiras de trabalho.
Desconfio, sim, que Palmares vivo
é necessário.
1 428
Henriqueta Lisboa
Séquito
Seguir o rei
por toda parte
antes que a coroa
lhe caia
de Reverberações (1976)
por toda parte
antes que a coroa
lhe caia
de Reverberações (1976)
1 014
Renata Pallottini
Corintiano
Não posso sair de casa
há polícias na rua
não posso ir para o trabalho
meu trabalho está cercado
não posso falar em liberdade
é proibido.
Posso apenas dormir
comer um pouco beber
e gritar "gol".
Mesmo assim só quando o meu time ganha.
Poema integrante da série Canas.
In: PALLOTTINI, Renata. Noite afora. São Paulo: Brasiliense, 197
há polícias na rua
não posso ir para o trabalho
meu trabalho está cercado
não posso falar em liberdade
é proibido.
Posso apenas dormir
comer um pouco beber
e gritar "gol".
Mesmo assim só quando o meu time ganha.
Poema integrante da série Canas.
In: PALLOTTINI, Renata. Noite afora. São Paulo: Brasiliense, 197
1 411
Carlos Vogt
Contrato Social
Nessa terra em que se plantando tudo dá
nasce uma fruta árida e harmônica
misto de bom crioulo e palha de pamonha
organização de homens só de bem
com os que estão de mal entre si com os outros.
In: VOGT, Carlos. Metalurgia: poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 1991
nasce uma fruta árida e harmônica
misto de bom crioulo e palha de pamonha
organização de homens só de bem
com os que estão de mal entre si com os outros.
In: VOGT, Carlos. Metalurgia: poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 1991
1 200
Eudoro Augusto
A Prática do Léxico
A linguagem tolera o livre trânsito
da palavra prisioneiro.
Nenhum poder de exceção sustenta
a palavra tirano.
Publicado no livro Dia sim dia não (1978).
In: ALVIM, Francisco. Poesias reunidas, 1968/1988. São Paulo: Duas Cidades, 1988. p.167. (Claro enigma
da palavra prisioneiro.
Nenhum poder de exceção sustenta
a palavra tirano.
Publicado no livro Dia sim dia não (1978).
In: ALVIM, Francisco. Poesias reunidas, 1968/1988. São Paulo: Duas Cidades, 1988. p.167. (Claro enigma
958
Henriqueta Lisboa
Séquito
Seguir o rei
por toda parte
antes que a coroa
lhe caia
Publicado no livro Reverberações (1976).
In: LISBOA, Henriqueta. Obras completas I: poesia geral, 1929/1983. Pref. Fábio Lucas. São Paulo: Duas Cidades, 198
por toda parte
antes que a coroa
lhe caia
Publicado no livro Reverberações (1976).
In: LISBOA, Henriqueta. Obras completas I: poesia geral, 1929/1983. Pref. Fábio Lucas. São Paulo: Duas Cidades, 198
1 513
Cacaso
O Que É o Que É
Descoberto pelo português
emancipado pelo inglês
educado pelo francês
sócio menor do americano
mas o modelo é japonês...
In: CACASO. Grupo Escolar. Fotos de Maria Elizabeth Ribeiro Carneiro. Rio de Janeiro: Mapa Filmes, 1974. (Frenesi). Poema integrante da série 3a. Lição: Dever de Caça
emancipado pelo inglês
educado pelo francês
sócio menor do americano
mas o modelo é japonês...
In: CACASO. Grupo Escolar. Fotos de Maria Elizabeth Ribeiro Carneiro. Rio de Janeiro: Mapa Filmes, 1974. (Frenesi). Poema integrante da série 3a. Lição: Dever de Caça
4 592
Glauco Mattoso
Fique Ligado, 1977
dentro de
um segundo
em primeira
mão
o terceiro
mundo
no seu
quarto
arregale
o globo e não
pisque
In: MATTOSO, Glauco. Línguas na papa: uma salada dos mais insípidos aos mais picantes poemas de Glauco Mattoso. São Paulo: Pindaiba, 1982
um segundo
em primeira
mão
o terceiro
mundo
no seu
quarto
arregale
o globo e não
pisque
In: MATTOSO, Glauco. Línguas na papa: uma salada dos mais insípidos aos mais picantes poemas de Glauco Mattoso. São Paulo: Pindaiba, 1982
1 221
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