Criatividade e Inspiração
Poemas neste tema
Herberto Helder
53
mesmo sem gente nenhuma que te ouça,
poema intrínseco dito a português e dentes,
a sangue desmanchado,
com a estria lírica a fervilhar de riscas
rudes, frescas, roucas,
tu que como que iluminas pela boca fora
poema intrínseco dito a português e dentes,
a sangue desmanchado,
com a estria lírica a fervilhar de riscas
rudes, frescas, roucas,
tu que como que iluminas pela boca fora
1 037
Herberto Helder
30
madeira por onde o mundo se enche de seiva,
ouro e néon numa só baforada,
laranja numa risca única tão intensa que abala tudo à volta,
sustida pelo arco de ar que a acompanha
sobre o abismo e o caos das formas
ouro e néon numa só baforada,
laranja numa risca única tão intensa que abala tudo à volta,
sustida pelo arco de ar que a acompanha
sobre o abismo e o caos das formas
862
Herberto Helder
25
perder o dom, mas quem o perde?
com o peso do sangue nos dedos, os dedos no interruptor:
que a luz se faça,
que apareça imediata e toda,
abruptíssima,
a flor com o seu feixe de artérias,
a rosa irrefutável
com o peso do sangue nos dedos, os dedos no interruptor:
que a luz se faça,
que apareça imediata e toda,
abruptíssima,
a flor com o seu feixe de artérias,
a rosa irrefutável
1 089
Herberto Helder
28
mas como: um pequeno poema com um relâmpago íngreme e
instantâneo entre as linhas,
pau puro, ar
balançado, laranja,
a mais limpa chama coada pela árvore,
e a noite devora o mundo,
e eu reluzo,
as varas requeimadas contra as grandes fábricas da água,
até à mesa onde escrevo?
instantâneo entre as linhas,
pau puro, ar
balançado, laranja,
a mais limpa chama coada pela árvore,
e a noite devora o mundo,
e eu reluzo,
as varas requeimadas contra as grandes fábricas da água,
até à mesa onde escrevo?
863
Herberto Helder
9
que fosses escrita com todas as linhas de todas as coisas numa frase de ensino
supremacia, pela
quantidade de brancura fêmea,
pelo enredo luminoso,
com as linhas dos dias concêntricos
rectos e curvos numa só linha
respirada,
unida
supremacia, pela
quantidade de brancura fêmea,
pelo enredo luminoso,
com as linhas dos dias concêntricos
rectos e curvos numa só linha
respirada,
unida
1 048
Herberto Helder
¿Mas Que Sentido Faz Isto
mas que sentido faz isto:
pedras quadradas, árvores vermelhas sob condição de atmosfera azul petróleo,
poema —
que sal bruto em água abrupta,
que água adulta e muita,
que subtil pepita a transcorrer entre pulso e unha,
que tumulto no mundo avulso unido?
— e tudo com umas gotas poucas apenas nem de orvalho mas de tinta!
pedras quadradas, árvores vermelhas sob condição de atmosfera azul petróleo,
poema —
que sal bruto em água abrupta,
que água adulta e muita,
que subtil pepita a transcorrer entre pulso e unha,
que tumulto no mundo avulso unido?
— e tudo com umas gotas poucas apenas nem de orvalho mas de tinta!
940
Herberto Helder
Só Quanto Ladra Na Garganta, Sofreado, Curto, Cortado
só quanto ladra na garganta, sofreado, curto, cortado,
a um sopro do surto,
riscado nas gengivas,
intrínseco em suas músicas ou
intransitivo:
poema perfeito prometido que não nunca
a um sopro do surto,
riscado nas gengivas,
intrínseco em suas músicas ou
intransitivo:
poema perfeito prometido que não nunca
1 023
Herberto Helder
Escrevi Um Curto Poema Trémulo E Severo
escrevi um curto poema trémulo e severo,
sete ou nove linhas,
e a densa delicadeza dessas linhas
era cortada por uma ferida cega,
mas aquilo que o alimentava e unia
— fundo, devastador, incompreensível —
nem eu sabia o que era:
talvez a técnica atenção da morte
vigiasse arte tão breve, tão furtiva
sete ou nove linhas,
e a densa delicadeza dessas linhas
era cortada por uma ferida cega,
mas aquilo que o alimentava e unia
— fundo, devastador, incompreensível —
nem eu sabia o que era:
talvez a técnica atenção da morte
vigiasse arte tão breve, tão furtiva
1 079
Antônio Olinto
IV
Faço-me palavra
Ave Palavra,
faço de meu corpo uma árvore em que pouses
faço-me palavra eu também
divido-me nas sílabas necessárias
com tímbales e cânticos
vestir-me-ei por inteiro de palavras
que só existo quando através de ti.
Ave Palavra.
Ave Palavra,
faço de meu corpo uma árvore em que pouses
faço-me palavra eu também
divido-me nas sílabas necessárias
com tímbales e cânticos
vestir-me-ei por inteiro de palavras
que só existo quando através de ti.
Ave Palavra.
703
Renato Rezende
Concepção
(Como em "Las ruinas circulares"
o sonhador sonha e é sonhado),
O homem criou Deus, da criatura
Sendo criado. Pai e filho
Em um espelho mítico unificado.
Assim, num tempo estático e revertido
Nasceram, escritor- e escrito, da poesia.
(Como misteriosamente é Fátima
mãe e filha do o poeta:
Filho da sua filha.
o sonhador sonha e é sonhado),
O homem criou Deus, da criatura
Sendo criado. Pai e filho
Em um espelho mítico unificado.
Assim, num tempo estático e revertido
Nasceram, escritor- e escrito, da poesia.
(Como misteriosamente é Fátima
mãe e filha do o poeta:
Filho da sua filha.
1 052
Ricardo Aleixo
Homens
Leonilson
pintava
e
bordava.
Bispo do Rosário
colecionava
delírios
e bordava.
Lampião
tocava o terror
no sertão
e bordava.
João Cândido
punha a República
no curé
e bordava.
pintava
e
bordava.
Bispo do Rosário
colecionava
delírios
e bordava.
Lampião
tocava o terror
no sertão
e bordava.
João Cândido
punha a República
no curé
e bordava.
901
Carlos Soulié do Amaral
Verba V
O poema
surge, averba,
grafa e segue
Em ti, leitor,
a quem a chama
foi entregue
com suor e com amor.
surge, averba,
grafa e segue
Em ti, leitor,
a quem a chama
foi entregue
com suor e com amor.
712
António Carlos Cortez
Argila do sono
A mesma «argila do sono»
o deserto silencioso da noite
e tantas vezes um corpo
não encontrou posição
para a entrega à paz dos mortos
Uma névoa solar o rasgava
Um tampo de mesa era claro
Havia que escrever mas tardava
da névoa o sol e seu gelo
Só na argila do sono a escrita
era corte de carne mais óbvio
(por flashes construía a palavra)
o deserto silencioso da noite
e tantas vezes um corpo
não encontrou posição
para a entrega à paz dos mortos
Uma névoa solar o rasgava
Um tampo de mesa era claro
Havia que escrever mas tardava
da névoa o sol e seu gelo
Só na argila do sono a escrita
era corte de carne mais óbvio
(por flashes construía a palavra)
603
Manuel Gusmão
aprende a falar
aprende a falar – diz
a rosa: escreve de noite
e que o meu múltiplo sol
te guie inúmeros
os caminhos. põe-te numa sala
com a luz apagada
onde chegue acesa
a de uma outra, e
frágil,
ao papel que para ela
voltas. Então falas
das paixões, da pétala
que cai no interior
do coração
e navega na sombra do
sangue, de assombro em
assombro.
a rosa: escreve de noite
e que o meu múltiplo sol
te guie inúmeros
os caminhos. põe-te numa sala
com a luz apagada
onde chegue acesa
a de uma outra, e
frágil,
ao papel que para ela
voltas. Então falas
das paixões, da pétala
que cai no interior
do coração
e navega na sombra do
sangue, de assombro em
assombro.
660
Eucanaã Ferraz
A BELA E A FERA I
Em cruzar
a sala zumbindo
sua navalha o besouro-ébano espanta
o piano que se ergue atrapalhado,
plantado na ponta das
patas
sem poder,
do chão, tocar o ouro
absoluto da negra couraça que inseta
o ar ali com sua canção. E o pobre
Steinway supõe ser
a nave
um
sinal, um
seu semelhante, um filho talvez.
a sala zumbindo
sua navalha o besouro-ébano espanta
o piano que se ergue atrapalhado,
plantado na ponta das
patas
sem poder,
do chão, tocar o ouro
absoluto da negra couraça que inseta
o ar ali com sua canção. E o pobre
Steinway supõe ser
a nave
um
sinal, um
seu semelhante, um filho talvez.
589
Saúl Dias
Um Poema
Um poema
é a reza dum rosário
imaginário.
Um esquema
dorido.
Um teorema
que se contradiz.
Uma súplica.
Uma esmola.
Dores,
vividas umas, sonhadas outras...
(Inútil destrinçar.)
Um poema
é a pedra duma escola
com palavras a giz
para a gente apagar ou guardar...
é a reza dum rosário
imaginário.
Um esquema
dorido.
Um teorema
que se contradiz.
Uma súplica.
Uma esmola.
Dores,
vividas umas, sonhadas outras...
(Inútil destrinçar.)
Um poema
é a pedra duma escola
com palavras a giz
para a gente apagar ou guardar...
807
Saúl Dias
Sangue
Versos
escrevem-se
depois de ter sofrido.
O coração
dita-os apressadamente.
E a mão tremente
quer fixar no papel os sons dispersos...
É só com sangue que se escrevem versos.
escrevem-se
depois de ter sofrido.
O coração
dita-os apressadamente.
E a mão tremente
quer fixar no papel os sons dispersos...
É só com sangue que se escrevem versos.
727
Charles Bukowski
Praticando
Van Gogh cortou fora sua orelha
e a deu para uma
prostituta
que a jogou longe com
extremo
desgosto.
Van, putas não querem
orelhas
elas querem
dinheiro.
acho que é por isso que você foi
um pintor tão
genial: além da pintura você
não entendia
grande
coisa.
e a deu para uma
prostituta
que a jogou longe com
extremo
desgosto.
Van, putas não querem
orelhas
elas querem
dinheiro.
acho que é por isso que você foi
um pintor tão
genial: além da pintura você
não entendia
grande
coisa.
1 269
Charles Bukowski
Sobre a Conferência da Pen
afaste um escritor de sua máquina de escrever
e tudo que sobra dele
é
a doença
que o fez se sentar
diante da máquina
no
começo.
*** Associação mundial de escritores. (N.T.)
e tudo que sobra dele
é
a doença
que o fez se sentar
diante da máquina
no
começo.
*** Associação mundial de escritores. (N.T.)
1 170
Manuel Bandeira
Murilo Mendes
Mais te amo, ó poesia, quando
A realidade transcendes
Em pânico, desvairando
Na voz de um Murilo Mendes.
A realidade transcendes
Em pânico, desvairando
Na voz de um Murilo Mendes.
623
Manuel Bandeira
Isá
Quisera poder molhar
A minha pena no orvalho
Para num verso imitar
À aurora que ouço cantar
Nos olhos de Isá Bicalho.
A minha pena no orvalho
Para num verso imitar
À aurora que ouço cantar
Nos olhos de Isá Bicalho.
1 036
Manuel Bandeira
Márcia dos Anjos
Ando sem inspiração...
Mas vou ver se agora arranjo os
Versos que o meu coração
Quer para Márcia dos Anjos.
Mas vou ver se agora arranjo os
Versos que o meu coração
Quer para Márcia dos Anjos.
998
Manuel Bandeira
Sacha
Sacha muchacha,
Nariz de bolacha!
(Meu estro não acha
Outra rima em acha.
Por isso se agacha,
Se cobre de graxa,
Se arranha, se racha,
Se desatarracha
E pede em voz baixa
Desculpas a Sacha.)
Nariz de bolacha!
(Meu estro não acha
Outra rima em acha.
Por isso se agacha,
Se cobre de graxa,
Se arranha, se racha,
Se desatarracha
E pede em voz baixa
Desculpas a Sacha.)
1 270
Manuel Bandeira
Bonheur Lyrique
Coeur de phtisique
O mon ceeur lyrique
Ton bonheur ne peut pas être comme celui des autres
Il faut que tu te fabriques
Un bonheur unique
Um bonheur qui soit comme le piteux lustucru en chiffon d'une enfant pauvre
— Fait par elle-même.
O mon ceeur lyrique
Ton bonheur ne peut pas être comme celui des autres
Il faut que tu te fabriques
Un bonheur unique
Um bonheur qui soit comme le piteux lustucru en chiffon d'une enfant pauvre
— Fait par elle-même.
1 393
Português
English
Español