Nostalgia
Poemas neste tema
Sophia de Mello Breyner Andresen
Canção do Amor Primeiro
Tão jovem o Tempo
Tudo amanhecia
O loiro do rosto
Sob o negro da noite
Desde sempre o sabia
O loiro do rosto
A dança do cabelo
Doirado sobre a testa
Sob o choupo escondidos
Como sob floresta
E o loiro do cabelo
A voar na testa
E o linho do rosto
Entre os brilhos da festa
Tão jovem o Tempo
Que tudo luzia
De espanto e surpresa
Redonda a maçã
Que parecia acesa
Era Junho e o perfume
Da rosa e seu lume
Tudo amanhecia
O loiro do rosto
Sob o negro da noite
Desde sempre o sabia
O loiro do rosto
A dança do cabelo
Doirado sobre a testa
Sob o choupo escondidos
Como sob floresta
E o loiro do cabelo
A voar na testa
E o linho do rosto
Entre os brilhos da festa
Tão jovem o Tempo
Que tudo luzia
De espanto e surpresa
Redonda a maçã
Que parecia acesa
Era Junho e o perfume
Da rosa e seu lume
1 177
Sophia de Mello Breyner Andresen
O Búzio de Cós
Este búzio não o encontrei eu própria numa praia
Mas na mediterrânica noite azul e preta
Comprei-o em Cós numa venda junto ao cais
Rente aos mastros baloiçantes dos navios
E comigo trouxe o ressoar dos temporais
Porém nele não oiço
Nem o marulho de Cós nem o de Egina
Mas sim o cântico da longa vasta praia
Atlântica e sagrada
Onde para sempre minha alma foi criada
Junho de 1995
Mas na mediterrânica noite azul e preta
Comprei-o em Cós numa venda junto ao cais
Rente aos mastros baloiçantes dos navios
E comigo trouxe o ressoar dos temporais
Porém nele não oiço
Nem o marulho de Cós nem o de Egina
Mas sim o cântico da longa vasta praia
Atlântica e sagrada
Onde para sempre minha alma foi criada
Junho de 1995
4 199
Sophia de Mello Breyner Andresen
Estações do Ano
Primeiro vem Janeiro
Suas longínquas metas
São Julho e são Agosto
Luz de sal e de setas
A praia onde o vento
Desfralda as barracas
E vira os guarda-sóis
Ficou na infância antiga
Cuja memória passa
Pela rua à tarde
Como uma cantiga
O verão onde hoje moro
É mais duro e mais quente
Perdeu-se a frescura
Do verão adolescente
Aqui onde estou
Entre cal e sal
Sob o peso do sol
Nenhuma folha bole
Na manhã parada
E o mar é de metal
Como um peixe-espada
Suas longínquas metas
São Julho e são Agosto
Luz de sal e de setas
A praia onde o vento
Desfralda as barracas
E vira os guarda-sóis
Ficou na infância antiga
Cuja memória passa
Pela rua à tarde
Como uma cantiga
O verão onde hoje moro
É mais duro e mais quente
Perdeu-se a frescura
Do verão adolescente
Aqui onde estou
Entre cal e sal
Sob o peso do sol
Nenhuma folha bole
Na manhã parada
E o mar é de metal
Como um peixe-espada
1 943
Sophia de Mello Breyner Andresen
As Fotografias
Era quase no inverno aquele dia
Tempo de grandes passeios
Confusamente agora recordados —
A estrada atravessava a serra pelo meio
Em rugosos muros de pedra e musgo a mão deslizava —
Tempo de retratos tirados
De olhos franzidos sob um sol de frente
Retratos que guardam para sempre
O perfume de pinhal das tardes
E o perfume de lenha e mosto das aldeias
Tempo de grandes passeios
Confusamente agora recordados —
A estrada atravessava a serra pelo meio
Em rugosos muros de pedra e musgo a mão deslizava —
Tempo de retratos tirados
De olhos franzidos sob um sol de frente
Retratos que guardam para sempre
O perfume de pinhal das tardes
E o perfume de lenha e mosto das aldeias
1 316
Sophia de Mello Breyner Andresen
Primavera
As heras de outras eras água pedra
E passa devagar memória antiga
Com brisa madressilva e Primavera
E o desejo da jovem noite nua
Música passando pelas veias
E a sombra das folhagens nas paredes
Descalço o passo sobre os musgos verdes
E a noite transparente e distraída
Com seu sabor de rosa densa e breve
Onde me lembro amor de ter morrido
— Sangue feroz do tempo possuído
E passa devagar memória antiga
Com brisa madressilva e Primavera
E o desejo da jovem noite nua
Música passando pelas veias
E a sombra das folhagens nas paredes
Descalço o passo sobre os musgos verdes
E a noite transparente e distraída
Com seu sabor de rosa densa e breve
Onde me lembro amor de ter morrido
— Sangue feroz do tempo possuído
1 443
Sophia de Mello Breyner Andresen
Vii. Trevas
O que foi antigamente manhã limpa
Sereno amor das coisas e da vida
É hoje busca desesperada busca
De um corpo cuja face me é oculta.
Sereno amor das coisas e da vida
É hoje busca desesperada busca
De um corpo cuja face me é oculta.
1 621
Sophia de Mello Breyner Andresen
Intacta Memória
Intacta memória — se eu chamasse
Uma por uma as coisas que adorei
Talvez que a minha vida regressasse
Vencida pelo amor com que a lembrei.
Uma por uma as coisas que adorei
Talvez que a minha vida regressasse
Vencida pelo amor com que a lembrei.
1 639
Sophia de Mello Breyner Andresen
I. a Memória Longínqua de Uma Pátria
A memória longínqua de uma pátria
Eterna mas perdida e não sabemos
Se é passado ou futuro onde a perdemos
Eterna mas perdida e não sabemos
Se é passado ou futuro onde a perdemos
1 347
Sophia de Mello Breyner Andresen
Jardim
Alguém diz:
«Aqui antigamente houve roseiras» —
Então as horas
Afastam-se estrangeiras,
Como se o tempo fosse feito de demoras.
«Aqui antigamente houve roseiras» —
Então as horas
Afastam-se estrangeiras,
Como se o tempo fosse feito de demoras.
1 199
Carlos Drummond de Andrade
Glaura Revivida
Certa rua começa algures e vem dar no meu coração.
Nessa rua passa um conto feito de pedacinhos de histórias
de ouro, de velhos, de estrume, de seleiros falidos.
Nessa rua acaba de passar
a menina-e-moça de tranças e blue jeans pela calçada.
É um violão andando, um som
unindo algures de ontem a nenhures de eternidade.
Nessa rua passa um conto feito de pedacinhos de histórias
de ouro, de velhos, de estrume, de seleiros falidos.
Nessa rua acaba de passar
a menina-e-moça de tranças e blue jeans pela calçada.
É um violão andando, um som
unindo algures de ontem a nenhures de eternidade.
1 067
Carlos Drummond de Andrade
Cortesia
Mil novecentos e pouco.
Se passava alguém na rua
sem lhe tirar o chapéu,
Seu Inacinho lá do alto
de suas cãs e fenestra
murmurava desolado
— Este mundo está perdido!
Agora que ninguém porta
nem lembrança de chapéu
e nada mais tem sentido,
que sorte Seu Inacinho
já ter ido para o céu.
Se passava alguém na rua
sem lhe tirar o chapéu,
Seu Inacinho lá do alto
de suas cãs e fenestra
murmurava desolado
— Este mundo está perdido!
Agora que ninguém porta
nem lembrança de chapéu
e nada mais tem sentido,
que sorte Seu Inacinho
já ter ido para o céu.
1 424
Carlos Drummond de Andrade
Ordem
Quando a folhinha de Mariana
exata informativa santificada
regulava o tempo, as colheitas,
os casamentos e até a hora de morrer,
o mundo era mais inteligível,
pairava certa graça ao viver.
Hoje quem é que pode?
exata informativa santificada
regulava o tempo, as colheitas,
os casamentos e até a hora de morrer,
o mundo era mais inteligível,
pairava certa graça ao viver.
Hoje quem é que pode?
596
António Ramos Rosa
O Reino Está Aqui
O reino está aqui
no seu rumor de oceano
no seu horizonte fundo
na sua redondez cintilante.
Mas nós perdemos as leves
sandálias do vento
já não conhecemos o gozo
vegetal
de uma nua eternidade.
no seu rumor de oceano
no seu horizonte fundo
na sua redondez cintilante.
Mas nós perdemos as leves
sandálias do vento
já não conhecemos o gozo
vegetal
de uma nua eternidade.
517
Ruy Belo
Poema do burguês na praia
Há mãos de mãe sobre a seara
que às três da tarde ondula no seu gesto
Já tudo tem um rosto
e o amor de que ele gasta resto
O mar faz-lhe lembrar um cego horizontal
de olhar embaciado
Veio de lisboa para o seu passado
está de acordo com tudo
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 51 | Editorial Presença Lda., 1984
que às três da tarde ondula no seu gesto
Já tudo tem um rosto
e o amor de que ele gasta resto
O mar faz-lhe lembrar um cego horizontal
de olhar embaciado
Veio de lisboa para o seu passado
está de acordo com tudo
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 51 | Editorial Presença Lda., 1984
1 225
Ruy Belo
As impossíveis crianças
Nesta manhã de outono dos primeiros frios
mais a caminho da velhice que da minha casa
eu vejo-vos em roda todas a cantar
Impossíveis crianças deixais-me brincar?
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 2, pág. 16 | Editorial Presença Lda., 1981
mais a caminho da velhice que da minha casa
eu vejo-vos em roda todas a cantar
Impossíveis crianças deixais-me brincar?
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 2, pág. 16 | Editorial Presença Lda., 1981
1 350
Sophia de Mello Breyner Andresen
Longe E Nítidos Caminham Os Caminhos
Longe e nítidos caminham os caminhos
Duma aventura perdida.
Próxima a brisa
Abre-se no ar.
É o azul e o verde e o fresco duma idade
Morta mas que regressa
Com os seus claros cavalos de cristal
Que se vão esbarrar no horizonte.
Duma aventura perdida.
Próxima a brisa
Abre-se no ar.
É o azul e o verde e o fresco duma idade
Morta mas que regressa
Com os seus claros cavalos de cristal
Que se vão esbarrar no horizonte.
1 766
Sophia de Mello Breyner Andresen
Lagos Ii
I
Lagos onde reinventei o mundo num verão ido
Lagos onde encontrei
Uma nova forma do visível sem memória
Clara como a cal concreta como a cal
Lagos onde aprendi a viver rente
Ao instante mais nítido e recente
Lagos que digo como passado agora
Como verão ido absurdamente ausente
Quase estranho a mim e nunca tido
II
Foi um país que eu encontrei de frente
Desde sempre esperado e prometido
O puro dom de ter nascido
E o sol reinava em Lagos transparente
III
Lagos lição de lucidez e liso
Onde estar vivo se torna mais completo
— Como pode meu ser ser distraído
De sua luz de prumo e de projecto?
IV
Ou poderemos Abril ter perdido
O dia inicial inteiro e limpo
Que habitou nosso tempo mais concreto?
Será que vamos paralelamente
Relembrar e chorar como um verão ido
O país linear e transparente
E sua luz de prumo e de projecto?
1975
Lagos onde reinventei o mundo num verão ido
Lagos onde encontrei
Uma nova forma do visível sem memória
Clara como a cal concreta como a cal
Lagos onde aprendi a viver rente
Ao instante mais nítido e recente
Lagos que digo como passado agora
Como verão ido absurdamente ausente
Quase estranho a mim e nunca tido
II
Foi um país que eu encontrei de frente
Desde sempre esperado e prometido
O puro dom de ter nascido
E o sol reinava em Lagos transparente
III
Lagos lição de lucidez e liso
Onde estar vivo se torna mais completo
— Como pode meu ser ser distraído
De sua luz de prumo e de projecto?
IV
Ou poderemos Abril ter perdido
O dia inicial inteiro e limpo
Que habitou nosso tempo mais concreto?
Será que vamos paralelamente
Relembrar e chorar como um verão ido
O país linear e transparente
E sua luz de prumo e de projecto?
1975
2 494
Sophia de Mello Breyner Andresen
Casa
A antiga casa que os ventos rodearam
Com suas noites de espanto e de prodígio
Onde os anjos vermelhos batalharam
A antiga casa de inverno em cujos vidros
Os ramos nus e negros se cruzaram
Sob o íman dum céu lunar e frio
Permanece presente como um reino
E atravessa meus sonhos como um rio
Com suas noites de espanto e de prodígio
Onde os anjos vermelhos batalharam
A antiga casa de inverno em cujos vidros
Os ramos nus e negros se cruzaram
Sob o íman dum céu lunar e frio
Permanece presente como um reino
E atravessa meus sonhos como um rio
3 675
Sophia de Mello Breyner Andresen
Caderno Ii
Quando me perco de novo neste antigo
Caderno de capa preta de oleado
Que um dia rasguei com fúria e desespero
E que um amigo recolou com amor e paciência
De novo se ergue em minha frente a clara
Parede cal do quarto matinal
Virado para o mar e onde o poente
Se afogueava denso e transparente
E a sonâmbula noite se azulava
Ali o tempo vivido foi tão vivo
Que sempre à própria morte sobrevive
E cada dia julgo que regressa
Seu esplendor de fruto e de promessa
Caderno de capa preta de oleado
Que um dia rasguei com fúria e desespero
E que um amigo recolou com amor e paciência
De novo se ergue em minha frente a clara
Parede cal do quarto matinal
Virado para o mar e onde o poente
Se afogueava denso e transparente
E a sonâmbula noite se azulava
Ali o tempo vivido foi tão vivo
Que sempre à própria morte sobrevive
E cada dia julgo que regressa
Seu esplendor de fruto e de promessa
2 072
Sophia de Mello Breyner Andresen
Há Muito
Há muito que deixei aquela praia
De grandes areais e grandes vagas
Mas sou eu ainda quem na brisa respira
E é por mim que espera cintilando a maré vaza
De grandes areais e grandes vagas
Mas sou eu ainda quem na brisa respira
E é por mim que espera cintilando a maré vaza
2 861
Sophia de Mello Breyner Andresen
O Palácio
Era um dos palácios do Minotauro
— O da minha infância para mim o primeiro —
Tinha sido construído no século passado (e pintado a vermelho)
Estátuas escadas veludo granito
Tílias o cercavam de música e murmúrio
Paixões e traições o inchavam de grito
Espelhos ante espelhos tudo aprofundavam
Seu pátio era interior era átrio
As suas varandas eram por dentro
Viradas para o centro
Em grandes vazios as vozes ecoavam
Era um dos palácios do Minotauro
O da minha infância — para mim o vermelho
Ali a magia como fogo ardia de Março a Fevereiro
A prata brilhava o vidro luzia
Tudo tilintava tudo estremecia
De noite e de dia
Era um dos palácios do Minotauro
— O da minha infância para mim o primeiro —
Ali o tumulto cego confundia
O escuro da noite e o brilho do dia
Ali era a fúria o clamor o não-dito
Ali o confuso onde tudo irrompia
Ali era o Kaos onde tudo nascia
— O da minha infância para mim o primeiro —
Tinha sido construído no século passado (e pintado a vermelho)
Estátuas escadas veludo granito
Tílias o cercavam de música e murmúrio
Paixões e traições o inchavam de grito
Espelhos ante espelhos tudo aprofundavam
Seu pátio era interior era átrio
As suas varandas eram por dentro
Viradas para o centro
Em grandes vazios as vozes ecoavam
Era um dos palácios do Minotauro
O da minha infância — para mim o vermelho
Ali a magia como fogo ardia de Março a Fevereiro
A prata brilhava o vidro luzia
Tudo tilintava tudo estremecia
De noite e de dia
Era um dos palácios do Minotauro
— O da minha infância para mim o primeiro —
Ali o tumulto cego confundia
O escuro da noite e o brilho do dia
Ali era a fúria o clamor o não-dito
Ali o confuso onde tudo irrompia
Ali era o Kaos onde tudo nascia
2 267
Sophia de Mello Breyner Andresen
Os Amigos
Voltar ali onde
A verde rebentação da vaga
A espuma o nevoeiro o horizonte a praia
Guardam intacta a impetuosa
Juventude antiga —
Mas como sem os amigos
Sem a partilha o abraço a comunhão
Respirar o cheiro a alga da maresia
E colher a estrela do mar em minha mão
1993
A verde rebentação da vaga
A espuma o nevoeiro o horizonte a praia
Guardam intacta a impetuosa
Juventude antiga —
Mas como sem os amigos
Sem a partilha o abraço a comunhão
Respirar o cheiro a alga da maresia
E colher a estrela do mar em minha mão
1993
4 782
Fernando Pessoa
Tenho ainda na lembrança
Tenho ainda na lembrança
Como uma coisa que vejo,
O quando inda eras criança.
Nunca mais me dás um beijo!
Como uma coisa que vejo,
O quando inda eras criança.
Nunca mais me dás um beijo!
1 635
Fernando Pessoa
Ah, no terrível silêncio do quarto
Ah, no terrível silêncio do quarto
O relógio com o seu som de silêncio!
Monotonia!
Quem me dará outra vez a minha infância perdida?
Quem ma encontrará no meio da estrada de Deus —
Perdida definitivamente, como um lenço no comboio.
O relógio com o seu som de silêncio!
Monotonia!
Quem me dará outra vez a minha infância perdida?
Quem ma encontrará no meio da estrada de Deus —
Perdida definitivamente, como um lenço no comboio.
1 393
Português
English
Español