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Poemas neste tema

Manuel António Pina

Manuel António Pina

Calo-me

Calo-me quando escrevo
assim as palavras falam mais alto e mais baixo
Nada no poema é impossível e tudo é possível
mas não arranjo maneira de entrar no poema
e de sair de mim e por isso a minha voz é profunda e rouca
e por isso me calo ( e como me calarei?)
no entanto ninguém é tão falador como eu
nem há palavras que não cheguem para não dizer nada.

e vós também: não me faleis de nada ou falai-me
porque não sabeis o que dizeis


Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida" | Ed. Assírio & Alvim, 2001
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Nuno Júdice

Nuno Júdice

Poema (arredores)

A brancura

dos ossos, em contraste com a terra argilosa,

com a erva, com a parede arruinada, faz-me lembrar

leite, papel, cal,

e também as tuas mãos - frias. Bebo o seu brilho

numa nocturna memória. Uma contaminação de corpos

não reduz a minha solidão; nem a música,

nem o riso, nem o vinho. Lágrimas

numa plenitude de idade. O amor era uma paisagem. A voz

fundia-se numa perspectiva de vento. Palavras perdidas

como coisas, a travessia da tua pele num barco de lábios,

o traçado obscuro dos epitáfios da alma. Caminho

para te dizer uma determinação de sentido,

um destino ignorante dos fragmentos passados em que surges,

de pé, contra a janela, recebendo no rosto a luz

da primavera - imagem

póstuma em que te encontro triste,

e o teu sorriso me faz desejar a morte.

Nuno Júdice | "Obra Poética 1972-1985", pag. 252 | Quetzal Editores, 1999

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Manuel António Pina

Manuel António Pina

O que me vale

O que me vale aos fins de semana
é o teu amor provinciano e bom
para ele compro bombons
para ele compro bananas
para o teu amor teu amon
tu tankamon meu amor
para o teu amor tu te flamas
tu te frutti tu te inflamas
oh o teu amor não tem complicações
viva aragon
morram as repartições.


Manuel António Pina | "Todas as palavras - Poesia reunida" | Ed. Assírio & Alvim, 2012

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Nuno Júdice

Nuno Júdice

Carta (esboço)

Lembro-me agora que tenho de marcar um
encontro contigo, num sítio em que ambos
nos possamos falar, de facto, sem que nenhuma
das ocorrências da vida venha
interferir no que temos para nos dizer. Muitas
vezes me lembrei de que esse sítio podia
ser, até, um lugar sem nada de especial,
como um canto de café, em frente de um espelho
que poderia servir de pretexto
para reflectir a alma, a impressão da tarde,
o último estertor do dia antes de nos despedirmos,
quando é preciso encontrar uma fórmula que
disfarce o que, afinal, não conseguimos dizer. É
que o amor nem sempre é uma palavra de uso,
aquela que permite a passagem à comunicação ;
mais exacta de dois seres, a não ser que nos fale,
de súbito, o sentido da despedida, e que cada um de nós
leve, consigo, o outro, deixando atrás de si o próprio
ser, como se uma troca de almas fosse possível
neste mundo. Então, é natural que voltes atrás e
me peças: «Vem comigo!», e devo dizer-te que muitas
vezes pensei em fazer isso mesmo, mas era tarde,
isto é, a porta tinha-se fechado até outro
dia, que é aquele que acaba por nunca chegar, e então
as palavras caem no vazio, como se nunca tivessem
sido pensadas. No entanto, ao escrever-te para marcar
um encontro contigo, sei que é irremediável o que temos
para dizer um ao outro: a confissão mais exacta, que
é também a mais absurda, de um sentimento; e, por
trás disso, a certeza de que o mundo há-de ser outro no dia
seguinte, como se o amor, de facto, pudesse mudar as cores
do céu, do mar, da terra, e do próprio dia em que nos vamos
encontrar, que há-de ser um dia azul, de verão, em que
o vento poderá soprar do norte, como se fosse daí
que viessem, nesta altura, as coisas mais precisas,
que são as nossas: o verde das folhas e o amarelo
das pétalas, o vermelho do sol e o branco dos muros.


in "Poesia Reunida"
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Nuno Júdice

Nuno Júdice

Tempo livre

Numa tarde de domingo, em Central Park, ou
numa tarde de domingo, em Hyde Park, ou
numa tarde de domingo, no jardim do Luxemburgo, ou
num parque qualquer de uma tarde de domingo
que até pode ser o parque Eduardo VII,
deitas-te na relva com o corpo enrolado
como se fosses uma colher metida no guarda-
napo. A tarde limpa os beiços com esse
guardanapo de flores, que é o teu vestido
de domingo, e deixa-te nua sob o sol frio
do inverno de uma cidade que pode ser
Nova Iorque, Londres, Paris, ou outra qualquer,
como Lisboa. As árvores olham para outro sítio,
com os pássaros distraídos com o sol
que está naquela tarde por engano. E tu,
com os dedos presos na relva húmida, vês
o teu vestido voar, como um guardanapo,
por entre as nuvens brancas de uma tarde
de inverno.
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Nuno Júdice

Nuno Júdice

Gosto das palavras exactas

Gosto das palavras exactas, as que acertam
com o centro das coisas, e quando as encontro
é como se as coisas saíssem de dentro delas.

Essas palavras são duras como os objectos
que designam, pedra, tronco, ferro, o vidro
de espelhos quebrados com o calor da tarde.

Tento incendiá-las quando escrevo, como se
o fogo saísse de dentro da frase, e se espalhasse
pelo campo da página numa devastação de sílabas.

Então, atiro sobre as palavras outras palavras,
água, pó, terra, o ar seco do verão, para que a voz
não fique queimada nesta paisagem negra.

Recolho os restos, os adjectivos, os advérbios,
artigos, preposições, para que só as palavras que indicam
as coisas fiquem no lugar que já tinham.

Pouco importa que as frases percam o sentido. O
que fica são os nomes das coisas, para que as coisas saiam
de dentro deles e as possamos ver nos seus lugares.
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Boca que tens um sorriso

Boca que tens um sorriso
Como se fosse um florir,
Teus olhos cheios de riso
Dão-me um orvalho de rir.
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Vi-te a dizer um adeus

Vi-te a dizer um adeus
A alguém que se despedia,
E quase implorei dos céus
Que eu partisse qualquer dia.
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

PEDROUÇOS

Quando eu era pequeno não sabia
Que cresceria.
Pelo menos não o sentia.

Naquela idade o tempo não existe.
Cada dia é a mesma mesa
Com o mesmo quintal ao fundo;
E quando se sente tristeza
Está tristeza, mas não se está triste.

Eu era assim
E todas as crianças d'este mundo
Assim foram antes de mim.

O quintal grande estava dividido
Por uma frágil grade, alta, de tiras
Cruzadas, de madeirinhas,
Em horta e em jardim.

Meu coração anda esquecido,
Mas não minha visão. De ela não tires
Tempo, esse quadro onde o feliz que eu fui
Dá-me uma felicidade ainda minha!

Inútil o teu frio curso flui
Para quem das lembranças se acarinha.
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Vendo passar amantes

Vendo passar amantes
Nem propriamente inveja ou ódio sinto,
Mas um rancor e uma aversão imensa
Ao universo inteiro, por cobri-los.
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Ameaçou chuva. E a negra

Ameaçou chuva. E a negra
Nuvem passou sem mais...
Todo o meu ser se alegra
Em alegrias iguais.

Nuvem que passa... Céu
Que fica e nada diz...
Vazio azul sem véu
Sobre a terra feliz...


E a terra é verde, verde...
Porque então minha vista
Por meus sonhos se perde?
De que é que a minha alma dista?
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Água que passa e canta

Água que passa e canta
É água que faz dormir...
Sonhar é coisa que encanta,
Pensar é já não sentir.
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

NUNC EST BIBENDUM

Quando o Tédio, invencível e infecundo,
Nos faz sentir a solidão de ser,
E uma monotonia ocupa o mundo,
Que mais tem o espírito a fazer

Do que ensinar ao corpo que o profundo
Desgosto da existência lhe requere
Que veja sempre ao cálix o seu fundo
E sempre tome o cálix a encher?

Assim a nós os pensadores mortos
Para o prazer e a quem a saciedade
Na própria ideia já nos dissuade,

Se não beber até que a vida esqueça
Aos nossos olhos sem pensar absortos
O sonho que é, o mundo em fim pareça.
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Os teus olhos azuis são cor do céu

Os teus olhos azuis são cor do céu
E são por isso cor do paraíso.
Vejo-os e passa no coração meu
Como uma saudade o seu sorriso.

Estrelas matutinas no acordar
Do meu amor, azul do céu distante…
E eu, se os olho, fico sempre a olhar,
E a olhar esqueço minha dor constante...

Olhos azuis cuja alegria é a flor
Da minha dor tornada comoção...
Flori de aurora a minha negra dor…
Só com olhar-me abri-me o coração…
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Sim, é claro,

Sim, é claro,
O Universo é negro, sobretudo de noite.
Mas eu sou como toda a gente,
Não tenha eu dores de dentes nem calos e as outras dores passam.
Com as outras dores fazem-se versos.
Com as que doem, grita-se.

A constituição íntima da poesia
Ajuda muito...
(Como analgésico serve para as dores da alma, que são fracas...)
Deixem-me dormir.
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Santo António de Lisboa

Santo António de Lisboa
Era um grande pregador,
Mas é por ser Santo António
Que as moças lhe têm amor.
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Nada: o mar dorme…

Nada: o mar dorme...
Dorme na mansa
Macieza informe
Do que descansa,

No mar se move,
No mar se doma
A mágoa que houve
Na sombra e aroma
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Florbela Espanca

Florbela Espanca

Alma demais

Alma demais pra viver,
Alegria do meu peito.
Ai tanto sonho perdido,
Ai tanto sonho desfeito!
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Florbela Espanca

Florbela Espanca

Nas salas da embaixada

Nas salas da embaixada
A arquiduquesa sorria...
Coitada... mesmo se via,
tão branca, tão chateada...

E gente entrava e saía
Nas salas de embaixada.
E a arquiduquesa sorria
Cada vez mais chateada...

De vez em quando ao piano
Valsas tocava, coitada
E até ao fim sorria
Sempre branca e chateada...
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Florbela Espanca

Florbela Espanca

Iv

És tu! És tu! Sempre vieste, enfim!
Oiço de novo o riso dos teus passos!
És tu que eu vejo a estender-me os braços
Que Deus criou pra me abraçar a mim!

Tudo é divino e santo visto assim...
Foram-se os desalentos, os cansaços...
O mundo não é mundo: é um jardim!
Um céu aberto: longes, os espaços!

Prende-me toda, Amor, prende-me bem!
Que vês tu em redor? Não há ninguém!
A terra? – Um astro morto que flutua...

Tudo o que é chama a arder, tudo o que sente
Tudo o que é vida e vibra eternamente
É tu seres meu, Amor, e eu ser tua!
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Florbela Espanca

Florbela Espanca

Sonhos...

Sonhei que era a tua amante querida,
A tua amante feliz e invejada;
Sonhei que tinha uma casita branca
À beira dum regato edificada...

Tu vinhas ver-me, misteriosamente,
A horas mortas quando a terra é monge
Que reza. Eu sentia, doidamente,
Bater o coração quando de longe

Te ouvia os passos. E anelante,
Estava nos teus braços num instante,
Fitando com amor os olhos teus!

E,vê tu, meu encanto, a doce mágoa:
Acordei com os olhos rasos d’água,
Ouvindo a tua voz num longo adeus!
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Florbela Espanca

Florbela Espanca

Cemitérios

Cemitério da minha terra,
Paredes a branquejar;
Que bom será lá dormir
Um bom sonho sem sonhar!...

De manhã, muito cedinho
Dormir de leve, embalada
P’las canções das raparigas
Que gentis passam na ’strada.

Cantem mais devagarinho,
Mais baixinho, camponesas,
Que os vossos cantos pareçam
Tristes preces, doces rezas...

À noitinha, ao sol posto
Ouvindo as Ave-Marias!
Meu Deus, que suavidade!
Que paz de todos os dias!

Os murmúrios dos ciprestes
São doces canções aladas
Serenatas de paixão
Às almas enamoradas!

O luar imaculado
Em noites puras, serenas,
É um rio, que vai fazendo
Florir as açucenas...

Canta triste o rouxinol
Beijam-se lindos uns goivos,
E no fundo duma campa
Dormem felizes uns noivos...

Dum túmulo a outro se fala:
“Por que morreste tão nova?
Por que tão cedo vieste
Dormir numa fria cova?”

“Eu era infeliz na terra,
Ninguém me compreendia,
Quando a minh’alma chorava
Todos pensavam que eu ria...”

“E tu tão triste e tão linda,
Com olhos de quem chorou?”
“Eu tive um amor na vida
Que por outra me deixou!”

“E tu?” “Sozinha no mundo
Nunca tive o que outros têm:
Pai, mãe ou um namorado...
Morri por não ter ninguém!...”

Uma diz: “Chorava um filho
Que é uma dor sem piedade”,
Outra diz num vago enleio:
“Eu cá, morri de saudade!”

De todas as campas sai
Um choro que é um mistério
É então que os vivos sentem
As vozes do cemitério...

...Vão-se calando os soluços...
E as pobres mortas de dor
Vão dormindo, acalentando
Uns sonhos brancos d’amor...

Invejo estes doces sonhos
Neste terreno funéreo.
Ai quem me dera dormir
No meu lindo cemitério!
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Florbela Espanca

Florbela Espanca

O Fado

Corre a noite, de manso num murmúrio,
Abre a rosa bendita do luar...
Soluçam ais estranhos de guitarra...
Oiço, ao longe, não sei que voz chorar...

Há um repoiso imenso em toda a terra,
Parece a própria noite a escutar...
E o canto vai subindo e vai morrendo
Num anseio de saudade a palpitar!...

É o fado. A canção das violetas:
Almas de tristes, almas de poetas,
Pra quem a vida foi uma agonia!

Minha doce canção dos deserdados,
Meu fado que alivias desgraçados,
Bendito sejas tu! Ave-Maria!...
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Florbela Espanca

Florbela Espanca

Frieza

Os teus olhos são frios como as espadas,
E claros como os trágicos punhais,
Têm brilhos cortantes de metais
E fulgores de lâminas geladas.

Vejo neles imagens retratadas
De abandonos cruéis e desleais,
Fantásticos desejos irreais,
E todo o oiro e o sol das madrugadas!

Mas não te invejo, Amor, essa indif’rença,
Que viver neste mundo sem amar
É pior que ser cego de nascença!

Tu invejas a dor que vive em mim!
E quanta vez dirás a soluçar:
“Ah, quem me dera, Irmã, amar assim!...”
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