Justiça e Igualdade
Poemas neste tema
Carlos Drummond de Andrade
Terapia Ocupacional
A enxovia
fascina
a peneira
colorida
a gaiola
de taquara
o boneco
de engonço
o riso
dos presos
o embaixo
da vida.
A enxovia
dando para o ar livre
casamento de luz e miséria
imanta o menino
a voz do assassino
é um curió suave
propondo a venda
de um girassol de trapo.
fascina
a peneira
colorida
a gaiola
de taquara
o boneco
de engonço
o riso
dos presos
o embaixo
da vida.
A enxovia
dando para o ar livre
casamento de luz e miséria
imanta o menino
a voz do assassino
é um curió suave
propondo a venda
de um girassol de trapo.
1 214
Adão Ventura
Eu, pássaro preto
eu,
pássaro preto,
cicatrizo
queimaduras de ferro em brasa,
fecho o corpo de escravo fugido
e
monto guarda
na porta dos quilombos.
pássaro preto,
cicatrizo
queimaduras de ferro em brasa,
fecho o corpo de escravo fugido
e
monto guarda
na porta dos quilombos.
1 133
Francisco Mallmann
III
não te esquece hora alguma
fernando que estamos
em terra invadida
pisas em ossos e sangue
de gente minha fernando
não te esquece hora
alguma que foram os
teus quem te trouxeram
aqui eu nada tenho a
ver com isso só estou
fernando pegando o
que é meu e o desejo
de te ver morto
fernando é só
o início de uma
nova ordem
da visão
fernando que estamos
em terra invadida
pisas em ossos e sangue
de gente minha fernando
não te esquece hora
alguma que foram os
teus quem te trouxeram
aqui eu nada tenho a
ver com isso só estou
fernando pegando o
que é meu e o desejo
de te ver morto
fernando é só
o início de uma
nova ordem
da visão
632
Adão Ventura
Para um negro
para um negro
a cor da pele
é uma sombra
muitas vezes mais forte
que um soco.
para um negro
a cor da pele
é uma faca
que atinge
muito mais em cheio
o coração.
a cor da pele
é uma sombra
muitas vezes mais forte
que um soco.
para um negro
a cor da pele
é uma faca
que atinge
muito mais em cheio
o coração.
1 212
Sophia de Mello Breyner Andresen
Electra
a Aspassia Papathanassiou
O rumor do estio atormenta a solidão de Electra
O sol espetou a sua lança nas planícies sem água
Ela solta os seus cabelos como um pranto
E o seu grito ecoa nos pátios sucessivos
Onde em colunas verticais o calor treme
O seu grito atravessa o canto das cigarras
E perturba no céu o silêncio de bronze
Das águias que devagar cruzam seu voo
O seu grito persegue a matilha das fúrias
Que em vão tentam adormecer no fundo dos sepulcros
Ou nos cantos esquecidos do palácio
Porque o grito de Electra é a insónia das coisas
A lamentação arrancada ao interior dos sonhos dos remorsos e dos crimes
E a invocação exposta
Na claridade frontal do exterior
No duro sol dos pátios
Para que a justiça dos deuses seja convocada
O rumor do estio atormenta a solidão de Electra
O sol espetou a sua lança nas planícies sem água
Ela solta os seus cabelos como um pranto
E o seu grito ecoa nos pátios sucessivos
Onde em colunas verticais o calor treme
O seu grito atravessa o canto das cigarras
E perturba no céu o silêncio de bronze
Das águias que devagar cruzam seu voo
O seu grito persegue a matilha das fúrias
Que em vão tentam adormecer no fundo dos sepulcros
Ou nos cantos esquecidos do palácio
Porque o grito de Electra é a insónia das coisas
A lamentação arrancada ao interior dos sonhos dos remorsos e dos crimes
E a invocação exposta
Na claridade frontal do exterior
No duro sol dos pátios
Para que a justiça dos deuses seja convocada
2 600
Fernando Pessoa
Nós ao igual destino
Nós ao igual destino
Iniguais pertencemos.
Iniguais pertencemos.
806
Fernando Pessoa
EPIGRAMS - III
If rank [?] the guinea‑stamp but be,
Why, to this one thing may be said:
That 'tis only midst men we see
A guinea‑stamp on head [?]
Why, to this one thing may be said:
That 'tis only midst men we see
A guinea‑stamp on head [?]
892
Fernando Pessoa
JUSTICE
There was a land, which I suppose,
Where everyone had a crooked nose;
And the crooked nose that everyone had
In no manner did make him sad.
But in that land a man was born
Whose nose more straight and clean was worn;
And the men of that land with a public hate
Killed the man whose nose was straight.
Where everyone had a crooked nose;
And the crooked nose that everyone had
In no manner did make him sad.
But in that land a man was born
Whose nose more straight and clean was worn;
And the men of that land with a public hate
Killed the man whose nose was straight.
1 690
Paulo Colina
Pressentimento
Maio,
treze,
mil oitocentos e oitenta e oito,
me soam como um sussurro cósmico.
A noite sobressaltada
por sirenes me sacode.
Reviro os bolsos à procura do passe
que me permite, São Paulo, cruzar ruas
em latente paz.
A Princesa esqueceu-se de assinar
nossas carteiras de trabalho.
Desconfio, sim, que Palmares vivo
é necessário.
treze,
mil oitocentos e oitenta e oito,
me soam como um sussurro cósmico.
A noite sobressaltada
por sirenes me sacode.
Reviro os bolsos à procura do passe
que me permite, São Paulo, cruzar ruas
em latente paz.
A Princesa esqueceu-se de assinar
nossas carteiras de trabalho.
Desconfio, sim, que Palmares vivo
é necessário.
1 428
Leila Mícollis
Diferença (Ciclo Infantil)
Meu mundo é violento e com razão:
na rua se eu apanho, é covardia,
em casa se eu apanho, é educação.
In: MÍCCOLIS, Leila. O bom filho a casa torra. Seleção de textos Urhacy Faustino. São Paulo: Edicon; Rio de Janeiro: Blocos, 1992. p.2
na rua se eu apanho, é covardia,
em casa se eu apanho, é educação.
In: MÍCCOLIS, Leila. O bom filho a casa torra. Seleção de textos Urhacy Faustino. São Paulo: Edicon; Rio de Janeiro: Blocos, 1992. p.2
918
Ilka Brunhilde Laurito
Publicidade
Proibido colocar cartazes:
em chão
parede
poste.
(Em homem:
pode.)
1963
Poema integrante da série Inéditos, 1971/1977.
In: LAURITO, Ilka Brunhilde. Sal do lírico: antologia poética. São Paulo: Quíron, 1978. p.31. (Sélesis, 13
em chão
parede
poste.
(Em homem:
pode.)
1963
Poema integrante da série Inéditos, 1971/1977.
In: LAURITO, Ilka Brunhilde. Sal do lírico: antologia poética. São Paulo: Quíron, 1978. p.31. (Sélesis, 13
1 574
Glauco Mattoso
Fique Ligado, 1977
dentro de
um segundo
em primeira
mão
o terceiro
mundo
no seu
quarto
arregale
o globo e não
pisque
In: MATTOSO, Glauco. Línguas na papa: uma salada dos mais insípidos aos mais picantes poemas de Glauco Mattoso. São Paulo: Pindaiba, 1982
um segundo
em primeira
mão
o terceiro
mundo
no seu
quarto
arregale
o globo e não
pisque
In: MATTOSO, Glauco. Línguas na papa: uma salada dos mais insípidos aos mais picantes poemas de Glauco Mattoso. São Paulo: Pindaiba, 1982
1 221
Carlos Vogt
Sociedade Moderna no Terceiro Mundo
para o Roberto Schwarz
Autovacinamos
a população
contra a febre de consumo
não há antídoto
só
a concreta falta
de
dinheiro
In: VOGT, Carlos. Cantografia: o itinerário do carteiro cartógrafo. Pref. Antonio Candido. São Paulo: Massao Ohno: Hucitec; Brasília: INL, 1982. Poema integrante da série Quadrados.
Autovacinamos
a população
contra a febre de consumo
não há antídoto
só
a concreta falta
de
dinheiro
In: VOGT, Carlos. Cantografia: o itinerário do carteiro cartógrafo. Pref. Antonio Candido. São Paulo: Massao Ohno: Hucitec; Brasília: INL, 1982. Poema integrante da série Quadrados.
1 121
Paulo Leminski
quero a vitória
quero a vitória
do time de várzea
valente
covarde
a derrota
do campeão
5 X 0
em seu próprio chão
circo
dentro
do pão
do time de várzea
valente
covarde
a derrota
do campeão
5 X 0
em seu próprio chão
circo
dentro
do pão
2 272
Leila Mícollis
Engorda
Ilusões para os aflitos
para a mulher, segurança,
para a casa, samambaias;
consolo para os doentes,
conselhos aos desgarrados,
aos leitos de amor, cambraias.
Sorvete para as crianças,
esmolas para os famintos,
para os turistas as praias;
para os homens, futebol,
televisão para todos
e alface para as cobaias.
para a mulher, segurança,
para a casa, samambaias;
consolo para os doentes,
conselhos aos desgarrados,
aos leitos de amor, cambraias.
Sorvete para as crianças,
esmolas para os famintos,
para os turistas as praias;
para os homens, futebol,
televisão para todos
e alface para as cobaias.
946
Sandra Falcone
Não Chorou
quando
nasceu
não desperdiçava nada
nem lágrimas
não era triste
nem alegre
pra quê?
se nem menino
chegou a ser?
nasceu a assim
pronto pra vida
e da vida
que já sabia tudo
já não pedia quase mais nada
pra quê?
se até da fome
que já era tanta
nem mais lembrava?
nasceu
não desperdiçava nada
nem lágrimas
não era triste
nem alegre
pra quê?
se nem menino
chegou a ser?
nasceu a assim
pronto pra vida
e da vida
que já sabia tudo
já não pedia quase mais nada
pra quê?
se até da fome
que já era tanta
nem mais lembrava?
730
Miriam Paglia Costa
A Canção dos Insetos
brilha
a redação
eternidade de néon
aprisionados entre cimento e vidro
escrevemos sobre o mundo que anoitece
nada se vê pelas janelas
só reflexo de nossas caras amarelas
jornalistas no aquário
lá longe, tão depressa
nas escadas do teatro
um mendigo troca andrajos
encerra o ato
sem vaia nem aplauso pega o troco
exit
a redação
eternidade de néon
aprisionados entre cimento e vidro
escrevemos sobre o mundo que anoitece
nada se vê pelas janelas
só reflexo de nossas caras amarelas
jornalistas no aquário
lá longe, tão depressa
nas escadas do teatro
um mendigo troca andrajos
encerra o ato
sem vaia nem aplauso pega o troco
exit
770
Reinaldo Ferreira
Na vida somos iguais
Na vida somos iguais
Às peças que no xadrez
Valem o menos e o mais,
Segundo o acaso que a fez.
Do mesmo cepo nascer
Para as batalhas pensadas,
Aos mais, peões de perder,
A raros, ficções coroadas.
Mas, findo o jogo, receio
Que, extintas as convenções,
Durma a rainha no meio
Dos mal nascidos peões.
Às peças que no xadrez
Valem o menos e o mais,
Segundo o acaso que a fez.
Do mesmo cepo nascer
Para as batalhas pensadas,
Aos mais, peões de perder,
A raros, ficções coroadas.
Mas, findo o jogo, receio
Que, extintas as convenções,
Durma a rainha no meio
Dos mal nascidos peões.
1 777
V. de Araújo
Menino de Rua
Em flagrante denúncia,
aquela criança sem teto,
sem nome, sem pai...
com saltos mortais
escreve sua história,
enquanto banha despida
nas águas poluídas
das fontes luminosas.
aquela criança sem teto,
sem nome, sem pai...
com saltos mortais
escreve sua história,
enquanto banha despida
nas águas poluídas
das fontes luminosas.
768
Nana Corrêa de Lima
Yanomani
Yanomani
Hoje é dia de índio.
Deixo aqui pequena lágrima,
rolando na agonia
que antecede o final de tudo.
Anoitece o sangue na tribo....
Hoje é dia de índio.
Deixo aqui pequena lágrima,
rolando na agonia
que antecede o final de tudo.
Anoitece o sangue na tribo....
888
Cândido Rolim
Orfandade da Terra
por falta de justos
minha terra
é áspera de súplica
nem só a morte segrega
a carne da plebe
por falta de fuzis
meu povo
mastiga dor e extravio
nem só a noite arreda
a luz das lavouras
por falta de voz
canto
o prenúncio das foices
minha terra
é áspera de súplica
nem só a morte segrega
a carne da plebe
por falta de fuzis
meu povo
mastiga dor e extravio
nem só a noite arreda
a luz das lavouras
por falta de voz
canto
o prenúncio das foices
701
Bocage
Um procurador de causas
Um procurador de causas
Tinha na destra de harpia
Nojenta, incurável chaga,
Que até ossos lhe roía.
Exclama um taful ao vê-lo:
"Que pena de Talião!
Quem com a mão roeu tanto
Ficou roído na mão".
Tinha na destra de harpia
Nojenta, incurável chaga,
Que até ossos lhe roía.
Exclama um taful ao vê-lo:
"Que pena de Talião!
Quem com a mão roeu tanto
Ficou roído na mão".
1 150
Sérgio Milliet
Fotografia
Esse papel estragado de fotografia
Era branco dentro da caixa.
Bastou expô-lo ao sol para que se queimasse...
Assim os negros quando nascem.
Era branco dentro da caixa.
Bastou expô-lo ao sol para que se queimasse...
Assim os negros quando nascem.
1 620
Mário Donizete Massari
Moeda
A moeda
rola no ar
vil metal a delinear
destinos.
A fome no olhar
sentimento vendido
a moeda seduz
e oprime.
Que importa a
poesia,
se a fome ronda a
esquina?
O que importa
a poesia,
se a moeda é pobre
sendo rica?
Na cara a coroa
de ouro
duas faces
moeda e poesia
Pobre moeda
Rica poesia
rola no ar
vil metal a delinear
destinos.
A fome no olhar
sentimento vendido
a moeda seduz
e oprime.
Que importa a
poesia,
se a fome ronda a
esquina?
O que importa
a poesia,
se a moeda é pobre
sendo rica?
Na cara a coroa
de ouro
duas faces
moeda e poesia
Pobre moeda
Rica poesia
1 009
Português
English
Español