Medo e Ansiedade
Poemas neste tema
António Ramos Rosa
17. Purificada Pela Paz Dos Olhos Lindos
17
Purificada pela paz dos olhos lindos
sob o arbusto frio
ilimitada a pobreza a amêndoa incorruptível.
Filha de quem dormindo sob
a ameaça da sílaba sinistra
filha de nada e da noite da árvore.
Por quem a sílaba formada
por quem ou pela nuvem enublada
armada pela mão da morte armada.
Purificada pela paz dos olhos lindos
sob o arbusto frio
ilimitada a pobreza a amêndoa incorruptível.
Filha de quem dormindo sob
a ameaça da sílaba sinistra
filha de nada e da noite da árvore.
Por quem a sílaba formada
por quem ou pela nuvem enublada
armada pela mão da morte armada.
1 031
António Ramos Rosa
Na Grande Confusão
Na grande confusão
deste medo
deste não querer saber
na falta de coragem
ou na coragem de
me perder me afundar
perto de ti tão longe
tão nu
tão evidente
tão pobre como tu
oh diz-me quem sou eu
quem és tu?
deste medo
deste não querer saber
na falta de coragem
ou na coragem de
me perder me afundar
perto de ti tão longe
tão nu
tão evidente
tão pobre como tu
oh diz-me quem sou eu
quem és tu?
1 101
Sophia de Mello Breyner Andresen
Os Pássaros
Ouve que estranhos pássaros de noite
Tenho defronte da janela:
Pássaros de gritos sobreagudos e selvagens
O peito cor de aurora, o bico roxo.
Falam-se de noite, trazem
Dos abismos da noite lenta e quieta
Palavras estridentes e cruéis.
Cravam no luar as suas garras
E a respiração do terror desce
Das suas asas pesadas.
Tenho defronte da janela:
Pássaros de gritos sobreagudos e selvagens
O peito cor de aurora, o bico roxo.
Falam-se de noite, trazem
Dos abismos da noite lenta e quieta
Palavras estridentes e cruéis.
Cravam no luar as suas garras
E a respiração do terror desce
Das suas asas pesadas.
3 209
Sophia de Mello Breyner Andresen
Sibilas
Sibilas no interior dos antros hirtos
Totalmente sem amor e cegas,
Alimentando o vazio como um fogo
Enquanto a sombra dissolve a noite e o dia
Na mesma luz de horror desencarnada.
Trazer para fora o monstruoso orvalho
Das noites interiores, o suor
Das forças amarradas a si mesmas
Quando as palavras batem contra os muros
Em grandes voos cegos de aves presas
E agudamente o horror de ter as asas
Soa como um relógio no vazio.
Totalmente sem amor e cegas,
Alimentando o vazio como um fogo
Enquanto a sombra dissolve a noite e o dia
Na mesma luz de horror desencarnada.
Trazer para fora o monstruoso orvalho
Das noites interiores, o suor
Das forças amarradas a si mesmas
Quando as palavras batem contra os muros
Em grandes voos cegos de aves presas
E agudamente o horror de ter as asas
Soa como um relógio no vazio.
2 157
Sophia de Mello Breyner Andresen
O Poeta Trágico
No princípio era o labirinto
O secreto palácio do terror calado
Ele trouxe para o exterior o medo
Disse-o na lisura dos pátios no quadrado
De sol de nudez e de confronto
Expôs o medo como um toiro debelado
O secreto palácio do terror calado
Ele trouxe para o exterior o medo
Disse-o na lisura dos pátios no quadrado
De sol de nudez e de confronto
Expôs o medo como um toiro debelado
1 425
Susana Thénon
Amor
Agora conhece o que assovia o sangue
à noite
como a escura serpente extraviada.
à noite
como a escura serpente extraviada.
864
Susana Thénon
Mediador Dei
O contrabandista dos medos antigos
o malabarista delirante em sua varanda vermelha
(com pequenos pés enferrujados)
lava as mãos no peito das nuvens
e se cobre de azul para não ver sangue.
o malabarista delirante em sua varanda vermelha
(com pequenos pés enferrujados)
lava as mãos no peito das nuvens
e se cobre de azul para não ver sangue.
715
Manuel António Pina
Chico
Talvez não fosses forte
para a felicidade,
nem para o medo.
Olha as pessoas felizes:
ocultam-se na felicidade
como em casa, erguem
muros, fecham as janelas,
o medo
é a sua fortaleza.
O que disputam à morte
é maior que elas,
a morte não lhes basta.
para a felicidade,
nem para o medo.
Olha as pessoas felizes:
ocultam-se na felicidade
como em casa, erguem
muros, fecham as janelas,
o medo
é a sua fortaleza.
O que disputam à morte
é maior que elas,
a morte não lhes basta.
1 481
Fernando Pessoa
Pequena vida consciente
Pequena vida consciente
A quem outra persegue
A imagem repetida
Do abismo onde perdê-la.
A quem outra persegue
A imagem repetida
Do abismo onde perdê-la.
1 339
Fernando Pessoa
Boca de riso escarlate/Com dentes brancos no meio,
Boca de riso escarlate
Com dentes brancos no meio,
Meu coração bate, bate,
Mas bate por ter receio.
Com dentes brancos no meio,
Meu coração bate, bate,
Mas bate por ter receio.
1 453
Fernando Pessoa
FRAGMENT OF DELIRIUM
I know not whether my mind is broken
Nor do I know if my mind is ill;
I know not if love is but the last token
Of God to me, or a word unspoken
In a chaos of will.
My thoughts are such as the mad must have
And dead things guard my soul
Grotesque and odd are the shapes that rule
In my brain as worms in a grave
Nor do I know if my mind is ill;
I know not if love is but the last token
Of God to me, or a word unspoken
In a chaos of will.
My thoughts are such as the mad must have
And dead things guard my soul
Grotesque and odd are the shapes that rule
In my brain as worms in a grave
1 269
Fernando Pessoa
Há uma cor que me persegue e que eu odeio,
Há uma cor que me persegue e que eu odeio,
Há uma cor que se insinua no meu medo.
Porque é que as cores têm força
De persistir na nossa alma,
Como fantasmas?
Há uma cor que me persegue e hora a hora
A sua cor se torna a cor que é a minha alma.
Há uma cor que se insinua no meu medo.
Porque é que as cores têm força
De persistir na nossa alma,
Como fantasmas?
Há uma cor que me persegue e hora a hora
A sua cor se torna a cor que é a minha alma.
1 604
Fernando Pessoa
O pescador do mar alto
O pescador do mar alto
Vem contente de pescar.
Se prometo, sempre falto:
Receio não agradar.
Vem contente de pescar.
Se prometo, sempre falto:
Receio não agradar.
2 373
Fernando Pessoa
O mistério de tudo
O mistério de tudo
Aproxima-se tanto do meu ser,
Chega aos olhos meus d'alma tão perto
Que me dissolvo em trevas e imerso
Em trevas me apavoro escuramente.
Aproxima-se tanto do meu ser,
Chega aos olhos meus d'alma tão perto
Que me dissolvo em trevas e imerso
Em trevas me apavoro escuramente.
1 390
Fernando Pessoa
Horror! Conhecer intimamente
Horror! Conhecer intimamente
O transcendente horror dum corpo humano!
Sentir o mistério doutra vida
Tão intimamente perto... quase nosso
E como que carnalizar em hórrida
Intranscendência o mistério em si.
O transcendente horror dum corpo humano!
Sentir o mistério doutra vida
Tão intimamente perto... quase nosso
E como que carnalizar em hórrida
Intranscendência o mistério em si.
1 714
Fernando Pessoa
Não é medo que faça estremecer
Não é medo que faça estremecer
Nem olhar trás de si, nem recear
Inda que vagamente incoerentemente...
Não tão humano horror: Este é o horror
Do mistério, do incompreendido.
Ah mas o estremecer do pensamento
É horroroso além de todo o horror.
Nem olhar trás de si, nem recear
Inda que vagamente incoerentemente...
Não tão humano horror: Este é o horror
Do mistério, do incompreendido.
Ah mas o estremecer do pensamento
É horroroso além de todo o horror.
1 266
Fernando Pessoa
Ah, o horror de morrer!
Ah, o horror de morrer!
E encontrar o mistério frente a frente
Sem poder evitá-lo, sem poder...
E encontrar o mistério frente a frente
Sem poder evitá-lo, sem poder...
1 389
Fernando Pessoa
Caminhamos sobre abismos
Caminhamos sobre abismos
Ai de quem o sente. A noite, uma noite funda
Cerca-nos, ai de quem conhece
Como ela é funda, como é inescrutável.
Pulsam-me as veias
Alucinadamente e um terror novo
Obtém-me, o terror de mim mesmo.
Ai de quem o sente. A noite, uma noite funda
Cerca-nos, ai de quem conhece
Como ela é funda, como é inescrutável.
Pulsam-me as veias
Alucinadamente e um terror novo
Obtém-me, o terror de mim mesmo.
1 351
Fernando Pessoa
Entre o sossego e o arvoredo,
Entre o sossego e o arvoredo,
Entre a clareira e a solidão,
Meu devaneio passa a medo
Levando-me a alma pela mão.
É tarde já, e ainda é cedo.
[...]
Entre a clareira e a solidão,
Meu devaneio passa a medo
Levando-me a alma pela mão.
É tarde já, e ainda é cedo.
[...]
2 078
Fernando Pessoa
E deito um cigarro meio fumado fora
E deito um cigarro meio fumado fora
Para irremediavelmente acender um novo cigarro
Impaciente até à angústia,
Como quem espera numa estação dos arredores
O comboio que há-de trazer ah tão talvez, quem talvez venha
Para irremediavelmente acender um novo cigarro
Impaciente até à angústia,
Como quem espera numa estação dos arredores
O comboio que há-de trazer ah tão talvez, quem talvez venha
1 708
Fernando Pessoa
Mas o horror supremo do mistério
Mas o horror supremo do mistério
É que veja a Verdade, e o que temo
Com o que mais em mim pode temer,
É encontrar a Verdade face a face
E ter em mim o horror de saber Tudo;
Porque o horror de saber tudo é o extremo
(...)
O que ainda (...)
À nossa vida é o não se saber
É que veja a Verdade, e o que temo
Com o que mais em mim pode temer,
É encontrar a Verdade face a face
E ter em mim o horror de saber Tudo;
Porque o horror de saber tudo é o extremo
(...)
O que ainda (...)
À nossa vida é o não se saber
1 187
Fernando Pessoa
SUSPIRO DO MUNDO: Tremo de medo:
Tremo de medo:
Eis o segredo aberto.
Além de ti
Nada há, decerto
Nem pode haver:
Além de ti
Que não tens essência
Nem tens existência
E te chamas só SER.
Oh
Nada pode haver!
Eis o segredo aberto.
Além de ti
Nada há, decerto
Nem pode haver:
Além de ti
Que não tens essência
Nem tens existência
E te chamas só SER.
Oh
Nada pode haver!
1 529
Fernando Pessoa
Toda a noite, toda a noite,
Toda a noite, toda a noite,
Toda a noite sem pensar...
Toda a noite sem dormir
E sem tudo isso acabar.
Toda a noite sem pensar...
Toda a noite sem dormir
E sem tudo isso acabar.
767
Fernando Pessoa
O FUTURO
O FUTURO
Sei que me espera qualquer coisa
Mas não sei que coisa me espera.
Como um quarto escuro
Que eu temo quando creio que nada temo
Mas só o temo, por ele, temo em vão.
Não é uma presença; é um frio e um medo.
O mistério da morte a mim o liga.
Ao [...] fim do meu poema.
Sei que me espera qualquer coisa
Mas não sei que coisa me espera.
Como um quarto escuro
Que eu temo quando creio que nada temo
Mas só o temo, por ele, temo em vão.
Não é uma presença; é um frio e um medo.
O mistério da morte a mim o liga.
Ao [...] fim do meu poema.
3 374
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