Corpo
Poemas neste tema
Conceição da Costa Neves
Distâncias
Dos meus aos teus braços
o caminho é bem curto.
Nossas bocas fazem o encontro
do desejo incontido e longo.
Depois, tudo é posse louca.
Músculos, carinho, seiva.
Paixão da carne que transvasa
nas vontades de todos os tempos.
Terminou. Músculos lassos. Vontades esgotadas.
É longo agora o caminho dos meus
para os teus braços.
o caminho é bem curto.
Nossas bocas fazem o encontro
do desejo incontido e longo.
Depois, tudo é posse louca.
Músculos, carinho, seiva.
Paixão da carne que transvasa
nas vontades de todos os tempos.
Terminou. Músculos lassos. Vontades esgotadas.
É longo agora o caminho dos meus
para os teus braços.
1 411
3
David Mourão-Ferreira
Os teus olhos
Os teus olhos
exigindo
ser bebidos
Os teus ombros
reclamando
nenhum manto
Os teus seios
pressupondo
tantos pomos
O teu ventre
recolhendo
o relâmpago
exigindo
ser bebidos
Os teus ombros
reclamando
nenhum manto
Os teus seios
pressupondo
tantos pomos
O teu ventre
recolhendo
o relâmpago
4 466
3
Ademir Antônio Bacca
Das paixões
a nudez do teu corpo
é idéia que vaga solta
no campo da fantasia,
abre portas,
resuscita sonhos
e incendeia
as minhas emoções.
é idéia que vaga solta
no campo da fantasia,
abre portas,
resuscita sonhos
e incendeia
as minhas emoções.
1 419
3
Helga Moreira
Dobra palavras
Dobra palavras, silêncios.
Para o corpo pede uma qualquer
hora de encanto.
Falo da beleza dos seus olhos
e o rosto estremece,
cúmplice.
Para o corpo pede uma qualquer
hora de encanto.
Falo da beleza dos seus olhos
e o rosto estremece,
cúmplice.
668
2
José Saramago
Declaração
Não, não há morte.
Nem esta pedra é morta,
Nem morto está o fruto que tombou:
Dá-lhes vida o abraço dos meus dedos,
Respiram na cadência do meu sangue,
Do bafo que os tocou.
Também um dia, quando esta mão secar,
Na memória doutra mão perdurará,
Como a boca guardará caladamente
O sabor das bocas que beijou.
Nem esta pedra é morta,
Nem morto está o fruto que tombou:
Dá-lhes vida o abraço dos meus dedos,
Respiram na cadência do meu sangue,
Do bafo que os tocou.
Também um dia, quando esta mão secar,
Na memória doutra mão perdurará,
Como a boca guardará caladamente
O sabor das bocas que beijou.
2 164
2
Sophia de Mello Breyner Andresen
Beijei a Terra Com Os Meus Olhos, a Minha Boca E Os Meus Dedos
Beijei a terra com os meus olhos, a minha boca e os meus dedos
Enrolei-a a mim em círculos inumeráveis
E em contemplações intermináveis
Dissolvi-me nos seus segredos
Enrolei-a a mim em círculos inumeráveis
E em contemplações intermináveis
Dissolvi-me nos seus segredos
3 850
2
Sophia de Mello Breyner Andresen
Vi. (Antinoos de Delphos)
Tua face taurina tua testa baixa
Teus cabelos em anel que sacudias como crina
Teu torso inchado de ar como uma vela
Teu queixo redondo tua boca pesada
Tua pesada beleza
Teu meio-dia nocturno
Tua herança dos deuses que no Nilo afogaste
Tua unidade inteira com teu corpo
Num silêncio de sol obstinado
Agora são de pedra no museu de Delphos
Onde montanhas te rodeiam como incenso
Entre o austero Auriga e a arquitrave quebrada
Delphos, Maio de 1970
Teus cabelos em anel que sacudias como crina
Teu torso inchado de ar como uma vela
Teu queixo redondo tua boca pesada
Tua pesada beleza
Teu meio-dia nocturno
Tua herança dos deuses que no Nilo afogaste
Tua unidade inteira com teu corpo
Num silêncio de sol obstinado
Agora são de pedra no museu de Delphos
Onde montanhas te rodeiam como incenso
Entre o austero Auriga e a arquitrave quebrada
Delphos, Maio de 1970
2 258
2
António Botto
Explica-me tu se podes
Explica-me tu se podes
Num movimento de calma,
Porque razão
Se te beijo num desvairo de prazer
Às vezes sou todo corpo
E às vezes sou todo alma?
Num movimento de calma,
Porque razão
Se te beijo num desvairo de prazer
Às vezes sou todo corpo
E às vezes sou todo alma?
3 005
2
Manuela Amaral
Teu corpo-meu espaço
Teu corpo é raiz
rasgando a terra nua
do meu sexo
Teu corpo é vertical
onde os meus dedos tocam as distâncias
Teu corpo é diálogo sem palavras
O grito em ressonância
no meu espaço
rasgando a terra nua
do meu sexo
Teu corpo é vertical
onde os meus dedos tocam as distâncias
Teu corpo é diálogo sem palavras
O grito em ressonância
no meu espaço
1 713
2
Arthur Rimbaud
A ESTRELA CHOROU ROSA
A estrela chorou rosa ao céu de tua orelha.
O infinito rolou branco, da nuca aos rins.
O mar perolou ruivo em tua teta vermelha.
E o Homem sangrou negro o altar dos teus quadris.
O infinito rolou branco, da nuca aos rins.
O mar perolou ruivo em tua teta vermelha.
E o Homem sangrou negro o altar dos teus quadris.
5 510
2
Stéphane Mallarmé
As vendedoras de roupas
O olho vivo com que vês
Até o seu conteúdo
Me aparta de minhas vestes
E como um deus vou desnudo
Até o seu conteúdo
Me aparta de minhas vestes
E como um deus vou desnudo
3 168
2
Ferreira Gullar
Isso e Aquilo
Você é
seu corpo
sua voz seu osso
você é seu cheiro
e o cheiro do outro
o prazer do beijo
você é seu gozo
o que vai morrer
quando o corpo morra
mas também aquela
alegria (verso
melodia)
que intangível, adeja
acima
do que a morte beija.
seu corpo
sua voz seu osso
você é seu cheiro
e o cheiro do outro
o prazer do beijo
você é seu gozo
o que vai morrer
quando o corpo morra
mas também aquela
alegria (verso
melodia)
que intangível, adeja
acima
do que a morte beija.
2 974
2
Adélia Prado
Dia
As galinhas com susto abrem o bico
e param daquele jeito imóvel
— ia dizer imoral —,
as barbelas e as cristas envermelhadas,
só as artérias palpitando no pescoço.
Uma mulher espantada com sexo:
mas gostando muito.
e param daquele jeito imóvel
— ia dizer imoral —,
as barbelas e as cristas envermelhadas,
só as artérias palpitando no pescoço.
Uma mulher espantada com sexo:
mas gostando muito.
3 609
2
Maria Teresa Horta
Gozo X
São de alumínio
os flancos
e de feltro a língua
de felpa ou seda
a abertura incerta
que cede breve a humidade
esguia
presa no quente do interior
da pedra
Ou musgo doce
de haste sempre dura
de onde pendem seus dois mansos frutos
que a boca aflora e os dentes prendem
a tatear-lhes
o hálito e o suco
os flancos
e de feltro a língua
de felpa ou seda
a abertura incerta
que cede breve a humidade
esguia
presa no quente do interior
da pedra
Ou musgo doce
de haste sempre dura
de onde pendem seus dois mansos frutos
que a boca aflora e os dentes prendem
a tatear-lhes
o hálito e o suco
3 610
2
Paulo Montalverne
Luxúria
Quero descobrir
Teu corpo, teu suor
Percorrendo, correndo
Sem pressa os instintos.
Deixar mãos
Colarem pernas
Marcarem seios
Rasgarem bocas.
Quero tua descoberta
Feita em meu corpo
Na luxúria nossa de cada dia.
Teu corpo, teu suor
Percorrendo, correndo
Sem pressa os instintos.
Deixar mãos
Colarem pernas
Marcarem seios
Rasgarem bocas.
Quero tua descoberta
Feita em meu corpo
Na luxúria nossa de cada dia.
1 258
2
David Mourão-Ferreira
Inscrição estival
Ó grande plenitude!
E a tudo
a tudo alheio,
saboreio.
Absorto
sorvo
este cacho de uvas
tão maduras...
Este cacho de curvas que é o teu corpo.
E a tudo
a tudo alheio,
saboreio.
Absorto
sorvo
este cacho de uvas
tão maduras...
Este cacho de curvas que é o teu corpo.
3 654
2
Maria Teresa Horta
Gozo VII
São as tuas nádegas
na curva dos meus dedos
as tuas pernas
atentas e curvadas
O cravo – o crivo
sabor da madrugada
no manso odor do mar das tuas
espáduas
E se soergo com as mãos
as tuas coxas
e acerto o corpo no calor
das vagas
logo me vergas
e és tu então
que tens os dedos
agora
em minha nádegas
na curva dos meus dedos
as tuas pernas
atentas e curvadas
O cravo – o crivo
sabor da madrugada
no manso odor do mar das tuas
espáduas
E se soergo com as mãos
as tuas coxas
e acerto o corpo no calor
das vagas
logo me vergas
e és tu então
que tens os dedos
agora
em minha nádegas
3 810
2
Ivan Miziara
A concha
Da concha
rubra
retiro
fluida
alva
tuas líquidas
sementes
que trago
entredentes
Na concha
rubra
mergulho
com a ponta
do arpão
que perturba
e escuta
teu íntimo
rumor
Na concha
rubra
busco
a pérola
úmida
ardente
que me faz
ser
quem sou
rubra
retiro
fluida
alva
tuas líquidas
sementes
que trago
entredentes
Na concha
rubra
mergulho
com a ponta
do arpão
que perturba
e escuta
teu íntimo
rumor
Na concha
rubra
busco
a pérola
úmida
ardente
que me faz
ser
quem sou
1 624
2
David Mourão-Ferreira
O silêncio
Dos corpos esgotados que silêncio
tão apaziguador se levantava!
(Tinha uma rosa triste nos cabelos,
uma sombra na túnica de luz...)
Para o fundo das almas caminhava,
devagar, o sonâmbulo silêncio.
(Que apertados anéis nos braços nus!)
Mas o silêncio vinha desprendê-los.
tão apaziguador se levantava!
(Tinha uma rosa triste nos cabelos,
uma sombra na túnica de luz...)
Para o fundo das almas caminhava,
devagar, o sonâmbulo silêncio.
(Que apertados anéis nos braços nus!)
Mas o silêncio vinha desprendê-los.
4 323
2
Maria Teresa Horta
Gozo IX
Ondula mansamente a tua língua
de saliva tirando
toda a roupa...
já breves vêm os dias
dentro de noites já
poucas.
Que resta do nosso
gozo
se parares de me beijar?
Oh meu amor...
devagar...
até que eu fique louca!
Depois... não vejas o mar
afogado em minha
boca!
de saliva tirando
toda a roupa...
já breves vêm os dias
dentro de noites já
poucas.
Que resta do nosso
gozo
se parares de me beijar?
Oh meu amor...
devagar...
até que eu fique louca!
Depois... não vejas o mar
afogado em minha
boca!
3 687
2
David Mourão-Ferreira
Segredo
Nem o tempo tem tempo
Para sondar as trevas
Deste rio correndo
Entre a pele e a pele
Nem o Tempo tem tempo
Nem as trevas dão tréguas
Não descubro o segredo
Que o teu corpo segrega.
Para sondar as trevas
Deste rio correndo
Entre a pele e a pele
Nem o Tempo tem tempo
Nem as trevas dão tréguas
Não descubro o segredo
Que o teu corpo segrega.
4 446
2
João de Jesus Paes Loureiro
Poema
As palavras arfando entre virilhas
entre lábios
cópulas de consoantes e vogais.
Saboreadas palavras
defloradas palavras
túmidas palavras
ávidas
oh! palavras
arfando umidamente entre pentelhos.
Suor. Calor. Odor. Linguagem. Gozo.
entre lábios
cópulas de consoantes e vogais.
Saboreadas palavras
defloradas palavras
túmidas palavras
ávidas
oh! palavras
arfando umidamente entre pentelhos.
Suor. Calor. Odor. Linguagem. Gozo.
1 726
2
Joaquim Pessoa
Resistir
Dobrar na boca o frio da espora
Calcar o passo sobre lume
Abrir o pão a golpes de machado
Soltar pelo flanco os cavalos do espanto
Fazer do corpo um barco e navegar a pedra
Regressar devagar ao corpo morno
Beber um outro vinho pisado por um astro
Possuir o fogo ruivo sob a própria casa
numa chama de flechas ao redor.
Calcar o passo sobre lume
Abrir o pão a golpes de machado
Soltar pelo flanco os cavalos do espanto
Fazer do corpo um barco e navegar a pedra
Regressar devagar ao corpo morno
Beber um outro vinho pisado por um astro
Possuir o fogo ruivo sob a própria casa
numa chama de flechas ao redor.
2 369
2
Herberto Helder
I A
A uma devagarosa mulher com a boca
do corpo cheia de sangue e a boca
do rosto cheia
de respiração, por cinco dedos meus
esquerdos, na curta duração de tudo,
a curta canção que pulsa
do fundo de si mesma:
a uma devagarosa mulher no mundo.
do corpo cheia de sangue e a boca
do rosto cheia
de respiração, por cinco dedos meus
esquerdos, na curta duração de tudo,
a curta canção que pulsa
do fundo de si mesma:
a uma devagarosa mulher no mundo.
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