Cidade e Cotidiano
Poemas neste tema
Manuel Bandeira
A Realidade e a Imagem
O arranha-céu sobe no ar puro lavado pela chuva
E desce refletido na poça de lama do pátio.
Entre a realidade e a imagem, no chão seco que as separa,
Quatro pombas passeiam.
E desce refletido na poça de lama do pátio.
Entre a realidade e a imagem, no chão seco que as separa,
Quatro pombas passeiam.
2 185
Marina Colasanti
Paisagem entre vidro e espelho
Aqui sentada
enquanto tomo vinho
vejo pela janela
a antiga arcada e
pelo espelho ao lado
um pedaço de escada
um espaldar
e minha própria imagem
refletida.
Vai meu rosto viajante
sobre vidros
pousar-se delicado em outro olhar
miragem
que ao virar da cabeça
desvanece
fragmento
na paisagem
deste bar.
enquanto tomo vinho
vejo pela janela
a antiga arcada e
pelo espelho ao lado
um pedaço de escada
um espaldar
e minha própria imagem
refletida.
Vai meu rosto viajante
sobre vidros
pousar-se delicado em outro olhar
miragem
que ao virar da cabeça
desvanece
fragmento
na paisagem
deste bar.
998
Marina Colasanti
AINDA ASSIM
Cada vez que você
vai ao Centro
compra uma lanterna
pilhas
e um canivete
para mim.
Os canivetes perco
nos bolsos
nas bolsas
ou vendo esquecidos com o carro.
As lanternas
quando preciso delas
estão mortas
gotejando azinhavre
nas gavetas.
Assim mesmo me alegro
toda vez que você
pega o chapéu e orgulhoso
anuncia
que vai ao Centro.
vai ao Centro
compra uma lanterna
pilhas
e um canivete
para mim.
Os canivetes perco
nos bolsos
nas bolsas
ou vendo esquecidos com o carro.
As lanternas
quando preciso delas
estão mortas
gotejando azinhavre
nas gavetas.
Assim mesmo me alegro
toda vez que você
pega o chapéu e orgulhoso
anuncia
que vai ao Centro.
900
Marina Colasanti
A todos igualmente
Aquele homem tinha um zoológico
no armário.
Um dia
no almoço
trouxe elefantes no peito
até a cintura,
no outro
girafas rodeavam-lhe o pescoço.
Houve joaninhas
gatos e macacos.
A todos ignorava
embora os escolhesse
com cuidado.
E sem olhar-lhes pelo
ou pena
sem deter-se em seus nomes
a todos igualmente chamava
gravatas.
no armário.
Um dia
no almoço
trouxe elefantes no peito
até a cintura,
no outro
girafas rodeavam-lhe o pescoço.
Houve joaninhas
gatos e macacos.
A todos ignorava
embora os escolhesse
com cuidado.
E sem olhar-lhes pelo
ou pena
sem deter-se em seus nomes
a todos igualmente chamava
gravatas.
1 058
Marina Colasanti
Dai de beber a quem
A água que tomo
não aflora do chão
não escorre em regato,
eu a resgato de um vidro a
um outro vidro
prisioneira que estava
trancada como um gênio
na garrafa.
Esqueço as fontes
oblitero os poços.
Em busca d'água vou
sem mãos em concha
ou cântaro
água com aditivos
e com griffe
assinalada em código de barras
que colho da gôndola
e pago
na saída.
não aflora do chão
não escorre em regato,
eu a resgato de um vidro a
um outro vidro
prisioneira que estava
trancada como um gênio
na garrafa.
Esqueço as fontes
oblitero os poços.
Em busca d'água vou
sem mãos em concha
ou cântaro
água com aditivos
e com griffe
assinalada em código de barras
que colho da gôndola
e pago
na saída.
1 086
Marina Colasanti
Sera d'estate a Roma
Accanto a Palazzo Altemps
in trattoria
il vecchio cameriere spina il pesce
con la stessa protesa devozione
con cui San Girolamo curava
i suoi scritti,
e con gli stessi occhiali tondi
che appaiono in tanti quadri.
La luna
il montone
e il leone
antichi come le lische del pesce
osservano sopra al frontone.
in trattoria
il vecchio cameriere spina il pesce
con la stessa protesa devozione
con cui San Girolamo curava
i suoi scritti,
e con gli stessi occhiali tondi
che appaiono in tanti quadri.
La luna
il montone
e il leone
antichi come le lische del pesce
osservano sopra al frontone.
1 220
Marina Colasanti
Perspectiva à noite
Na altura do quinto andar
uma traineira
vara o negro céu negro mar
saindo ao longe
por trás da quina de concreto.
Luz do mastro somente
traço invisível
estrela que cai na horizontal
com o ventre carregado de escamas.
uma traineira
vara o negro céu negro mar
saindo ao longe
por trás da quina de concreto.
Luz do mastro somente
traço invisível
estrela que cai na horizontal
com o ventre carregado de escamas.
1 066
Marina Colasanti
CERIMÔNIA ACADÊMICA
Tédio e lustres de cristal
falsos dourados.
Palavras em caravana cruzam
o zumbir do ar refrigerado
lentamente
as vidraças refletem
as tantas roupas pretas penduradas
no cabide dos corpos.
Da rua nada nos chega
e nós
pomposos
não estamos nela.
falsos dourados.
Palavras em caravana cruzam
o zumbir do ar refrigerado
lentamente
as vidraças refletem
as tantas roupas pretas penduradas
no cabide dos corpos.
Da rua nada nos chega
e nós
pomposos
não estamos nela.
985
Marina Colasanti
SOBRE A ESTRADA
Pasta de pomba
esmagada no asfalto
penas prensadas em sangue.
Uma única asa
ainda aberta
ergue-se ao vento dos carros
último
desassombrado voo.
esmagada no asfalto
penas prensadas em sangue.
Uma única asa
ainda aberta
ergue-se ao vento dos carros
último
desassombrado voo.
1 083
Marina Colasanti
AMISH COUNTRY
Neste país em que as roupas
se lavam
nas máquinas
se secam
nas máquinas
em que sujeira e manchas
não se sujeitam com os nós
dos dedos mas
se escondem
se esquecem
se negam
nas máquinas
afaga o coração
- senão as mãos -
ver lençóis
camisas
brancos panos
estalando no vento dos varais
o cotidiano.
Illinois 96
se lavam
nas máquinas
se secam
nas máquinas
em que sujeira e manchas
não se sujeitam com os nós
dos dedos mas
se escondem
se esquecem
se negam
nas máquinas
afaga o coração
- senão as mãos -
ver lençóis
camisas
brancos panos
estalando no vento dos varais
o cotidiano.
Illinois 96
1 110
Marina Colasanti
VERDE, PORÉM
Por que será que
entre tantos arbustos
galhos
e árvores das praças
esse pássaro urbano
fez seu pouso
na viva aresta
de vidro verde
caco cravado
que ao alto do muro
defende propriedades
e fere consciências?
entre tantos arbustos
galhos
e árvores das praças
esse pássaro urbano
fez seu pouso
na viva aresta
de vidro verde
caco cravado
que ao alto do muro
defende propriedades
e fere consciências?
848
Allen Ginsberg
Guru
A lua é que desaparece
E as estrelas que se escondem, não Eu
É a Cidade que esvai, Eu fico
calçados esquecidos,
de calções invisíveis
O som um sino que chama
Primrose Hill. Maio, 1965.
E as estrelas que se escondem, não Eu
É a Cidade que esvai, Eu fico
calçados esquecidos,
de calções invisíveis
O som um sino que chama
Primrose Hill. Maio, 1965.
560
Affonso Romano de Sant'Anna
A Porta do Messias
Entardecia dentro dos muros de Jerusalém:
crianças pedalavam atrás do azul
homens sentados negociavam os últimos raios de sol
mulheres vestiam antigas profecias
quando vi o fantasma do Messias
uma vez mais se aconchegando para dormir
na soleira da murada Porta de Herodes
para ele fechada, todavia.
crianças pedalavam atrás do azul
homens sentados negociavam os últimos raios de sol
mulheres vestiam antigas profecias
quando vi o fantasma do Messias
uma vez mais se aconchegando para dormir
na soleira da murada Porta de Herodes
para ele fechada, todavia.
974
Affonso Romano de Sant'Anna
A Morte Vizinha
Estou jogando água nas plantas
com o olhar no azul do mar
e minha vizinha está morta.
Sozinho em casa, improviso um almoço
e a morta vizinha já não come.
Comprei jornais
que a morta vizinha já não lê.
A morta vizinha
a morte vizinha
a minha morte
que se avizinha.
com o olhar no azul do mar
e minha vizinha está morta.
Sozinho em casa, improviso um almoço
e a morta vizinha já não come.
Comprei jornais
que a morta vizinha já não lê.
A morta vizinha
a morte vizinha
a minha morte
que se avizinha.
1 094
Pablo Neruda
LI
Por que detesto as cidades
que cheiram a mulher e urina?
Não é a cidade o grande oceano
dos colchões que palpitam?
A oceania dos ares
não tem ilhas e palmeiras?
Por que voltei à indiferença
do oceano desmedido?
que cheiram a mulher e urina?
Não é a cidade o grande oceano
dos colchões que palpitam?
A oceania dos ares
não tem ilhas e palmeiras?
Por que voltei à indiferença
do oceano desmedido?
1 100
Ana Martins Marques
Horóscopo
Há duas ou três promessas
espreitando o dia.
Indício de visitas
e incêndios.
Saúde, mas nenhuma alegria.
Distrações e alegrias no trabalho.
No amor talvez não seja bem isso.
Indiferença não é uma saída nessa hora.
Família e dívidas preocupam.
Os astros continuam rodando à toa.
Impossível domar
a fera que te habita
o signo inexato.
espreitando o dia.
Indício de visitas
e incêndios.
Saúde, mas nenhuma alegria.
Distrações e alegrias no trabalho.
No amor talvez não seja bem isso.
Indiferença não é uma saída nessa hora.
Família e dívidas preocupam.
Os astros continuam rodando à toa.
Impossível domar
a fera que te habita
o signo inexato.
695
José Saramago
West Side Story
Os jardins de Verona redivivos
No cimento cinzento desta era:
Um recado passado a outra mão,
Uma nova experiência, outra espera.
No cimento cinzento desta era:
Um recado passado a outra mão,
Uma nova experiência, outra espera.
886
Martha Medeiros
abro a lata, como
abro a lata, como
como um doce, engordo
engordo a conta, gasto
gasto o tempo, sobra
sobra o rango, guardo
guardo a chave, perco
perco o sono, saio
saio à noite, chove
chove à beça, encolhe
encolhe a grana, peço
peço o nome, anoto
anoto a placa, esqueço
esqueço a fome, fumo
fumo o troço, apanho
apanho a gata, sumo
como um doce, engordo
engordo a conta, gasto
gasto o tempo, sobra
sobra o rango, guardo
guardo a chave, perco
perco o sono, saio
saio à noite, chove
chove à beça, encolhe
encolhe a grana, peço
peço o nome, anoto
anoto a placa, esqueço
esqueço a fome, fumo
fumo o troço, apanho
apanho a gata, sumo
1 067
Martha Medeiros
o homem do campo
o homem do campo
sem o apelo dos neons
dos elevadores e dos aviões
consegue olhar para dentro
o homem urbano
sem ovelhas, colheitas de arroz
sem figueiras nem estrelas
prefere espiar os outros apartamentos
sem o apelo dos neons
dos elevadores e dos aviões
consegue olhar para dentro
o homem urbano
sem ovelhas, colheitas de arroz
sem figueiras nem estrelas
prefere espiar os outros apartamentos
988
Martha Medeiros
cinderela insone
cinderela insone
idade postiça
decote remunerado
recheio de silicone
coxas de paetê
oferta de camelô
bustiê bordô
carinha de fome
idade postiça
decote remunerado
recheio de silicone
coxas de paetê
oferta de camelô
bustiê bordô
carinha de fome
1 045
Martha Medeiros
parece que foi ontem
parece que foi ontem
que você me convidou para sumir
morar numa cabana e viver de amor
sem freezer, forno de micro-ondas,
videocassete, teatro
restaurantes, butiques, viagens, aeroportos,
microfones
toca-fitas, disco-laser, piscinas, boates,
camarões
hidromassagem, aeróbica, vernissages,
freeshop, rock’n’roll
parece que não fui
que você me convidou para sumir
morar numa cabana e viver de amor
sem freezer, forno de micro-ondas,
videocassete, teatro
restaurantes, butiques, viagens, aeroportos,
microfones
toca-fitas, disco-laser, piscinas, boates,
camarões
hidromassagem, aeróbica, vernissages,
freeshop, rock’n’roll
parece que não fui
584
Martha Medeiros
depois de tudo o que falamos na sala
depois de tudo o que falamos na sala
fiquei a ouvir teu ronco na cama
referencial diário do nosso casamento moderno
fiquei a ouvir teu ronco na cama
referencial diário do nosso casamento moderno
1 051
Martha Medeiros
vou andando devagar
vou andando devagar
olhando para um lado
para o outro
rindo ali, pensando aqui
de repente
vejo você na minha frente
e até pararia de andar
se você não fosse
estacionamento proibido
olhando para um lado
para o outro
rindo ali, pensando aqui
de repente
vejo você na minha frente
e até pararia de andar
se você não fosse
estacionamento proibido
1 004
Martha Medeiros
porto alegre surpreende
porto alegre surpreende
vez em quando um lindo menino
vez por outra um fog londrino
vez em quando um lindo menino
vez por outra um fog londrino
1 030
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