Esperança e Otimismo
Poemas neste tema
Adélia Prado
Neurolinguística
Quando ele me disse
ô linda,
pareces uma rainha,
fui ao cúmice do ápice
mas segurei meu desmaio.
Aos sessenta anos de idade,
vinte de casta viuvez,
quero estar bem acordada,
caso ele fale outra vez.
ô linda,
pareces uma rainha,
fui ao cúmice do ápice
mas segurei meu desmaio.
Aos sessenta anos de idade,
vinte de casta viuvez,
quero estar bem acordada,
caso ele fale outra vez.
1 457
Adélia Prado
Oficina
Podem gritar
as cigarras
e as serras dos carpinteiros.
Nunca serão funestas,
fatiam a tarde
que continua inconsútil.
O mundo é ininteligível,
mas é bom.
as cigarras
e as serras dos carpinteiros.
Nunca serão funestas,
fatiam a tarde
que continua inconsútil.
O mundo é ininteligível,
mas é bom.
1 084
Adélia Prado
A Profetisa Ana No Templo
As fainas da viuvez trabalham uma horta nova.
Quem me condenará por minhas vestes claras?
O recém-nascido vai precisar de faixas.
É um tal amor o que prepara os unguentos
que obriga a divindade a conceder-se.
Até que esmaeçam,
velo as coruscantes estrelas.
Quem me condenará por minhas vestes claras?
O recém-nascido vai precisar de faixas.
É um tal amor o que prepara os unguentos
que obriga a divindade a conceder-se.
Até que esmaeçam,
velo as coruscantes estrelas.
1 055
Adélia Prado
Ovos da Páscoa
O ovo não cabe em si, túrgido de promessa,
a natureza morta palpitante.
Branco tão frágil guarda um sol ocluso,
o que vai viver, espera.
a natureza morta palpitante.
Branco tão frágil guarda um sol ocluso,
o que vai viver, espera.
1 387
Carlos Drummond de Andrade
Poema da Purificação
Depois de tantos combates
o anjo bom matou o anjo mau
e jogou seu corpo no rio.
As águas ficaram tintas
de um sangue que não descorava
e os peixes todos morreram.
Mas uma luz que ninguém soube
dizer de onde tinha vindo
apareceu para clarear o mundo,
e outro anjo pensou a ferida
do anjo batalhador.
o anjo bom matou o anjo mau
e jogou seu corpo no rio.
As águas ficaram tintas
de um sangue que não descorava
e os peixes todos morreram.
Mas uma luz que ninguém soube
dizer de onde tinha vindo
apareceu para clarear o mundo,
e outro anjo pensou a ferida
do anjo batalhador.
1 798
António Ramos Rosa
Vazio,
Vazio,
pulsação de uma chama
desvanecida,
ressurgindo.
pulsação de uma chama
desvanecida,
ressurgindo.
534
António Ramos Rosa
Mediadora Negra Iii
Germina ainda um desenho
de alegria? Quem ouve as densas
raízes, as constelações
do pólen?
de alegria? Quem ouve as densas
raízes, as constelações
do pólen?
960
António Ramos Rosa
Sedentos de Repouso E do Início
Sedentos de repouso e do início
buscando a esperança nas vogais
outro sentido sentindo ao nível do ar
saboreando o simples na densidade límpida.
buscando a esperança nas vogais
outro sentido sentindo ao nível do ar
saboreando o simples na densidade límpida.
1 037
António Ramos Rosa
Um Tempo de Semente
Um tempo de semente
sob os passos
e a lâmpada
sob as traves
sob os passos
e a lâmpada
sob as traves
982
António Ramos Rosa
O Que Resta Recomeçar
O que resta recomeçar
com uma pedra
com uma pedra
494
António Ramos Rosa
O Homem de Abril
a José Gomes Ferreira
Eis o homem de Abril.
Nasceu fraco e de pé.
De fraco, fez-se velho.
Fez-se velho a valer.
Sentou-se ao pé dum muro.
Atrás o sol nascia.
Uma rosa rompeu.
Era manhã. Bom dia!
Eis o homem de Abril.
Nasceu fraco e de pé.
De fraco, fez-se velho.
Fez-se velho a valer.
Sentou-se ao pé dum muro.
Atrás o sol nascia.
Uma rosa rompeu.
Era manhã. Bom dia!
1 027
António Ramos Rosa
No Coração da Neve
No coração da neve
e no espaço
no silêncio e na infância
no amor na solidão na liberdade
na gentileza na fraternidade
o mesmo puro delírio
de iluminar as trevas
sem diminuir o sonho
e fazê-las cantar
à luz do dia
e no espaço
no silêncio e na infância
no amor na solidão na liberdade
na gentileza na fraternidade
o mesmo puro delírio
de iluminar as trevas
sem diminuir o sonho
e fazê-las cantar
à luz do dia
1 035
Sophia de Mello Breyner Andresen
Lagos I
«Un jour à Lagos ouverte sur la mer comme l’autre Lagos»
Senghor
Em Lagos
Virada para o mar como a outra Lagos
Muitas vezes penso em Leopoldo Sedar Senghor:
A precisa limpidez de Lagos onde a limpeza
É uma arte poética e uma forma de honestidade
Acorda em mim a nostalgia de um projecto
Racional limpo e poético
Os ditadores — é sabido — não olham para os mapas
Suas excursões desmesuradas fundam-se em confusões
O seu ditado vai deixando jovens corpos mortos pelos caminhos
Jovens corpos mortos ao longo das extensões
Na precisa claridade de Lagos é-me mais difícil
Aceitar o confuso o disforme a ocultação
Na nitidez de Lagos onde o visível
Tem o recorte simples e claro de um projecto
O meu amor da geometria e do concreto
Rejeita o balofo oco da degradação
Na luz de Lagos matinal e aberta
Na praça quadrada tão concisa e grega
Na brancura da cal tão veemente e directa
O meu país se invoca e se projecta
Lagos, 20 de Abril de 1974
Senghor
Em Lagos
Virada para o mar como a outra Lagos
Muitas vezes penso em Leopoldo Sedar Senghor:
A precisa limpidez de Lagos onde a limpeza
É uma arte poética e uma forma de honestidade
Acorda em mim a nostalgia de um projecto
Racional limpo e poético
Os ditadores — é sabido — não olham para os mapas
Suas excursões desmesuradas fundam-se em confusões
O seu ditado vai deixando jovens corpos mortos pelos caminhos
Jovens corpos mortos ao longo das extensões
Na precisa claridade de Lagos é-me mais difícil
Aceitar o confuso o disforme a ocultação
Na nitidez de Lagos onde o visível
Tem o recorte simples e claro de um projecto
O meu amor da geometria e do concreto
Rejeita o balofo oco da degradação
Na luz de Lagos matinal e aberta
Na praça quadrada tão concisa e grega
Na brancura da cal tão veemente e directa
O meu país se invoca e se projecta
Lagos, 20 de Abril de 1974
3 703
Sophia de Mello Breyner Andresen
Abril
Vinhas descendo ao longo das estradas,
Mais leve do que a dança
Como seguindo o sonho que balança
Através das ramagens inspiradas.
E o jardim tremeu,
Pálido de esperança.
Mais leve do que a dança
Como seguindo o sonho que balança
Através das ramagens inspiradas.
E o jardim tremeu,
Pálido de esperança.
3 177
Fernando Pessoa
Por um púcaro de barro
Por um púcaro de barro
Bebe-se a água mais fria.
Quem tem tristezas não dorme,
Vela para ter alegria.
Bebe-se a água mais fria.
Quem tem tristezas não dorme,
Vela para ter alegria.
1 540
Fernando Pessoa
Nem destino sem esperança
Nem destino sem esperança
Somos cegos, que vêem só quem tocam.
Somos cegos, que vêem só quem tocam.
1 398
Fernando Pessoa
Duas horas te esperei./Duas mais te esperaria.
Duas horas te esperei.
Duas mais te esperaria.
Se gostas de mim não sei...
Algum dia há-de ser dia...
Duas mais te esperaria.
Se gostas de mim não sei...
Algum dia há-de ser dia...
1 275
Fernando Pessoa
Do alto da torre da igreja
Do alto da torre da igreja
Vê-se o campo todo em roda.
Só do alto da esperança
Vemos nós a vida toda.
Vê-se o campo todo em roda.
Só do alto da esperança
Vemos nós a vida toda.
2 863
Fernando Pessoa
Na quinta que nunca houve
Na quinta que nunca houve
Há um poço que não há
Onde há-de ir encontrar água
Alguém que te entenderá.
Há um poço que não há
Onde há-de ir encontrar água
Alguém que te entenderá.
973
Fernando Pessoa
Tarda o verão. No campo tributário
Tarda o verão. No campo tributário
Da nossa esperança, não há sol bastante,
Nem se esperavam as que vêm, chuvas
Na estação, deslocadas.
Meu vão conhecimento do que vejo
Com o que é falso se contenta, a noite,
Em pouco dando à conclusão factícia
Do moribundo tudo.
Da nossa esperança, não há sol bastante,
Nem se esperavam as que vêm, chuvas
Na estação, deslocadas.
Meu vão conhecimento do que vejo
Com o que é falso se contenta, a noite,
Em pouco dando à conclusão factícia
Do moribundo tudo.
1 298
Fernando Pessoa
Andorinha que passaste,
Andorinha que passaste,
Quem é que te esperaria?
Só quem te visse passar
E esperasse no outro dia.
Quem é que te esperaria?
Só quem te visse passar
E esperasse no outro dia.
1 592
Fernando Pessoa
Quero, terei —
Quero, terei —
Se não aqui,
Noutro lugar que inda não sei.
Nada perdi.
Tudo serei.
Se não aqui,
Noutro lugar que inda não sei.
Nada perdi.
Tudo serei.
4 691
Florbela Espanca
Amor eterno farol
Amor — eterno farol!
Que faz, pois, o ser viúva?
As vezes também há sol
Nos tristes dias de chuva!...
Que faz, pois, o ser viúva?
As vezes também há sol
Nos tristes dias de chuva!...
1 548
Juan Gelman
Os iludidos
a esperança fracassa muitas vezes, a dor jamais, por isso alguns crêem que mais vale dor conhecida que dor por conhecer, crêem que a esperança é ilusão, são os iludidos da dor.
1 885
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