Flores e Jardins

Poemas neste tema

Adélia Prado

Adélia Prado

Solo de Clarineta

As pétalas da flor-seca, a sempre-viva,
do que mais gosto em flor.
Do seu grego existir de boniteza,
sua certa alegria.
É preciso ter morrido uma vez e desejado
o que sobre as lápides está escrito
de repouso e descanso, pra amar seu duro odor
de retrato longínquo, seu humano conter-se.
As severas.
1 426
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

A Rosa É Um Jardim

A rosa é um jardim
concentrado
um clarim
de cor, anunciando
a alvorada fogosa
e o tempo iluminado.
1 338
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Recomendação

Neste botânico setembro,
que pelo menos você plante
com eufórica
emoção ecológica
num pote de plástico
uma flor de retórica.
1 394
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

A Lourdes E Cassiano Ricardo

No jardim cassiano
a florida acácia
de cassa vestida
translúcida
luz de lourdes lua
luaramar
1 059
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Flor Experiente

Uma flor matizada
entreabre-se em meus dedos.
Já sou terra estrumada
— é um de meus segredos.

Careceu vida lenta
e, mais que lenta, peca,
para a cor que ornamenta
esta epiderme seca.

Assino-me no cálice
de estrias fraternais.
O pensamento cale-se.
É jardim, nada mais.
1 353
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Ninfas

Agora sei que existem ninfas
fora das estampas e dos contos.
São três.
Bebem água publicamente
servida por uma sereia,
pois que também existem as sereias
na composição de verde e mármore
e é tudo fantástico no jardim
em frente do Palácio do Governo.
1 165
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora Negra Iii

Germina ainda um desenho
de alegria? Quem ouve as densas
raízes, as constelações
do pólen?
963
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Aqui Está Um Arbusto E a Sua Luz

Aqui está um arbusto e a sua luz
tão branca     O seu volume
é leve surpreendente intacto

Se o trabalharmos sobre a terra parda
não saberemos não adivinhamos
a surpresa da flor vermelha
mas saberemos que insectos o assaltam

Ao vento à chuva
as flores tornam-se negras
são negras e todas hão-de arder
970
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Um Jardim Um Jardim Obscuro

Um jardim     um jardim obscuro
É da luz que vem o obscuro

Os animais surgem numerosos
Ainda escuros mas sobretudo espessos
Cinzentos sobre o dorso
É inútil olhar

Só um maciço no branco é uma reserva
de um virtual contacto de uma chama
1 037
Nuno Júdice

Nuno Júdice

A mulher das flores

No meio das flores, a mulher encontra o
movimento de rotação da árvore; e à sua volta
as pétalas caem, numa rotação de corolas
de que ela é o centro.


Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 83 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 120
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Nardo

Nardo
Pesado e denso,
Opaco e branco,
Feito
De obscura respiração
E de nocturno embalo.
1 882
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Jardim Verde E Em Flor, Jardim de Buxo

Jardim verde e em flor, jardim de buxo
Onde o poente interminável arde
Enquanto bailam lentas as horas da tarde.
Os narcisos ondulam e o repuxo,
Voz onde o silêncio se embala,
Canta, murmura e fala
Dos paraísos desejados,
Cuja lembrança enche de bailados
A clara solidão das tuas ruas.
2 067
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Divaga Entre a Folhagem Perfumada

Divaga entre a folhagem perfumada
E adormece nas brisas embalada.

Aos lagos mostra a sua face nua,
E vai dançar nos palcos vazios da Lua.

Pálida, de reflexo em reflexo desliza,
Não se curvam sequer as ervas que ela pisa.

É ela quem baloiça os lânguidos pinheiros,
Quem enrola em luar as suas mãos
E depois as espalha brancas nos canteiros.
1 862
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Tome lá, minha menina,

Tome lá, minha menina,
O ramalhete que fiz.
Cada flor é pequenina,
Mas tudo junto é feliz.
3 628
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Flores amo, não busco. Se aparecem

Flores amo, não busco. Se aparecem
Me agrado ledo, que há em buscar prazeres
        O desprazer da busca.
A vida seja como o sol, que é dado,
Nem arranquemos flores, que, arrancadas
        Não são nossas, mas mortas.
1 256
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

1. Little flower that wert on the hill,

1.
Little flower that wert on the hill,
Where art thou to-day?
Thou that saw'st thyself in the rill
Art thou gone away?
Ah, now I see that thou art dead
And that thy charm from us is fled.
1 355
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

«Das flores que há pelo campo

«Das flores que há pelo campo
O rosmaninho é rei...»
É uma velha cantiga...
Bem sei, meu Deus, bem o sei.
1 514
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Coroai-me de rosas. [2]

Coroai-me de rosas.
Coroai-me em verdade
        De rosas.
Quero ter a hora
Nas mãos pagãmente
        E leve,

Mal sentir a vida,
Mal sentir o sol
        Sob ramos.

Coroai-me de rosas
E de folhas de hera
        E basta.
1 442
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

IX - Coroai-me de rosas, [1]

Coroai-me de rosas,
Coroai-me em verdade
        De rosas —
Rosas que se apagam
Em fronte a apagar-se
        Tão cedo!
Coroai-me de rosas
E de folhas breves.
        E basta.
1 361
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Pétala dobrada para trás da rosa que outros dizem de veludo.

Pétala dobrada para trás da rosa que outros dizem de veludo.
Apanho-te do chão e, de perto, contemplo-te de longe.

Não há rosas no meu quintal: que vento te trouxe?
Mas chego de longe de repente. Estive doente um momento.
Nenhum vento te trouxe agora.
Agora estás aqui.
O que foste não és tu, se não toda a rosa estava aqui.
1 233
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Cuidas tu, louro Flacco, que cansando [2]

In Flaccum

Cuidas tu, louro Flacco, que cansando
Os teus estéreis trabalhosos dias
        Darás mais sorrisos ao campo
E serão mais altos os peitos de Ceres
Põe mais vista em notares que tens flores
        No teu jardim (...)
1 236
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Roseiral que não dás rosas

Roseiral que não dás rosas
Senão quando as rosas vêm,
Há muitas que são formosas
Sem que o amor lhes vá bem.
1 491
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Fizeste molhos de flores

Fizeste molhos de flores
Para não dar a ninguém.
São como os molhos de amores
Que foras fazer a alguém.
1 028
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Floriu a roseira toda

Floriu a roseira toda
Com as rosas de trepar...
Tua cabeça anda à roda
Mas sabes-te equilibrar.
1 414