Dor e Desespero

Poemas neste tema

Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Toada

Fui sempre um homem alegre.
Mas depois que tu partiste,
Perdi de todo a alegria:
Fiquei triste, triste, triste.

Nunca dantes me sentira
Tão desinfeliz assim:
É que ando dentro da vida
Sem vida dentro de mim.
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José Saramago

José Saramago

Antes Calados

E se os ossos rangessem quando os gritos
Dentro no sangue negro se amordaçam?
E se os olhos uivassem quando a lágrima
Grossa de sal amargo rasga a pele?
E se as unhas mudadas em navalhas
Abrissem dez caminhos de desforra?
E se os versos doessem mastigados
Entre dentes que mordem o vazio?
(Mais perguntas, amor? Antes calados.)
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Adélia Prado

Adélia Prado

O Ajudante de Deus

Invoquei o Santo Espírito,
Ele me disse: sofre,
come na paciência
esta amargura,
porque tens boca
e eu não.
Toma o pequeno cálice,
massa de cinza e fel
não transmutados.
É pão de mirra,
come.
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Alagados da Bahia

Casebres à flor d’água
balançam
no silêncio
o sonho de viver
o sonho de morrer.

Jenner Augusto sobre a água
sob o céu violeta
sob o céu de chumbo
lê o horóscopo das criaturas
que nos alagados
morrem sem viver.
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Carta Aos Amigos Mortos

Eis que morrestes — agora já não bate
O vosso coração cujo bater
Dava ritmo e esperança ao meu viver
Agora estais perdidos para mim
— O olhar não atravessa esta distância —
Nem irei procurar-vos pois não sou
Orpheu tendo escolhido para mim
Estar presente aqui onde estou viva
Eu vos desejo a paz nesse caminho
Fora do mundo que respiro e vejo
Porém aqui eu escolhi viver
Nada me resta senão olhar de frente
Neste país de dor e incerteza
Aqui eu escolhi permanecer
Onde a visão é dura e mais difícil

Aqui me resta apenas fazer frente
Ao rosto sujo de ódio e de injustiça
A lucidez me serve para ver
A cidade a cair muro por muro
E as faces a morrerem uma a uma
E a morte que me corta ela me ensina
Que o sinal do homem não é uma coluna

E eu vos peço por este amor cortado
Que vos lembreis de mim lá onde o amor
Já não pode morrer nem ser quebrado
Que o vosso coração que já não bate
O tempo denso de sangue e de saudade
Mas vive a perfeição da claridade
Se compadeça de mim e de meu pranto
Se compadeça de mim e de meu canto
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Caminho

Na marcha pelo deserto eu sabia
Que alguns morreriam

Mas pensava sob o céu redondo
— Onde
O limite do meu amor da minha força?

E eis que morro antes do próximo oásis
Com a garganta seca e o peso
Ilimitado do sol sobre os meus ombros

Eis que morro cega de brancura
Cansada de mais para avistar miragens

Eu sabia
Que alguém
Antes do próximo oásis morreria
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Caderno I

Quando me perco de novo neste antigo
Caderno de capa preta de oleado —
Que um dia rasguei com fúria e que um amigo
Folha a folha recolou com vagar e paciência —

Tudo me dói ainda como faca e me corta
Pois diante de mim estão como sussurro e floresta
As longas tardes as misturadas noites
Onde divago e divagam incessantemente
Os venenosos perfumes mortais da juventude

E dói-me a luz como um jardim perdido
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Endymion

Por ti lutavam deuses desumanos.
E eu vi-te numa praia abandonado
À luz, e pelos ventos destroçado,
E os teus membros rolaram nos oceanos.
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Dança

O quarto verde, os peixes da penumbra
Peso duplo do corpo no vazio
Gesto dilacerando os nós do frio.
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Em Minha Frente Caminhas

Em minha frente caminhas
Pesado do teu desejo,
Pesado da tua graça,
E as tuas mãos tocam as coisas que hão-de vir
E a sua sombra cobre a tua face.

E em tua frente estou suplicante e exausta
Pois a tua vinda apaga
Os meus frágeis gestos de alegria.
E em tua frente estou suplicante e exausta
Pois a tua vinda quebra
A minha vida.

Às vezes todo o dia o teu sorriso
Está presente em cada coisa:
No fundo dos espelhos e nos vidros,
No vermelho das rosas e nos astros.
E através dessa presença caminho em delírio
Para o grande cintilar dos teus desastres
Onde me quero destruir.
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Nunca Mais

Nunca mais
Caminharás nos caminhos naturais.

Nunca mais te poderás sentir
Invulnerável, real e densa —
Para sempre está perdido
O que mais do que tudo procuraste
A plenitude de cada presença.

E será sempre o mesmo sonho, a mesma ausência.
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

O Hospital E a Praia

E eu caminhei no hospital
Onde o branco é desolado e sujo
Onde o branco é a cor que fica onde não há cor
E onde a luz é cinza

E eu caminhei nas praias e nos campos
O azul do mar e o roxo da distância
Enrolei-os em redor do meu pescoço
Caminhei na praia quase livre como um deus

Não perguntei por ti à pedra meu Senhor
Nem me lembrei de ti bebendo o vento
O vento era vento e a pedra pedra
E isso inteiramente me bastava

E nos espaços da manhã marinha
Quase livre como um deus eu caminhava

E todo o dia vivi como uma cega

Porém no hospital eu vi o rosto
Que não é pinheiral nem é rochedo
E vi a luz como cinza na parede
E vi a dor absurda e desmedida
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Sei Que Estou Só E Gelo Entre As Folhagens

Sei que estou só e gelo entre as folhagens
Nenhuma gruta me pode proteger
Como um laço deslaça-se o meu ser
E nos meus olhos morrem as paisagens.

Desligo da minha alma a melodia
Que inventei no ar. Tombo das imagens
Como um pássaro morto das folhagens
Tombando se desfaz na terra fria.
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Porque Foram Quebrados Os Teus Gestos?

Porque foram quebrados os teus gestos?
Quem te cercou de muros e de abismos?
Quem desviou na noite os teus caminhos?
Quem derramou no chão os teus segredos?
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Reconheci-Te

I

Reconheci-te logo destruída
Sem te poder olhar porque tu eras
O próprio coração da minha vida
E eu esperei-te em todas as esperas.
II

Conheci-te e vivi-te em cada deus
E do teu peso em mim é que eu fui triste
Sempre. Tu depois só me destruíste
Com os teus passos mais reais que os meus.
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Susana Thénon

Susana Thénon

Aqui, Agora

Sei que em algum lugar
a alegria se espalha
como o pólen
e que há tempos
os homens se erguem
como jardins definitivos.
Mas eu vivo aqui e agora
onde tudo é horrível
e tem dentes
e velhas unhas petrificadas.
Aqui e agora,
onde o ar sufoca
e o medo é impune.
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Susana Thénon

Susana Thénon

Caminhos

Cegueira do gesto
quando em vão se agarra
ao muro espesso dos feitos consumados.
Densa guitarra de sangue
acompanhando a canção
noturna e subterrânea.
Vagueia entre gritos
anônimos,
entre multidões de fome,
sob céus estrangeiros.
Entre humildes,
Ecos desesperançados.
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

O Anjo

O Anjo que em meu redor passa e me espia
E cruel me combate, nesse dia
Veio sentar-se ao lado do meu leito
E embalou-me, cantando, no seu peito.

Ele que indiferente olha e me escuta
Sofrer, ou que feroz comigo luta,
Ele que me entregara à solidão,
Poisava a sua mão na minha mão.

E foi como se tudo se extinguisse,
Como se o mundo inteiro se calasse,
E o meu ser liberto enfim florisse,
E um perfeito silêncio me embalasse.
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

No escuro mesmo destes pensamentos

No escuro mesmo destes pensamentos
Acordo às vezes e então eu sinto
Quão longe do real e do humano
Da superflcie lúcida da vida
Me acho sepulto confrangidamente
Com uma consciência e nitidez
Aguda e transcendente. Dolorido
Mais que alma até ao íntimo do ser.
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Paulo Colina

Paulo Colina