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Poemas neste tema

Thiago de Mello

Thiago de Mello

Rumo

A Geir Campos


Somente sou quando em verso.

Minhas faces mais diversas
são labirintos antigos
que me confundem e perdem

Meu pensamento perfura
muros de nada, à procura
do que não fui nem serei.

Ante a carne fêmea e branca
meu corpo se recompõe
ofertando o que não sou.

Meu caminhar e meus gestos
mal e apenas anunciam
minha ainda permanência.

Para chegar até onde
não me presumo, mas sou.
sigo em forma de palavra.


Publicado no livro Silêncio e Palavra (1951).

In: MELLO, Thiago de. Vento geral, 1951/1981: doze livros de poemas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 198
7 489 5
Ferreira Gullar

Ferreira Gullar

Muitas Vozes

Meu poema
é um tumulto:
a fala
que nele fala
outras vozes
arrasta em alarido.

estamos todos nós
cheios de vozes
que o mais das vezes
mal cabem em nossa voz

se dizes pêra
acende-se um clarão
um rastilho
de tardes e açucares
ou
se azul disseres
pode ser que se agite
o Egeu
em tuas glândulas

A água que ouviste
num soneto de Rilke
os ínfimos
rumores no capim
o sabor
do hortelã
essa alegria

A boca fria
da moça
o maruim na poça
a hemorragia da manhã

Tudo isso em ti
se deposita
e cala.
Até que de repente
um susto
ou uma ventania
(que o poema dispara)
chama
esses fosseis à fala.

Meu poema
é um tumulto, um alarido:
basta apurar o ouvido.

9 223 5
Ary dos Santos

Ary dos Santos

Epígrafe

De palavras não sei. Apenas tento
desvendar o seu lento movimento
quando passam ao longo do que invento
como pre-feitos blocos de cimento.

De palavras não sei. Apenas quero
retomar-lhes o peso a consistência
e com elas erguer a fogo e ferro
um palácio de força e resistência.

De palavras não sei. Por isso canto
em cada uma apenas outro tanto
do que sinto por dentro quando as digo.

Palavra que me lavra. Alfaia escrava.
De mim próprio matéria bruta e brava
--- expressão da multidão que está comigo.

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Manuel António Pina

Manuel António Pina

O espelho

A corrupta luz da infância
ilumina o rosto de um
desconhecido, o meu rosto,
e olha-o com olhos cegos.

Eu sou apenas
esta voz de alguém,
esta música que não vem de
nenhum sítio, ouvindo-se a si mesma.

As palavras não chegam
para levar-me onde, fora
da infância, está alguma coisa:
isto que quer falar

e vê isto.
Não estou aqui, sonho
(eu, também um sonho)
fora de mim contigo.

Como me ouvirei?
Como me reconhecerei?
Poderei suportar o meu olhar
quando me vir, confundir-me nele?


Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 113 | Assirio & Alvim, 2012
1 929 4
Gonçalves de Magalhães

Gonçalves de Magalhães

O Anagrama

Dos vates a antiga usança
Quis respeitoso seguir,
Ensaiando em anagrama
Teu doce nome exprimir;
Mas a mente em vão se cansa,
No desejo que me inflama
Nada me vem acudir.

Não desistindo da idéia,
Volto a ela sem cessar;
Diversos nomes invento,
Sem nenhum poder achar,
Que seja nome de idéia,
E se preste ao meu intento,
Sem o teu muito ocultar.

Vendo alfim que não podia
Teu anagrama fazer;
Que quantos eu inventava
Nada queriam dizer;
Uma idéia à fantasia,
Quando já nada esperava,
Me veio enfim socorrer.

Foi idéia luminosa,
Direi quase inspiração,
Pois que senti de repente
Palpitar-me o coração.
Sua força imperiosa
Foi tal, qu'eu obediente
Dei-lhe pronta execução.

De papel em uma fita
Teu lindo nome escrevi;
Pondo as letras separadas,
Co'a tesoura as dividi.
Cada solta letra escrita
Enrolei, e baralhadas,
Numa caixinha as meti.

Tudo ao acaso deixando,
Da sorte o cofre agitei;
E tirando-as de uma em uma,
Uma após outra as tracei.
Oh prodígio! Oh pasmo! Quando
Esta maravilha suma
De um mero acaso esperei?

Já Urânia — escrito estava!
Foi Amor quem o escreveu!
Não, não foi obra do acaso;
Teu nome veio do céu!
Aquele — já — me ordenava
Que da Urânia do Parnaso
Fosse o nome agora teu.

Que para mim renascida
A Musa Urânia serás.
Que ao céu e a Deus minha mente
Tu sempre levantarás.
Musa real, não fingida,
Unida a mim ternamente,
Celeste amor me terás.


Publicado no livro Urânia (1862).

In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Org. rev. e notas Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 194
12 584 4
Maria Manuela Margarido

Maria Manuela Margarido

Paisagem

Entardecer... capim nas costas
do negro reluzente
a caminho do terreiro.
Papagaios cinzentos
explodem na crista das palmeiras
e entrecruzam-se no sonho da minha infância,
na porcelana azulada das ostras.
Alto sonho, alto
como o coqueiro na borda do mar
com os seus frutos dourados e duros
como pedras oclusas
oscilando no ventre do tornado,
sulcando o céu com o seu penacho
doido.
No céu perpassa a angústia austera
da revolta
com suas garras suas ânsias suas certezas.
E uma figura de linhas agrestes
se apodera do tempo e da palavra.
3 580 4
João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto

O Sertanejo Falando

A fala a nível do sertanejo engana:
as palavras dele vêm, como rebuçadas
(palavras confeito, pílula), na glace
de uma entonação lisa, de adocicada.
Enquanto que sob ela, dura e endurece
o caroço de pedra, a amêndoa pétrea,
dessa árvore pedrenta (o sertanejo)
incapaz de não se expressar em pedra.

2.

Daí porque o sertanejo fala pouco:
as palavras de pedra ulceram a boca
e no idioma pedra se fala doloroso;
o natural desse idioma fala à força.
Daí também porque ele fala devagar:
tem de pegar as palavras com cuidado,
confeitá-las na língua, rebuçá-las;
pois toma tempo todo esse trabalho.


Publicado no livro A educação pela pedra (1966)

In: MELO NETO, João Cabral de. Obra completa: volume único. Org. Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.335-336. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
7 374 4
Paulo Leminski

Paulo Leminski

Eu

eu
quando olho nos olhos
sei quando uma pessoa
está por dentro
ou está por fora


quem está por fora
não segura
um olhar que demora


de dentro de meu centro
este poema me olha

4 161 4
Florbela Espanca

Florbela Espanca

Escreve-Me..

Escreve-me! Ainda que seja só
Uma palavra, uma palavra apenas,
Suave como o teu nome e casta
Como um perfume casto d’açucenas!

Escreve-me! Há tanto, há tanto tempo
Que te não vejo, amor! Meu coração
Morreu já, e no mundo aos pobres mortos
Ninguém nega uma frase d’oração!

“Amo-te!” Cinco letras pequeninas,
Folhas leves e tenras de boninas,
Um poema d’amor e felicidade!

Não queres mandar-me esta palavra apenas?
Olha, manda então... brandas... serenas...
Cinco pétalas roxas de saudade...
7 130 4
Manuel Alegre

Manuel Alegre

Coisa amar

Contar-te longamente as perigosas
coisas do mar. Contar-te o amor ardente
e as ilhas que só há no verbo amar.
Contar-te longamente longamente.

Amor ardente. Amor ardente. E mar.
Contar-te longamente as misteriosas
maravilhas do verbo navegar.
E mar. Amar: as coisas perigosas.

Contar-te longamente que já foi
num tempo doce coisa amar. E mar.
Contar-te longamente como doi

desembarcar nas ilhas misteriosas.
Contar-te o mar ardente e o verbo amar.
E longamente as coisas perigosas.
12 798 4
Eugénio de Andrade

Eugénio de Andrade

Oiço correr a noite pelos sulcos

do rosto-dir-se-ia que me chama,
que subitamente me acaricia,
a mim,que nem sequer sei ainda
como juntar as sílabas do silêncio
e sobre elas adormecer.


de O Peso Da Sombra
5 859 4
Eugénio de Andrade

Eugénio de Andrade

Que diremos ainda?

Vê como de súbito o céu se fecha
sobre dunas e barcos,

e cada um de nós se volta e fixa

os olhos um no outro,

e como deles devagar escorre
a última luz sobre as areias.
Que diremos ainda? Serão palavras,

isto que aflora aos lábios?

Palavras?,este rumor tão leve

que ouvimos o dia desprender-se?

Palavras,ou luz ainda?
Palavras,não.Quem as sabia?

Foi apenas lembrança doutra luz.
Nem luz seria,apenas outro olhar.

de Mar de Setembro
6 594 4
Eugénio de Andrade

Eugénio de Andrade

Surdo, Subterrâneo Rio

Surdo, subterrâneo rio de palavras
me corre lento pelo corpo todo;
amor sem margens onde a lua rompe
e nimba de luar o próprio lodo.

Correr do tempo ou só rumor do frio
onde o amor se perde e a razão de amar
--- surdo, subterrâneo, impiedoso rio,
para onde vais, sem eu poder ficar?

5 634 4
David Mourão-Ferreira

David Mourão-Ferreira

Testamento

Que fique só da minha vida

um monumento de palavras

Mas não de prata Nem de cinza

Antes de lava Antes de nada

Daquele nada que se aviva

quando se arrisca uma viagem

por entre os pântanos da ira

além do sol das barricadas

Ou quando um poço que cintila

parece o tecto de uma sala

Ou quando importa que se extinga

dentro de nós a inexacta

irradiação que vem das criptas

em que o azul nos sobressalta

em que à penumbra se diria

que se acrescenta o som das harpas

Ou quando a terra não expira

senão segredos feitos de água

Ou quando a morte nos avisa

Ou quando a vida nos agarra

Adeus ó pombas

todas iguais ante as muralhas

Adeus veredas invisíveis

que na floresta nos aguardam

Adeus ó barcos à deriva

Adeus canais Adeus guitarras

Adeus ó sílabas da brisa

Adeus sibilas ningas cabras

tantas que a Deus se prometiam

mas só adeuses encontravam

Adeus ó deusas de partida

no meu minuto de chegada

Adeus ardentes evasivas

a ver se um pouco as demorava

Se as demorava ou demovia

de tão depressa me deixarem

Adeus ó portas clandestinas

que ao fim da tarde se entreabrem

Adeus adeus íntimas vítimas

das cerimónias implacáveis

Como deixar-vos todavia

se as vossas mãos as vossas faces

ora parecem despedir-me

ora conseguem renovar-me

E tantas tantas tantas ilhas

no mar que não nos limitasse

Como deixar-vos se na linha

deste horizonte aquela praia

tão de repente se aproxima

tão de repente se me escapa

Jorram vulcânicas as crinas

de récuas de éguas subaquáticas

Jorram do fundo. E à superfície

crescem as ilhas assombradas

Eis que de longe lembras liras

mas entre as ondas só navalhas

É quando o poeta menos grita

que mais se crê nas suas lágrimas

Fique porém de quanto sinta

um monumento de palavras

Mas não de bronze Nem de argila

E nem de cinza nem de mármore

De fumo sim Do que se infiltra

no coração das velhas máquinas

no estertor dos suicidas

no riso triste dos apátridas

no ondular das gelosias

de onde se espia a madrugada

Do fumo enfim que se eterniza

na longa insónia das estátuas

E que de nós a alma extirpa

não nos deixando nem a máscara

quando é só corpo o que nos fica

para morrer às mãos dos bárbaros

E que nos conta só mentiras

E nos aceita só verdades

Múltiplas ágeis infinitas

sejam as linhas que ele trace

como as que traça a própria vida

sem liberdade em liberdade

Adeus ó fogo Adeus raízes

que todo o fumo alimentavam

E adeus o mel Adeus urtigas

da minha terra calcinada

Adeus cortiço Adeus cortiça

Ó madrugadas inflamáveis

Já se nem sabe a que sevícias

é que por fim a boca sabe

Nem qual a sombra que improvisa

esta sonâmbula sonata

que apazigua que arrepia

que nos destói que nos exalta

Nem qual o crime inda mais crime

se acaso chega a desvendar-se

Adeus adeus eterna esfinge

Adeus Não penses que me ultrajas

E lembro tudo o que era simples

antes do nada inevitável

Mas que do nada ao menos fique

um monumento de palavras

4 295 4
Torquato Neto

Torquato Neto

Cogito

eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível
eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora
eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim
eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranqüilamente
todas as horas do fim
6 950 3
Abgar Renault

Abgar Renault

7

Este poema exigiu 7 folhas de papel.
Para escrevê-lo já fumei raivosamente 7 cigarros
e rasguei-o 7 vezes.
7 é um mau número: é o número 13 da minha vida.
Segundo várias aritméticas, não é divisível por 2,
e eu tenho horror a todos os números (e a todas as coisas)
não divisíveis por 2.
Sexta-feira, 7...
Isto hoje não acaba bem...
Vai a chuva ficar chovendo para sempre.
O meu relógio vai continuar disparado,
marcando horas inexistentes.
Ah se os ponteiros andassem para trás!
Ah se ao menos a chuva chovesse para cima
e eu fizesse destes nulos versos
uma folha noturna e molhada!


Publicado no livro A outra face da lua (1983).

In: RENAULT, Abgar. Obra poética. Rio de Janeiro: Record, 1990
1 166 3
Alice Ruiz

Alice Ruiz

sou uma moça polida

sou uma moça polida
levando
uma vida lascada

cada instante
pinta um grilo
por cima
da minha sacada


Publicado no livro Navalhanaliga (1980).

In: RUIZ, Alice. Pelos pelos. São Paulo: Brasiliense, 1984. (Cantadas literárias, 24
3 437 3
Ilka Brunhilde Laurito

Ilka Brunhilde Laurito

Carta Enigmática

Amado, se encontrares sobre tua mesa de trabalho
um coração flechado com as iniciais da minha mágoa,
não me culpes, não: foi uma criança a quem emprestei um
canivete enferrujado.
E se o correio te entregar este envelope sem local e data
com uma clave de sol sobre uma ausência em pauta,
não creias que fui eu que silenciei sereias
que já não sabem atrair para longínquas ilhas.
A tua possibilidade musical é um desperdício.
Compõe ao menos um poema concretista
em que desgastes requintes de tipografia
contra o pudor de ser como eu, só lírico.

Eu te decifro.
Ou me devoras, meu querido,
como me tens devorado dia a dia
sem ter fome de mim.
Ora, direis, mas que mulher ridícula.
Ela é capaz de rodar um disco-voador na sua vitrola
e não consegue fixar uma flor nas suas raízes.
Tudo tão natural, tão simples.
O telefone, o som estereofônico, o ultra-som
(e as telecotecomunicações?)...

Ai, deflagro a minha dor no ardor da bateria
— amante-batucada sem amor-passista
é o meu apelido.
Mas rescindiram o meu contrato
(será que foste tu um dos jurados?).
(...)

1968


Publicado no livro Janela de apartamento (1968).

In: LAURITO, Ilka Brunhilde. Sal do lírico: antologia poética. São Paulo: Quíron, 1978. p.69. (Sélesis, 13
2 367 3
Gilberto Mendonça Teles

Gilberto Mendonça Teles

Goiás

Só te vejo, Goiás, quando me afasto
e, nas pontas dos pés, meio de banda,
jogo o perfil do tempo sobre o rasto
desse quarto-minguante na varanda.

De perto, não te vejo nem sou visto.
O amor tem destes casos de cegueira:
quanto mais perto mais se torna misto,
ouro e pó de caruncho na madeira.

De perto, as coisas vivem pelo ofício
do cotidiano — existem de passagem,
são formas de rotina, desperdício,
cintilações por fora da linguagem.

De longe, não, nem tudo está perdido.
Há contornos e sombras pelo teto.
E cada coisa encontra o seu sentido
na colcha de retalhos do alfabeto.

E, quanto mais te busco e mais me esforço,
de longe é que te vejo, em filigrana,
no clichê de algum livro ou no remorso
de uma extinta pureza drummondiana.

Só te vejo, Goiás, quando carrego
as tintas no teu mapa e, como um Jó,
um tanto encabulado e meio cego,
vou-te jogando em verso, em nome, em GO.


In: TELES, Gilberto Mendonça. Saciologia goiana. 3. ed. Goiânia: Cerne, 1986. p. 36. Poema integrante da série Sombras da Terra
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Cacaso

Cacaso

Se Porém Fosse Portanto

Se trezentos fosse trinta
o fracasso era um portento
se bobeira fosse finta
e o pecado sacramento
se cuíca fosse banjo
água fresca era absinto
se centauro fosse anjo
e atalho labirinto
Se pernil fosse presunto
armadilha era ornamento
se rochedo fosse vento
cabra vivo era defunto
se porém fosse portanto
vinho branco era tinto
se marreco fosse pinto
alegria era quebranto
se projeto fosse planta
simpatia era instrumento
se almoço fosse janta
e descuido fosse tento
se punhado fosse penca
se duzentos fosse vinte
se tulipa fosse avenca
e assistente fosse ouvinte
se pudim fosse polenta
se São Bento fosse santo
dona Benta fosse benta
e o capeta sacrossanto
se a dezena fosse um cento
se cutia fosse anta
se São Bento fosse bento
e dona Benta fosse santa


Publicado no livro Mar de mineiro: poemas e canções (1982). Poema integrante da série Sete Preto.

In: CACASO. Beijo na boca e outros poemas. São Paulo: Brasiliense, 1985. p.156-157

NOTA: Música de Francis Him
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Ana Cristina Cesar

Ana Cristina Cesar

Olho muito tempo

Olho muito tempo o corpo de um poema
até perder de vista o que não seja corpo
e sentir separado dentre os dentes
um filete de sangue
nas gengivas

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Arthur Rimbaud

Arthur Rimbaud

VOGAIS

A negro, E branco, I rubro, U verde, O azul, vogais,
Ainda desvendarei seus mistérios latentes:
A, velado voar de moscas reluzentes
Que zumbem ao redor dos acres lodaçais;

E, nívea candidez de tendas areais,
Lanças de gelo, reis brancos, flores trementes;
I, escarro carmim, rubis a rir nos dentes
Da ira ou da ilusão em tristes bacanais;

U, curvas, vibrações verdes dos oceanos,
Paz de verduras, pas dos pastos, paz dos anos
Que as rugas vão urdindo entre brumas e escolhos;

O, supremo Clamor cheio de estranhos versos,
Silêncio assombrados de anjos e universos;
- Ó! Ômega, o sol violeta dos Seus olhos!


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Fernando Namora

Fernando Namora

Intimidade

Que ninguém
hoje me diga nada.
Que ninguém venha abrir a minha mágoa,
esta dor sem nome
que eu desconheço donde vem
e o que me diz.
É mágoa.
Talvez seja um começo de amor.
Talvez, de novo, a dor e a euforia de ter vindo ao mundo.

Pode ser tudo isso, ou nada disso.
Mas não afirmo.
As palavras viriam revelar-me tudo.
E eu prefiro esta angústia de não saber de quê.

2 722 3
Ana Cristina Cesar

Ana Cristina Cesar

Estou Atrás

do despojamento mais inteiro
da simplicidade mais erma
da palavra mais recém-nascida
do inteiro mais despojado
do ermo mais simples
do nascimento a mais da palavra.

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