Destino e Superação

Poemas neste tema

Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Ifigénia

Ifigénia levada em sacrifício,
Entre os agudos gritos dos que a choram,
Serenamente caminha com a luz,
E o seu rosto voltado para o vento,
Como vitória à proa de um navio,
Intacto destrói todo o desastre.
1 835
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Encruzilhada

Onde é que as Parcas Fúnebres estão?
— Eu vi-as na terceira encruzilhada
Com um pássaro de morte em cada mão.
2 123
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Caminhava Fito

Caminhava fito,
Sobre o seu ombro esquerdo
Um pássaro nocturno e verde não cantava.
Obscuras correntes,
Desconhecidas direcções do vento,
Secreto curso de estrelas invisíveis.
1 877
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Vi. Navegavam Sem o Mapa Que Faziam

Navegavam sem o mapa que faziam

(Atrás deixando conluios e conversas
Intrigas surdas de bordéis e paços)

Os homens sábios tinham concluído
Que só podia haver o já sabido:
Para a frente era só o inavegável
Sob o clamor de um sol inabitável

Indecifrada escrita de outros astros
No silêncio das zonas nebulosas
Trémula a bússola tacteava espaços

Depois surgiram as costas luminosas
Silêncios e palmares frescor ardente
E o brilho do visível frente a frente
1979
3 028
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Círculo

Num círculo se move
Num círculo fechado

Sua morte o envolve
Como uma borboleta

Seus verdugos o cercam
Como quem cerca o toiro

Em sua volta não vê
Nenhuma porta aberta

Grandes panos de sangue
Sobre os olhos lhe estendem

A sua hora estava
— Como se diz — marcada

Pegador não houve
Nem pega de caras

E as portas estavam
Sobre o grito fechadas
2 335
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Voam débeis e enganadas

Voam débeis e enganadas
As folhas que o vento toma.
Bem sei: deitamos os dados
Mas Deus é que deita a soma.
1 258
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Nós ao igual destino

Nós ao igual destino
Iniguais pertencemos.
806
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Nem destino sem esperança

Nem destino sem esperança
Somos cegos, que vêem só quem tocam.
1 397
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Não inquiro do anónimo futuro

Não inquiro do anónimo futuro
        Que serei, pois que tenho,
Qualquer que seja, que vivê-lo. Tiro
        Os olhos do vindouro.
Odeio o que não vejo. Se pudera,
        Vê-lo, grato o não vira.
Se mo mostrarem num quadro, ou o virarem
        Não tenho o que não tenho.
O que o Destino manda, saiba-o ele.
        A ignorância me basta.
1 246
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

TO A MATERIALIST

Thou dost explain by Law the weaving
Of all the world, by Chance ruled ever.
I never thought Law was so living,
Nor did I deem Chance was so clever.
1 304
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Qual, Pirro, aquilo gosta que o amarga,

Qual, Pirro, aquilo gosta que o amarga,
        Qual aquilo que gosta.
Pares quem os fados diferentes
        Como rios diversos,
Com curso a leste ou oeste, a sul ou norte,
        Sempre ao mar em que acabam.
Gostemos pois aquilo em que pusémos
        O gosto inaprendido,
Temos as tenras tardes, não (...)
1 189
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Se hás-de ser o que choras

Se hás-de ser o que choras
Ter que ser, não o chores.
Se toda a mole imensa
Do mundo ser-te-á noite,
Aproveita este breve
Dia, e sem choro ou cura
Goza-o, contente por viveres
O pouco que te é dado.
1 289
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Não mais pensada que a dos mudos brutos

Não mais pensada que a dos mudos brutos
Se fada a humana vida. Quem destina
        Mais que os gados nos campos
        O fim do seu destino?
1 224
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Durmo, remoto; sonho, diferente,

Durmo, remoto; sonho, diferente,
Meu coração, ansioso e pressuroso,
Foi entalado num comboio entre
Os dois vagões do meu destino ocioso.
1 026
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

EPIGRAMS - IX

They say that all roads lead to Rome,
        And, what's more, it is true;
But it is clear most of them must
        Lead crookedly thereto.
1 034
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O DESTINO: As minhas mãos invisíveis

As minhas mãos invisíveis
Pesam sobre o mundo
E as coisas, insensíveis
Ao seu condestinar profundo,
Dormem no sonho de verdade
Chamado a sua liberdade.

Todos são malhas de uma rede
Que no seu desfazer
Julgam que vivem e têm sede
    De em si crer.
927
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Vou atirar uma bomba ao destino.

Vou atirar uma bomba ao destino.
2 196
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O malmequer que colheste

O malmequer que colheste
Deitaste-o fora a falar.
Nem quiseste ver a sorte
Que ele te podia dar.
1 828
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Fui passear no jardim

Fui passear no jardim
Sem saber se tinha flores
Assim passeia na vida
Quem tem ou não tem amores.
2 761
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Filho das trevas,

Filho das trevas,
Não fites a luz
Ai de ti, se te elevas,
Tu apenas te elevas
Aos braços de uma cruz.
Filho das trevas!

Filho da noite,
A manhã não se afoite
Nunca, nunca se afoite.
Toda a esperança é vã,
Filho da noite!
1 483
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Quero, terei —

Quero, terei —
Se não aqui,
Noutro lugar que inda não sei.
Nada perdi.
Tudo serei.
4 690
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Aceita o universo

Aceita o universo
Como to deram os deuses.
Se os deuses te quisessem dar outro
Ter-to-iam dado.

Se há outras matérias e outros mundos
Haja.
1 859
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Quem lavra julga que lavra

Quem lavra julga que lavra
Mas quem lavra é o que acontece...
Não me dás uma palavra
E a palavra não me esquece.
1 128
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Primeiro: D. SEBASTIÃO

Esperai! Caí no areal e na hora adversa
Que Deus concede aos seus
Para o intervalo em que esteja a alma imersa
Em sonhos que são Deus.

Que importa o areal e a morte e a desventura
Se com Deus me guardei?
É O que eu me sonhei que eterno dura,
É Esse que regressarei.
3 851