Arte
Poemas neste tema
Sebastião Uchoa Leite
Un Giorno nella Vita: Abril 78
escovo os dentões
com mentol americano
tomo o café multisuíço
e abro o jornal nacional
com sorriso de jimmy carter
pra variar os novos filósofos
hoje são franceses
puxam as orelhas de karl marx
afinal tudo é nacional
inclusive o colesterol
e exceto o know-how
todos os modelos são relativos
Publicado no livro Antilogia (1979).
In: LEITE, Sebastião Uchoa. Obra em dobras, 1960/1988. São Paulo: Duas Cidades, 1988. (Claro enigma
com mentol americano
tomo o café multisuíço
e abro o jornal nacional
com sorriso de jimmy carter
pra variar os novos filósofos
hoje são franceses
puxam as orelhas de karl marx
afinal tudo é nacional
inclusive o colesterol
e exceto o know-how
todos os modelos são relativos
Publicado no livro Antilogia (1979).
In: LEITE, Sebastião Uchoa. Obra em dobras, 1960/1988. São Paulo: Duas Cidades, 1988. (Claro enigma
1 156
Luís Guimarães Júnior
Paulo e Virgínia
Fomos um dia alegres, estouvados,
Ao clarão matinal do sol nascente,
Colher as flores do vergel ridente
E as primeiras amoras dos cercados.
Venturosos, risonhos, namorados,
Cada qual mais feliz e mais contente,
Esquecemos a terra inteiramente:
Doidos de amor, de gozo embriagados.
Seus cabelos — enquanto ela corria,
Voavam, loiros como a luz, dispersos!
Eu a chamava e ela me fugia.
Por fim voltamos — em prazer imersos:
E das venturas todas desse dia...
Resta a saudade que inspirou meus versos.
Poema integrante da série Primeira Parte.
In: GUIMARÃES JÚNIOR, Luiz. Sonetos e rimas: lírica. 3.ed. Pref. Fialho d'Almeida. Lisboa: Liv. Clássica Ed. de A. M. Teixeira, 191
Ao clarão matinal do sol nascente,
Colher as flores do vergel ridente
E as primeiras amoras dos cercados.
Venturosos, risonhos, namorados,
Cada qual mais feliz e mais contente,
Esquecemos a terra inteiramente:
Doidos de amor, de gozo embriagados.
Seus cabelos — enquanto ela corria,
Voavam, loiros como a luz, dispersos!
Eu a chamava e ela me fugia.
Por fim voltamos — em prazer imersos:
E das venturas todas desse dia...
Resta a saudade que inspirou meus versos.
Poema integrante da série Primeira Parte.
In: GUIMARÃES JÚNIOR, Luiz. Sonetos e rimas: lírica. 3.ed. Pref. Fialho d'Almeida. Lisboa: Liv. Clássica Ed. de A. M. Teixeira, 191
1 837
Henriqueta Lisboa
Saudação a Drummond
Eu te saúdo Irmão Maior
pelo que tens sido e serás
dentro do tempo espaço afora
e além da vida: luminar
homem simples da terra
aprisionado no íntimo
para libertador de pássaros
e agenciador de símbolos.
Pela pedra no caminho
que foi ato de bravura
e foi cabo de tormentas.
Pelo brejo das almas
em verde com margaridas.
Pelo sentimento do mundo
com que orvalhas o linho
da comunhão geral.
Pelas fazendas do ar
em que brindas cultivos
de transcedentes dimensões.
Pelos claros enigmas
que decifras e que armas
em desdobrados ciclos.
Pela vida passada a limpo
em lâminas de cristal.
Pela rosa do povo
com que humanizas o asfalto.
Pela lição de coisas
que nos ensinas a aprender.
Pelo boitempo este sabor
de renascimento da infância.
Em nome de Mário de Andrade
— até as amendoeiras falam —
em nome de Manuel Bandeira
em nome de Emílio Moura
presentes embora silentes
no alto da Casa em outros
mais cômodos aposentos
de onde nos contemplam líricos
a nós abaixo no vestíbulo.
Saúdo-te mineiro Carlos
de olhos azuis como os da criança
guardada sempre mais a fundo
em candidez e malícia
ao largo de lavouras híspidas
ao longo de setenta outubros
vincados de diamante e ferro
sem nostalgia de crepúsculo.
Saúdo-te com sete rosas
em botão as mais puras
colhidas de madrugada
antes do sol em suas pétalas
por teu sétimo aniversário
outrora
de menino poeta.
Publicado no livro Miradouro e Outros Poemas (1976). Poema integrante da série Miradouro, 1968/1974.
In: LISBOA, Henriqueta. Obras completas I: poesia geral, 1929/1983. Pref. Fábio Lucas. São Paulo: Duas Cidades, 198
pelo que tens sido e serás
dentro do tempo espaço afora
e além da vida: luminar
homem simples da terra
aprisionado no íntimo
para libertador de pássaros
e agenciador de símbolos.
Pela pedra no caminho
que foi ato de bravura
e foi cabo de tormentas.
Pelo brejo das almas
em verde com margaridas.
Pelo sentimento do mundo
com que orvalhas o linho
da comunhão geral.
Pelas fazendas do ar
em que brindas cultivos
de transcedentes dimensões.
Pelos claros enigmas
que decifras e que armas
em desdobrados ciclos.
Pela vida passada a limpo
em lâminas de cristal.
Pela rosa do povo
com que humanizas o asfalto.
Pela lição de coisas
que nos ensinas a aprender.
Pelo boitempo este sabor
de renascimento da infância.
Em nome de Mário de Andrade
— até as amendoeiras falam —
em nome de Manuel Bandeira
em nome de Emílio Moura
presentes embora silentes
no alto da Casa em outros
mais cômodos aposentos
de onde nos contemplam líricos
a nós abaixo no vestíbulo.
Saúdo-te mineiro Carlos
de olhos azuis como os da criança
guardada sempre mais a fundo
em candidez e malícia
ao largo de lavouras híspidas
ao longo de setenta outubros
vincados de diamante e ferro
sem nostalgia de crepúsculo.
Saúdo-te com sete rosas
em botão as mais puras
colhidas de madrugada
antes do sol em suas pétalas
por teu sétimo aniversário
outrora
de menino poeta.
Publicado no livro Miradouro e Outros Poemas (1976). Poema integrante da série Miradouro, 1968/1974.
In: LISBOA, Henriqueta. Obras completas I: poesia geral, 1929/1983. Pref. Fábio Lucas. São Paulo: Duas Cidades, 198
1 851
Olga Savary
David
Não sendo bicho nem deus
nem da raiz tendo a força
ou a eternidade da pedra,
o poeta nas palavras
põe essa força de nada:
sua funda é o poema.
Rio, dezembro de 1974
In: SAVARY, Olga. Sumidouro. Pref. Nelly Novaes Coelho. Il. Aldemir Martins. São Paulo: Massao Ohno: J. Farkas, 1977
nem da raiz tendo a força
ou a eternidade da pedra,
o poeta nas palavras
põe essa força de nada:
sua funda é o poema.
Rio, dezembro de 1974
In: SAVARY, Olga. Sumidouro. Pref. Nelly Novaes Coelho. Il. Aldemir Martins. São Paulo: Massao Ohno: J. Farkas, 1977
1 856
Luís Guimarães Júnior
José de Alencar
No teu regaço, oh Pátria angustiosa,
Oh grande Mãe! oh Niobe! consente
Que caia minha lágrima pungente
E suspire minha alma dolorosa;
Tua serena fronte majestosa
Curva-se a terra — lívida e plangente:
Perdeste a nívea corda, a fibra algente
De tua agreste Lira luminosa.
Quem cantará agora esse obscuro
Idílio da floresta, — ingênuo tema
Que ele criou — tão mavioso e puro?
Quem guiará as asas do Poema
Com mais doçura? Oh Bardos do futuro,
Eu vos pergunto em nome de Iracema!
Poema integrante da série Segunda Parte: Os Poetas Mortos.
In: GUIMARÃES JÚNIOR, Luiz. Sonetos e rimas: lírica. 3.ed. Pref. Fialho d'Almeida. Lisboa: Liv. Clássica Ed. de A. M. Teixeira, 191
Oh grande Mãe! oh Niobe! consente
Que caia minha lágrima pungente
E suspire minha alma dolorosa;
Tua serena fronte majestosa
Curva-se a terra — lívida e plangente:
Perdeste a nívea corda, a fibra algente
De tua agreste Lira luminosa.
Quem cantará agora esse obscuro
Idílio da floresta, — ingênuo tema
Que ele criou — tão mavioso e puro?
Quem guiará as asas do Poema
Com mais doçura? Oh Bardos do futuro,
Eu vos pergunto em nome de Iracema!
Poema integrante da série Segunda Parte: Os Poetas Mortos.
In: GUIMARÃES JÚNIOR, Luiz. Sonetos e rimas: lírica. 3.ed. Pref. Fialho d'Almeida. Lisboa: Liv. Clássica Ed. de A. M. Teixeira, 191
1 294
Henriqueta Lisboa
Do Supérfluo
Também as cousas participam
de nossa vida. Um livro. Uma rosa.
Um trecho musical que nos devolve
a horas inaugurais. O crepúsculo
acaso visto num país
que não sendo da terra
evoca apenas a lembrança
de outra lembrança mais longínqua.
O esboço tão-somente de um gesto
de ferina intenção. A graça
de um retalho de lua
a pervagar num reposteiro
A mesa sobre a qual me debruço
cada dia mais temerosa
de meus próprios dizeres.
Tais cousas de íntimo domínio
talvez sejam supérfluas.
No entanto
que tenho a ver contigo
se não leste o livro que li
não viste a rosa que plantei
nem contemplaste o pôr-do-sol
à hora em que o amor se foi?
Que tens a ver comigo
se dentro em ti não prevalecem
as cousas — todavia supérfluas —
do meu intransferível patrimônio?
Publicado no livro Pousada do Ser (1982).
In: LISBOA, Henriqueta. Obras completas I: poesia geral, 1929/1983. Pref. Fábio Lucas. São Paulo: Duas Cidades, 198
de nossa vida. Um livro. Uma rosa.
Um trecho musical que nos devolve
a horas inaugurais. O crepúsculo
acaso visto num país
que não sendo da terra
evoca apenas a lembrança
de outra lembrança mais longínqua.
O esboço tão-somente de um gesto
de ferina intenção. A graça
de um retalho de lua
a pervagar num reposteiro
A mesa sobre a qual me debruço
cada dia mais temerosa
de meus próprios dizeres.
Tais cousas de íntimo domínio
talvez sejam supérfluas.
No entanto
que tenho a ver contigo
se não leste o livro que li
não viste a rosa que plantei
nem contemplaste o pôr-do-sol
à hora em que o amor se foi?
Que tens a ver comigo
se dentro em ti não prevalecem
as cousas — todavia supérfluas —
do meu intransferível patrimônio?
Publicado no livro Pousada do Ser (1982).
In: LISBOA, Henriqueta. Obras completas I: poesia geral, 1929/1983. Pref. Fábio Lucas. São Paulo: Duas Cidades, 198
2 371
Olga Savary
Altaonda
Para Carlos Drummond de Andrade
Alta onda,
Altaonda, constrói o teu retrato
de raro sal de ferro, violento,
e esta imagem me invadindo as tardes,
eu deixando, certo certo
contaria todos os meus ossos.
Então é isso:
o rigor da ordem sobre o ardor da chama
de história simples com alguma coisa de fatal,
estátua banhada por águas incansáveis.
tigre saltando o escuro
nos degraus da escada, apenas pressentido.
este ir e vir sobre os passos dados,
rua sem saída, esbarro no muro,
Altaonda, diz teu silêncio,
um silêncio ao tumulto parecido,
um mistério que é teu signo e mapa
sumindo no fundo do mar.
In: SAVARY, Olga. Sumidouro. Pref. Nelly Novaes Coelho. Il. Aldemir Martins. São Paulo: Massao Ohno: J. Farkas, 1977
Alta onda,
Altaonda, constrói o teu retrato
de raro sal de ferro, violento,
e esta imagem me invadindo as tardes,
eu deixando, certo certo
contaria todos os meus ossos.
Então é isso:
o rigor da ordem sobre o ardor da chama
de história simples com alguma coisa de fatal,
estátua banhada por águas incansáveis.
tigre saltando o escuro
nos degraus da escada, apenas pressentido.
este ir e vir sobre os passos dados,
rua sem saída, esbarro no muro,
Altaonda, diz teu silêncio,
um silêncio ao tumulto parecido,
um mistério que é teu signo e mapa
sumindo no fundo do mar.
In: SAVARY, Olga. Sumidouro. Pref. Nelly Novaes Coelho. Il. Aldemir Martins. São Paulo: Massao Ohno: J. Farkas, 1977
1 751
Luís Guimarães Júnior
A Voz de Moema
"Ah Diogo cruel!" disse com mágoa,
E sem mais vista ser sorveu-se n'água.
DURÃO — Caramuru.
Gemem as ondas mansamente; — a quilha
Do barco ondeia, ao som da vaga clara;
Cai do farol a luz longínqua e rara,
E a Lua cheia sobre as ondas brilha...
Do mar na ardente e luminosa trilha
Nem um batel por estas horas pára:
Sonha a Bahia, ao longe, — a altiva e cara
Filha dos deuses, de Colombo filha.
Tudo silente dorme. O bardo, entanto,
Que tudo vê e em tudo colhe o tema
Que amor produz no flácido quebranto,
Ouve pairar nos ares sons d'um Poema...
Ai! é a voz, — a voz, rouca de pranto,
A triste voz da pálida Moema!
A bordo do Senegal
Poema integrante da série Primeira Parte.
In: GUIMARÃES JÚNIOR, Luiz. Sonetos e rimas: lírica. 3.ed. Pref. Fialho d'Almeida. Lisboa: Liv. Clássica Ed. de A. M. Teixeira, 191
E sem mais vista ser sorveu-se n'água.
DURÃO — Caramuru.
Gemem as ondas mansamente; — a quilha
Do barco ondeia, ao som da vaga clara;
Cai do farol a luz longínqua e rara,
E a Lua cheia sobre as ondas brilha...
Do mar na ardente e luminosa trilha
Nem um batel por estas horas pára:
Sonha a Bahia, ao longe, — a altiva e cara
Filha dos deuses, de Colombo filha.
Tudo silente dorme. O bardo, entanto,
Que tudo vê e em tudo colhe o tema
Que amor produz no flácido quebranto,
Ouve pairar nos ares sons d'um Poema...
Ai! é a voz, — a voz, rouca de pranto,
A triste voz da pálida Moema!
A bordo do Senegal
Poema integrante da série Primeira Parte.
In: GUIMARÃES JÚNIOR, Luiz. Sonetos e rimas: lírica. 3.ed. Pref. Fialho d'Almeida. Lisboa: Liv. Clássica Ed. de A. M. Teixeira, 191
1 624
Sebastião Uchoa Leite
Biografia de uma Idéia
ao fascínio do poeta pela palavra
só iguala o da víbora pela sua presa
as idéias são/não são o forte dos poetas
idéias-dentes que mordem e se remordem:
os poemas são o remorso dos códigos e/ou
a poesia é o perfeito vazio absoluto
os poemas são ecos de uma cisterna sem fundo ou
erupções sem lava e ejaculações sem esperma
ou canhões que detonam em silêncio:
as palavras são denotações do nada ou
serpentes que mordem a sua própria cauda
Publicado no livro Antilogia (1979).
In: LEITE, Sebastião Uchoa. Obra em dobras, 1960/1988. São Paulo: Duas Cidades, 1988. (Claro enigma
só iguala o da víbora pela sua presa
as idéias são/não são o forte dos poetas
idéias-dentes que mordem e se remordem:
os poemas são o remorso dos códigos e/ou
a poesia é o perfeito vazio absoluto
os poemas são ecos de uma cisterna sem fundo ou
erupções sem lava e ejaculações sem esperma
ou canhões que detonam em silêncio:
as palavras são denotações do nada ou
serpentes que mordem a sua própria cauda
Publicado no livro Antilogia (1979).
In: LEITE, Sebastião Uchoa. Obra em dobras, 1960/1988. São Paulo: Duas Cidades, 1988. (Claro enigma
1 496
Sebastião Uchoa Leite
Cortes-Toques
Van Gogh cortou a orelha
O Pequeno Hans tinha pânico de cavalos
Landru queimava mulheres
Manson & Família
Riscaram Pig com o sangue das vítimas
No subúrbio do Rio acharam
Mulher tapada numa cisterna
Papéis jornais recortes
Grandes entulhos e um canal
É difícil entender a desordem
Há um ano ela olhava o mar desta janela
Nefesh Nafs Atman
Que quer dizer alma?
Bombons envenenados no Japão
Parece a corcunda de Kierkegaard
Um toque de dedos rápido
O prazer de alfinetes
Aqui é o limite: atenção
Como o punctum de uma foto
A orelha cortada é uma sinédoque.
1984
Poema integrante da série Cortes/Toques, 1983-1988.
In: LEITE, Sebastião Uchoa. Obra em dobras, 1960/1988. São Paulo: Duas Cidades, 1988. (Claro enigma)
O Pequeno Hans tinha pânico de cavalos
Landru queimava mulheres
Manson & Família
Riscaram Pig com o sangue das vítimas
No subúrbio do Rio acharam
Mulher tapada numa cisterna
Papéis jornais recortes
Grandes entulhos e um canal
É difícil entender a desordem
Há um ano ela olhava o mar desta janela
Nefesh Nafs Atman
Que quer dizer alma?
Bombons envenenados no Japão
Parece a corcunda de Kierkegaard
Um toque de dedos rápido
O prazer de alfinetes
Aqui é o limite: atenção
Como o punctum de uma foto
A orelha cortada é uma sinédoque.
1984
Poema integrante da série Cortes/Toques, 1983-1988.
In: LEITE, Sebastião Uchoa. Obra em dobras, 1960/1988. São Paulo: Duas Cidades, 1988. (Claro enigma)
1 339
Stella Leonardos
Do Aprendiz de Escultor
Existe uma voz na pedra?
Lá no alto daquela pedra
mora um colomi de pedra
chamado Itacolomi.
O colomi, lá da pedra
me fala: — Não queiras ouro.
Menino, teu ouro é outro.
Escuta, Antônio Francisco,
tuas mãos querem lavrar.
Procura tornar mais que ouro
a pedra que te encontrar.
Existe voz na madeira?
Lá do alto daquela igreja
vive uma cruz de madeira,
a mais alta que já vi.
A cruz, lá do alto, me fala:
— Escuta, Antônio Francisco,
não te coube em Vila-Rica
muita lenha. Coube lenho
e mãos que querem talhar.
Procura tornar madeiro
a madeira que te achar.
In: LEONARDOS, Stella. Romanceiro do Aleijadinho. Belo Horizonte: Itatiaia, 1984. (Poetas de sempre, 4)
Lá no alto daquela pedra
mora um colomi de pedra
chamado Itacolomi.
O colomi, lá da pedra
me fala: — Não queiras ouro.
Menino, teu ouro é outro.
Escuta, Antônio Francisco,
tuas mãos querem lavrar.
Procura tornar mais que ouro
a pedra que te encontrar.
Existe voz na madeira?
Lá do alto daquela igreja
vive uma cruz de madeira,
a mais alta que já vi.
A cruz, lá do alto, me fala:
— Escuta, Antônio Francisco,
não te coube em Vila-Rica
muita lenha. Coube lenho
e mãos que querem talhar.
Procura tornar madeiro
a madeira que te achar.
In: LEONARDOS, Stella. Romanceiro do Aleijadinho. Belo Horizonte: Itatiaia, 1984. (Poetas de sempre, 4)
1 006
Amadeu Amaral
A um Adolescente
A Júlio Mesquita Filho
III
Basta crer na Beleza. Ama-a no Cosmos, fora
de ti, e ama-a em ti mesmo. É a suprema pesquisa!
Busca-a. E esculpe teu ser, juntando, hora por hora,
à mente que concebe o escopro que realiza.
Perguntas: — Onde o metro, a norma, a arte precisa
para rasgar no bloco a forma que se ignora?
— Quem ao leão deu o ardor com que os desertos pisa?
E quem à águia ensinou a ser do azul senhora?
Tens o instinto voador de quem nasceu com asa.
Ama o que é forte e puro, odeia o que é perverso,
o que é baixo, o que é vil, tudo que anda de rastros.
E põe-te em comunhão, no entusiasmo que abrasa,
com a Beleza, esplendor da Vida e do Universo,
com a poesia, os heróis, os abismos e os astros.
IV
Falta o preceito firme a que a ação se conforme?
Falta uma diretriz certa e definitiva?
— Quem a teve jamais? O bom ideal é informe,
e a Certeza, ai de nós! de todo o encanto o priva.
A torrente que corre e espadana, áurea e viva,
sem parar nem recuar no itinerário enorme,
busca um sonho que além, sob a névoa, se esquiva...
e ai! dela, se desvenda o sonho azul que dorme!
Sê tu como a caudal: foge ao remanso e ao charco.
A água pura é a que ferve e cintila entre abrolhos.
O miasma e o lodaçal moram nas águas mansas.
Avança, seja o sol resplandecente ou parco;
— e se a meta surgir, algum dia a teus olhos,
impele-a para além à proporção que avanças!
Publicado no livro Espumas: versos (1917).
In: Poesias completas. São Paulo: HUCITEC: Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado, 1977. p.152-153. (Obras de Amadeu Amaral
III
Basta crer na Beleza. Ama-a no Cosmos, fora
de ti, e ama-a em ti mesmo. É a suprema pesquisa!
Busca-a. E esculpe teu ser, juntando, hora por hora,
à mente que concebe o escopro que realiza.
Perguntas: — Onde o metro, a norma, a arte precisa
para rasgar no bloco a forma que se ignora?
— Quem ao leão deu o ardor com que os desertos pisa?
E quem à águia ensinou a ser do azul senhora?
Tens o instinto voador de quem nasceu com asa.
Ama o que é forte e puro, odeia o que é perverso,
o que é baixo, o que é vil, tudo que anda de rastros.
E põe-te em comunhão, no entusiasmo que abrasa,
com a Beleza, esplendor da Vida e do Universo,
com a poesia, os heróis, os abismos e os astros.
IV
Falta o preceito firme a que a ação se conforme?
Falta uma diretriz certa e definitiva?
— Quem a teve jamais? O bom ideal é informe,
e a Certeza, ai de nós! de todo o encanto o priva.
A torrente que corre e espadana, áurea e viva,
sem parar nem recuar no itinerário enorme,
busca um sonho que além, sob a névoa, se esquiva...
e ai! dela, se desvenda o sonho azul que dorme!
Sê tu como a caudal: foge ao remanso e ao charco.
A água pura é a que ferve e cintila entre abrolhos.
O miasma e o lodaçal moram nas águas mansas.
Avança, seja o sol resplandecente ou parco;
— e se a meta surgir, algum dia a teus olhos,
impele-a para além à proporção que avanças!
Publicado no livro Espumas: versos (1917).
In: Poesias completas. São Paulo: HUCITEC: Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado, 1977. p.152-153. (Obras de Amadeu Amaral
1 455
Stella Leonardos
O Mulato
"Na busca exata, Ataíde, Vermelho e Azul —
como o cônego o apelidara, em total respeito ao
talento explodido"...
João Felício dos Santos
Sol vermelho sutilíssimo
rompe sol nos lás de azul.
Alvora em mestre Ataíde
cântico vermelho-azul?
A paleta se ilumina
neovermelha, noviazul.
Vermelhos toques sublimes.
Tocante música azul.
E os Passos do Cristo brilham
nos laivos vermelhoazuis.
In: LEONARDOS, Stella. Romanceiro do Aleijadinho. Belo Horizonte: Itatiaia, 1984. (Poetas de sempre, 4)
como o cônego o apelidara, em total respeito ao
talento explodido"...
João Felício dos Santos
Sol vermelho sutilíssimo
rompe sol nos lás de azul.
Alvora em mestre Ataíde
cântico vermelho-azul?
A paleta se ilumina
neovermelha, noviazul.
Vermelhos toques sublimes.
Tocante música azul.
E os Passos do Cristo brilham
nos laivos vermelhoazuis.
In: LEONARDOS, Stella. Romanceiro do Aleijadinho. Belo Horizonte: Itatiaia, 1984. (Poetas de sempre, 4)
1 382
Mário Faustino
A Reconstrução
(...)
E nos irados olhos das bacantes
Finalmente descubro quem procuro.
Não eras tu, Poesia, meras armas,
Pura consolação de minha luta.
Nem eras tu, Amor, meu camarada,
Às costas me levando, após a luta.
Procurava-me a mim, e ora me encontro
Em meu reflexo, nos olhares duros
De ébrios que me fuzilam contra o muro
E o perdão de meu canto. Sobre as nuvens
Defronte mãos escrevem numa estranha,
Antiquíssima língua estas palavras
Que afinal compreendo: toda vida
É perfeita. E pungente, e raro, e breve
É o tempo que me dão para viver-me,
Achado e precioso. Mas saúdo
Em mim a minha paz final. Metade
Infame de homem beija os pés da outra
Diva metade, enquanto esta se curva
E retribui, humilde, a reverência.
A serpente tritura a própria cauda,
O círculo de fogo se devora,
Arrasta-se o cadáver bem ferido
Para fora do palco:
este cevado
Bezerro justifica minha vida.
In: FAUSTINO, Mário. Os melhores poemas. 2.ed. São Paulo: Global, 1988. (Os Melhores poemas, 14
E nos irados olhos das bacantes
Finalmente descubro quem procuro.
Não eras tu, Poesia, meras armas,
Pura consolação de minha luta.
Nem eras tu, Amor, meu camarada,
Às costas me levando, após a luta.
Procurava-me a mim, e ora me encontro
Em meu reflexo, nos olhares duros
De ébrios que me fuzilam contra o muro
E o perdão de meu canto. Sobre as nuvens
Defronte mãos escrevem numa estranha,
Antiquíssima língua estas palavras
Que afinal compreendo: toda vida
É perfeita. E pungente, e raro, e breve
É o tempo que me dão para viver-me,
Achado e precioso. Mas saúdo
Em mim a minha paz final. Metade
Infame de homem beija os pés da outra
Diva metade, enquanto esta se curva
E retribui, humilde, a reverência.
A serpente tritura a própria cauda,
O círculo de fogo se devora,
Arrasta-se o cadáver bem ferido
Para fora do palco:
este cevado
Bezerro justifica minha vida.
In: FAUSTINO, Mário. Os melhores poemas. 2.ed. São Paulo: Global, 1988. (Os Melhores poemas, 14
2 444
Mário Faustino
Cino
Campagna italiana 1309, em plena estrada
Arre! já celebrei mulheres em três cidades,
Mas é tudo a mesma coisa;
E cantarei do sol.
Lábios, palavras, e lhes armamos armadilhas,
Sonhos, palavras, e são como jóias,
Estranhos bruxedos de velha divindade,
Corvos, noites, carícia:
E eis que não o são;
Já se tornaram almas de canção.
Olhos, sonhos, lábios, e a noite vai-se.
Em plena estrada, uma vez mais,
Elas não são.
Esquecidas, em suas torres, de nossa toada,
Uma vez por causa do vento, da revoada
Sonham rumo de nós e
Suspirando dizem, "Ah, se Cino,
Apaixonado Cino, o de olhos enrugados,
Alegre Cino, de riso rápido.
Cino ousado, Cino zombeteiro,
Frágil Cino, o mais forte de seu clã bandoleiro
Que bate as velhas vias sob o sol,
Se Cino do alaúde aqui voltasse!"
Uma vez, duas vezes, um ano —
E vagamente assim se exprimem:
"Cino?" "Oh, eh, Cino Polnesi
O cantor, não é dele que se trata?"
"Ah, sim, passou uma vez por aqui,
Sujeito atrevido, mas...
"São todos a mesma coisa, esses vagabundos
Peste! As canções eram dele?
Ou cantava as dos outros?
Mas e o senhor, Meu Senhor, como vai sua cidade?"
Mas e o senhor, "Meu Senhor", bá! por piedade!
E todos os que eu conhecia estavam fora, Meu Senhor, e tu
Eras Cino SemTerra, tal como eu sou,
O Sinistro.
Já celebrei mulheres em três cidades.
Mas é tudo a mesma coisa.
E cantarei o sol.
... eh?... a maioria delas tinha olhos cinzentos,
Mas é tudo a mesma coisa, e cantarei o sol.
'Pollo Phoibeu, panela velha, tu,
Glória da égide do Zeus do dia,
Escudo d'azul aço, o céu lá em cima
Tem por chefe tua rútila alegria!
'Pollo Phoibeu, ao longo do caminho,
Faze de teu riso nossa chanson;
Que teu fulgor ofusque nossa dor,
E que o choro da chuva tombe sem nós!
Buscando sempre o rastro recente
Rumo aos jardins do sol...
...................................
Já celebrei mulheres em três cidades
Mas é tudo a mesma coisa.
E cantarei das aves alvas
Nas águas azuis do céu,
As nuvens, o borrifo de seu mar.
Imagem - 00950001
Poema integrante da série Fontes e Correntes da Poesia Contemporânea: 13. Ezra Pound.
In: FAUSTINO, Mário. Poesia-experiência. Introd. Benedito Nunes. São Paulo: Perspectiva, 1977. (Debates, 136).
NOTA: Tradução de poema de Ezra Poun
Arre! já celebrei mulheres em três cidades,
Mas é tudo a mesma coisa;
E cantarei do sol.
Lábios, palavras, e lhes armamos armadilhas,
Sonhos, palavras, e são como jóias,
Estranhos bruxedos de velha divindade,
Corvos, noites, carícia:
E eis que não o são;
Já se tornaram almas de canção.
Olhos, sonhos, lábios, e a noite vai-se.
Em plena estrada, uma vez mais,
Elas não são.
Esquecidas, em suas torres, de nossa toada,
Uma vez por causa do vento, da revoada
Sonham rumo de nós e
Suspirando dizem, "Ah, se Cino,
Apaixonado Cino, o de olhos enrugados,
Alegre Cino, de riso rápido.
Cino ousado, Cino zombeteiro,
Frágil Cino, o mais forte de seu clã bandoleiro
Que bate as velhas vias sob o sol,
Se Cino do alaúde aqui voltasse!"
Uma vez, duas vezes, um ano —
E vagamente assim se exprimem:
"Cino?" "Oh, eh, Cino Polnesi
O cantor, não é dele que se trata?"
"Ah, sim, passou uma vez por aqui,
Sujeito atrevido, mas...
"São todos a mesma coisa, esses vagabundos
Peste! As canções eram dele?
Ou cantava as dos outros?
Mas e o senhor, Meu Senhor, como vai sua cidade?"
Mas e o senhor, "Meu Senhor", bá! por piedade!
E todos os que eu conhecia estavam fora, Meu Senhor, e tu
Eras Cino SemTerra, tal como eu sou,
O Sinistro.
Já celebrei mulheres em três cidades.
Mas é tudo a mesma coisa.
E cantarei o sol.
... eh?... a maioria delas tinha olhos cinzentos,
Mas é tudo a mesma coisa, e cantarei o sol.
'Pollo Phoibeu, panela velha, tu,
Glória da égide do Zeus do dia,
Escudo d'azul aço, o céu lá em cima
Tem por chefe tua rútila alegria!
'Pollo Phoibeu, ao longo do caminho,
Faze de teu riso nossa chanson;
Que teu fulgor ofusque nossa dor,
E que o choro da chuva tombe sem nós!
Buscando sempre o rastro recente
Rumo aos jardins do sol...
...................................
Já celebrei mulheres em três cidades
Mas é tudo a mesma coisa.
E cantarei das aves alvas
Nas águas azuis do céu,
As nuvens, o borrifo de seu mar.
Imagem - 00950001
Poema integrante da série Fontes e Correntes da Poesia Contemporânea: 13. Ezra Pound.
In: FAUSTINO, Mário. Poesia-experiência. Introd. Benedito Nunes. São Paulo: Perspectiva, 1977. (Debates, 136).
NOTA: Tradução de poema de Ezra Poun
1 265
Joaquim Cardozo
Não tenho pátria, nem glória
(...)
O RETIRANTE
Não tenho pátria, nem glória...
Embora — sinal da fome —
Nas páginas secas da história
Haja o meu nome e renome.
Mateus, Bastião e Catirina entrando outra vez em cena,
encontram o retirante e a ele se dirigem.
MATEUS
Como é que vens acabado
Velho amigo, meu irmão
Há tanto tempo largado
Pelas sendas do sertão.
RETIRANTE
Sou, de acabado, tão pouco...
A pouco estou reduzido,
Ouve cantar galo rouco
Meu coração comovido...
(pausa)
RETIRANTE
(continuando):
Sou uma sombra sem corpo,
Sou um rosto sem pessoa,
Um vento sem ar soprando,
Sem som, um canto, uma loa.
Nem as palavras definem
O meu tão grande vazio,
Todo o gesto que me exprime
Todo o meu gesto é baldio.
Todo o ardor que em mim renasce
Se extingue com um assovio...
Em mim não há claridades
Sou, apagado, um pavio.
O tecido que me veste
Não tem trama, nem cadeia.
Meus passos são muito leves
Não deixam marca na areia.
Meu andar é curto e breve
Mas contém a vastidão
Como é leve o que me pesa
Meu ausente matolão.
Perto vou, mas vou por longe
Vou junto, mas vou sozinho
Em sombra: burel de monge
Caminho meu descaminho.
(...)
In: CARDOZO, Joaquim. O coronel de Macambira: bumba-meu-boi em dois quadros. Introd. Osmar Barbosa. Il. Poty. Rio de Janeiro: Ediouro, s.d. p.68-69. (Prestígio). Poema integrante da série 2o. quadro.
O RETIRANTE
Não tenho pátria, nem glória...
Embora — sinal da fome —
Nas páginas secas da história
Haja o meu nome e renome.
Mateus, Bastião e Catirina entrando outra vez em cena,
encontram o retirante e a ele se dirigem.
MATEUS
Como é que vens acabado
Velho amigo, meu irmão
Há tanto tempo largado
Pelas sendas do sertão.
RETIRANTE
Sou, de acabado, tão pouco...
A pouco estou reduzido,
Ouve cantar galo rouco
Meu coração comovido...
(pausa)
RETIRANTE
(continuando):
Sou uma sombra sem corpo,
Sou um rosto sem pessoa,
Um vento sem ar soprando,
Sem som, um canto, uma loa.
Nem as palavras definem
O meu tão grande vazio,
Todo o gesto que me exprime
Todo o meu gesto é baldio.
Todo o ardor que em mim renasce
Se extingue com um assovio...
Em mim não há claridades
Sou, apagado, um pavio.
O tecido que me veste
Não tem trama, nem cadeia.
Meus passos são muito leves
Não deixam marca na areia.
Meu andar é curto e breve
Mas contém a vastidão
Como é leve o que me pesa
Meu ausente matolão.
Perto vou, mas vou por longe
Vou junto, mas vou sozinho
Em sombra: burel de monge
Caminho meu descaminho.
(...)
In: CARDOZO, Joaquim. O coronel de Macambira: bumba-meu-boi em dois quadros. Introd. Osmar Barbosa. Il. Poty. Rio de Janeiro: Ediouro, s.d. p.68-69. (Prestígio). Poema integrante da série 2o. quadro.
1 169
Marcus Accioly
Da Prosa e da Poesia
A prosa e a poesia se diferem
pelo mistério:
a casa era sem portas e janelas (...)
isto é prosa
a casa era de vidros e silêncios (...)
isto é poesia
pela música:
era uma vez um eco que dizia (...)
isto é prosa
era uma vez a vez a vez a vez (...)
isto é poesia
pela forma:
sob a luz apagada ele dormia (...)
isto é prosa
sob o peso da treva era o seu sono (...)
isto é poesia
pelo motivo:
a infância veio visitá-lo um dia (...)
isto é prosa
a infância acordou-se nos seus olhos (...)
isto é poesia
pela pintura:
o seu rosto era branco como o mármore (...)
isto é prosa
o seu rosto era um pássaro de nuvem (...)
isto é poesia
pelo equilíbrio:
o sol estava vertical no céu (...)
isto é prosa
o sol caía sobre a própria sombra (...)
isto é poesia
pelo movimento:
a flecha arremessada pelo arco (...)
isto é prosa
a flecha além do arco era uma asa (...)
isto é poesia
pelo ritmo:
era no dia o sol — na noite a lua (...)
isto é prosa
era no sol o sol — na lua a lua (...)
isto é poesia
pela força:
a lâmina brilhou sobre seus olhos (...)
isto é prosa
a lâmina de luz cegou seus olhos (...)
isto é poesia
pelo assombro:
o chicote vibrou como uma cobra (...)
isto é prosa
o chicote vibrou como um relâmpago (...)
isto é poesia
pela imagem:
dentro do rio era canção das águas (...)
isto é prosa
dentro do rio era a canção dos peixes (...)
isto é poesia
etc etc etc
(...)
In: ACCIOLY, Marcus. Poética: pré-manifesto ou anteprojeto do Realismo Épico (época-épica). Recife: Ed. Universitária, 1977
NOTA: Poema composto de 3 partes
pelo mistério:
a casa era sem portas e janelas (...)
isto é prosa
a casa era de vidros e silêncios (...)
isto é poesia
pela música:
era uma vez um eco que dizia (...)
isto é prosa
era uma vez a vez a vez a vez (...)
isto é poesia
pela forma:
sob a luz apagada ele dormia (...)
isto é prosa
sob o peso da treva era o seu sono (...)
isto é poesia
pelo motivo:
a infância veio visitá-lo um dia (...)
isto é prosa
a infância acordou-se nos seus olhos (...)
isto é poesia
pela pintura:
o seu rosto era branco como o mármore (...)
isto é prosa
o seu rosto era um pássaro de nuvem (...)
isto é poesia
pelo equilíbrio:
o sol estava vertical no céu (...)
isto é prosa
o sol caía sobre a própria sombra (...)
isto é poesia
pelo movimento:
a flecha arremessada pelo arco (...)
isto é prosa
a flecha além do arco era uma asa (...)
isto é poesia
pelo ritmo:
era no dia o sol — na noite a lua (...)
isto é prosa
era no sol o sol — na lua a lua (...)
isto é poesia
pela força:
a lâmina brilhou sobre seus olhos (...)
isto é prosa
a lâmina de luz cegou seus olhos (...)
isto é poesia
pelo assombro:
o chicote vibrou como uma cobra (...)
isto é prosa
o chicote vibrou como um relâmpago (...)
isto é poesia
pela imagem:
dentro do rio era canção das águas (...)
isto é prosa
dentro do rio era a canção dos peixes (...)
isto é poesia
etc etc etc
(...)
In: ACCIOLY, Marcus. Poética: pré-manifesto ou anteprojeto do Realismo Épico (época-épica). Recife: Ed. Universitária, 1977
NOTA: Poema composto de 3 partes
2 273
Maria Helena Nery Garcez
Serão
Recitava Os Lusíadas de cor, a mãe,
com a ênfase do nunca dantes declamado.
Marchava descalço, o pai, arengando
o estribilho do serviço militar.
Entre o elevado e o humilde,
dividida,
a gente escutava;
sem saber a qual dos dois secundar.
In: GARCEZ, Maria Helena Nery. Conta gotas. São Paulo: J. Scortecci, 1987
com a ênfase do nunca dantes declamado.
Marchava descalço, o pai, arengando
o estribilho do serviço militar.
Entre o elevado e o humilde,
dividida,
a gente escutava;
sem saber a qual dos dois secundar.
In: GARCEZ, Maria Helena Nery. Conta gotas. São Paulo: J. Scortecci, 1987
887
Carlos Vogt
Ateliê
Recorta a tarde
tesoura
da memória
de um lado
o ponto por ponto
cruz
da nau tecida
do outro
apagada imagem
uma dor
de agulhas
entre
a mesa posta
o travesseiro brando:
retalhos
In: VOGT, Carlos. Cantografia: o itinerário do carteiro cartógrafo. Pref. Antonio Candido. São Paulo: Massao Ohno: Hucitec; Brasília: INL, 1982. Poema integrante da série Redondos
tesoura
da memória
de um lado
o ponto por ponto
cruz
da nau tecida
do outro
apagada imagem
uma dor
de agulhas
entre
a mesa posta
o travesseiro brando:
retalhos
In: VOGT, Carlos. Cantografia: o itinerário do carteiro cartógrafo. Pref. Antonio Candido. São Paulo: Massao Ohno: Hucitec; Brasília: INL, 1982. Poema integrante da série Redondos
1 114
Tasso da Silveira
Marinha
Teu corpo é mar
com frêmitos frescos de ondas
e fosforescência de espumas.
Teu corpo é profundidade equórea,
filtrando sol,
mas cheia de sombras vivas
de sargaços, anêmonas, corais.
Quando ele me envolve, é totalmente,
mortalmente.
Anula-me no que sou.
Reduz-me a uma alga inerte
que não sabe do seu destino
no seio do imenso balouço imemorial.
E quando retorno do mergulho trágico,
teu corpo escorre de mim, como uma túnica líquida.
Só então, volto a ser de novo,
respiro o grande ar da vida.
Teu corpo é abismo equóreo,
teu corpo é mar...
Poema integrante da série Alegria do Mundo.
In: SILVEIRA, Tasso da. O canto absoluto; seguido de Alegria do mundo: poemas. Rio de Janeiro: Cadernos da Hora Presente, 1940. p.13
com frêmitos frescos de ondas
e fosforescência de espumas.
Teu corpo é profundidade equórea,
filtrando sol,
mas cheia de sombras vivas
de sargaços, anêmonas, corais.
Quando ele me envolve, é totalmente,
mortalmente.
Anula-me no que sou.
Reduz-me a uma alga inerte
que não sabe do seu destino
no seio do imenso balouço imemorial.
E quando retorno do mergulho trágico,
teu corpo escorre de mim, como uma túnica líquida.
Só então, volto a ser de novo,
respiro o grande ar da vida.
Teu corpo é abismo equóreo,
teu corpo é mar...
Poema integrante da série Alegria do Mundo.
In: SILVEIRA, Tasso da. O canto absoluto; seguido de Alegria do mundo: poemas. Rio de Janeiro: Cadernos da Hora Presente, 1940. p.13
1 398
Marcelo Gama
Sugestões do Ocaso
Para o Carlos Torelly
Não sei por que será que os aspectos de agosto
me convidam à cisma à hora do sol posto!
Ontem fazia frio, era roxo o arrebol,
e céus e terra e tudo, as árvores e as águas,
pareciam estar carpindo as suas mágoas...
Choravam de saudade, ao ver partir o sol.
E eu também fiquei triste, até eu, que sabia
que a treva era um instante e o sol ressurgiria!
A natureza tem desses fundos mistérios...
Sei que uma sepultura é o nada, a eterna paz,
e entretanto, meu Deus! não me sinto capaz
de penetrar sozinho, à noite, em cemitérios!
Segredos que a razão não nos explica: o caso
é que eu participei da amargura do ocaso.
Erguendo os braços nus, despidos pelo outono,
o arvoredo guardava atitudes de prece.
O silêncio rezava. Era como se houvesse
romarias no espaço. A tarde tinha sono.
Da paisagem subia, espiralando, o incenso
que me fazia ter o coração suspenso.
E estávamos nós dois: eu e minh'alma, ali;
eu sentado, ela em frente; e puz-me a interrogá-la...
Pois embora ela fosse um doente sem fala,
não conto, por pudor, certas coisas que ouvi.
Por Deus Nosso Senhor, que perdi toda a calma!
E haver inda quem negue a existência da alma!
Ai! como foram más, amargas, aziagas,
as horas que passou est'alma combalida!
Mas o instante de horror maior em minha vida
foi quando eu a despi e examinei-lhe as chagas!
Depois, risquei no chão, uns sinais cabalísticos...
Lembrei-me de morrer, e puz-me a escrever dísticos...
Epitáfios assim: "Foi mau, mas morreu cedo".
E havia logo abaixo, um nome de mulher...
(A gente muita vez escreve o que não quer...)
Sepultura e noivado... Estremeci de medo.
Que se a idéia de morte às vezes nos conforta,
apavora-nos ver uma pessoa morta.
E fiquei-me a cismar. Além, a lua triste
tinha molhada em pranto a palidez da face...
(Que bom seria ouvir, se a lua nos contasse,
os romances de amor a que dos céus assiste!)
Não sei por que será que os aspectos de agosto
me convidam à cisma, à hora do sol posto!...
Publicado no livro Via Sacra (1902).
In: GAMA, Marcelo. Via Sacra e outros poemas. Posfácio de Álvaro Moreyra. Rio de Janeiro: Ed. da Sociedade Felippe d'Oliveira, 1944. p.31-3
Não sei por que será que os aspectos de agosto
me convidam à cisma à hora do sol posto!
Ontem fazia frio, era roxo o arrebol,
e céus e terra e tudo, as árvores e as águas,
pareciam estar carpindo as suas mágoas...
Choravam de saudade, ao ver partir o sol.
E eu também fiquei triste, até eu, que sabia
que a treva era um instante e o sol ressurgiria!
A natureza tem desses fundos mistérios...
Sei que uma sepultura é o nada, a eterna paz,
e entretanto, meu Deus! não me sinto capaz
de penetrar sozinho, à noite, em cemitérios!
Segredos que a razão não nos explica: o caso
é que eu participei da amargura do ocaso.
Erguendo os braços nus, despidos pelo outono,
o arvoredo guardava atitudes de prece.
O silêncio rezava. Era como se houvesse
romarias no espaço. A tarde tinha sono.
Da paisagem subia, espiralando, o incenso
que me fazia ter o coração suspenso.
E estávamos nós dois: eu e minh'alma, ali;
eu sentado, ela em frente; e puz-me a interrogá-la...
Pois embora ela fosse um doente sem fala,
não conto, por pudor, certas coisas que ouvi.
Por Deus Nosso Senhor, que perdi toda a calma!
E haver inda quem negue a existência da alma!
Ai! como foram más, amargas, aziagas,
as horas que passou est'alma combalida!
Mas o instante de horror maior em minha vida
foi quando eu a despi e examinei-lhe as chagas!
Depois, risquei no chão, uns sinais cabalísticos...
Lembrei-me de morrer, e puz-me a escrever dísticos...
Epitáfios assim: "Foi mau, mas morreu cedo".
E havia logo abaixo, um nome de mulher...
(A gente muita vez escreve o que não quer...)
Sepultura e noivado... Estremeci de medo.
Que se a idéia de morte às vezes nos conforta,
apavora-nos ver uma pessoa morta.
E fiquei-me a cismar. Além, a lua triste
tinha molhada em pranto a palidez da face...
(Que bom seria ouvir, se a lua nos contasse,
os romances de amor a que dos céus assiste!)
Não sei por que será que os aspectos de agosto
me convidam à cisma, à hora do sol posto!...
Publicado no livro Via Sacra (1902).
In: GAMA, Marcelo. Via Sacra e outros poemas. Posfácio de Álvaro Moreyra. Rio de Janeiro: Ed. da Sociedade Felippe d'Oliveira, 1944. p.31-3
1 001
Frei Francisco de São Carlos
Canto VI [Ali no débil feno reclinado
(...)
Ali no débil feno reclinado
Se via por dois brutos adorado,
O tenro Amor Jesus, recém-nascido;
Tritando ao ar, em fachas envolvido.
(...)
Pasmou a natureza de tal vista:
Tudo se reanimou: e o destro artista
O segredo encontrou maravilhoso,
Que faz seu atrevido, seu garboso.
E tu das artes todas que és princesa,
Muda eloquência, maga gentileza,
Pintura, teus pincéis santificaste,
Quando a primeira vez delineaste
Um Deus, tingindo os lábios na doçura
Do seio de uma débil criatura.
(...)
Publicado no livro A Assunção (1819).
In: SÃO CARLOS, Frei Francisco de. A Assunção: poema composto em honra da Santa Virgem, por Frei Francisco de São Carlos, franciscano reformado da província da Conceição do Brasil e natural do Rio de Janeiro. Pref. Fernandes Pinheiro. Rio de Janeiro: Livr. de B. L. Garnier, 1862. p.172
NOTA: Esse trecho descreve um dos quadros pintados no carro que conduz Nossa Senhora ao céu, representando cenas de sua vid
Ali no débil feno reclinado
Se via por dois brutos adorado,
O tenro Amor Jesus, recém-nascido;
Tritando ao ar, em fachas envolvido.
(...)
Pasmou a natureza de tal vista:
Tudo se reanimou: e o destro artista
O segredo encontrou maravilhoso,
Que faz seu atrevido, seu garboso.
E tu das artes todas que és princesa,
Muda eloquência, maga gentileza,
Pintura, teus pincéis santificaste,
Quando a primeira vez delineaste
Um Deus, tingindo os lábios na doçura
Do seio de uma débil criatura.
(...)
Publicado no livro A Assunção (1819).
In: SÃO CARLOS, Frei Francisco de. A Assunção: poema composto em honra da Santa Virgem, por Frei Francisco de São Carlos, franciscano reformado da província da Conceição do Brasil e natural do Rio de Janeiro. Pref. Fernandes Pinheiro. Rio de Janeiro: Livr. de B. L. Garnier, 1862. p.172
NOTA: Esse trecho descreve um dos quadros pintados no carro que conduz Nossa Senhora ao céu, representando cenas de sua vid
1 217
Glauco Mattoso
Confessional, 1999
Amar, amei. Não sei se fui amado,
pois declarei amor a quem odiara
e a quem amei jamais mostrei a cara,
de medo de me ver posto de lado.
Ainda odeio quem me tem odiado:
devolvo agora aquilo que declara.
Mas quem amei não volta, e a dor não sara.
Não sobra nem a crença no passado.
Palavra voa, escrito permanece,
garante o adágio vindo do latim.
Escrito é que nem ódio, só envelhece.
Se serve de consolo, seja assim:
Amor nunca se esquece, é que nem prece.
Tomara, pois, que alguém reze por mim...
In: MATTOSO, Glauco. Geléia de rococó: sonetos barrocos. São Paulo: Ciência do Acidente, 1999
pois declarei amor a quem odiara
e a quem amei jamais mostrei a cara,
de medo de me ver posto de lado.
Ainda odeio quem me tem odiado:
devolvo agora aquilo que declara.
Mas quem amei não volta, e a dor não sara.
Não sobra nem a crença no passado.
Palavra voa, escrito permanece,
garante o adágio vindo do latim.
Escrito é que nem ódio, só envelhece.
Se serve de consolo, seja assim:
Amor nunca se esquece, é que nem prece.
Tomara, pois, que alguém reze por mim...
In: MATTOSO, Glauco. Geléia de rococó: sonetos barrocos. São Paulo: Ciência do Acidente, 1999
1 467
Pedro Nava
Poema para Rodrigo Melo Franco de Andrade
Os elevadores estacaram unanimemente
e sem transição vibraram todos os tímpanos.
Depois um choro desmedido
derramou-se pelo edifício.
Mas foi parando aos poucos,
até perder-se em soluços abafados
um a um.
E houve o silêncio.
Eu suspeitei sem a menor malícia
a presença terrível dos arcanjos...
Mas onde?
Todos tinham medo de se fitar,
tanto a verdade fazia esforços
para se manifestar nas fisionomias cor de cinza.
O momento era de uma gravidade infinita
e devia haver uma lucidez inusitada nos homens,
porque todos pressentiram a decepção irremediável...
— enorme como o sentido oculto das coisas inertes
[(seu sentido poético!)
E a presença de Deus foi tão absoluta
nas almas retransidas de horror,
que os poetas se sumiram na noite,
tornados de repente inúteis.
1933
In: BANDEIRA, Manuel. Antologia de poetas brasileiros bissextos contemporâneos. 2.ed. rev. e aum. Rio de Janeiro: Org. Simões, 1964. p.182-18
e sem transição vibraram todos os tímpanos.
Depois um choro desmedido
derramou-se pelo edifício.
Mas foi parando aos poucos,
até perder-se em soluços abafados
um a um.
E houve o silêncio.
Eu suspeitei sem a menor malícia
a presença terrível dos arcanjos...
Mas onde?
Todos tinham medo de se fitar,
tanto a verdade fazia esforços
para se manifestar nas fisionomias cor de cinza.
O momento era de uma gravidade infinita
e devia haver uma lucidez inusitada nos homens,
porque todos pressentiram a decepção irremediável...
— enorme como o sentido oculto das coisas inertes
[(seu sentido poético!)
E a presença de Deus foi tão absoluta
nas almas retransidas de horror,
que os poetas se sumiram na noite,
tornados de repente inúteis.
1933
In: BANDEIRA, Manuel. Antologia de poetas brasileiros bissextos contemporâneos. 2.ed. rev. e aum. Rio de Janeiro: Org. Simões, 1964. p.182-18
1 346
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