Consciência e autoconhecimento

Poemas neste tema

Rui Knopfli

Rui Knopfli

Sem nada de meu

Dei-me inteiro. Os outros
fazem o mundo (ou crêem
que fazem) . Eu sento-me
na cancela, sem nada
de meu e tenho um sorriso
triste e uma gota
de ternura branda no olhar.
Dei-me inteiro. Sobram-me
coração, vísceras e um corpo.
Com isso vou vivendo.


1 548 2
Paulo Leminski

Paulo Leminski

PROFISSÃO DE FEBRE

quando chove,
eu chovo,
faz sol,
eu faço,
de noite,
anoiteço,
tem deus,
eu rezo,
não tem,
esqueço,
chove de novo,
de novo, chovo,
assobio no vento,
daqui me vejo,
lá vou eu,
gesto no movimento

4 192 2
Hilda Hilst

Hilda Hilst

Poesia I

Corroendo
As grandes escadas
Da minha alma.
Água. Como te chamas?
Tempo.

Vivida antes
Revestida de laca
Minha alma tosca
Se desfazendo.
Como te chamas?
Tempo.

Águas corroendo
Caras, coração
Todas as cordas do sentimento.
Como te chamas?
Tempo.

Irreconhecível
Me procuro lenta
Nos teus escuros.
Como te chamas, breu?
Tempo.


1 709 2
Octavio Paz

Octavio Paz

Irmandade

Sou homem: duro pouco
e é enorme a noite.
Porém olho para cima:
as estrelas escrevem.
Sem entender compreendo:
também sou escritura
e neste mesmo instante
alguém me soletra.

2 406 2
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Sou o Espírito da treva,

Sou o Espírito da treva,
A Noite me traz e leva;
Moro à beira irreal da Vida,
Sua onda indefinida
Refresca-me a alma de espuma...
Pra além do mar há a bruma...
E pra aquém? há Cousa ou Fim?
Nunca olhei para trás de mim...
4 788 2
Nauro Machado

Nauro Machado

Dança Herética

Sou ímpar:
sou par em mim,
quando em minha alma carrego deus
transportado num cofo de vísceras
pelas ladeiras da misericórdia.

Quem me restituirá ao impar que sou,
senão a morte que descascará minha pele
abandonando os braços inutilmente
à espera do sol?

Sou ímpar em mim e par em Deus.

1 987 2
Ferreira Gullar

Ferreira Gullar

Isso e Aquilo

Você é
seu corpo
sua voz seu osso

você é seu cheiro
e o cheiro do outro

o prazer do beijo
você é seu gozo

o que vai morrer
quando o corpo morra

mas também aquela
alegria (verso
melodia)
que intangível, adeja
acima
do que a morte beija.

2 976 2
Tomé Varela da Silva

Tomé Varela da Silva

Ter uma Ter várias

Ter uma só cara
é estar-se nu
em casa
ou no jardim.

Ter várias caras
é mais fácil
que estar-se nu
em qualquer lado.

Ter várias caras
é doença social
de bom tom.

Ter uma só cara
é saúde
ou doença mental.

1 250 2
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Estás só. Ninguém o sabe. Cala e finge.

Estás só. Ninguém o sabe. Cala e finge.
Mas finge sem fingimento.
Nada speres que em ti já não exista,
Cada um consigo é triste.
Tens sol se há sol, ramos se ramos buscas,
Sorte se a sorte é dada.

3 778 2
Guimarães Rocha

Guimarães Rocha

Desconhecido

Sou o pensamento
O vento soprando forte
O barco da sorte
O sorriso da alegria
A força da magia
A dor do fraco
O segredo do forte
O medo da vida

1 965 2
Helena Parente Cunha

Helena Parente Cunha

Vinda

venho não sei
venho de que sombra
caminhando como
enveredando névoa

venho talvez
de perdido onde
buscando porque
tateando através

eu venho noite
de remoto aquém
rastejando treva
que nasci de mim

1 295 2
Chacal

Chacal

Prezado Cidadão

Colabore com a Lei
Colabore com a Light
mantenha luz própria.

5 313 2
David Mourão-Ferreira

David Mourão-Ferreira

Escolha

Entre vento e navalha escolho o vento

entre verde e vermelho aquele azul

que até na morte servirá de espelho

ao vento que por dentro me deslumbra

Entre ventre e cipreste escolho o Sol

Entre as mãos que se dão a que se oculta

Entre o que nunca soube o que já sobra

Entre a relva um milímetro de bruma.

4 276 2
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Vão na onda militar

Vão na onda militar
Os soldados a marchar
Com a banda a lhes tocar
O como têm que andar...

Vou na onda que é a vida
Com uma banda escondida
A tocar como hei-de estar
Entre essa marcha perdida.

Vou e durmo o meu caminho,
Como, no som do moinho,
Dorme o moleiro sozinho.
Durmo, mas sinto-me andar.


19/09/1933
4 714 2
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Sim, tudo é certo logo que o não seja,

Sim, tudo é certo logo que o não seja,
Amar, teimar, verificar, descrer –.
Quem me dera um sossego à beira-ser
Como o que à beira-mar o olhar deseja.


20/01/1929
4 847 2
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Houve um ritmo no meu sono,

Houve um ritmo no meu sono.
Quando acordei o perdi.
Porque saí do abandono
De mim mesmo, em que vivi?

Não sei que era o que não era.
Sei que suave me embalou,
Como se o embalar quisera
Tornar-me outra vez quem sou.

Houve uma música finda
Quando acordei de a sonhar.
Mas não morreu: dura ainda
No que me faz não pensar.


11/06/1934
4 607 2
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Sei que nunca terei o que procuro

Sei que nunca terei o que procuro
E que nem sei buscar o que desejo,
Mas busco, insciente, no silêncio escuro
E pasmo do que sei que não almejo.


10/04/1927
5 808 2
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Que coisa distante

Que coisa distante
Está perto de mim?
Que brisa fragrante
Me vem neste instante
De ignoto jardim?

Se alguém mo dissesse,
Não quisera crer.
Mas sinto-o, e é esse
O ar bom que me tece
Visões sem as ver.

Não sei se é dormindo
Ou alheado que estou:
Sei que estou sentindo
A boca sorrindo
Aos sonhos que sou.


02/10/1933
4 612 2
Stela do Patrocínio

Stela do Patrocínio

Eu sobrevivi do nada

Eu sobrevivi do nada, do nada
Eu não existia
Não tinha existência
Não tinha uma matéria  

Comecei a existir com quinhentos milhões
e quinhentos mil anos
Logo de uma vez, já velha
Eu não nasci criança, nasci já velha
Depois é que eu virei criança
...
1 179 1
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Bach Segóvia Guitarra

A música do ser
Povoa este deserto
Com sua guitarra
Ou com harpas de areia

Palavras silabadas
Vêm uma a uma
Na voz da guitarra

A música do ser
Interior ao silêncio
Cria seu próprio tempo
Que me dá morada

Palavras silabadas
Unidas uma a uma
Às paredes da casa

Por companheira tenho
A voz da guitarra

E no silêncio ouvinte
O canto me reúne
De muito longe venho
Pelo canto chamada

E agora de mim
Não me separa nada
Quando oiço cantar

A música do ser
Nostalgia ordenada
Num silêncio de areia
Que não foi pisada
1 851 1
Pablo Neruda

Pablo Neruda

XXIV

O 4 é 4 para todos?
São iguais todos os setes?

Quando o preso pensa na luz
é a mesma que te ilumina?

Já pensaste de que cor
é o abril dos enfermos?

Que monarquia ocidental
se embandeira com papoulas?
1 042 1
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Espera

Deito-me tarde
Espero por uma espécie de silêncio
Que nunca chega cedo
Espero a atenção a concentração da hora tardia
Ardente e nua
É então que os espelhos acendem o seu segundo brilho
É então que se vê o desenho do vazio
É então que se vê subitamente
A nossa própria mão poisada sobre a mesa

É então que se vê o passar do silêncio

Navegação antiquíssima e solene
1 410 1
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Depravação de Gosto

O maestro Aschermann, violinista,
dirige o requintado quinteto de cordas.
Guadagnin, segundo violino. Gioglia na viola.
O violoncelo é de Targino.
Ao piano, Nazinha Prates.
Haydn flutua no ar da Rua da Bahia.
Por que maligna inclinação,
vou ver o melodrama dos Garridos
no palco-poeira do Cinema Floresta?
802 1
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Fera

Às vezes o tigre em mim se demonstra cruel
como é próprio da espécie.
Outras, cochila
ou se enrosca em afago emoliente
mas sempre tigre; disfarçado.
1 777 1