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Poemas neste tema

Angela Santos

Angela Santos

Coisas Simples

Paro
e perscruto os sons que me chegam
com o vento,
e dos aromas que da terra sobem
faço o meu ópio, o meu absinto,
a embriagues da vida…

Paro para receber os suaves pingos de chuva
que caiem sobre o meu rosto
e me fazem sentir limpa,
e deixo meus olhos perderem-se
na visão do infinito

Sorvo o gosto a maresia
junto a este mar revolto,
onde busco a dimensão do que sinto e do que sou,
ínfima parte de um todo e por este engrandecida.

Da lonjura faço o sonho
onde a mente prefigura
o que o tempo ainda guarda para a vida da minha alma...
a outra parte de mim que noutro lugar me espera,
como semente guardada
para ser lançada à terra.

E será na singeleza das coisas que a vida doa
que chegaremos ao fundo
e ao sentido do que somos
e num lugar que não sei, eu e tu aí seremos
chão, húmus, arvore raiz
e cumpriremos a sina de ser semente
e florir.

1 089
Angela Santos

Angela Santos

Além-Mar

Perco-me
nas avenidas do mundo, busco o longe
que me chama
coração em desalinho e a alma de sol e bruma
espraiam-se lá na lonjura
no outro lado do mar..

Aqui, onde sou raiz
as ruelas se estreitam, nelas minha alma se roça
como rio emparedado que em torrente desagua
no outro lado do mar..

Sabe-me a sol e a sal, esse chamado de longe
não o sei dizer... pressinto-o só
e esse pouco é bastante para me agitar o peito
e de mansinho lembrar essa doce vibração
que assoma à flor da pele

Não sei o longe, que me seduz e me chama,
sei apenas que o busco, sem a razão querer saber
como se buscasse, enfim, a coincidência perfeita
desse pedaço de alma que sinto faltar em mim

Ligam Língua e Oceano, esses dois lugares perdidos
Mar.. Mar.. Mar…. imenso Mar
que nos separa e aproxima
Língua - Mater que desnuda e revela devagar,
como o gesto feminino que sem pressa
vai despindo outro ser
a si igual.

715
Angela Santos

Angela Santos

Ao Teu Alcance

Estender-te
os meus braços
para que me enlaces, num longo e doce afago…
olhar nos teus olhos para que vislumbre
aquilo que sei e o que desconheço ainda....

Estender-te o meu corpo
sobre areias finas, para me tomares
e então fazeres tua
sob um pôr de sol, ou à luz da lua

possa eu perder-me
para assim de novo me encontrar
em ti…..

Abrir-te a minha alma
para que a toques com dedos de renda,
olhos de luar
e possas , por fim ,saber, das noites em que eras sonho,
dos dias suspensos na espera
sem tempo para esperar…

E nesse momento sagrado
evoco a alma e os sentidos
olhar, sentir, e provar…o sabor de eternidade
na minúscula fracção de segundos

Perder-me para me encontrar
no turbilhão do que eu sinta
buscando depois do êxtase essa outra razão
mais funda
que me leva a atravessar a alma de um outro ser
para de novo me olhar
para de novo me Ter

937
Angela Santos

Angela Santos

Retrato

De
mim traço este retrato, pela cabeça guiada
faltam-me as cores de Van Gogh e as manchas de Monet
os riscos, os traços e os tons
que fidelizem o dentro se visto de fora é

Como traços de carvão as palavras, que são míngua,
ousam trazer esse dentro, para o outro lado de si
e buscam, na imperfeição, fazer a vez da impressão
que se tem quando o objecto diante de nós se põe…

a cor do trigo no rosto, que o tempo conserva bem
cabelo de tom marron e olhos a condizer
estatura mediana que em mulher não se crê mal…

de Ruben não tenho as formas, nem de Modigliani a esfinge
fico num ponto intermédio, que me dá o que preciso
para me saber mulher
ter no erotismo um quê,
na fome de pele meu pecado – e se isso pecado for
mil vezes pecadora ser.

E diria ter no simples o meu modo preferido,
amo o Barroco e a Fuga, um certo pendor da alma,
no azul estendo os olhos
a cor que digo ser minha

E na alma trago a luz, essa luz sempre está lá
ainda que às vezes a cubra um véu cinzento de nuvens
E já que a vida é acaso, que lá do fundo me trouxe
do obscuro sou crente, da natureza sou filha
e da liberdade amante,
venero Isis, Baco, Cristo, Buda
e isso faz do que sou
um todo que não se explica
na ínfima porção de mim.

957
Angela Santos

Angela Santos

Ânima

Ânima

Podem estirar-me na pedra fria
deixar-me ao relento dos dias vácuos

podem esvair-me de sonhos,
pendurar minha alma ferida
para que a escarneçam

podem saquear-me a memória
fazer-me deambular contra o destino
na total amnésia
para que de mim me esqueça

podem saquear-me a alma
mas nunca a forma que tomou
podem estilhaçar-me a vida
mas os sinais da carne viva,
não!

Aconchegada pelo mistério
mais obscuro e profundo,
eu seguirei.

617
Angela Santos

Angela Santos

Exercícios de Luz

Na vespertina luz tacteio o corpo branco
riscando a cada lance o sentido prefigurado
para o que emerge e não nomino,
antes sinto-o como um ardor ou uma ânsia
que não aflora às palavras.

Percorro-me, como a vibração na corda
Instrumento às mãos do que sustém todos os sons
onde ensaio, quiçá em vão, dizer.

Sei-me nas ausências e vontades
nos medos e nos sinais
que emergem à tona destes dias
mas não sei se recomeço ou continuo
o traço curvilíneo onde me faz o tempo
conjugando o futuro do que em mim haja sido.

Serpenteando as sombras, a fugaz a aparição da luz
é prenhe de promessas.
Exorcizo a penumbra nos interstícios do meu não ser
e volto a acreditar.

654
Angela Santos

Angela Santos

Fórmula

Desço
aos porões
para me sentir e respirar por dentro
descer é o acto
que quebra a superfície branca dos meus dias

Afasto-me para pensar
e resgatar os sentidos
mas como se pode sentir e pensar
a um tempo único?

Indivisos são o que penso e sinto,
estou nesse ponto
onde a um só tempo sentir e pensar
é o exercício em que me equilibro.

Sei o que em mim e por mim é sentido,
e sei que o penso, como sei que o vivo se o não defino
viver é o versus do presumido acto
que nos agrilhoa ao que nos explica.

Sem, maniqueísmo ou falsas fronteiras
sou um tanto de tantos
e aos bocados inteira
cocktail sem receita, pensamento, barriga
emoção com asas e sonho com pés
sou a ocasional mistura que herdei
não quero saber-me , nem que me expliquem,
se eu vivo comigo
quem saberá de mim
o que eu não sei?

666
Angela Santos

Angela Santos

Mil Sóis

De
noites de mil sóis

se fazem os
dias
e na berma
dos sentidos,
corre o desassossego
de um corpo
sôfrego

777
Angela Santos

Angela Santos

Alto Mar

Deixo-me em sossego,
por agora...
nas margens desse rio
que em mim corre...

Abro o meu peito à luz
que se derrama
de um lugar qualquer
a onde ir

Ficar não está inscrito
no sedimento do meu ser..
velas e marés
forma lhe dão....

Sopre o vento
que lhe enfune as velas
prenda-se ao leme
aquilo que o conduz

e o veleiro em que vogo
ao alto mar rumará
na busca dos lugares
que já trazia
traçados como mapas em seus remos

além...
esse é o lugar
de quem não fica..
um pouco mais além
lugar-destino
de quem mesmo em sossego
não aquieta.

1 050
Sandra Falcone

Sandra Falcone

Sherezhade

Pudesse
eu,
de alguma forma,
modificar a minha íntima estrutura de mulher...
Ah, esta ambigüidade me alucina!

Não saber nada,
absolutamente nada,
apavora, amedronta.
Maldito cotidiano psíquico!

Deixar-me assim,
tomada por todos os mins.
Minha vontade. Minha imaginação.
Pedaços de mulher. Espelho de sonhos.

Ah!, quantas e quantas vezes,
ainda,
Sherezhade de mim mesma?

892
Cristiane Neder

Cristiane Neder

Em Uma Só Unidade

Bis,
heteros,
homos,
todos nós somos
nos dias de cio.

Animais
todos sexuais.
Raça pura
destilada em outras misturas.

Animais
pensantes,
fabricantes,
da origem dos habitantes.

Bis,
heteros,
homos,
é o que somos
em uma só unidade.
853
Eduardo Valente da Fonseca

Eduardo Valente da Fonseca

Poeta citadino

Talvez vocês não saibam quem foi o Alberto Caeiro,
mas eu vou dizer-vos o que se passa.
Ele era um grande poeta que não tem nada a ver comigo
porque guardava rebanhos e fazia os possíveis para ser simples,
enquanto eu sou um sindicalizado
e faço os possíveis para não morrer atropelado na cidade.

1 122
Eduardo Valente da Fonseca

Eduardo Valente da Fonseca

Onde nem tudo o que luz é oiro

Somos talvez até um país rico,
e tivemos Camões, e tivemos pessoa e o infante,
mas a beleza está nos escombros,
e atola-se na areia e morre sem nos ver.
porque se eu abro a minha mão à noite
e nela só vejo as linhas do destino,
de que me vale a história do meu povo?
Sim, é possível que a profética rosa do oriente
ainda venha pelo rio da primavera
ancorar na solidão imensa deste cais.

962
Angela Santos

Angela Santos

Pedaços

São
vários os pedaços espalhados
por dentro e por fora de mim

São vários os pedaços dispersos
sem pontes ou laços

E a ténue visão de me desdobrar
na multiplicidade tangente e vaga

Tantos os pedaços tanta a dispersão
que eu já não sei
qual deles sou mais
qual deles mais sinto

1 094
Angela Santos

Angela Santos

Desta Vez

Cansei
-me de olhar o horizonte
com olhos perdidos
vazios de amanhã

Cansei-me de sentir a vida
como coisa esquecida
tão longe do alcance da mão
Cansei-me de ficar no lugar
onde não estou
perdida dentro do que sou

Cansei de me negar
nas vestes do simulacro
do que em mim é
do que em mim quer

Cansei, cansei…
Vou sair daqui.

996
Angela Santos

Angela Santos

Aparição

Se
existes em mim
e és voz que desvende
o que olhos e razão
não alcançam,
vem, despida de bruma
sem traições…

Se és caminho, quiçá o único,
no fim do qual eu possa rever
a coincidência de mim
no ser,
porque não vens mais vezes,
ainda que em esparsos signos,
iluminar o sentido?

1 009
Angela Santos

Angela Santos

Conjugação

Sonhei

que era esta
que sou
e sendo esta
era ainda outra
que também sou

vi-me desdobrada
e una
e sonhei um tempo único
pretérito e espera
saber e adivinhação

Sonhei
tudo podia ser
a negação de limites
e a mutação contínua.

Sou, sendo
o conjugado verbo
do meu ser condicional imperfeito!

1 125
Angela Santos

Angela Santos

Reconstrução

Prende-me
ao tempo
despido de história,
à memória branca,
à leveza de ser…

Prende-me a ti
desassossego, caos
viagem, maré ……

E desfaz-me, depois
para que me despoje e faça
à imagem do eu
que tiver que ser.

1 105
Mauricio Segall

Mauricio Segall

Lento, curto o momento

Lento,
curto o momento
quando vedas as tochas de felino
e tudo em ti
se reduz ao enleio dos teus lábios
(entre parênteses).

São pêssegos misto de maça e amora
raviólis com recheio cheio
quarto crescente e quarto minguante
sorvedouro e onda
corrente e  areia
arco e flecha,
serpente e piano
imã e espora,
nascente e vento,
ventosa e piranha.

Contemplo e questiono
esta voracidade
de morder a carne
macerar as frutas
esmagar a lua
queimar o sol
afogar a tempestade
beber o mar
comer a areia
e afrontar os perigos do rio e da montanha.

Entre o furacão e a calmaria
poente e aurora
orvalho e pântano
da prosa só resta a poesia
756
Angela Santos

Angela Santos

Nau das Descobertas

Cantar
o agri-doce fado
dos que por destino têm
vastíssimos
os campos do mar

Velas, quilhas, mastros,
oceano a condição,
mas na bruma se perdeu
a seda, o ópio a canela
e o sonho imperial que no tempo
se esfumou.

Olhos de fogo cravados
no adensar dos nevoeiros
filhos deste mar tão perto
na orla das praias cansamos
as viagens adiadas,
e a espera do Encoberto

Navegar é preciso!
por dentro do corpo que respira
rente a este chão que somos
nova Nau das Descobertas
rumo a si, porto e destino…

Ausentes a Cruz de Cristo
o arcabuz e os grilhões
encontraremos ainda

esse longe que buscámos,
não na lança do inimigo
mas no regresso ao destino
da língua- mater e o mar
nos tornar tão só iguais.

1 074
Hilda Hilst

Hilda Hilst

Cantares do Sem Nome e de Partida

Ó tirânico Amor, ó caso vário
Que obrigas um querer que sempre seja
De si contínuo e áspero adversário...
Luiz Vaz de Camões

Cubram-lhe
o rosto, meus olhos ofuscam-se;
ela morreu jovem.
John Webster
1 671
Armindo Trevisan

Armindo Trevisan

Homo Viator

Sou homem...Que
bom é ser
qualquer coisa, assim, ao léu,
uma pluma de vender,
um pensamento, um chapéu,
enfim ser tão sómente isto,
ser apenas pelo meio,
sem um nome, sem um misto
de ancoragem ou de enleio,
ser nada( não é possível)
ser tudo ( mas é demais)
ser então o indefinível
nem tão pouco, nem demais.

Ser no amor o amor calado
meio nu, meio essencial,
porque tudo o que é colmado
bem parece horizontal.
Só o que não se aprimora
até ao pormenor existe:
o dia é adulto na aurora,
a noite mais bela, triste.

Por isso, desejo ser
sendo apenas o que sou:
um pouco de parecer
e muito que não chegou.

1 188
Miriam Paglia Costa

Miriam Paglia Costa

Coagulação do Instante

devo
ir, preciso ir, mas
a caminho
a flor do cacto
estrela presa em moitas do jardim

distraída planta
esquece o rabo fora da toca
e neva este verão
um floco
um floco só
na haste da escuridão

a flor e eu
a serena e a irritável
a que se cumpre e a que deseja
face a face
com grade de permeio
a do zoológico mira a do botânico
uma é estática
na outra, fluir repele o êxtase

a flor e eu, que
bicho hirsuto
porco-espinho
capivara
queixada perdida de seu bando
abrando
e, branda
doce
cega pelo branco
(estátua de osso
esquecido do esqueleto)
calço a alma da flor
e ando
695
Miriam Paglia Costa

Miriam Paglia Costa

Ad Perpetuam Rei

Memoriam

maus
versos e bons planos
faço isso há anos

é chumbo o alfabeto que aprendi

escrevo
tenho todos os dentes
peso até excessivo
adoeço raramente
nasci no brasil
logo, não existo

cólicas líricas seguidas de vômito
salário não paga minha fome

pedem pão, dou verbo
vergonha não rima nem resolve

às vezes desejo o terror
ilusão do justo restaurado
mas quem garante?

se o tapa é a lei da mão
instaura a selva

eu queria ser inocente

666